A conquista do irremediável ou por que ser é o que se perde

* fotografias de Saul Leiter (1923-2013).

Dirão que os males são grandes e em grande número, em comparação dos bens: enganam-se. [...] Creio que seriam poucas as pessoas que não ficariam contentes no artigo da morte de reganhar a vida, com a condição de tornar a passar pelo mesmo valor dos bens e dos males, contanto que sobretudo não fosse de modo algum da mesma espécie: contentar-se-iam em variar, sem exigir uma condição melhor do que aquela que tiveram.
LeibnizTeodicéia, parte I, § 13.

Como pode haver um cotidiano que se repete se, para percebê-lo, algo deve deixar de se repetir? Havia algo ali, agora não há mais, e somente isso é o que se repete. A importância do que surge ou do que ainda permanece é tributária ao que se foi, àquilo que por mera distração escapou da vista, que se prestássemos um pouco de atenção não continuaria ali sendo arrastado como parte indiferente do cotidiano. Constata-se não apenas que as coisas mudam e nem notamos, mas também que perceber a mudança não muda o imutável fato de que as coisas mudam. Contraditório sim, mas de que lado está a contradição? Numa paisagem que se apresenta alheia à própria noção de duração ou no homem que vê sua expectativa de permanência sendo frustrada?

O primeiro acidente, o primeiro beijo, aquela rua, aquele pátio e os cada vez mais numerosos registros parecem uma contradição sem fim. Como estas palavras que saltam de meus dedos dizendo o que não faço ideia em algum outro lado da tela. Mais um lado, mais uma história, mais uma pessoa. Qualquer outro lugar a qualquer instante, pois o que permanece não é a palavra escrita, o rosto congelado na foto, o pensamento dito ou não dito. O que permanece é o sentido incerto, na redundância simbólica das mesmas narrativas, das velhas respostas para novas perguntas. Um segundo para durar uma vida inteira e nenhum segundo a mais.

Paradoxo da existência é ser insignificante em si mesma (fruto do acaso, do encontro fortuito, sem necessidade alguma) e para com o entorno existente (infinidade do espaço e do tempo). Se comparada a tudo o que já existiu e ainda está para existir, qualquer coisa que existe aqui e agora é infinitamente pequena e desprezível. Desde Parmênides a situação de existir é tida como intratável por não pertencer nem ao registro do que é (existir não consiste em já-ser o que nunca se deixou de ser) nem ao registro do que não é (existir não é o mesmo que nada).

Em suma, existe-se para deixar de existir. A ordem do tempo e da morte, que faz da realidade humana um presente já póstumo, precede a possibilidade de complacência e adesão à vida. Não se trata de pessimismo ou ceticismo, é antes o sentimento de uma presença ínfima, impossível e irremediável, que exclui de si mesma toda ideia de duração. Seguir em frente e pensar noutra coisa é analgésico; contra o fim definitivo não se pode contar com nada nem ninguém. Mesmo Deus, que nos promete uma vida eterna, nunca interferiu em tal sina: se minha alma é eterna entre outras tantas almas eternas, há apenas uma variação de escala, não de proporção – ou, nos termos de Pascal, o mais e o menos são indiscerníveis no infinito.

De fato não há nada de melhor a ser exigido, conforme enuncia Leibniz na citação inicial – com o adendo de que, discordando dele, creio que qualquer ligeira variação (outro mundo, outro universo) seria tão vã e inútil quanto o apelo a Deus. A promessa religiosa de um mundo mirífico para os virtuosos é invertida pelo demônio nietzschiano, que nos convida a viver neste mundo de dores e alegrias passageiras em que já vivemos. Eterno retorno da única coisa que nunca deixou de existir neste mundo ou em qualquer outro (im)possível: a mudança, a diferença, a perda.

Se o tempo que se esvai é a única coisa que de fato temos, então ser é aquilo que se perde. Um pensamento foge, um sentimento fica para trás e insistimos em continuar assim, perdendo literalmente tempo, sem haver nisso efetiva utilidade, necessidade ou benefício. Mas saber que cada instante é o último numa vida que cedo ou tarde termina não implica necessariamente desespero, desapego ou indiferença. Pensar no trágico, por um momento que seja, afeta menos a natureza das coisas do que a natureza afetiva de nossa relação com o mundo, intensificando-a.

