Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

O sorriso de Pandora: ficções de cadáveres adiados

* texto originalmente publicado na edição #49 da Revista abcDesignPinturas de Benjamin Björklund (Suécia) neste post.

Segundo Hesíodo, Zeus teria amaldiçoado os homens, em retaliação pelo furto do fogo, com uma coisa má que lhes alegra, algo que lhes foi dado para que amem a dor que sentem. Trata-se de Pandora, figura mitológica que reaparece no sétimo capítulo de “Memórias póstumas de Brás Cubas” para levar o protagonista a vislumbrar todos os séculos, do início ao fim da existência, como uma história monótona e sem sentido. Machado de Assis se apropria do “delírio”, título do capítulo em questão, como filtro através do qual seu personagem é capaz de enxergar a insignificância vertiginosa por onde a vida se intensifica:

“A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão” (cap. VII, § 28). Leia mais…»

Não Obstante #7 – Entre a filosofia e a literatura

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Alô, alô, tia Léia: notas sobre a cultura da convergência

telephoneRecentemente, reli com calma o livro Cultura da convergência, de Henry Jenkins, para utilizá-lo em uma disciplina de Mídias Digitais. É uma obra interessante para refletirmos sobre a circulação de representações em novas mídias. Ou melhor, em novas e velhas mídias, pois  um dos pontos centrais da proposta de Jenkins é justamente o de que as novas mídias não substituem as antigas. Novas e velhas mídias convergem — ou seja, ganham papeis complementares na cultura.

Todos devem se lembrar dos profetas do “fim do livro” que fizeram bastante sucesso na década passada, a ponto de Umberto Eco e Jean Claude Carrière lançarem, em 2012, um livro-diálogo intitulado Não é o fim dos livros. Antes deles também, é claro, muitos outros questionaram tal “profecia”, típica tanto de apocalípticos quanto de integrados. Henry Jenkins foi um deles. Ele observa, com base em fenômenos da cultura midiática como Harry Potter, que os livros continuam muito bem, obrigado. A diferença é que, agora, os livros de sucesso costumam atuar em conjunto com filmes, jogos, sites interativos etc. Há, portanto, uma convergência midiática. Leia mais…»

O “realismo-abstrato” da arte contemporânea

Parece ganhar repercussão, notadamente em discursos como os de Robert Florczak e Roger Scruton, certo revanchismo muito similar às mostras infames que os nazistas organizaram por volta de 1940, condenando uma arte “degenerada” que abrange todos os modernismos. Essa visão fatalista de uma arte em declínio, que procura sua autenticidade num passado nostálgico, é obviamente problemática, especialmente porque tal remorso em relação a uma pureza perdida também serviu de combustível aos modernismos. Meu objetivo aqui, portanto, não é provar que uma posição é correta e a outra, errada, nem afirmar que um momento é moderno e o seguinte, pós-moderno – mesmo porque não vejo aí ruptura alguma.

Tratei em outro ensaio dos pressupostos metafísicos da arte conceitual. Quero agora delinear o problema discursivo que me parece haver na insidiosa oposição entre real e abstrato, a partir da qual vejo ressurgir um ideologema romântico que perpassa parte da arte do século XX até hoje. Em outros termos, a noção de “abstração” postergada pelos modernos (a partir do constructo simbólico do primitivismo contra a cultura hegemônica) tornou-se o fetiche contemporâneo da “simulação”, e com isso um realismo renovado preservou certa nostalgia (traumática) de um sujeito estável. Embora um momento conduza ao seguinte, este seguinte prescreve o anterior, assim como um enquadramento determina o olhar que o enquadra. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #4 – Foucault sobre a prédica sexual

