O guarda-chuva invisível de Duchamp

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

De fato, nada até agora teve uma mais ingênua força persuasiva do que o erro do ser, tal como foi, por exemplo, formulado pelos eleatas: pois esse erro tem a seu favor cada palavra, cada proposição que nós falamos! – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo (Obras Incompletas, Editora Nova Cultural, 1999, § 5, p. 375).

I. Da ilusão metafísica e sua contenda dialética

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche refere-se a Sócrates como pioneiro na instalação de uma representação ilusória que assinalou o paradigma da filosofia ocidental: a metafísica, esta crença de que o pensamento pode nos revelar uma ordem inteligível, portanto destacável e nomeável, presente em relações aparentemente desordenadas. Com Platão e Aristóteles, passando por todos os pensadores posteriores tidos como sérios e reputáveis, estaria inaugurada uma grande busca por uma realidade ordenada, gratificante, em detrimento das imperfeições que poderiam então, e só então, ser percebidas e devidamente corrigidas. Leia mais…»

O Prometeu cauteloso de Bruno Latour

prometeu1Como sabemos, não é fácil achar textos que tratem explicitamente de filosofia do design. Assim, quando um dos mais famosos filósofos vivos produz um paper cujo subtítulo é “alguns passos rumo a uma filosofia do design”, trata-se de um evento digno de atenção. Estou falando de Bruno Latour e de um paper que ele produziu em 2008 por ocasião de sua palestra em um congresso de História do Design. O título completo é Um Prometeu cauteloso? alguns passos rumo a uma filosofia do design (com especial atenção a Peter Slotedijk).

No ano passado, ao indicar esse texto para alguns alunos, comecei a lamentar a falta de uma tradução em português. Por fim, com a ajuda de minha namorada, que está acostumada a trabalhar com revisão de tradução, resolvi enfrentar o desafio de traduzi-lo. O resultado foi publicado há algumas semanas na revista Agitprop. É possível acessá-lo aqui, em um pdf com layout caprichado, ou diretamente no site da revista, em texto corrido. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #1 – António Mora/Fernando Pessoa

Olá designófilos! Este é o primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. Para começar, o autor escolhido é Fernando Pessoa, comentado por Marcos Beccari.

Não é sonho a vida: é-o, porém, toda interpretação da vida. [...] Ficção da inteligência: criamos ficções puras, “força”, “matéria”, [espaço em branco] – cousas que nada são, nada representam, a nada correspondem: o materialismo e o idealismo, irmãos-gêmeos, diferentes apenas por não serem o mesmo. Força, matéria, átomos, tudo é ficção, e da ficção mais fictícia que pode haver, a ficção do abstracto que se julga correcto. [...] Vivemos pelos sentidos, convivemos pela inteligência. Assim, pois, desligada dos sentidos, sendo que existe apenas para servi-los, a inteligência opera no vácuo, é no vácuo de conhecer que convivemos e que nos entendemos uns aos outros. A vida social é uma ficção. – Fernando Pessoa, O Regresso dos Deuses e outros escritos de António Mora. Porto: Assírio & Alvim, 2013, p. 135-136, § 110. Leia mais…»

Da câmara escura ao olhar sem precedentes

* Resenha do livro Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX, de Jonathan Crary (Rio de Janeiro: Contraponto, 2012; coleção ArteFíssil). Texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Ao retomar a prática do desenho, que deixei totalmente de lado na última década, tenho refletido sobre uma série de aspectos práticos e filosóficos da visualidade. Além do fato de que a expressão do desenho se conjuga no olhar que o antecede, conforme já comentei por aqui, percebi que desenhar, assim como ler, falar, dirigir ou tocar um instrumento musical, é uma habilidade que com o tempo se “automatiza”. Em geral, quase nos esquecemos de termos passado pelo processo de aprender a dirigir – um belo dia você se viu dirigindo ou tocando violão sem ter de pensar em cada movimento parar fazer isso.

