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persiamDecisões difíceis. Reza uma antiga lenda Persa* que, em uma das várias batalhas contra os povos médicos, o Rei Mücahit foi visitado por um mensageiro dos céus que lhe ofereceu uma barganha: deixaria o povo persa vencer a guerra, e em troca a mão de sua filha, a princesa Semiha, seria destinada a pertencer aos deuses, significando portanto que ela seria levada embora para os céus assim que a guerra terminasse. O Rei aceitou, porém, rápido como um camelo especial de corrida das dunas do leste, ordenou secretamente aos seus criados que amarrassem os pés da princesa com maciças correntes à mais pesada rocha que encontrassem no reino.

Dito e feito, ao retornar para casa, Mücahit deparou-se com a própria filha flutuando acima da rocha, como se fosse uma pandorga (ou pipa, ou papagaio, depende da região do Brasil na qual encontra-se o leitor). O mensageiro dos Deuses, enfurecido, amaldiçoou o Rei pela trapaça: jogou nele um feitiço que fadava Mücahit a ser vítima de um pesado dilema todos os dias pela manhã. Ao acordar, ele deveria decidir entre coisas horríveis, como ter que comer um prato de cocô humano ou passar um mês cego por dores de cabeça fortíssimas. Andar pela rua nu com um espanador de pó enfiado na bunda ou perder os polegares opositores. Ser perseguido por uma assombração da sua falecida avó durante a noite ou passar o dia se comunicando apenas por estalar de dedos. E assim por diante. Mücahit sentiu o peso das piores decisões que poderiam ser feitas por um ser humano até o fim da sua vida.

Assim como Hugh Everett III, físico estadunidense e um dos primeiros a propor a hipótese dos Muitos Mundos, há os que acreditem que cada decisão feita por nós implica na imediata criação de um universo novo e o abandono de outro que segue por um caminho diferente. Ter amarrado primeiro o cadarço do sapato esquerdo e depois o do direito hoje pela manhã, por exemplo, desencadeou uma série de eventos que transformaram não apenas a mim em uma pessoa completamente diferente, mas também o universo inteiro em uma coisa nova. Por outro lado, há os que não vêem nenhuma consequência maior em trocar a ordem de cadarços amarrados, e inclusive riem por dentro ao imaginar que universos paralelos criem-se apenas pelo fato de rirem-se por dentro. O ato de escolher entre uma visão ou outra acerca deste dilema cósmico chama-se “dualismo”.

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Postulado de Mücahit: todas as questões humanas baseiam-se em dualismos. É fácil citar alguns. Há quem acredite que a psicologia do homem explique a sua história, e há os que acreditem que é a história que explica a psicologia do homem. “O homem nasce mau e a sociedade o molda como bom” teria dito Hobbes, certo dia. “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe” teria postado Rosseau logo abaixo, no facebook, gerando uma discussão de internet que dura até hoje, e que sempre permeia-se por dualismos: certo ou errado, culpado ou inocente, vivo ou morto, pular, pedir ajuda das cartas ou dos universitários: mesmo decisões que envolvam mais do que duas alternativas baseiam-se, no frigir dos ovos, em um dualismo encerrado entre a escolha de uma alternativa versus alguma outra alternativa.

Mr. Nobody2Por isso, todo o processo de decisão, por mais abrangente que seja, não passa de um choque entre o “um” e o “outro”. É mais ou menos a lógica por trás do código binário, ou do ying e yang, ou do masculino de do feminino. É errado dizer que sejam opostos. Faz muito mais sentido pressupor uma relação de complemento entre as duas partes de tais dualismos, já que o “um” só passa a existir a partir do momento em que há um “outro”.

