Um corpo que cai e o teatro do real

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O mais nobre dos dramas e o mais trivial dos acontecimentos estariam assim tão próximos? Tão vertiginosamente próximos? Pode a proximidade causar vertigem? É claro que sim. – Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 246).

Às vezes a realidade parece funcionar como um teatro: surpreendemo-nos não tanto quando nada do que esperávamos acontece, e sim quando nossas expectativas coincidem exatamente com os acontecimentos. Ora, se o fato correspondeu à previsão – esta sina edipiana tão aludida na história do teatro –, espantamo-nos não com o fato, mas com a coincidência que elimina qualquer outro modo de realização. A sensação imediata, neste caso, não é a de finalmente confirmar alguma desconfiança, porém justamente a de ter sido enganado, iludido e trapaceado como numa variação da velha piada dos irmãos Marx: o fato pode até se parecer com o que prevíamos, mas não se engane, realmente é aquilo que prevíamos. Leia mais…»

Rir de si: brasilidade como potência de não se levar a sério

* texto originalmente publicado na edição 47 da revista abcDesign.

Sempre me pareceu deveras complicado falar de brasilidade. De um lado, porque a noção de identidade nacional é advento recente, ideologia própria de um paradigma iluminista que enaltecia o Estado-nação como principal modelo de organização social. De outro, porque pode facilmente servir de combustível ao patriotismo, este ardiloso estratagema que opera pela transposição de uma ideia em dado “natural”, como outrora foi feito com a raça ariana.

Ou seja, como falar sobre algo que só existirá caso seja inventado? Talvez de modo alheio a convenções prévias, no caso, acerca do que significa ou deveria significar “ser brasileiro”. Arrisco-me, pois, a definir certa brasilidade com “b” minúsculo, algo não personificado nem localizável, mas provocativamente generalizante. Tomemos o seguinte ponto de partida: no prefácio à edição brasileira de “Lógica do pior” (Espaço e tempo, 1989), o filósofo Clément Rosset qualifica a sabedoria brasileira por meio da fórmula “sejamos felizes, tudo vai mal”. Leia mais…»

Designotopia: William Morris e os revivalismos celta e viking na Europa do século XIX

Upplands_RuninskriftAs curvas normalmente associadas às antigas artes celta e viking sempre tiveram para mim forte apelo estético. Recentemente, uma viagem pelo Reino Unido me fez pensar mais detidamente sobre a influência de tais curvas em designs dos últimos séculos, e no movimento mais geral de resgate da lingua, mitos e cultura desses povos.

Esses resgates ou revivalismos são eventos importantes na Europa do século XIX e servem a diversos fins: politicamente, aparecem como narrativas congregadoras, e ajudam a consolidar os Estados nacionais em formação; psicologicamente, oferecem formas de espiritualidades alternativas em um momento no qual o cristianismo perde força; artisticamente, oferecem um mais do que fértil acervo-base para novas propostas estéticas. Algumas vezes, todos esses fins podem aparecer interligados em uma espécie de grandiosidade político-estético-espiritual, que tendemos a associar, no caso alemão, ao wagnerianismo. Leia mais…»

Corpos que restam n’alma

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Eu, que estou no mundo, de quem aprenderia o que é estar no mundo se não de mim mesmo, e como poderia dizer que estou no mundo se não o soubesse? – Merleau-Ponty, O visível e o invisível (Perspectiva, 2007, p. 41).

A partir de duas peças cinematográficas atuais, Transcendence (Wally Pfister, 2014) e Amour (Michael Haneke, 2012), pretendo discutir sobre a emergência do corpo e do aparelho como temas emblemáticos no que se refere a certo desconforto contemporâneo. Desconforto este que não é propriamente atual, mas que permanece “contemporaneamente anacrônico”, como que em cima de um muro ancestral entre, de um lado, uma salvação vinda “de fora” (deus e outras promessas metafísicas ou científicas) e, de outro, um mundo que nunca solicitou salvação alguma. Embora a questão de por que e quem precisa ser “salvo” já possa suscitar tal desconforto, minha impressão é a de que, nos filmes ora elencados, todo desconforto coincide com sua própria aprovação, espelhando assim um real que só pode ser narrado ao confrontar-nos, pela aprovação ou pela recusa, com nossos desconfortos em relação a ele. Leia mais…»

Existe filosofia do design? Um debate em aberto.

