A Imagem do Niilismo

A nossa contemporaneidade abre várias possibilidades para pensar a crise em vários níveis no nosso cotidiano. Contudo, normalmente, fechamos os olhos para o que pode vir a acontecer e deixamos que as coisas aconteçam no seu pormenor, só que em sentido inverso, proclamamos por um sentido que nos forneça certa justiça para o que pode nos acontecer. Há uma passagem da Gramatologia de Jacques Derrida em que ele escreve colocando Hegel como aquele pensador que deu o fim ao livro, isto quer dizer, depois da experiência hegeliana de mundo já não há mais pensadores que possam comentar algo sobre o mundo no que ele “deve ser”. Já que, pensadores conseguintes, como Nietzsche, indica que ao mundo não podemos dizer o que ele é sem cairmos numa falta de sentido àquilo que proclamamos. Precisamente, essa ausência de sentido contrariamente não concerne apenas a nossa contemporaneidade e sim, como atenta Nietzsche, está no interior do pensamento ocidental que criou seus valores a partir de um ideia suprassensível na qual nós forjamos uma imagem pela qual perseguimos para preencher a nossa vida concreta, cheia de indecisões e incertezas. Nietzsche denomina esse modo de ditar normas para esse mundo imaginando um outro além, que invariavelmente decai num fracasso, de Niilismo.

Quanto ao Niilismo, o próprio Nietzsche define da seguinte forma: “Niilismo: falta a finalidade; falta resposta ao ‘para que?’; o que significa niilismo? – que os supremos valores se desvalorizaram”. Ou seja, a culminação desse fenômeno são os supremos valores (a verdade, o bem e o belo) estarem em completa desvalorização, visto que não conseguem colocar conteúdo naquilo que se refere às nossas ações. Claro que, normatizar ações humanas são comuns para frear o ímpeto de cada indivíduo para se ajustar socialmente, o grande problema é essa normatização inserir na nossa vida, no campo privado, onde o “senhor” são nós mesmos e porém temos nossa vida planejada por um algo maior e desconhecido em que nos impele a uma ascese e o corpo se torna o maior âmbito pecaminoso. Assim, outro pensador contemporâneo, Giorgio Agamben, no seu livro Homo Saccer I procura mostrar a partir da divisão grega Bios e Zoé  o paradigma da política contemporânea: o campo de concentração. Resumidamente, ambos correspondem à palavra vida só que cada uma possui significação  própria na pólis grega,  Bios concerne ao lugar em que o estado (o poder soberano) pode interferir para manter os cidadãos numa relação entre si de forma não criar enfrentamentos que prejudiquem a sociedade em si mesmo, Agamben traduz para contemporaneidade a Bios como vida qualificada. Enquanto a Zoé condiz ao privado em que o cidadão controla si mesmo e um poder exterior não lhe dita o que se deve ou não fazer, traduzido como vida nua. O problema é quando o estado (ou um poder soberano) interfere diretamente na Zoé (na vida nua) ditando o que se deve ou não fazer, além do que, se antigamente o lema seria: fazer morrer, deixar viver, agora a política contemporânea inverte: fazer viver, deixar morrer. Com isso, ocorre uma retenção ao humano, altamente controlado, não permitindo que lhe morra, por mais que a situação de vida do indivíduo seja degradante. Toda essa explicação é para ressaltar que essa ausência de sentido não refere apenas as nossas vidas, mas também nas nossas instituições que na elucidação de que nada sustenta as suas leis, por conseguinte, necessita extrapolar as suas atuações, para pura violência, com intuito de implantar a ordem e conseguinte o progresso.

No entanto, o que estou tentando apresentar aqui é o Niilismo e sua imagem contemporânea. Para isso, vamos nos aproximar de um pensador do fim do século passado: Jean Baudrillard. No livro manifesto Simulação e Simulacro, ele reserva o capítulo final para apresentar a condição de niilista, assim ele escreve:

Se ser niilista é estar obcecado pelo modo do desaparecimento, e já não pelo modo de produção, então sou niilista. Destruição, ocultamento, implosão, Fúria des Verschwindes (Fúria do desaparecimento). Transpolítica é a esfera eletiva do modo de desaparecimento (do real, do sentido, da história, do social, do indivíduo). Em rigor, já não é tanto niilismo: no desaparecimento, na forma desértica, aleatória e indiferente, já nem sequer há o pathos, o patético do niilismo – esta energia mítica que constitui ainda a força do niilismo, radicalidade, recusa mítica, antecipação dramática. Já nem sequer é desencantamento, com a tonalidade ela própria encantada, sedutora e nostálgica do desencantamento. É apenas o desaparecimento (p. 199).

