A ética das imagens: o desenho como interação social

A produção de imagens é a produção do mundo simbólico – esse terreno em permanente disputa das figuras que orientam nossa percepção e estruturam nossas experiências. As imagens que criamos todos os dias incidem sobre o campo dos símbolos; tencionam os limites desse campo; alteram sua configuração por meio de articulações, injunções e intervenções – assim, novas representações são permanentemente sobrepostas ao imaginário dos seres. Uma ética deve, portanto, ser observada na produção artística e em todo e qualquer âmbito que demande a fábrica imagética.

É claro que hoje a publicidade protagoniza através da mídia a disputa das consciências, cumprindo o papel que as Artes Visuais exerceram durante vários séculos, com especial ênfase à pintura no XVII (ou à literatura no XIX). Hoje, as imagens televisivas mediam nossas relações sociais – vide o atual processo político. E também aquelas imagens que compartilhamos (ou não) na internet. As imagens que efetivamente o cidadão comum vê são rótulos de produtos – desde o café da manhã, no caminho de casa até o trabalho e no próprio local trabalho: embalagens, letreiros, etiquetas.

Quando há acesso à internet, imagens semelhantes circulam pelos mesmos caminhos através das redes sociais, chegando aos olhares precisamente o que era previsto chegar: os conteúdos giram todos dentro do mesmo repertório visual (para não dizer classe social) de “perfis” de público – perfis que contêm um número cada vez maior de indivíduos.

Isso em relação àquelas imagens com alguma preocupação estética. As demais são notícias: confeccionadas minuciosamente por batalhões de editores, foram atualmente capazes de costurar um estado de exceção no país, um rompimento institucional através da aliança entre mídia corporativa e interesses do grande capital.

As representações que ocupam meu imaginário mobilizam minhas ações porque organizam minha experiência subjetiva: dão sentido a ela. As representações, no entanto, dependem menos das imagens que absorvo do que de minha conduta ética particular diante delas; da permeabilidade de meu ideário em relação àquilo que ouço; da adaptabilidade ou resiliência de minhas opiniões em relação ao que vejo. A atitude crítica mais verdadeira reside na própria escolha de assimilação e leitura das imagens – ou seja, o que influencia diretamente minha conduta está antes na forma por meio da qual eu apreendo a imagem, do que no conteúdo implícito a ela. Até porque as imagens não possuem conteúdo implícito – conteúdos carecem das devidas articulações a fim de serem vocalizados.

As imagens escreverão sempre a ordem do dia de minhas reflexões, atitudes, práticas e opiniões – tudo aquilo que pode influenciar o outro; e é em sua recepção que se encontra a convergência ética. Se compartilho a notícia, onde e como compartilho; se não compartilho; que tipo de conteúdo produzo em minha plataforma da web; a partir de que viés leio as notícias dos jornais; quais fontes consulto antes de publicar, etc. A “expressão artística” é um ordenamento de forças, como dissemos noutro artigo; essas forças ordenadas produzem potência que mobilizam consciências e outras forças quando postas em ação. Mesmo na expressão gratuita e descomprometida – seja um post, um desenho, uma marca, estará presente, e cada vez mais num mundo conectado, uma poderosa dimensão: a política.

O desenho é dupla síntese, conforme apresentamos no vídeo do início: uma síntese formal, e outra conceitual. Enquanto à primeira cumpre emular na linguagem visual as formas aparentes do real (recriando a experiência visual na articulação dos elementos da linguagem); a segunda síntese trata de refletir a intenção das obras, noutros termos, toca efetivamente dizer a que uma obra veio. Em cada pequena atitude, desde um post no twitter até a entrevista para uma vaga de emprego, existe essa contrapartida estética para além da configuração plástica: o conceito que mobiliza a recepção da imagem. Esse conceito é uma mensagem contínua e ininterrupta que envio ao Outro, um mapa que envio mundo.

E essa mensagem está presente em toda minha expressão individual – que reflete e é reflexo do contexto social dos símbolos: nas roupas que visto, na forma como me mostro aos outros, na solução de meus conflitos íntimos e intersubjetivos, como me doo aos amigos, como intervenho nas instituições que frequento; em quais causas me envolvo. Isso tudo não são apenas expansões de minha expressão subjetiva: isso tudo é arte, é interação simbólica com o meio, isso tudo é desenho, isso tudo é design.

GUSTAVOT DIAZ, "Alegoria da classe média brasileira" | Técnica mista sobre Mi-Teintes, 2016

GUSTAVOT DIAZ, “Alegoria da classe média brasileira” | Técnica mista sobre Mi-Teintes, 2016

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