O que há para ser dito e o que há para se ver

Tu não vês senão a ordem e a organização desta pequena cova onde estás alojado [...].
Montaigne, Ensaios, II, 12.

O que há para ser dito não necessita ser dito. Se dizemos alguma coisa, é para ouvir alguma “voz” em tudo o que se diz. Dizer é um meio de fazer o mundo falar, ainda que este, indiferente, permaneça em silêncio. Nenhuma palavra que já não tenha sido dita. Mas só vivemos enquanto somos capazes de dizê-lo, como se o que vemos não pudesse comportar a ousadia de não ser dito.

Tudo o que vemos não é imediatamente visível, mas também não está oculto. Enquanto os enunciados são feitos de palavras, o que vemos é antes de tudo luz e sombra. Qual é a relação entre o que vemos e o que falamos? Podemos acreditar que falamos do que vemos, que vemos aquilo de que falamos e que os dois assim se encadeiam, quando na verdade o que é visível só pode ser visto, e o que é enunciável só pode ser dito. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #18 – Agamben e o homem sem conteúdo

Este é o décimo oitavo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O homem sem conteúdo (Trad. Cláudio Oliveira. Belo Horizonte: Autêntica, 2012, p. 72), de Giorgio Agamben. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Como o espectador, frente à estranheza do princípio criativo, busca, de fato, fixar no Museu o próprio ponto de consistência, [...] do mesmo modo o artista, que fez, na criação, a experiência demiúrgica da absoluta liberdade, busca agora objetivar o próprio mundo e possuir a si mesmo. [...] Frente ao espaço estético-metafísico da galeria, um outro espaço se abre que lhe corresponde metafisicamente: aquele puramente mental da tela de Frenhofer, no qual a subjetividade artística sem conteúdo realiza, através de um tipo de operação alquímica, a sua impossível verdade. Leia mais…»

Elucubrações a partir de Frank Lloyd Wright: sobre estilos, ideais e máquinas

Frank_Lloyd_Wright_portrait-pQualquer arquiteto ou designer conhece o nome de Frank Lloyd Wright, algumas de suas obras mais famosas (como a casa da cascata), e provavelmente sabe de sua importância para o modernismo. Porém, muitas vezes, fica-se nisso. Recentemente, tive a oportunidade de visitar a casa que ele projetou para o executivo Frederick C. Robie no final da primeira década do século passado, em Chicago. Fiquei impressionado com a capacidade de Lloyd Wright de integrar desde os aspectos mais estruturais até os pequenos detalhes, como gavetas embutidas, passando pela iluminação, portas, móveis e desenhos dos vidros; e de projetar pensando claramente na experiência humana com o espaço. Isso sem falar da integração do projeto com o ambiente, a grande marca da arquitetura de Lloyd Wright — uma arquitetura orgânica, como ele a definia.

A integração com o ambiente a que me refiro — e que Lloyd Wright propõe –, porém, não é o tipo de integração que nos leva a pensar, por exemplo, naquelas casas de hobbit do Senhor dos Anéis. Ele não quer fundir seu projeto à natureza e nem utilizar a natureza como grande referência de formas (traço que associamos ao Arts and Crafts e, principalmente, ao Art Nouveau). Lloyd Wright se utiliza de formas duras, que se integram, mas também contrastam com o ambiente. No caso da casa de Robie, projeto que costuma figurar como um dos principais exemplos do que ficou conhecido como Prairie School ou Prairie Style (estilo das pradarias, em tradição literal), o design horizontal, com diversas linhas (recuos e projeções) e telhado plano, dão a sensação de que a casa é achatada, espraiada em diversos planos próximos, sem elevações verticais, integrando-se às pradarias. Leia mais…»

Gosto pelo gosto: a potência da insignificância

* texto originalmente publicado na edição #54 da Revista abcDesign. Imagens de Toby Harvard.

Ao levarmos em conta as conotações mais cotidianas de “design” (como embelezamento, revestimento, verniz estético), não encontraremos nada além do design como expressão de um “gosto”. Estou de acordo: mesmo contrariando definições “oficiais” de alguns especialistas cujos bons propósitos ultrapassam a opinião do senso comum, não vejo no design qualquer relação com princípios ou funções que estariam para além dos gostos.

