Gosto pelo gosto: a potência da insignificância

* texto originalmente publicado na edição #54 da Revista abcDesign. Imagens de Toby Harvard.

Ao levarmos em conta as conotações mais cotidianas de “design” (como embelezamento, revestimento, verniz estético), não encontraremos nada além do design como expressão de um “gosto”. Estou de acordo: mesmo contrariando definições “oficiais” de alguns especialistas cujos bons propósitos ultrapassam a opinião do senso comum, não vejo no design qualquer relação com princípios ou funções que estariam para além dos gostos.

Não é o caso, porém, de defender algum tipo de “bom gosto”, como se a apreciação do belo fosse restrita a determinados espíritos elevados ou esclarecidos. Até porque essa noção já foi bem difundida pela Bauhaus, ao tentar democratizar a “boa forma” – coisa que, após a II Guerra, adquiriu alto valor artístico na elite norte-americana. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #17 – J. Crary e o problema da atenção

Este é o décimo sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Suspensões da percepção: atenção, espetáculo e cultura moderna (São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 74-75), de Jonathan Crary. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Se a distração surge como problema no final do século XIX, isso ocorre de maneira inseparável da construção paralela, em vários campos, do observador atento. Embora Benjamin faça afirmações positivas sobre a distração em alguns de seus trabalhos [...], ele sempre pressupunha uma dualidade fundamental, em que a contemplação absorta, purificada dos estímulos excessivos da modernidade, era o outro termo. [...] Em vez disso, argumento que atenção e distração não podem ser pensadas fora de um continuum no qual as duas fluem incessantemente de uma para a outra, como parte de um campo social em que os mesmos imperativos e forças incitam ambas. Leia mais…»

O politicamente correto e o meritocrático: uma via de mão dupla

* Esculturas de Barry X Ball ilustram o post.

A psiquiatria e os manuais de autoajuda contemporâneos atestam-nos que diversos transtornos psíquicos, como a depressão e a fobia social, estão associados sobremaneira à baixa autoestima. Logo, “autoestima” é o nome daquilo que todos deveriam ter, o orgulho de “ser o que se é”, de modo que a falta disso torna-se alvo de intensa preocupação social. Advém daí a sensibilidade que leva muitas celebridades a vir a público dizer que, antes de se tornarem autoconfiantes e admiradas por todos, tiveram que resistir e superar as mais diversas formas de repreensão da autoestima. Tais relatos tornam-se, então, um modo de ajudar a todos que sofrem em silêncio.

Não pretendo discorrer aqui sobre a autoestima, mas sobre o campo discursivo que a torna um bem precioso. Por “campo discursivo” eu me refiro à base valorativa que, em termos foucaultianos, estabelece os limites do que é possível pensar e dizer. O pressuposto é o de que tudo o que se diz e o que se pensa conjuga-se no interior de um conjunto de coordenadas acerca da verdade, da normalidade, da civilidade e do moralmente aceito. Interessa-me, sob esse prisma, mostrar a distância relativa entre dois discursos que se posicionam, a princípio, de maneira antagônica: o meritocrático e o politicamente correto. Retomemos antes a questão da autoestima. Leia mais…»

Não Obstante #19 – Os sofistas e o pensamento antigo

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A publicidade entre eros e thymós: consumo e esporte

nike-witnessesHá muito, ações publicitárias de empresas esportivas reforçam valores ligados à atividade, ao esforço, ao suor, ao treino duro, à disputa, à vitória, à performance, dentre outros no mesmo campo ético, e procuram vincular tais valores a suas marcas. É claro que a tentativa de associar marcas a certos valores faz parte do cerne da publicidade e nem de longe é algo exclusivo das empresas ligadas ao esporte. Entretanto, os valores mais comumente associados a marcas diversas circulam pelo campo da felicidade, da diversão, do amor, da beleza e, principalmente, do erotismo. Com efeito, peças publicitárias com homens e mulheres de corpos sensuais e olhares libidinosos são presença constante no cotidiano de qualquer habitante urbano do século XXI. A dimensão erótica do consumo é tão marcante que o filósofo Mario Perniola chegou a defini-lo como o reino de uma sexualidade sem orgasmo. Leia mais…»

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #16 – Schiller sobre razão e sensibilidade

schiller-12Este é o décimo sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro A educação estética do homem (São Paulo: Iluminuras, 1995, carta IV), de Schiller. Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

O homem [...] pode ser oposto a si mesmo de duas maneiras: como selvagem, quando seus sentimentos imperam sobre seus princípios, ou como bárbaro, quando seus princípios destroem seus sentimentos. O selvagem despreza a arte e reconhece a natureza como sua soberana irrestrita; o bárbaro escarnece e desonra a natureza, mas continua sendo escravo de seu escravo por um modo frequentemente mais desprezível que o do selvagem. O homem cultivado faz da natureza uma amiga e honra sua liberdade, na medida em que apenas põe rédeas a seu arbítrio. Leia mais…»

Não Obstante #18 – Educação e Escolha

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Design do tempo: em busca do presente no presente

* texto originalmente publicado na edição #53 da Revista abcDesignImagens de Eugene Ivánov.

Poderia nosso passado tornar-se diferente da recordação que temos dele? Não no sentido de “viagem no tempo”, pois o que aconteceu, é claro, está encerrado no passado. Mas se muito do que vivemos não é necessariamente lembrado, então muito do que recordamos pode não ter acontecido tal como acreditamos. A experiência do presente, afinal, interfere na compreensão de tudo que já nos aconteceu e que ainda pode nos acontecer.

Donde decorre a questão: o que esperamos do futuro? Ou ainda: é possível projetar um futuro? Ora, a literatura distópica esboça um futuro a ser evitado. Por sua vez, “projetar” implica pensar no futuro a partir do presente, no intuito de precaver, corrigir e melhorar o que agora se considera problemático. Em outros termos, o presente orientado ao futuro é aquele que não é totalmente aceito, como se restasse uma alternativa ao que “deu errado”. Leia mais…»

Não Obstante #17 – O olhar contemporâneo de Peter Sloterdijk

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