Em Mr. Nobody o protagonista, Nemo Nobody, possui o privilégio (ou maldição) de não se limitar a ter uma vida definida pelas escolhas que faz. Em sua percepção “ultra-humana”, ele consegue contemplar a própria vida de todas as maneiras que ela poderia ter sido – as ramificações que partem, por exemplo, da mulher que decide ter como companheira. Enquanto os humanos, em sua eterna danação, remoem tudo que não fizeram e que portanto, não adicionaram para suas próprias histórias, Mr. Nobody assiste a todas as possibilidades, como se jogasse um video-game com várias timelines diferentes. Um estado contemplativo pelo qual observaria-se uma realidade desprendida de tempo ou espaço é algo sugerido por práticas como a viagem astral ou mesmo incentivada através de sonhos lúcidos, nos quais a pessoa vê o que seu inconsciente a ela apresenta como orientação para os próximos passos de sua vida. Mas um estado como o de Mr. Nobody – uma espécie de Demônio de Laplace de sua própria vida, acarretaria no mínimo um tempo infinito, para que todos o universos fossem observados e todas as observações de universos sendo observados também pudessem ser vistas, e assim por diante. Luis Borges descreve esse momento ourobólico em “O Aleph”:

(…) vi a noite e o dia contemporâneo, vi um poente em Querétaro que parecia refletir a cor de uma rosa em Bengala, vi meu dormitório sem ninguém, vi num gabinete de Alkmaar um globo terrestre entre dois espelhos que o multiplicam indefinidamente, vi cavalos de crinas redemoinhadas numa praia do mar Cáspio, na aurora, vi a delicada ossatura de uma mão, vi os sobreviventes de uma batalha enviando cartões-postais, vi numa vitrina de Mirzapur um baralho espanhol, vi as sombras oblíquas de algumas samambaias no chão de uma estufa, vi tigres, êmbolos, bisões, marulhos e exércitos, vi todas as formigas que existem na terra, vi um astrolábio persa, vi numa gaveta da escrivaninha (e a letra me fez tremer) cartas obscenas, inacreditáveis, precisas, que Beatriz dirigira a Carlos Argentino, vi um adorado monumento em La Chacarita, vi a relíquia atroz do que deliciosamente fora Beatriz Viterbo, vi a circulação de meu escuro sangue, vi a engrenagem do amor e a modificação da morte, vi o Aleph, de todos os pontos, vi no Aleph a terra, e na terra outra vez o Aleph, e no Aleph a terra, vi meu rosto e minhas vísceras, vi teu rosto e senti vertigem e chorei, porque meus olhos haviam visto esse objeto secreto e conjetura) cujo nome usurpam os homens, mas que nenhum homem olhou: o inconcebível universo.

Senti infinita veneração, infinita lástima.

Lidar ou não lidar com a hipótese dos universos paralelos por si só já é uma constatação de que, em algum universo paralelo, você terá feito a decisão oposta da que fez nesse em relação ao assunto. Em algum universo paralelo, suas decisões terão sido outras, seus projetos terão tomado outras formas e suas dúvidas terão recebido outras respostas. Por mais que seja possível um breve vislumbre daquilo que poderia ter sido, seja através de alguma ferramenta de gestão projetual ou de um baralho de Tarot, o que ele seria, de fato, jamais será revelado.

O paradoxo da escolha nos leva ao momento icônico em Matrix, no qual Neo encontra o Arquiteto, o criador da simulação toda. Ele revela que Mr. Anderson, “O Escolhido”, não passa de mais um Escolhido das várias Matrix que já existiram, uma espécie de “bug” inerente ao programa. A epifania, no caso, é descobrir que até então o personagem caracterizado por ser único no mundo, diferente dos demais seres humanos, não passa de uma nova versão de si mesmo, em uma versão diferente de um universo no qual ele veio a calhar de ser o escolhido, e que deverá percorrer o mesmo caminho dos outros escolhidos. O abismo absurdista no qual caímos, perante essa revelação, é a condição de que não importa o que seja feito, de nada significa perante os outros universos nos quais as decisões difíceis seriam tomadas por alguém com mais disposição ou preparo para sofrer as consequências.

tEntretanto, precisamos tomar decisões difícies a todo momento.