Foucault5Este é o quarto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro História da sexualidade I: a vontade de saber, de Michel Foucault (Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 13-14). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Alguma coisa da ordem da revolta, da liberdade prometida, da proximidade da época de uma nova lei, passa facilmente nesse discurso sobre a opressão do sexo. Certas velhas funções tradicionais da profecia nele se encontram reativadas. Para amanhã o bom sexo. [...] o que me parece essencial é a existência, em nossa época, de um discurso onde o sexo, a revelação da verdade, a inversão da lei do mundo, o anúncio de um novo dia e a promessa de uma certa felicidade estão ligados entre si. É o sexo, atualmente, que serve de suporte dessa velha forma, tão familiar e importante no Ocidente, a forma da pregação. Uma grande prédica sexual [...] tem percorrido nossas sociedades há algumas dezenas de anos; fustigando a antiga ordem, denunciando as hipocrisias, enaltecendo o direito do imediato e do real; fazendo sonhar com uma outra Cidade. (mais…)

Design thinking sob perspectiva humanística 2: objetividade e problemas arredios

pattern-design-PB2Pensar o design thinking com base em uma perspectiva humanística significa, em parte, perceber que os processos de pensamento relacionados ao design e os problemas que eles buscam resolver não podem ser objetificados. Ou, para ser mais preciso: perceber que, quando eles são objetificados, desfiguram-se de tal maneira que o essencial fica de fora. É preciso considerar, então, o que significa “objetificar” um problema ou encarar um modo de pensamento como “objetivo”. Grosso modo, podemos dizer que um problema objetivo é aquele que é encarado juntamente com um sistema de coordenadas implícitas ou explícitas que permitem julgar a validade das soluções de maneira mais ou menos precisa.

Quando lidamos com o problema de escolher o material mais adequado para construir uma coluna de sustentação de um prédio, por exemplo, podemos imaginar formas objetivas fecundas de lidar com o problema: trata-se de considerar experimentalmente quais materiais aguentam mais peso, se deterioram menos com o tempo ou condições adversas, são mais resistentes a certos tipos de abalo etc. Mesmo nesse caso, é importante perceber que “material mais adequado” tem que ser compreendido aqui como “material mais eficaz” e de acordo com uma visão de mundo experimental. Se alguém argumentar que certo tipo de material é mais caro aos deuses e por isso imunizará o prédio contra possíveis acidentes, por exemplo, estará retirando o problema do sistema de coordenadas implícito que o tornava objetivo. Fará o mesmo quem argumentar que certo material não é adequado porque, quando extraído, causa impactos ambientais inaceitáveis. No primeiro caso, nega-se a visão científica, no segundo, a eficácia como único fator determinante. Leia mais…»

Um breve imaginário do design

“Imaginário” implica, no presente ensaio, uma empreitada genealógica: identificar recorrências discursivas que nos permitam elaborar hipóteses filosóficas, neste caso, sobre a noção de design. Mais importante do que a História – enquanto pressuposta “verdade dos fatos” –, portanto, é a maneira como a contamos, portanto o design das histórias. Ou ainda, nos termos do historiador Philip B. Meggs:

O caráter efêmero e imediato do design gráfico, combinado com sua ligação com a vida social, política e econômica de uma determinada cultura, permite que ele expresse mais intimamente o Zeitgeist [paradigma] de uma época do que muitas outras formas de expressão humana. Ivan Chermayeff, renomado designer, disse: o design da história é a história do design. – Philip B. Meggs, História do design gráfico (Cosac Naify, 2009, p. 10). Leia mais…»

Não Obstante #6 – As bestas dentro de nós

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Fragmentos filosóficos #3 – Rosset e o nada

Este é o terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Lógica do Pior, de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 103, grifos no original). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Nomear é definir; definir é determinar uma natureza; ora, nenhuma natureza é. Nem o homem, nem a planta, nem a pedra, nem o branco, nem o odor são. Mas o que resta, além disso, para ornar o ser, uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe “alguma coisa”, mas essa alguma coisa não é nada, sem nenhuma exceção, do que figura em todos os dicionários presentes, passados e por vir. “O que existe” é, pois, muito precisamente, nada. Nada, isto é: nenhum dos seres concebidos e concebíveis; nenhum dos seres recenseados até esse dia figura no registro do que o pensamento do acaso admite a título de existência. É forçoso, pois, excluir da existência a própria noção de ser. Exclusão que não releva de uma interdição de princípio, mas de uma constatação empírica: o que é excluído da existência não é, propriamente falando, a noção de ser, mas antes a coleção completa (e necessariamente provisória) de todos os seres pensados até o presente. (mais…)

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