Não é o caso, porém, de defender algum tipo de “bom gosto”, como se a apreciação do belo fosse restrita a determinados espíritos elevados ou esclarecidos. Até porque essa noção já foi bem difundida pela Bauhaus, ao tentar democratizar a “boa forma” – coisa que, após a II Guerra, adquiriu alto valor artístico na elite norte-americana. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #17 – J. Crary e o problema da atenção

Este é o décimo sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna (São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 74-75), de Jonathan Crary. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Se a distração surge como problema no final do século XIX, isso ocorre de maneira inseparável da construção paralela, em vários campos, do observador atento. Embora Benjamin faça afirmações positivas sobre a distração em alguns de seus trabalhos [...], ele sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplação absorta, purificada dos estímulos excessivos da modernidade, era o outro termo. [...] Em vez disso, argumento que atenção e distração não podem ser pensadas fora de um continuum no qual as duas fluem incessantemente de uma para a outra, como parte de um campo social em que os mesmos imperativos e forças incitam ambas. Leia mais…»

O politicamente correto e o meritocrático: uma via de mão dupla

* Esculturas de Barry X Ball ilustram o post.

A psiquiatria e os manuais de autoajuda contemporâneos atestam-nos que diversos transtornos psíquicos, como a depressão e a fobia social, estão associados sobremaneira à baixa autoestima. Logo, “autoestima” é o nome daquilo que todos deveriam ter, o orgulho de “ser o que se é”, de modo que a falta disso torna-se alvo de intensa preocupação social. Advém daí a sensibilidade que leva muitas celebridades a vir a público dizer que, antes de se tornarem autoconfiantes e admiradas por todos, tiveram que resistir e superar as mais diversas formas de repreensão da autoestima. Tais relatos tornam-se, então, um modo de ajudar a todos que sofrem em silêncio.

Não pretendo discorrer aqui sobre a autoestima, mas sobre o campo discursivo que a torna um bem precioso. Por “campo discursivo” eu me refiro à base valorativa que, em termos foucaultianos, estabelece os limites do que é possível pensar e dizer. O pressuposto é o de que tudo o que se diz e o que se pensa conjuga-se no interior de um conjunto de coordenadas acerca da verdade, da normalidade, da civilidade e do moralmente aceito. Interessa-me, sob esse prisma, mostrar a distância relativa entre dois discursos que se posicionam, a princípio, de maneira antagônica: o meritocrático e o politicamente correto. Retomemos antes a questão da autoestima. Leia mais…»

Não Obstante #19 – Os sofistas e o pensamento antigo

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A publicidade entre eros e thymós: consumo e esporte

nike-witnessesHá muito, ações publicitárias de empresas esportivas reforçam valores ligados à atividade, ao esforço, ao suor, ao treino duro, à disputa, à vitória, à performance, dentre outros no mesmo campo ético, e procuram vincular tais valores a suas marcas. É claro que a tentativa de associar marcas a certos valores faz parte do cerne da publicidade e nem de longe é algo exclusivo das empresas ligadas ao esporte. Entretanto, os valores mais comumente associados a marcas diversas circulam pelo campo da felicidade, da diversão, do amor, da beleza e, principalmente, do erotismo. Com efeito, peças publicitárias com homens e mulheres de corpos sensuais e olhares libidinosos são presença constante no cotidiano de qualquer habitante urbano do século XXI. A dimensão erótica do consumo é tão marcante que o filósofo Mario Perniola chegou a defini-lo como o reino de uma sexualidade sem orgasmo. Leia mais…»

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #16 – Schiller sobre razão e sensibilidade

schiller-12Este é o décimo sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro A educação estética do homem (São Paulo: Iluminuras, 1995, carta IV), de Schiller. Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

O homem [...] pode ser oposto a si mesmo de duas maneiras: como selvagem, quando seus sentimentos imperam sobre seus princípios, ou como bárbaro, quando seus princípios destroem seus sentimentos. O selvagem despreza a arte e reconhece a natureza como sua soberana irrestrita; o bárbaro escarnece e desonra a natureza, mas continua sendo escravo de seu escravo por um modo frequentemente mais desprezível que o do selvagem. O homem cultivado faz da natureza uma amiga e honra sua liberdade, na medida em que apenas põe rédeas a seu arbítrio. Leia mais…»

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