Daquele que vive assim, vão-se desprendendo constantemente, uma depois da outra, todas as coisas que não fazem parte de uma tal vida: sem ódio nem má vontade ele vê hoje isto, amanhã aquilo, despedirem-se dele, iguais às folhas amareladas que cada ventinho mais ligeiro leva embora da árvore: ou nem sequer vê que se despedem, tão rigorosamente olha seu olho em direção a seu alvo e em geral para a frente, e não para os lados, para trás, para baixo. “Nosso fazer deve determinar o que deixamos – ao fazermos, deixamos” – assim me agrada, assim soa meu placitum [princípio].
Nietszche, A gaia ciência, Livro IV, § 304.

Ocorre que às sombras de uma consolidada tradição prometeica, calcada na ideia de “projeto” enquanto antecipação previdente e provedora de ações que possam moldar o futuro a partir de um modelo abstrato, a experiência trágica da perda aparece como inconveniente a ser superado. A mudança que fatalmente deriva da perda é então antecipada para substituir uma perda em potencial; age-se apenas porque se deveria ter agido de outro modo, como indulgência emulada e insuficiente, como remorso que Nietzsche qualifica como vício.

Segundo Hesíodo, Zeus condenou os homens pelo furto do fogo divino pedindo a Hefesto que forjasse a primeira mulher humana: Pandora. De Afrodite ela recebeu beleza e encanto, com Hermes aprendeu a trair e a mentir; fez-se a mazela que alegra os homens cercando de amor a dor que sentem. Ao abrir o jarro proibido contendo todos os males, só não deixou escapar Élpis, traduzida por esperança, espera de alguma coisa, expectação. Pandora não apenas velou ao homem a capacidade de conhecer previamente, de saber antecipadamente o que está por vir, mas antes conferiu à esperança a qualidade de ilusão, de consolo ao inconsolável. Da esperança ao projeto permanece pendente a afirmação do provisório, do inconcluso e do transitório. Por isso o projeto existencialista, marxista, crítico, teologia da libertação etc. é expectativa que frustra a si própria, que se converte em passividade, impotência para agir. A escolha mais inerte não é aquela que se abstém do ato, mas aquela que pretende superar a ação perdida, via de regra por meio dos discursos moral, metafísico e histórico que opõem a circunstância singular (perdida e inconveniente) a uma essência geral do verdadeiro, do bem, do justo etc.

Freud define recalque como efeito não de uma má reação diante de uma situação psicologicamente traumatizante, e sim de uma ausência de reação. Do mesmo modo, Nietzsche define o ressentimento não como mero rancor acerca do real, mas como impotência do rancor em se constituir em ato, como incapacidade do odiento em odiar propriamente, isto é, em dar a seu ódio uma expressão ou uma existência qualquer. É assim que a esperança permanece no jarro de Pandora sob a forma de remorso: não tanto por esperar o que nunca chega e mais por não conseguir fazer nada com isso e, na falta de coisa melhor, continuar esperando. Vício que se alimenta da traição e renúncia para consigo mesmo, da melancolia de não poder ousar assumir-se integralmente.

Bem diferente é não negar o inconveniente, mas qualquer importância que ele possa ter. Significa contornar a esperança em virtude da adesão ao que se perde pelo simples prazer de ver se repetir, sempre de modo diferente, a perda. O que define a perda é o não comprometimento com a noção de espera, ou seja, essa ideia de um degrau que subimos para a obtenção de um prêmio ou, em caso de desobediência, à recepção de um castigo. Pelo contrário, seu valor reside em fazer falar sobre o que não se pode esperar, reparar ou recuperar; portanto na ressonância do perder e não num significado dado de antemão, passível de ser extraído ou interpretado.

Mas mesmo estando quase certo de que Deus não existe, Eduardo se preocupa habitualmente, e de modo nostálgico, com a ideia de Deus. Deus é a própria essência, enquanto Eduardo [...] jamais encontrou nada de essencial nem em seus amores, nem em seu trabalho, nem em suas ideias. Ele é honesto demais para admitir que encontra o essencial no não essencial, mas é fraco demais para não desejar secretamente o essencial. Ah, senhoras e senhores, como é triste viver quando não se pode levar nada a sério, nada e ninguém! É por isso que Eduardo sente necessidade de Deus, pois somente Deus está livre da obrigação de parecer e pode se contentar em ser; pois só Ele constitui (só Ele, único e não existente) a antítese essencial deste mundo que, quanto menos essencial, tão mais existente é. – Milan Kundera, Risíveis Amores.

Aderir à perda, no entanto, não é o mesmo que desistência. Numa época em que a metafísica foi abandonada e os discursos essencialistas são arquivados como moedas fora de circulação, são muitos os que apregoam obituários antes mesmo de conferir o cadáver: fim da modernidade, diluição das instituições, advento do pós-humano etc. Desistir do que se perde, sobretudo antes de perdê-lo, somente reforça pela via negativa a espera e o desejo de permanência. A premissa é a de que, desistindo, salvaríamos nossa insatisfação acerca da expectativa não sanada substituindo-a por bem-estar, uma dose mínima de rotina e mil regras para a manutenção da sanidade.

