Não Obstante #9 – Nietzsche e o ressentimento

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Ideologia: não queira uma para viver

* Pinturas de Alex Kanevsky ilustrando o post.

A questão que levanto aqui é de inspiração humeniana: “ideologia” será sempre um termo acrescentado que, no limite, pode qualificar um fenômeno social tão bem (isto é, tão pouco) quanto um ser alienígena. Hume pensava em termos empíricos: entendendo por “causa” o princípio de uma sucessão de acontecimentos, não haveria uma ideia forçosamente acrescentada quanto a uma sucessão necessária? Pensemos em termos éticos: em que medida uma conduta crítico-engajada opõe-se ao conformismo e à resignação que esta mesma conduta acrescenta a tudo que se lhe opõe?

Tenho ponderado nesse sentido em relação ao niilismo, às crenças religiosas, ao ascetismo: são condutas igualmente válidas, tanto quanto inválidas. Do mesmo modo, cada vez mais não vejo grandes problemas no conformismo/resignação – o que não implica, todavia, defender tais condutas como “certas”. A objeção mais comum é a de que este tipo de raciocínio vai em direção a um tudo-vale, não importa o quê, anulando-se por contradição. Entretanto, percebe-se facilmente em tal objeção uma exigência por certa “coerência” que é acrescentada de antemão, isto é, ideologicamente. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #6 – Schopenhauer sobre a condição humana

schopenhauer3Este é o sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O mundo como vontade e como representação, § 57 (edição consultada: Trad. Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2005). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Querer e esforçar-se são [a] única essência [do homem e do animal], comparável a uma sede insaciável. A base de todo querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fato insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos. Leia mais…»

Elsa vai para as montanhas: considerações éticas com base em Frozen, Freud e Nietzsche

frozen-5Neste post, vou analisar o filme Frozen, da Disney, com o intuito de  refletir sobre algumas orientações morais derivadas, direta ou indiretamente, das propostas éticas de Nietzsche e Freud. Como a maioria deve saber, Frozen conta a história de Elsa, uma princesa que nasceu com poderes mágicos ligados ao gelo, e Anna, sua irmã. Quando crianças, as duas eram muito próximas e passavam o dia brincando no amplo espaço do castelo em que nasceram (Arendelle). Os poderes de Elsa tornavam as brincadeiras mais interessantes, permitindo, por exemplo, que as irmãs construíssem um boneco de neve no meio de um salão de festas vazio. Não sabendo controlar seus poderes, porém, Elsa acaba machucando sua irmã em uma dessas brincadeiras. Depois desse episódio, os poderes de Elsa passam a ser vistos como perigosos, e seus pais se empenham em reprimi-los. A parte inicial da principal música do filme, Let it go, descreve bem o que os pais (e, com base neles, a própria Elsa) acreditam que precisa ser feito com os poderes: “esconda, não sinta, não deixe ninguém saber, seja a boa garota que você sempre foi”. Leia mais…»

Não Obstante #8 – Clément Rosset e o real

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Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

O sorriso de Pandora: ficções de cadáveres adiados

* texto originalmente publicado na edição #49 da Revista abcDesignPinturas de Benjamin Björklund (Suécia) neste post.

Segundo Hesíodo, Zeus teria amaldiçoado os homens, em retaliação pelo furto do fogo, com uma coisa má que lhes alegra, algo que lhes foi dado para que amem a dor que sentem. Trata-se de Pandora, figura mitológica que reaparece no sétimo capítulo de “Memórias póstumas de Brás Cubas” para levar o protagonista a vislumbrar todos os séculos, do início ao fim da existência, como uma história monótona e sem sentido. Machado de Assis se apropria do “delírio”, título do capítulo em questão, como filtro através do qual seu personagem é capaz de enxergar a insignificância vertiginosa por onde a vida se intensifica:

“A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão” (cap. VII, § 28). Leia mais…»

Não Obstante #7 – Entre a filosofia e a literatura

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Alô, alô, tia Léia: notas sobre a cultura da convergência

telephoneRecentemente, reli com calma o livro Cultura da convergência, de Henry Jenkins, para utilizá-lo em uma disciplina de Mídias Digitais. É uma obra interessante para refletirmos sobre a circulação de representações em novas mídias. Ou melhor, em novas e velhas mídias, pois  um dos pontos centrais da proposta de Jenkins é justamente o de que as novas mídias não substituem as antigas. Novas e velhas mídias convergem — ou seja, ganham papeis complementares na cultura.

Todos devem se lembrar dos profetas do “fim do livro” que fizeram bastante sucesso na década passada, a ponto de Umberto Eco e Jean Claude Carrière lançarem, em 2012, um livro-diálogo intitulado Não é o fim dos livros. Antes deles também, é claro, muitos outros questionaram tal “profecia”, típica tanto de apocalípticos quanto de integrados. Henry Jenkins foi um deles. Ele observa, com base em fenômenos da cultura midiática como Harry Potter, que os livros continuam muito bem, obrigado. A diferença é que, agora, os livros de sucesso costumam atuar em conjunto com filmes, jogos, sites interativos etc. Há, portanto, uma convergência midiática. Leia mais…»

O “realismo-abstrato” da arte contemporânea

Parece ganhar repercussão, notadamente em discursos como os de Robert Florczak e Roger Scruton, certo revanchismo muito similar às mostras infames que os nazistas organizaram por volta de 1940, condenando uma arte “degenerada” que abrange todos os modernismos. Essa visão fatalista de uma arte em declínio, que procura sua autenticidade num passado nostálgico, é obviamente problemática, especialmente porque tal remorso em relação a uma pureza perdida também serviu de combustível aos modernismos. Meu objetivo aqui, portanto, não é provar que uma posição é correta e a outra, errada, nem afirmar que um momento é moderno e o seguinte, pós-moderno – mesmo porque não vejo aí ruptura alguma.

Tratei em outro ensaio dos pressupostos metafísicos da arte conceitual. Quero agora delinear o problema discursivo que me parece haver na insidiosa oposição entre real e abstrato, a partir da qual vejo ressurgir um ideologema romântico que perpassa parte da arte do século XX até hoje. Em outros termos, a noção de “abstração” postergada pelos modernos (a partir do constructo simbólico do primitivismo contra a cultura hegemônica) tornou-se o fetiche contemporâneo da “simulação”, e com isso um realismo renovado preservou certa nostalgia (traumática) de um sujeito estável. Embora um momento conduza ao seguinte, este seguinte prescreve o anterior, assim como um enquadramento determina o olhar que o enquadra. Leia mais…»

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