Designotopia 2: sobre design e “melhoramento” do mundo

Brocolli-Forest* Este texto é uma versão modificada de parte da minha palestra “designotopia: projetando redenções”, proferida semana passada no N design sp 2015. As imagens que ilustram o post são de Carl Warner, e foram retiradas de www.carlwarner.com.

Uma coisa que sempre me intrigou no design foi a sua vocação messiânica. Uma das grandes obsessões dos designers é “melhorar o mundo”, uma espécie de eufemismo para “salvar o mundo”. Lembro que, após terminar a faculdade, eu participei de um curso de empreendendorismo no qual a primeira atividade proposta aos alunos era oferecer uma resposta para a pergunta: qual o seu plano para melhorar o mundo? Esse é apenas um exemplo pessoal, mas é fácil verificar que a expressão “melhorar o mundo”, ou suas variantes, aparecem frequentemente em palestras ou textos “engajados” de designers, seja exaltando o chamado “design social”, o design sustentável ou o design voltado para supostas “reais necessidades” do mundo ou da humanidade…

Quanto a mim, sempre que escuto ou leio essa expressão, lembro-me de um capítulo do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, que se intitula “Os melhoradores da humanidade”. Essa lembrança, claro, não é meramente casual. Parece-me, com efeito, que a percepção nietzschiana do que geralmente significa “melhorar” a humanidade ou o mundo é um dos pontos de partida mais interessante para refletirmos sobre o “melhoramento” do mundo que costuma ser vinculado ao design. Leia mais…»

Elogio ao barroco: o trágico alegre

O mundo barroco, cujo nome surgiu de maneira depreciativa (pérola irregular, imperfeita), foi revalorizado em meados do século passado, bem menos por seu pensamento e mais por sua arte. As contradições interpretativas indicam as contradições que o caracterizam – não é de se espantar que Eugenio d’Ors, em sua conhecida obra Du baroque, propõe vinte e duas acepções para o termo “barroco”. De um lado, a historiografia clássica caracteriza o século XVII como sendo o “Grande Século” (expressão que Michelet atribui, porém, ao século XVIII), donde a pergunta é inevitável: “grande” por que, em relação a que e de acordo com quem?

De outro lado, o historiador alemão Heinrich Wölfflin, em sua obra Renaissance und Barock (século XIX), transforma o barroco em conceito anistórico que serve para designar o momento decadente em cada período da história da arte. Por sua vez, Benjamim (em Origem do drama barroco alemão) encontrou no período barroco a primeira manifestação de “esvaziamento” das imagens, uma vez que elas não mais irradiavam um sentido unívoco. Pretendo sintetizar aqui dois aspectos que, respectivamente às questões levantadas, considero interessantes no período seiscentista: a emergência de um “teatro filosófico” e, no que tange à visualidade, o fim do valor metafísico das imagens. Leia mais…»

Não Obstante #10 – A questão da morte em Montaigne

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Fragmentos filosóficos #7 – Hume sobre a crença

Este é o sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Investigação sobre o Entendimento Humano (1748), Seção II, § 9 (edição consultada: Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 1999, p. 28-29). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Todas as idéias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras: o intelecto as apreende apenas precariamente, elas tendem a se confundir com outras idéias assemelhadas, e mesmo quando algum termo está desprovido de um significado preciso, somos levados a imaginar, quando o empregamos com frequência, que a ele corresponde uma idéia determinada. Ao contrário, todas as impressões, isto é, todas as sensações, tanto as provenientes do exterior como as do interior, são fortes e vívidas; os limites entre elas estão mais precisamente definidos, e não é fácil, além disso, incorrer em qualquer erro ou engano relativamente a elas. Leia mais…»