No fim, revela-se que Matrix é, portanto, a história do Escolhido que decide quebrar o paradoxo da escolha, desenvolvendo a habilidade de salvar Trinity e também de salvar Zion – o dualismo imposto pelo Arquiteto a Neo antes dele sair da sala. O que é muito bonito, mas falha ao voltar-se ao próprio escopo, já que o dualismo não foi quebrado. Neo não teve que escolher entre salvar sua amada ou a humanidade, e sim escolher entre salvar os dois ou apenas um deles – novamente, o “um” versus o “outro”. Já não é mais uma questão de escolha e sim de poder: o personagem não desenvolve a habilidade de se livrar dos dualismos, ele apenas fica poderoso o suficiente para optar por dualismos hierarquicamente mais complexos. Está mais para o Batman estragando a piada do Coringa em O Cavaleiro das Trevas do que para um Mr. Nobody capaz de comer pipoca enquanto assiste infinitas Zions serem destruídas.

Se um astronauta por ventura conseguir viajar entre dois universos, cria-se outro paradoxo: mesmo considerando já a possibilidade de infinitos universos, logo no ato da viagem cria-se mais um, já que o astronauta teria decidido viajar para o universo X em vez do Y – e, em um universo paralelo, ele poderia ter escolhido qualquer outro, menos o X. Isso nos joga a ideia de que a cada viagem, um universo se cria por causa da decisão da viagem para um novo universo, e assim por diante. O conceito de ter um universo novo somado ao infinito a partir de cada dualismo enfrentado chega, novamente, a ser absurdo: com base em infinitas possibilidades, o que tomar como ponto de partida em cada decisão da vida?

labiritnosO pesadelo encontra-se não nos infinitos universos, mas sim no momento em que nos tornamos cientes dessa possibilidade: retornando ao ponto inicial da discussão, mesmo que sejam infinitos os universos, o dualismo é o mesmo. Há o “um”, no qual estamos agora, lendo esse texto, e o “outro”, que são todos os demais nos quais não estamos. Há um enorme poder contido na palavra “outro”. Partindo de um ponto de vista filosófico, ela está presente como a solução e a causa de qualquer problema – ou “dualismo”, em um eterno simulacro no qual a única saída seria procurar no “outro” a resposta – mesmo isso tornando-o “um”, e não há “um” se não houver o “outro”.

 

Notas:

* Essa lenda não existe, tá, galera.

2 respostas

  1. Milena Corrêa disse:

    Belo post feito para fazer nós a refletir sobre o efeito que nossas decisões tem no nosso futuro. Mostra que um simples ‘sim’ ou ‘não’, é capaz de mudar todo o seu futuro, por mais que, seja apenas palavras de simples compreensão. É mais complicado do que se parecerem tomar decisões, talvez saberemos a resposta para fazer uma escolha, mas não saberemos a qual caminho ela nos irá levar no futuro. A vida é imprevisível, a todo momento está mudando, por conta de decisões ou atos simples feito no dia-a-dia. Antes de tomar decisões é importante nós pensarmos nas consequências que isso vai nos dar no futuro. Se tomamos a decisão 1, entraremos em um universo paralelo, mas a curiosidade é como será que o universo que entraríamos se escolhêssemos a decisão 2?
    Irei assistir o Mr. Nobody, me parece ser um belo filme para se indagar sobre o poder do dualismo.

  2. Larissa Bentes disse:

    Genial esse texto.
    Me lembrou Douglas Adams no “The Hitchhiker’s Guide to the Galaxy” – “Há uma teoria que indica que se alguém descobrir exatamente para que e porque o universo está aqui, o mesmo desaparecerá e será substituído imediatamente por algo ainda mais bizarro e inexplicável… Há uma outra teoria que indica que isto já aconteceu.”

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