Após ter sido convidado a escrever no Filosofia do Design, Felipe Kaizer propôs um diálogo a Marcos Beccari sobre o que seria, afinal, uma “filosofia do design”. A divergência de opinião entre ambos acentuou-se no decorrer de nove e-mails, abrindo inconciliavelmente um debate que nos convida a problematizar uma “filosofia do design” mediante as ideias de filosofia e de design. Dentre as questões suscitadas, destacam-se: a pertinência atual da tradição filosófica, as condições para um pensamento filosófico, as relações entre o design e o projetar, a busca por uma essência, ordem ou natureza do design e a possibilidade de um conhecimento que não se submeta de antemão à prática. A publicação integral desta discussão, sob o consentimento dos envolvidos, não visa outra coisa senão fomentar novos debates e reflexões, tornando assim visíveis as diferenças e os contrastes entre os pressupostos teóricos que muitas vezes são ocultados no fazer e no pensar design.

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A “felicidade” contra o realismo

executivo-felizO romance Bliss, do escritor australiano Peter Carey, conta a história de Harry Joy, um burguês bem-sucedido que está feliz com a sua vida e cuja maior qualidade é “ser um cara legal”. Suas ambições relativamente simples, sua posição social confortável e sua grande estima pelo bem-estar estimulavam e eram estimuladas por uma visão bem pouco crítica do mundo à sua volta. Assim, ele enxergava tudo através de lentes róseas idealizantes. Um belo dia, Harry tem um infarto. Uma experiência extracorpórea no momento do colapso lhe incute a certeza de que está morto. Porém, quando ele acorda, o mundo diante dos seus olhos não parece, inicialmente, tão diferente assim do mundo no qual ele antes vivia. Confuso, Harry se vê compelido a lançar ao mundo no qual se encontra um olhar extremamente questionador, atento e desconfiado, de modo a descobrir se está no inferno, no céu, ou novamente no mundo dos vivos. Sob este novo olhar perscrutador, as coisas se apresentam para ele de maneira diferente: seu filho, exemplo de perfeição e virtude, que sonhava em entrar para a faculdade de medicina, foi “substituído”, neste novo mundo, por um garoto muito parecido, mas que só pensa em dinheiro e trafica drogas na escola; sua “nova” mulher o trai e se ressente de sua posição social; o “novo” garçom de seu restaurante predileto não se porta mais de maneira tão amigável etc. Harry conclui, finalmente, que está no inferno. Leia mais…»

Profanações sem nome

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O maior horror não provém daquilo que nos causa estranhamento, mas daquilo com o qual, estranhamente, nos identificamos.
– Alfred Hitchcock.

O termo em latim violentia, assim como o verbo violare (quebrar, romper), deriva do prefixo vis (força, vigor) e refere-se a uma aplicação de força, a uma passagem ao ato daquilo que potencialmente persiste num plano latente. O que me parece haver de mais instigante, indo direto ao ponto, numa reflexão sobre a violência é menos sua dimensão moral de (des)legitimação simbólico-social e mais sua dimensão ético-afetiva. Interessa-me perguntar de que maneira a violência oscila entre uma sensibilidade fundamental no registro intersubjetivo e uma banalidade anônima, discretamente apaziguada como terapia homeopática. Entre tirania ou barbárie de um lado e utopias redentoras do outro, irrompe um complexo embate de formas de vida concorrentes em seus ideais de realização. E da válvula de escape “amistosa” que proporcionam as redes sociais, bem como da canalização do tédio pela via do espetáculo esportivo, da teledramaturgia jornalística, da pusilanimidade dos games e da política teatral, instaura-se uma prerrogativa profana que se enuncia à medida que não é pronunciada: no que cessam as batalhas terrenas, irrompem as guerras imaginárias, que ganham mais força quanto mais são eufemizadas. Leia mais…»

