A Divina Burguesia do Proletariado

neoliberalismoPartindo-se da Revolução Industrial , em meados do século XVIII, a utilização de tecnologias vem, progressivamente, acelerando e aprimorando os modos de produção de bens e serviços, mobilidade e comunicações, em todo o planeta. No decorrer desse tempo, iniciado por volta de 1760, a população mundial saltou de um bilhão para aproximadamente sete bilhões de habitantes, interligados mundialmente. Esse cenário provocou uma busca incessante por alimentos, fontes de energia e matérias primas diversas, e posteriormente, por mercados que pudessem absorver a escala industrial de produção, decorrente dessa nova realidade. Corporações locais ampliaram seu escopo de atuação, transnacionalizando-se, modificando substancialmente a cultura e o meio ambiente, através de um poder estrutural jamais conhecido e nunca antes tão concentrado, no decorrer da história do Homem sobre a face da Terra. Dessa forma, a dinâmica de ações correlatas a este poder estrutural, passou a causar, simultaneamente, benefícios, para um grupo cada vez menor de pessoas, e um ônus desproporcional, a um número cada vez maior de individuos.

Isso se deve à percepção de que o capitalismo, mormente a partir dos anos 80 do século passado, acentuou uma dinâmica de concentração, operacionalizada através de fusões e aquisições corporativas, que tiveram como efeito colateral mais perverso, o aumento da massa de profissionais disponível para contratação. Não seria impertinente referenciar o tal “exército de reserva” idealizado por Karl Marx, para fundamentar a questão. A proletarização das relações de trabalho também foi exteriorizada através da transferência de pequenos e médios negócios a grupos de maior porte, tornando os antigos proprietários daqueles empreendimentos, empregados da corporação maior, muitas vezes sem grande autonomia decisória, em face da deslegitimação enquanto gestores perante uma nova realidade empresarial.

zygmunt-bauman

Em caráter subjacente, as relações de trabalho se desgastam em um campo fluido, desregulamentado, onde as rotinas de desligamento e recolocação de mão de obra ganham em magnitude e velocidade, conforme os imperativos de mercado assim exijam. Como pano de fundo, observamos uma sociedade resignada face a esse contexto, validando um conjunto de fatores francamente desfavorável às suas pretensões de vida e carreira mais elevadas, considerando, com certa tolerância, que estas ainda se mantenham longe do alcance subliminar, determinado pelas grandes estruturas de poder. Delimitado o cenário, impõe-se aqui o corte, desviando para o que, de fato, nos parece o mais relevante aspecto, qual seja, a passividade com que a massa trabalhadora e tudo o que decorre de sua abstenção de reagir a um cenário francamente adverso, tem evidenciado, não só como vítima das circunstâncias mas, sobretudo, como cúmplice (inconsciente ?) dessa perversa realidade.

Afinal, por que o individuo, e a sociedade em que o mesmo se insere, não reagem perante o óbvio que lhes afronta as existências ? Quais as raízes da opção do proletário pelo enquadramento sistêmico, construído de maneira claramente desfavorável a si ? Quem sabe a resposta seja única para ambas as questões : Penso, logo, consumo. E se consumo, logo, existo.

No momento em que a concentração percentual de poder e riqueza se potencializa, nas mãos de poucas organizações e pessoas, as religiões assumem papel fundamental na mitigação da percepção dessas disparidades. Deus contribui para que milhares de miseráveis não se revoltem contra alguns privilegiados. Não por acaso, a oxigenada Igreja Católica, através da figura emblemática do Papa Francisco, sai a campo recapturando seu rebanho, dando novo ânimo aos fiéis desiludidos com a visão desalentadora de uma existência absurda, desprovida do que o Mercado dita como relevante . Protestantes, em suas diversas linhas de atuação religiosa também fazem alarde a respeito de fé e prosperidade, não necessariamente nesta ordem. Não é diferente em qualquer outra religião, onde a transcendência é recurso passível de utilização ampla, visando consolar aqueles aos quais a volatilidade neoliberal de capitais relegou a uma condição de penúria e desencanto.

 Aldous-Huxley-Democracia-perfeita-Frase

Em adendo, os instrumentos de controle do capital sobre o ânimo do assalariado, e também sobre o “exército de reserva”, se dão na perspectiva da possibilidade de participação dos mesmos, em um cenário onde o consumo seja possível, ainda que em volume muito inferior ao desejado. Isso faz com que a vitalidade do individuo permaneça em estado operativo, servindo de forma adequada aos interesses dos detentores dos meios de produção. Dessa forma, burguesia e mão de obra permanecem em sintonia, quantos aos propósitos e métodos para se atingir um estado próspero de vida, no qual haja a percepção, por parte do assalariado, das boas intenções de quem concebeu o sistema, ainda que, mesmo em uma análise superficial, as disparidades se mostrem excepcionalmente claras.

comunismo no começo foi a luta de classesDeus, Mercado, Burguesia e Trabalhadores estão em sintonia como nunca antes na história da civilização. A matriz ideológica a respeito do que é certo ou errado, no que tange às relações de trabalho, jamais foi tão bem alinhavada. Sem luta de classes, até mesmo porque, em verdade, proletários almejam galgar degraus até a classe superior, sugestionados por massiva propaganda ideológica e conceitual. Portanto, os dominantes não precisam mais de violência para exercer o controle sobre odominados. Basta que se conceda a estes, certo grau de percepção subliminar de sua relevância para o funcionamento da estrutura, na qual os mesmos, aos poucos, irão também usufruir das benesses do consumo, tornando-se então verdadeiros cidadãos, dentro daquele molde mercantil. Todos adequados, enquadrados em um padrão mundial de bem viver, de acordo com os ditames do mundo corporativo. Menos privilégios e mais igualdade ? Tem, mas acabou. Não importa, estamos acostumados a seguir com migalhas. Nada muda e está de bom tamanho. Marx está morto. Game over.

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