Não Obstante #17 – O olhar contemporâneo de Peter Sloterdijk

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Uma ética sem valores ou um solipsismo às avessas

Ilustram o post fotografias de Soul Leiter.

[...] No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; não há nele nenhum valor [...] – Wittgenstein, Tratactus logico-philosophicus, § 6.41 [todos os trechos que constam no post foram retirados da 3ª edição da Edusp, 2008].

O Tratactus foi a primeira obra publicada por Wittgenstein e representa a primeira fase de seu pensamento, ao passo que o segundo Wittgenstein está mais representado em seus escritos a partir da década de 1930. Comentei brevemente sobre o Tratactus no fragmento filosófico #15; agora pretendo comentar sobre aquilo que me parece ser uma ponte parcial para o segundo Wittgenstein: a proposição de uma ética sem valores que encerra o Tratactus. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #15 – Wittgenstein e os limites do pensar

Este é o décimo quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Tractatus logico-philosophicus (3. ed. Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Edusp, 2008, p. 131), no prefácio escrito por Wittgenstein. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

O livro pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou melhor – não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos: a fim de traçar um limite  para o pensar, deveríamos poder pensar os dois lados desse limite (deveríamos, portanto, poder pensar o que não pode ser pensado). O limite só poderá, pois, ser traçado na linguagem, e o que estiver além do limite será simplesmente um contrassenso. Leia mais…»

Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #14 – Kant sobre o espaço

ImmanuelKantpicEste é o décimo quarto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Crítica da razão pura (Petrópolis: Vozes, 4. ed., 2015, B 38), de Kant. Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

O espaço não é um conceito empírico que tenha sido derivado de experiências externas. Pois para que certas sensações sejam referidas a algo fora de mim (i.e., a  algo em um outro lugar do espaço que não naquele em que me encontro), e para que, do mesmo modo, eu as possa representar como externas umas ao lado das outras, portanto, não só diferentes, mas como em diferentes lugares, para isso a representação do espaço já tem de servir-lhes de fundamento. A representação do espaço não pode, assim, ser extraída da experiência a partir das relações do fenômeno externo, mas é antes esta experiência externa que só é possível por meio de tal representação. Leia mais…»

Todo mundo sabe o que ninguém quer mais saber

* Imagens de Adolfo Bimer ilustram o post.

Crianças compreendem diferentes tipos de coisas através dos mesmos filtros. É assim que elas funcionam: uma criança encontra um coelho pela primeira vez e pensa como esse gato é esquisito. O que também funciona para atribuir um papel a cada pessoa desconhecida: o coleguinha engraçado, a bruxa má, a princesa frágil, o príncipe encantado e mais um apanhado de categorias que, sabemos, podem continuar funcionando durante muito tempo.

Só que uma mesma criança pode se comportar de muitas formas diferentes, pode mudar de opinião o tempo inteiro, pode passar do choro ao riso num instante e sem o menor constrangimento. Ou seja, não é necessário agir de maneira coerente, embora haja certa coerência nos papéis atribuídos aos outros. E esses papéis, ainda que sejam fixados como uma referência, funcionam apenas por conveniência: se o mundo se mostra por vezes inconveniente, pode-se adotar uma explicação que o faça parecer mais conveniente. Leia mais…»

Iluminismo e Romantismo como modos de pensamento: considerações éticas e epistemológicas

Iluminismo-m* Ilustram o post obras de Natalie Shau

Iluminismo e romantismo são dois termos que, embora bastante genéricos, desgastados e afeitos a interpretações equivocadas, colaboram ainda – e muito – para o desenvolvimento de algumas reflexões que gostaria de classificar como “éticas”.

Quem leu meu post anterior aqui no site, intitulado Design, moral e industrialização, já se deparou com a enorme quantidade de questões relacionadas aos termos iluminismo e romantismo. Muitos autores os utilizam para indicar movimentos de pensamento bastante restritos no tempo e no espaço (o Iluminismo, de meados ao fim do século XVIII, principalmente na França e na Alemanha; o Romantismo, do final do século XVIII a meados do XIX, principalmente na Alemanha e na Inglaterra). Outros porém – e eu sou um deles – utilizam os termos de maneira mais ampla para indicar certos modos de pensar. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #13 – Rosset e o princípio de crueldade

Este é o décimo terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O princípio de crueldade de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p. 22). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

O homem é o ser capaz de saber o que, por outro lado, é incapaz de saber, de poder em princípio o que é incapaz de poder em realidade, de encontrar-se confrontado ao que é justamente incapaz de afrontar. Leia mais…»

Da repetição no olhar que se desprende

* aquarelas de Henrik Uldalen ilustram o post.

I. Revendo as mesmas anotações

Desvios ocasionados pela segunda lei da termodinâmica não são verificáveis, pois os instrumentos de medida estão sujeitos aos mesmos desvios das coisas que eles buscam medir. – Paul Feyerabend, Contra o método (São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 350).

Mais do que mostrar o aspecto inferencial de certas leis da física, o enunciado acima é um modo de falar sobre a arbitrariedade patente de toda ordem, sentido, razão que atribuímos ao que é mera casualidade – como a repetição genérica de nossos momentos de alegria ou de tristeza. O que por vezes não nos damos conta é que esses sentidos arbitrários são fatores que intensificam a repetição indiferenciada da vida cotidiana, capazes mesmo de “fabricar” diferenças significativas nos momentos que se repetem. Leia mais…»

Não Obstante #16 – Pensando a depressão

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