Vontade e livre-arbítrio em Schopenhauer

schopenhauerEm sua obra principal, O mundo como vontade e como representação (MVR), Schopenhauer utiliza como base de suas considerações a divisão kantiana entre coisa em si e fenômeno (ou representação). Tal divisão remete a uma perspectiva filosófica que considera sujeito e objeto como elementos interdependentes. Quando vejo uma mesa, por exemplo, aquilo que vejo, com formas, cores etc., não existe como tal fora da imagem em minha mente, embora não se possa dizer tampouco que a cadeira foi criada pela minha mente, uma vez que o que chamo “minha mente” não pode existir sem imagens, lembranças, perceptos, pensamentos, em suma, sem objetos. Esse mundo que aparece para mim, ou mundo como representação, só existe portanto “entre” o sujeito e o objeto, ele pressupõe os dois.

Desse modo, o filósofo critica as teorias que tentam derivar o sujeito dos objetos – como fazem, por exemplo, aqueles que consideram a mente como um epifenômeno do cérebro –, ou os objetos do sujeito – como o fazem aqueles que acreditam que todo o mundo é uma invenção da mente do sujeito. A tentativa de derivar um do outro só pode ser efeito de uma aplicação equivocada do princípio da causalidade. Este deve ser encarado como um dos princípios que rege o mundo como representação, de modo que é absurdo tentar usá-lo para explicar a formação desse mundo. Seria mais ou menos como tentar explicar a origem do xadrez a partir das regras do xadrez. Leia mais…»

Do tempo que passa como caminhar sem chão

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.
Fotografias de Toby Harvard.

Hoje há um poema que, no mundo da fixidez, significa um suplemento, recreação, um ornamento, elã, evasão, em suma, pausa e desconexão; dele se pode dizer: trata-se também aí de sentimentos determinados e singulares. E há outro poema que não pode esquecer o caráter inquieto, inconstante e fragmentário escondido na totalidade da existência; dele se poderia dizer: trata-se aqui, ainda que apenas em parte, do sentimento enquanto totalidade sobre a qual o mundo repousa como uma ilha. – R. Musil, Posfácio de Cartas a um jovem poeta (R. M. Rilke, SP, Globo, 2013, p. 122).

Ele ainda usa o mesmo par de brincos. Pensei, ao me deparar com um antigo colega de faculdade andando de mãos dadas com a filha. As crianças crescem. E o que se mantêm intactos são os gestos, iguais aos do pai. Difícil é rebobinar a fita do “agora” para organizar o tempo que passou e o que há para ser contado. Nada além de uma mesma e impertinente curiosidade, inabalável porquanto ainda leve e fugitiva: que ficção é esta que se mantém em aberto acerca do “tempo que passa”, como espécie de revelação daquilo que, para todos os efeitos, já se sabe? As respostas mais antigas reaparecem como questões novas a um olhar inaugural. “Já não sei mais olhar desse jeito”, você me diz, como se houvesse algo a ser recuperado. Nunca há. O que nos resta é redescobrir o que sempre soubemos nesse tempo em que as crianças não pararam de crescer. Leia mais…»

Debate FdD: por que (não) pular de paraquedas?

Olá, designófilos!  Este é nosso quarto post coletivo, contando com a participação de nosso time de colunistas e colaboradores fixos. A questão foi levantada por nosso colaborador Bolívar Escobar:

Em um futuro próximo, cientistas de uma determinada empresa criam um procedimento cirúrgico que ‘implanta’ experiências: uma pessoa que gostaria de pular de paraquedas pode agora optar por realizar o pulo, ou fazer a cirurgia e ter no seu cérebro o registro desse pulo que nunca aconteceu, com os exatos mesmos efeitos da experiência. Você optaria por pular ou por fazer a cirurgia? Leia mais…»

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