O “realismo-abstrato” da arte contemporânea

Parece ganhar repercussão, notadamente em discursos como os de Robert Florczak e Roger Scruton, certo revanchismo muito similar às mostras infames que os nazistas organizaram por volta de 1940, condenando uma arte “degenerada” que abrange todos os modernismos. Essa visão fatalista de uma arte em declínio, que procura sua autenticidade num passado nostálgico, é obviamente problemática, especialmente porque tal remorso em relação a uma pureza perdida também serviu de combustível aos modernismos. Meu objetivo aqui, portanto, não é provar que uma posição é correta e a outra, errada, nem afirmar que um momento é moderno e o seguinte, pós-moderno – mesmo porque não vejo aí ruptura alguma.

Tratei em outro ensaio dos pressupostos metafísicos da arte conceitual. Quero agora delinear o problema discursivo que me parece haver na insidiosa oposição entre real e abstrato, a partir da qual vejo ressurgir um ideologema romântico que perpassa parte da arte do século XX até hoje. Em outros termos, a noção de “abstração” postergada pelos modernos (a partir do constructo simbólico do primitivismo contra a cultura hegemônica) tornou-se o fetiche contemporâneo da “simulação”, e com isso um realismo renovado preservou certa nostalgia (traumática) de um sujeito estável. Embora um momento conduza ao seguinte, este seguinte prescreve o anterior, assim como um enquadramento determina o olhar que o enquadra. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #4 – Foucault sobre a prédica sexual

Foucault5Este é o quarto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro História da sexualidade I: a vontade de saber, de Michel Foucault (Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 13-14). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Alguma coisa da ordem da revolta, da liberdade prometida, da proximidade da época de uma nova lei, passa facilmente nesse discurso sobre a opressão do sexo. Certas velhas funções tradicionais da profecia nele se encontram reativadas. Para amanhã o bom sexo. [...] o que me parece essencial é a existência, em nossa época, de um discurso onde o sexo, a revelação da verdade, a inversão da lei do mundo, o anúncio de um novo dia e a promessa de uma certa felicidade estão ligados entre si. É o sexo, atualmente, que serve de suporte dessa velha forma, tão familiar e importante no Ocidente, a forma da pregação. Uma grande prédica sexual [...] tem percorrido nossas sociedades há algumas dezenas de anos; fustigando a antiga ordem, denunciando as hipocrisias, enaltecendo o direito do imediato e do real; fazendo sonhar com uma outra Cidade. (mais…)

Design thinking sob perspectiva humanística 2: objetividade e problemas arredios

pattern-design-PB2Pensar o design thinking com base em uma perspectiva humanística significa, em parte, perceber que os processos de pensamento relacionados ao design e os problemas que eles buscam resolver não podem ser objetificados. Ou, para ser mais preciso: perceber que, quando eles são objetificados, desfiguram-se de tal maneira que o essencial fica de fora. É preciso considerar, então, o que significa “objetificar” um problema ou encarar um modo de pensamento como “objetivo”. Grosso modo, podemos dizer que um problema objetivo é aquele que é encarado juntamente com um sistema de coordenadas implícitas ou explícitas que permitem julgar a validade das soluções de maneira mais ou menos precisa.

Quando lidamos com o problema de escolher o material mais adequado para construir uma coluna de sustentação de um prédio, por exemplo, podemos imaginar formas objetivas fecundas de lidar com o problema: trata-se de considerar experimentalmente quais materiais aguentam mais peso, se deterioram menos com o tempo ou condições adversas, são mais resistentes a certos tipos de abalo etc. Mesmo nesse caso, é importante perceber que “material mais adequado” tem que ser compreendido aqui como “material mais eficaz” e de acordo com uma visão de mundo experimental. Se alguém argumentar que certo tipo de material é mais caro aos deuses e por isso imunizará o prédio contra possíveis acidentes, por exemplo, estará retirando o problema do sistema de coordenadas implícito que o tornava objetivo. Fará o mesmo quem argumentar que certo material não é adequado porque, quando extraído, causa impactos ambientais inaceitáveis. No primeiro caso, nega-se a visão científica, no segundo, a eficácia como único fator determinante. Leia mais…»

Um breve imaginário do design

“Imaginário” implica, no presente ensaio, uma empreitada genealógica: identificar recorrências discursivas que nos permitam elaborar hipóteses filosóficas, neste caso, sobre a noção de design. Mais importante do que a História – enquanto pressuposta “verdade dos fatos” –, portanto, é a maneira como a contamos, portanto o design das histórias. Ou ainda, nos termos do historiador Philip B. Meggs:

O caráter efêmero e imediato do design gráfico, combinado com sua ligação com a vida social, política e econômica de uma determinada cultura, permite que ele expresse mais intimamente o Zeitgeist [paradigma] de uma época do que muitas outras formas de expressão humana. Ivan Chermayeff, renomado designer, disse: o design da história é a história do design. – Philip B. Meggs, História do design gráfico (Cosac Naify, 2009, p. 10). Leia mais…»

Não Obstante #6 – As bestas dentro de nós

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Fragmentos filosóficos #3 – Rosset e o nada

Este é o terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Lógica do Pior, de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 103, grifos no original). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Nomear é definir; definir é determinar uma natureza; ora, nenhuma natureza é. Nem o homem, nem a planta, nem a pedra, nem o branco, nem o odor são. Mas o que resta, além disso, para ornar o ser, uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe “alguma coisa”, mas essa alguma coisa não é nada, sem nenhuma exceção, do que figura em todos os dicionários presentes, passados e por vir. “O que existe” é, pois, muito precisamente, nada. Nada, isto é: nenhum dos seres concebidos e concebíveis; nenhum dos seres recenseados até esse dia figura no registro do que o pensamento do acaso admite a título de existência. É forçoso, pois, excluir da existência a própria noção de ser. Exclusão que não releva de uma interdição de princípio, mas de uma constatação empírica: o que é excluído da existência não é, propriamente falando, a noção de ser, mas antes a coleção completa (e necessariamente provisória) de todos os seres pensados até o presente. (mais…)