Não significa que este processo seja fácil, muito menos que o aprendizado tenha fim. Sabe-se que, para muitas pessoas, desenhar é tido como uma tarefa árdua e dificilmente assimilável. Geralmente isso acontece porque tendemos a ver o que esperamos (e por vezes até o que intencionalmente queremos) enxergar, descartando alguns aspectos da coisa vista, acrescentando outros e, enfim, retocando-a subjetivamente. Em certo sentido, pois, aprender a desenhar implica trocar um hábito automático por outro, como um “treino” para enxergar não tanto o mundo visto, mas antes as coordenadas que nos permitem vê-lo. Leia mais…»

Não Obstante #04 – Machado de Assis, filósofo brasileiro

NaoObstante4_POST Escute o podcast…»

Vínculos breves

Robert e Shana ParkHarrison. Flying lesson. Fonte:

Robert e Shana ParkHarrison. Flying lesson.
Fonte:http://parkeharrison.com

* Este é um texto que escrevi em 2012 e ficou engavetado. Agora o encontrei em meio aos arquivos do site e resolvi publicá-lo. 

Vivemos nossas vidas nos apegando a milhares de coisas — de maneiras diferentes, com intensidades diferentes. Os vínculos que estabelecemos com pessoas, animais, imagens, ideais, coisas, lugares, ações, sensações etc. são parte crucial de nossa curta estadia neste estranho mundo. Por mais curta que sejam nossas vidas, entretanto, a gigantesca maioria dos vínculos que estabelecemos são ainda muito mais curtos. Assim, ao longo de nossa vida rompemos vários vínculos.

Isso não é algo necessariamente ruim, pois o rompimento de vínculos é essencial para que possamos construir outros. A psicanálise sugere que nós temos um quantum limitado de libido para investirmos em objetos diversos. A vinculação ou investimento libidinal seria uma espécie de canal aberto pelo qual nossa libido flui na direção de objetos específicos. Assim, para que a libido flua em novas direções, é necessário fechar antigos canais. Na vida, como na arte, a destruição seria parte da criação. Leia mais…»

Um corpo que cai e o teatro do real

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O mais nobre dos dramas e o mais trivial dos acontecimentos estariam assim tão próximos? Tão vertiginosamente próximos? Pode a proximidade causar vertigem? É claro que sim. – Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 246).

Às vezes a realidade parece funcionar como um teatro: surpreendemo-nos não tanto quando nada do que esperávamos acontece, e sim quando nossas expectativas coincidem exatamente com os acontecimentos. Ora, se o fato correspondeu à previsão – esta sina edipiana tão aludida na história do teatro –, espantamo-nos não com o fato, mas com a coincidência que elimina qualquer outro modo de realização. A sensação imediata, neste caso, não é a de finalmente confirmar alguma desconfiança, porém justamente a de ter sido enganado, iludido e trapaceado como numa variação da velha piada dos irmãos Marx: o fato pode até se parecer com o que prevíamos, mas não se engane, realmente é aquilo que prevíamos. Leia mais…»

Prefiro Baudrillard #13 – Vampirotheutis Infernalis


Who da fuck is Terry Gillian? Fiodóro mostrando mais uma vez que a decepção mediante à humanidade permanece ali só esperando o momento certo para revigorar. É o milagre da vida irmãos, esse tal de Bóson de Higgs, uma linha tênue entre já é e já era. Peguem seus cachimbos proteinizados com whey e digam hello darkness my old friend. Zoeira mas fica aí a reflexão galere, abraços e fiquem com deus [em ritmo de funk evangélico]. #freeBeccari Leia mais…»

Não Obstante #03 – Afetos de hoje

capa-Naoobstante-3 Escute o podcast…»

Rir de si: brasilidade como potência de não se levar a sério

* texto originalmente publicado na edição 47 da revista abcDesign.

Sempre me pareceu deveras complicado falar de brasilidade. De um lado, porque a noção de identidade nacional é advento recente, ideologia própria de um paradigma iluminista que enaltecia o Estado-nação como principal modelo de organização social. De outro, porque pode facilmente servir de combustível ao patriotismo, este ardiloso estratagema que opera pela transposição de uma ideia em dado “natural”, como outrora foi feito com a raça ariana.

Ou seja, como falar sobre algo que só existirá caso seja inventado? Talvez de modo alheio a convenções prévias, no caso, acerca do que significa ou deveria significar “ser brasileiro”. Arrisco-me, pois, a definir certa brasilidade com “b” minúsculo, algo não personificado nem localizável, mas provocativamente generalizante. Tomemos o seguinte ponto de partida: no prefácio à edição brasileira de “Lógica do pior” (Espaço e tempo, 1989), o filósofo Clément Rosset qualifica a sabedoria brasileira por meio da fórmula “sejamos felizes, tudo vai mal”. Leia mais…»

©2014 Filosofia do Design