Comunicado: recesso de fim de ano

Olá designófilos!

Viemos aqui comunicar um recesso de dois meses que programamos para este site: de hoje (10/12) até o dia 10/02/2016, não haverá novos posts por aqui. Aproveitamos para agradecer sinceramente a todos os leitores e ouvintes que nos acompanham até agora, sem os quais este site não existiria. E para quem está chegando pela primeira vez, tentaremos resumir abaixo o que temos feito por aqui.

Criado em 2010, o site Filosofia do Design manteve-se situado numa margem incerta entre design e filosofia. Essa incomum posição gerou interesse de muitos leitores não vinculados nem ao campo do design nem ao da filosofia. O caráter heteróclito dos mais de 400 posts publicados aqui reflete, portanto, um interesse filosófico singular: o voto de que, com abrangência de perspectivas teóricas, faz sentido pensar uma “filosofia do design”. Leia mais…»

O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate. Leia mais…»

Depressão: uma categoria moral

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Em seu livro A fadiga do eu, o sociólogo francês Alain Ehrenberg reflete sobre a depressão e a encara como uma das principais categorias atualmente utilizadas para pensarmos sobre nosso sofrimento. Estou pensando em termos de categorias, mas Ehrenberg está mais preocupado com a depressão enquanto tipo de sofrimento – um tipo específico de sofrimento impulsionado pelo ambiente social no qual o sujeito se insere. Para ele, tudo se passa como se o ambiente social impulsionasse diretamente certos modos de sentir que são posteriormente categorizados. Já em uma abordagem mais discursiva, como a que costumo seguir, a ênfase se coloca no modo como certas produções discursivas estruturam o ambiente social e direcionam certos modos de sentir.

A diferença, como se pode perceber, é sutil, e as duas abordagens se harmonizam em muitos pontos, especialmente na recusa à abordagem cientificista e a-histórica que pretende enxergar a depressão como um tipo universal de sofrimento, sempre igual a si mesmo e, assim, totalmente independente de construções discursivas ou organizações sociais. Nessa abordagem, a depressão aparece como uma espécie de entidade-causa do sofrimento: uma doença. Entretanto, é preciso ter clareza sobre o que a categoria “doença” significa nesse caso. Leia mais…»

Elogio ao simulacro: a imagem que coincide com o real

* texto originalmente publicado na edição #51 da Revista abcDesignFotografias de Matthew Tischler ilustram este post.

Simulacro é a simulação que simula a si mesma. Enquanto “simulação” significa imitação de algum modelo, “simulacro” representa algo que não possui nenhum equivalente. Tal diferença concerne a duas concepções básicas de “representação”: que as imagens estão ligadas a referentes (a coisas reais do mundo) ou que as imagens são autorreferenciais (pois só representam outras imagens). A imagem de “felicidade” prometida por uma marca de refrigerante, por exemplo, é autorreferencial, portanto um simulacro.

Em seu livro Simulacros e Simulação, Jean Baudrillard assinala sua insatisfação com o simulacro dos “estilos de vida” contemporâneos, com a estetização cotidiana que, para ele, só expressa um desejo desesperado de camuflar certo vazio existencial. Ocorre que esta avaliação depreciativa do simulacro, ainda recorrente na crítica cultural, depende inteiramente da exigência romântica por uma realidade mais pura ou autêntica. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #11 – Spinoza sobre os afetos

Este é o décimo primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro I da Ética de Spinoza (Belo Horizonte: Autêntica, 2007, III, definição 3, p. 98). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Por afeto compreendo as afecções do corpo, pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções. Assim, quando podemos ser a causa adequada de alguma dessas afecções, por afeto compreendo, então, uma ação. Leia mais…»

Não Obstante #14 – Articulações Simbólicas

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Desejo sem objeto: considerações lacanianas

jean-arp-22* Ilustram o post imagens do artista surrealista Jean Arp

A leitura que Lacan propõe dos textos freudianos sugere que, ao desejo humano, falta um objeto adequado. Ao contrário dos instintos dos animais, cuja satisfação está ligada a um objeto definido, o desejo propriamente humano não possui um objeto “natural” – em vez de instintivo, ele é pulsional. E o que caracteriza a pulsão é sua plasticidade, de modo que ela pode ser investida em objetos muito diversos, de formas muito diversas.

Ao enfatizar o caráter plástico das pulsões e defender a ausência de qualquer objeto que pudesse fixar-se, finalmente, como O objeto adequado a uma pulsão, Lacan se opõe a uma vertente da psicanálise que tende a enfatizar, na teoria freudiana das fases do desenvolvimento libidinal, a caminhada rumo à estruturação de uma orientação “natural” e bem sucedida do desejo. Para estes, existiria, em última instância, uma organização da libido (pulsão sexual) que garantiria uma relação satisfatória com os objetos de desejo, uma espécie de retorno à adequação instintiva do desejo ao objeto. Este é um ponto que Lacan ataca duramente: Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #10 – Jung sobre a sombra

CGJungEste é o décimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Aion (Obra completa, v. 9/2. Petrópolis: Vozes, 2013, p. 19). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

A sombra constitui um problema de ordem moral que desafia a personalidade do eu como um todo, pois ninguém é capaz de tomar consciência desta realidade sem dispensar energias morais. Mas nessa tomada de consciência da sombra trata-se de reconhecer os aspectos obscuros da personalidade, tais como existem na realidade. Este ato é a base indispensável para qualquer tipo de autoconhecimento e, por isso, em geral, ele se defronta com considerável resistência. Leia mais…»

Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Não Obstante #13 – O mundo, os homens e suas obras

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