Três comentários sobre publicidade de medicamentos

Nos últimos anos, dediquei-me a alguns projetos de pesquisa que me levaram a atentar para a esfera da publicidade de medicamentos. Começando com as peças publicitárias dos medicamentos de patente do século XIX e início do XX, e terminando com aquelas dos medicamentos psiquiátricos pós-prozac, tal esfera revela-se uma verdadeira mina de ouro para uma reflexão crítica sobre o papel simbólico do medicamento na nossa cultura. Aproveitando a “coleção” que ficou montada depois de tal pesquisa, reproduzo e comento abaixo algumas peças publicitárias que nos fazem pensar.

1. Coca-cola, um medicamento

cola 1886A Coca-Cola iniciou sua carreira um medicamento de patente, ou seja, como um composto supostamente medicinal cujos componentes não eram revelados e que eram conhecidos por nomes como Triplex liver pills e Ginger, lemon and orange elixir, para citar duas invenções de Pemberton, o criador da Coca-cola. Um dos muitos medicamentos de patente contendo cocaína, a Coca-cola, segundo a propaganda ao lado, era um “valioso tônico cerebral, e uma cura para todas as afecções nervosas – dor de cabeça, neuralgia, histeria, melancolia etc.”. Leia mais…»

Entre arte e design, um ritual do mesmo para o mesmo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É inútil escapar ao “jogo de Mamúrio”: o essencial é continuar, apesar das pauladas. O ensinamento do ferreiro Mamúrio é oposto ao dos outros “senhores do fogo” da área indo-europeia: não o Wut, o furor religioso, a cólera que aterroriza os inimigos, mas a calma, a indifereça, o mimetismo; em uma palavra, a caerimonia. – Mario Perniola, Pensando o ritual: sexualidade, morte, mundo (São Paulo: Studio Nobel, 2000, p. 261-262).

Parte da investigação estética iniciada analogamente aos meus estudos em aquarela tem enveredado para o período helenístico, onde se cultivava uma relação intrínseca entre erotismo e arte. Em especial, o véu que esconde/revela o corpo sintetiza a cena romana: a evocação e a manifestação de uma presença que não pode ser afirmada e significada diretamente. Tal dinâmica da máscara, pela qual uma coisa é ao mesmo tempo outra, diz respeito a uma espécie de intuição que sempre alimentei em relação à ideia de design. Algo que, sob um viés filosófico (que antes de tudo é o que me anima), poderia ser dito da seguinte forma: tudo se reduz a pó, mas o pó é também um tipo de véu que a tudo envolve. Leia mais…»

Não Obstante #5 – Filosofia do Design, uma aposta pós-prometeica? Com Marcos Beccari e Daniel B. Portugal

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Fragmentos filosóficos #2 – Nietzsche sobre a moral como produto do ressentimento

eagle lambEste é o segundo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do parágrafo 13 da primeira dissertação da Genealogia da moral, de Friedrich Nietzsche (tradução de Paulo César de Souza). Seleção e comentários de Daniel Portugal.

– Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: “essas aves de rapina são más; e quem for o menos possível ave de rapina, e sim seu oposto, ovelha — este não deveria ser bom?”, não há o que objetar a esse modo de erigir um ideal, exceto talvez que as aves de rapina assistirão a isso com ar zombeteiro, e dirão para si mesmas: “nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso do que uma tenra ovelhinha”. Leia mais…»

Êxodo e perda: continuar o que não há para ser continuado

* texto originalmente publicado na edição 48 da revista abcDesign. Pinturas de Kim Cogan neste post.

Êxodo é o título do segundo livro do Antigo Testamento da Bíblia judaico-cristã, procedendo o livro de Gênesis e precedendo o livro de Levítico. Relata o início da escravidão do povo de Israel no Egito e como Moisés conduziu os israelitas pelo deserto até o Monte Sinai, onde Deus se revelou e propôs uma aliança: os israelitas devem seguir os dez mandamentos e, em troca, receberiam a proteção de Deus na jornada até Canaã (a Terra Prometida).

Trata-se, pois, de uma profecia de libertação: a anunciação de um futuro possível que reintegraria a identidade perdida do povo hebreu. A aliança dos israelitas com Deus é um ponto central da narrativa judaica, sendo o status do ainda “por vir” um dos aspectos que a distingue da narrativa cristã (que considera Jesus o verdadeiro libertador, sendo Moisés mera figura intermediária que teria preparado o mundo para uma libertação mais efetiva). Leia mais…»

Música e afirmação da Vontade: um comentário sobre as estéticas de Schopenhauer e Nietzsche

musica1No mês passado, fui convidado para falar sobre Schopenhauer e Nietzsche em um evento cultural focado na música. De início, fiquei reticente, devido ao meu conhecimento musical bastante parco. Por outro lado, tratava-se de expor as ideias de dois dos filósofos que mais influenciaram meu pensamento. E é um fato que eles dão, em suas filosofias, mais destaque à música do que às artes plásticas. Assim, aceitei o convite, e, como acredito que minha fala ficou interessante, apresento-a agora aqui, na forma de post.