Eterno verão: considerações éticas sobre a nova era do amor em Frozen

frozen-7Em meu post anterior, Elsa vai para as montanhas, analisei o filme Frozen, da Disney, procurando entender de que formas ele ecoa algumas propostas éticas de Nietzsche e de Freud. A jornada de Elsa no filme, afinal, diz respeito principalmente a uma luta interior na qual seus “poderes de gelo” — que podemos interpretar como representando seus impulsos — se opõem a seu ideal do eu (o da boa menina: comportada, controlada e mansa). No que considerei o ápice da jornada, Elsa vai para as montanhas e lá libera seus “poderes” e os utiliza criativamente, construindo um sublime castelo de gelo e transformando-se. Os ecos da superação de si proposta pelo Zaratustra de Nietzsche são, aí, bastante evidentes. Sua jornada não se encerra nesse ponto, porém: a percepção de que a liberação de seus poderes agride os outros — agressão representada pelo eterno inverno ao qual Arendelle ficou submetida após a liberação dos poderes gelados de Elsa — faz a protagonista dilacerar-se novamente em conflito interior. A resolução desse segundo conflito, com base no amor, associa uma nova “liberação” de Elsa ao bem comum. Estabelece-se, assim, o eterno verão. Leia mais…»

Não Obstante #9 – Nietzsche e o ressentimento

NaoObstante#9_POST Escute o podcast…»

Ideologia: não queira uma para viver

* Pinturas de Alex Kanevsky ilustrando o post.

A questão que levanto aqui é de inspiração humeniana: “ideologia” será sempre um termo acrescentado que, no limite, pode qualificar um fenômeno social tão bem (isto é, tão pouco) quanto um ser alienígena. Hume pensava em termos empíricos: entendendo por “causa” o princípio de uma sucessão de acontecimentos, não haveria uma ideia forçosamente acrescentada quanto a uma sucessão necessária? Pensemos em termos éticos: em que medida uma conduta crítico-engajada opõe-se ao conformismo e à resignação que esta mesma conduta acrescenta a tudo que se lhe opõe?

Tenho ponderado nesse sentido em relação ao niilismo, às crenças religiosas, ao ascetismo: são condutas igualmente válidas, tanto quanto inválidas. Do mesmo modo, cada vez mais não vejo grandes problemas no conformismo/resignação – o que não implica, todavia, defender tais condutas como “certas”. A objeção mais comum é a de que este tipo de raciocínio vai em direção a um tudo-vale, não importa o quê, anulando-se por contradição. Entretanto, percebe-se facilmente em tal objeção uma exigência por certa “coerência” que é acrescentada de antemão, isto é, ideologicamente. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #6 – Schopenhauer sobre a condição humana

schopenhauer3Este é o sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O mundo como vontade e como representação, § 57 (edição consultada: Trad. Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2005). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Querer e esforçar-se são [a] única essência [do homem e do animal], comparável a uma sede insaciável. A base de todo querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fato insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos. Leia mais…»

Elsa vai para as montanhas: considerações éticas com base em Frozen, Freud e Nietzsche

frozen-5Neste post, vou analisar o filme Frozen, da Disney, com o intuito de  refletir sobre algumas orientações morais derivadas, direta ou indiretamente, das propostas éticas de Nietzsche e Freud. Como a maioria deve saber, Frozen conta a história de Elsa, uma princesa que nasceu com poderes mágicos ligados ao gelo, e Anna, sua irmã. Quando crianças, as duas eram muito próximas e passavam o dia brincando no amplo espaço do castelo em que nasceram (Arendelle). Os poderes de Elsa tornavam as brincadeiras mais interessantes, permitindo, por exemplo, que as irmãs construíssem um boneco de neve no meio de um salão de festas vazio. Não sabendo controlar seus poderes, porém, Elsa acaba machucando sua irmã em uma dessas brincadeiras. Depois desse episódio, os poderes de Elsa passam a ser vistos como perigosos, e seus pais se empenham em reprimi-los. A parte inicial da principal música do filme, Let it go, descreve bem o que os pais (e, com base neles, a própria Elsa) acreditam que precisa ser feito com os poderes: “esconda, não sinta, não deixe ninguém saber, seja a boa garota que você sempre foi”. Leia mais…»

Não Obstante #8 – Clément Rosset e o real

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