Design thinking sob perspectiva humanística

pattern-design-5A definição de design – bem sabem todos os que atuam na área ou pesquisam sobre ela – é objeto de constantes disputas. Antigamente, as disputas costumavam girar sempre em torno do objeto do design: o designer pensa mais na forma ou na função? Em objetos e imagens produzidos em série ou únicos? Atua só na concepção ou também na produção?  Etc etc. Faz algum tempo, porém, que tem ganhado destaque uma definição do design baseada mais nas especificidades do processo de pensamento a ele relacionado do que nas especificidades de seu objeto de atuação. Nessa perspectiva, a pedra fundamental do design é o design thinking, ou seja, a forma de pensar que caracteriza e define o design. É a partir da consolidação dessa definição que campos inteiros do design – como o design de serviços – podem ganhar corpo.

Embora eu acredite que uma multiplicidade de definições pode enriquecer o pensamento sobre o design, é verdade que algumas definições são claramente mais interessantes, adequadas e relevantes que outras. A definição baseada no design thinking parece-me uma das mais frutíferas (juntamente com outras que podem ser vistas como complementares a esta, tais como as definições relacionadas aos cinco eixos propostos em nossas Considerações preliminares para uma filosofia do design). Quando se parte da definição baseada no design thinking, os debates teóricos passam a centrar-se no modo de caracterizar essa forma de pensar que define o design.

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Crítica ao livro “A cidade & a cidade” de China Miéville

[A cidade & a cidade foi publicado pela Boitempo, 2014. Imagens de Jeremy Mann utilizadas neste post]

Em sua crítica à obra de Tolkien, o escritor Michael Moorcock reduz o universo tolkieniano a uma “confirmação perniciosa dos valores de uma classe média moralmente falida”, e se justifica dizendo que prefere ser um escritor ruim com grandes ideias do que o contrário. Trata-se de um discurso muito similar ao de Saramago em seu “O ano da morte de Ricardo Reis”, onde a postura filosófica do heterônimo de Fernando Pessoa é reduzida a uma covardia política. Com isso quero esclarecer logo de início que minha crítica ao livro de China Miéville passa longe deste tipo de argumento, notadamente moralista.

Mas é justamente este aspecto moralista que pretendo apontar em A cidade & a cidade: não sua moral em si, mas a interdição pela qual esta moral é apresentada. Logo, não se trata de uma discussão sobre o posicionamento do autor (sobre isso, conferir meu ensaio sobre autoria), tampouco sobre o meu posicionamento, que obviamente não deixa de influenciar minha leitura – a saber, penso que antes de dividir o mundo em luta de classes, numa lógica antagônica de exploradores e explorados, diante da qual o engajamento se torna obrigatório para escapar à alienação, convém refletir se nossa realização existencial depende mais de uma postura crítica ou de um jogo puramente estético (conforme defendo aqui, aqui e aqui). Leia mais…»

Sobre acaso e criação estética

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O belo não é nem artifício nem natureza, sendo primeiramente acaso. Daí resulta que o ato humano que culmina na criação de belas formas não é irracional, como diz Platão no Ion, mas casual, como o são todos os atos; e além do mais ele não é exatamente criador, se se entende por criação uma modificação trazida ao estatuto do que existe: nesse sentido – que é aquele habitualmente reconhecido à expressão “criação estética” – toda criação é impossível. – Clément Rosset, Lógica do Pior (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 183).

O decreto de que “toda criação é impossível” é somente polêmico e insidioso do ponto de vista por ele denunciado: aquele da criação como excepcional ação de transformar o mundo, pressupondo agentes criadores como únicos aptos a fazê-lo. Com efeito, esta faculdade “criadora” é entendida, nestes termos, como aptidão em transcender o acaso, isto é, como capacidade de ultrapassar a sorte oportuna para conceber deliberadamente coisas belas. É neste sentido que a severidade de Platão em relação aos artistas (no livro X da República) não se referia tanto ao ato mimético, mas à intenção de imitar um modelo que seria propriamente inimitável. Qual seja, algum que torne coerente o sentimento agradável que nasce em todas as ocasiões belas, como uma necessidade sem a qual não perceberíamos o belo. Leia mais…»

Três comentários sobre publicidade de medicamentos

Nos últimos anos, dediquei-me a alguns projetos de pesquisa que me levaram a atentar para a esfera da publicidade de medicamentos. Começando com as peças publicitárias dos medicamentos de patente do século XIX e início do XX, e terminando com aquelas dos medicamentos psiquiátricos pós-prozac, tal esfera revela-se uma verdadeira mina de ouro para uma reflexão crítica sobre o papel simbólico do medicamento na nossa cultura. Aproveitando a “coleção” que ficou montada depois de tal pesquisa, reproduzo e comento abaixo algumas peças publicitárias que nos fazem pensar.

1. Coca-cola, um medicamento

cola 1886A Coca-Cola iniciou sua carreira um medicamento de patente, ou seja, como um composto supostamente medicinal cujos componentes não eram revelados e que eram conhecidos por nomes como Triplex liver pills e Ginger, lemon and orange elixir, para citar duas invenções de Pemberton, o criador da Coca-cola. Um dos muitos medicamentos de patente contendo cocaína, a Coca-cola, segundo a propaganda ao lado, era um “valioso tônico cerebral, e uma cura para todas as afecções nervosas – dor de cabeça, neuralgia, histeria, melancolia etc.”. Leia mais…»

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