Pelo menos em parte, o interesse de Schopenhauer e Nietzsche na música está ligado ao fato de ela não lidar com representações, com objetos, como acontece nas artes plásticas ou na poesia. Hoje, é claro, podemos pensar que a pintura abstrata ou outras formas de artes abstratas também não lidam com representações. Entretanto, o abstracionismo é um movimento relativamente recente nas artes plásticas, que ganha força somente no início do século XX — e vale lembrar que alguns dos artistas que impulsionaram o abstracionismo, como Kandinsky, na verdade propunham uma pintura em larga medida baseada justamente na música. Leia mais…»

O guarda-chuva invisível de Duchamp

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

De fato, nada até agora teve uma mais ingênua força persuasiva do que o erro do ser, tal como foi, por exemplo, formulado pelos eleatas: pois esse erro tem a seu favor cada palavra, cada proposição que nós falamos! – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo (Obras Incompletas, Editora Nova Cultural, 1999, § 5, p. 375).

I. Da ilusão metafísica e sua contenda dialética

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche refere-se a Sócrates como pioneiro na instalação de uma representação ilusória que assinalou o paradigma da filosofia ocidental: a metafísica, esta crença de que o pensamento pode nos revelar uma ordem inteligível, portanto destacável e nomeável, presente em relações aparentemente desordenadas. Com Platão e Aristóteles, passando por todos os pensadores posteriores tidos como sérios e reputáveis, estaria inaugurada uma grande busca por uma realidade ordenada, gratificante, em detrimento das imperfeições que poderiam então, e só então, ser percebidas e devidamente corrigidas. Leia mais…»

O Prometeu cauteloso de Bruno Latour

prometeu1Como sabemos, não é fácil achar textos que tratem explicitamente de filosofia do design. Assim, quando um dos mais famosos filósofos vivos produz um paper cujo subtítulo é “alguns passos rumo a uma filosofia do design”, trata-se de um evento digno de atenção. Estou falando de Bruno Latour e de um paper que ele produziu em 2008 por ocasião de sua palestra em um congresso de História do Design. O título completo é Um Prometeu cauteloso? alguns passos rumo a uma filosofia do design (com especial atenção a Peter Slotedijk).

No ano passado, ao indicar esse texto para alguns alunos, comecei a lamentar a falta de uma tradução em português. Por fim, com a ajuda de minha namorada, que está acostumada a trabalhar com revisão de tradução, resolvi enfrentar o desafio de traduzi-lo. O resultado foi publicado há algumas semanas na revista Agitprop. É possível acessá-lo aqui, em um pdf com layout caprichado, ou diretamente no site da revista, em texto corrido. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #1 – António Mora/Fernando Pessoa

Olá designófilos! Este é o primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. Para começar, o autor escolhido é Fernando Pessoa, comentado por Marcos Beccari.

Não é sonho a vida: é-o, porém, toda interpretação da vida. [...] Ficção da inteligência: criamos ficções puras, “força”, “matéria”, [espaço em branco] – cousas que nada são, nada representam, a nada correspondem: o materialismo e o idealismo, irmãos-gêmeos, diferentes apenas por não serem o mesmo. Força, matéria, átomos, tudo é ficção, e da ficção mais fictícia que pode haver, a ficção do abstracto que se julga correcto. [...] Vivemos pelos sentidos, convivemos pela inteligência. Assim, pois, desligada dos sentidos, sendo que existe apenas para servi-los, a inteligência opera no vácuo, é no vácuo de conhecer que convivemos e que nos entendemos uns aos outros. A vida social é uma ficção. – Fernando Pessoa, O Regresso dos Deuses e outros escritos de António Mora. Porto: Assírio & Alvim, 2013, p. 135-136, § 110. Leia mais…»

Da câmara escura ao olhar sem precedentes

* Resenha do livro Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX, de Jonathan Crary (Rio de Janeiro: Contraponto, 2012; coleção ArteFíssil). Texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Ao retomar a prática do desenho, que deixei totalmente de lado na última década, tenho refletido sobre uma série de aspectos práticos e filosóficos da visualidade. Além do fato de que a expressão do desenho se conjuga no olhar que o antecede, conforme já comentei por aqui, percebi que desenhar, assim como ler, falar, dirigir ou tocar um instrumento musical, é uma habilidade que com o tempo se “automatiza”. Em geral, quase nos esquecemos de termos passado pelo processo de aprender a dirigir – um belo dia você se viu dirigindo ou tocando violão sem ter de pensar em cada movimento parar fazer isso.

Não significa que este processo seja fácil, muito menos que o aprendizado tenha fim. Sabe-se que, para muitas pessoas, desenhar é tido como uma tarefa árdua e dificilmente assimilável. Geralmente isso acontece porque tendemos a ver o que esperamos (e por vezes até o que intencionalmente queremos) enxergar, descartando alguns aspectos da coisa vista, acrescentando outros e, enfim, retocando-a subjetivamente. Em certo sentido, pois, aprender a desenhar implica trocar um hábito automático por outro, como um “treino” para enxergar não tanto o mundo visto, mas antes as coordenadas que nos permitem vê-lo. Leia mais…»

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