Só que não há vontade, razão ou mistério por detrás da perda. Não há o que dela se esperar ou do que nela desistir, há somente uma renúncia a toda exigência de ser para além do que já é. Dela decorre o zelo pelo acaso, o cuidar de si, o desejar incondicionalmente a vida, a compaixão e o amor que prescindem de qualquer necessidade ou justificativa. A um só tempo, a perda afirma a multiplicidade e a singularidade dos modos de existência, oferecendo-nos não mais um caminho “certo” para o que quer que seja, mas uma história que podemos chamar de “nossa”.

Se houvesse uma ética da perda, ela não diria tanto respeito às relações que mantemos uns com os outros e aos princípios que norteiam nossas ações, mas antes ao problema do sentido da vida e de cada existência em particular. O mundo nos é dado e o que importa, sob a perspectiva da perda, é como agimos em relação ao que nos é ofertado: podemos esperar por algo melhor, podemos desistir do que temos/esperamos ter ou, finamente, podemos simplesmente assumir que o mundo esperado e o mundo que temos são um só. Por conseguinte, no caso da última alternativa, percebemos que em última instância não há nada a se perder numa existência passageira e desejada enquanto tal, pois no horizonte de cada perda intensifica-se o desejo pelo que já se tem.

De um lado, a recorrência do perder expressa justamente a falta de razão e finalidade preexistentes para haver existência; de outro, deriva da constatação do trágico, da fatalidade das coisas, a desconfiança para com qualquer expectativa insistente por algo pronto mas distante. Sob este ponto de vista, não querer ficar na “sala de espera” da vida não implica bater no interruptor do waking life e deduzir que tudo não passa de um sonho. Quando se deixa de esperar, o tempo perde o peso da irreversibilidade e a repetição não mais se distingue do que acontece pela primeira vez. A espera assim cede lugar à entrega e o que se perde não mais se opõe ao que permanece.

Por fim, se a contradição não cessa de acentuar-se, é menos por conta de uma imprecisão teórica do que pela precisão de se pensar o que não é pensável: o primeiro e último observatório no qual podemos contemplar nossa própria existência por um instante. A resultante imediata de falar sobre a vida não é senão uma espécie de instrumento óptico que nos faz discernir aquilo que, sem a própria limitação de tal instrumento, talvez não pudéssemos ver sozinhos. Noutras palavras, sem contradição qualquer enunciado sobre a vida é mudo, e se ainda podemos falar e ouvir alguma coisa é porque jaz em nós uma contradição que não cessa de ressoar: a vontade de viver apesar do fim. Fugir do descanso e do sono, assaltar o próprio tempo e alimentar um grande e irremediável engano de permanência. Correr, tropeçar, amar e segurar o choro. Para não perder de vista o olhar reconfortante de alguém, de uma divindade.

Os séculos desfilavam num turbilhão e, não obstante, porque os olhos do delírio são outros, eu via tudo o que passava diante de mim – flagelos e delícias –, desde essa coisa que se chama glória até essa outra que se chama miséria, e via o amor multiplicando a miséria, e via a miséria agravando a debilidade. Aí vinham a cobiça que devora, a cólera que inflama, a inveja que baba, e a enxada e a pena, úmidas de suor, e a ambição, a fome, a vaidade, a melancolia, a riqueza, o amor, e todos agitavam o homem, como um chocalho, até destruí-lo, como um farrapo. Eram as formas várias de um mal, que ora mordia a víscera, ora mordia o pensamento, e passeava eternamente as suas vestes de arlequim, em derredor da espécie humana. A dor cedia alguma vez, mas cedia à indiferença, que era um sono sem sonhos, ou ao prazer, que era uma dor bastarda. Então o homem, flagelado e rebelde, corria diante da fatalidade das coisas, atrás de uma figura nebulosa e esquiva, feita de retalhos, um retalho de impalpável, outro de improvável, outro de invisível, cosidos todos a ponto precário, com a agulha da imaginação; e essa figura – nada menos que a quimera da felicidade – ou lhe fugia perpetuamente, ou deixava-se apanhar pela fralda, e o homem a cingia ao peito, e então ela ria, como um escárnio, e sumia-se, como uma ilusão.
Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas, Capítulo VIII: O Delírio.

La Jetée | Chris Marker (1962)

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