Numa interpretação nietzschiana vemos na citação acima um exemplo claro do niilismo ativo em que diante do deserto de valores há uma afirmação pela qual se procura um elevar  que sem denegar o mundo concreto, aceita as intempéries e o acaso sem procurar a qualquer custo um sentido que normatize o incontrolável. Não a toa, cada vez mais o mercado se sustém na imagem para alcançar o outro, o qual não é mais humano, mas uma máquina de consumo em que o seu desejo é direcionado para o excesso que culmina no não controle do indivíduo consigo mesmo e procura um algo exterior para poder apaziguar as suas volições. Só que, entretanto, esse indivíduo permeado pelo excesso do mercado acaba se martirizando, se culpando, caindo numa tentativa de se manter regulado pelas ordens sociais, para sair da anormalidade criado pela próprio movimento da sociedade contemporânea e entrar na normalidade construída pelas setores diversos que encontramos no nosso cotidiano. Só que, justamente nesse predomínio da ausência, do puro deserto, encontramos o Niilismo por todos os lados, por mais que nem sequer saibamos do que se trata realmente, sendo nessa ignorância em que o império da imagem comparece nos controlando e fazendo que nós caiamos num fracasso por fazer da nossa vida um erro que precisa ser consertado.

5 respostas

  1. gustavo disse:

    Baudrillard ENCANTA. Porém, ao adquirirmos um pouco mais de experiência percebemos como tudo o que ele fala é infantil. Acredito que ele sujou, no pior sentido possível, a palavra niilismo; Há uma corja que adora o niilismo dele.

    • Thiago Dantas disse:

      Se ele “sujou” o termo niilismo, talvez seja porque ressaltamos o que não entendemos. Contudo, essa infantilidade de Baudrillard não denuncia a falta de originalidade do seu pensamento, por mais que experimentamos algo além. Porque, ele soube experimentar o que estava a porvir,uma ditadura da imagem, que revertida num simulacro se afasta totalmente da cópia. Já que esta possui uma origem e um fim, quanto ao simulacro já não tem mais um nem outro.

      • No texto “Carnaval/Canibal” de Baudrillard, publicado na antologia “Metamorfoses da cultura contemporânea” (Sulina, 2006), há um trecho que considero pertinente à essa discussão:

        “Após o sacrifício do valor, após o sacrifício da representação, após o sacrifício da realidade, o que caracteriza hoje o Ocidente é o sacrifício deliberado de tudo aquilo em que o ser humano mantém algum valor a seus próprios olhos. (…) Nossa verdade está sempre do lado do desvelamento, da dessublimação, da análise redutora – é a verdade do recalcado – da exibição, da confissão, do desnudamento – nada é verdadeiro se não for dessacralizado, objetivado, despojado de sua aura, arrastado para a cena. Indiferenciação dos valores, mas também indiferença a nós mesmos. Se não podemos pôr em jogo nossa própria morte é porque já estamos mortos. E é esta indiferença e esta abjeção que lançamos aos outros como desafio: o desafio de se aviltar em retorno, de negar seus próprios valores, de desnudar-se, de confessar-se, de admitir – enfim, de responder por um niilismo igual ao nosso” (p. 136).

        É neste sentido que eu entendo o “niilismo baudrillardiano”: quando ele fala de obscenidade, de pornografia, simulação e espetáculo, a tentativa é de evidenciar o fracasso do próprio niilismo, a farsa que põe fim à história. Algo próximo, penso eu, do conceito nietzschiano dos “últimos homens”, isto é, indivíduos “pós-modernos” que rejeitam todos os objetivos mais altos em favor de um valor paradoxal, construído pelo excesso de valor. Ou seja, um mundo em que, em nome de uma vida longa e prazerosa, todos os prazeres são proibidos ou estritamente controlados (fumo, drogas, comida…). Nesse contexto catastrófico, acho que a ideia de Baudrillard pode ser entendida com a imagem de um soldado cercado de inimigos: ele não pode fugir (pois nesse caso será covarde), mas também não pode somente esperar a morte (igualmente, seria um suicida).

        Ele terá de buscar a vida através da indiferença a ela, combinando um forte desejo de viver com uma estranha despreocupação com a morte.

        Aí que entra o niilismo: uma virtualização do real, como se sua fatalidade tivesse se tornado um “blefe” de si mesma. A diferença é que, enquanto Nietzsche assumiria este blefe como afirmação incondicional da vida, parece-me que Baudrillard direciona-se à irreversibilidade de uma catástrofe simbólica, onde o próprio niilismo já substitui todos os valores e, portanto, deixa de ser uma “escolha” para se tornar um destino fatal.

  2. gustavo disse:

    Não consigo levar Baudrillard a sério. Idiossincrático e distímico. Muita denúncia pra pouca filosofia. Adquiriu alguma relevância pois o vocabulário que eles nos trouxe é precisamente o vocabulário que que os distimicos adoram. Agora, entre distimia e produção cultural(bem no geral mesmo) é pra onde eu arrisco apontar meu dedo. Estou sendo presunçoso?

    • Thiago Dantas disse:

      Não está. O Simulação e Simulacro é bem panfletário, eu mesmo qdo li a primeira vez esperava algo mais, porém a crítica q ele faz na ditadura da imagem, promovendo o simulacro ao invés da cópia, já que teria origem e fim, é mto boa. Ou seja, dar pra retirar coisas excelentes de Baudrillard, mas tem os seus limites.

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