A maior dificuldade do cínico é esconder dos outros a própria ideologia. A maior dificuldade do idealista, por outro lado, é continuar expondo o que pensa e jamais deixar transparecer a amargura do próprio cinismo

2711789618_7f6cee3778_oAconteceu: naquela fatídica tarde de outubro, a máquina do tempo apareceu, em meio a relâmpagos e trovoadas, no escritório da equipe de pesquisa e investigação do continuum espaço-tempo. Estupefatos, os cientistas largaram as canetas e pranchetas em cima da mesa e aproximaram-se lentamente do artefato, que ainda fumegava e disparava faíscas de uma antena em seu topo.

No fundo, o evento era esperado. Reza o paradoxo que, se houver alguma maneira de viajar no tempo, basta que esperemos até que um visitante do futuro apareça para nos ensinar a fórmula, visto que as condições tecnológicas serão muito mais avançadas. Perder tempo (!) com isso, hoje, é desnecessário: no futuro, teremos tempo (!!) e recursos para conduzir pesquisas mais eficazes e assim poderemos voltar no tempo (!!!) para ensinar os humanos do passado a viajar no tempo antes (!!!!) e assim ganhar mais tempo (!!!!!) ainda.

Só o que precisávamos era criar um cenário propício: um time de matemáticos e astrofísicos trancados em uma sala, passando dias a fio deduzindo as fórmulas mais avançadas na área. O projeto seria então divulgado por todos os canais, blogs e noticiários do mundo, para ficar registrado na história como um marco com a finalidade de sempre ser lembrado no futuro como destino inicial do primeiro viajante no tempo – para que ele surgisse com a resposta para o “x” das questões então insolúveis. E, quem diria: lá estava, naquela fatídica tarde, saindo da máquina, uma espécie de astronauta, um viajante vestido com roupas especiais nunca antes imaginadas pelos seres do presente, parecendo ter saído do set de filmagem da próxima obra do Terry Gilliam.

“Você… veio do futuro?” perguntou um dos cientistas, pausadamente.

“Sim! Muito prazer, vim direto do ano 2116 para avisá-los de que a pesquisa foi um sucesso… bem, quase um sucesso.”

“Por quê? Daqui cem anos conseguiremos viajar no tempo, qual é o problema?”

“O problema é que a fórmula que vocês começaram a desenvolver aqui, nesta sala, foi pelo caminho certo, sem dúvida. Porém ela contém um erro que faz com que a viagem no tempo seja só de ida – eu não tenho como voltar para a minha época. Por isso, trouxe algumas informações que podem mudar isso: o próximo viajante que chegar aqui conseguirá retornar com sucesso se mudarmos os cálculos a partir de agora!”

12427991345_239226fb2f_oDito e feito, as pesquisas e deduções recomeçaram. O viajante, chamado Jefferson, agora integrava a equipe de cientistas e trabalhava junto com eles (quando sobrava tempo, por entre entrevistas em talk-shows e gravações de comerciais de shampoo anticaspa). Alguns dias depois, no fim de uma longa tarde de discussões, um novo clarão iluminou o escritório: uma segunda máquina do tempo acabara de chegar, soltando faíscas e espalhando fumaça pelo cômodo.

Jefferson saltou a frente de todos, tamanho seu entusiasmo e esperança. A porta se abriu e de dentro da máquina saiu uma bela mulher, com os mesmo trejeitos e cuja a face lembrava vagamente a de Jefferson. Seguiu-se um silêncio. Ela, por fim, perguntou:

“Com licença, aqui vocês estão vendo uma mulher ou um homem?”

“Uma mulher… por que?”

“Oh, céus. Eu sabia. Bem, meu nome é Jefferson, eu vim do futuro para avisá-los de que… a máquina do tempo é um sucesso. Ou quase. Ela tem um defeito: durante a viagem, a reorganização molecular do passageiro sofre uma alteração e ele acaba trocando de gênero quando chega no ano de destino. Nós estávamos 99% certos de que isso iria acontecer, por isso vim aqui alertá-los. Se modificarmos algumas variáveis na fórmula que vocês estão seguindo, podemos corrigir isso. Estão indo pelo caminho certo, sem dúvida. Porém, tem esse pequeno… defeito a ser corrigido”.

De volta à prancheta, agora a equipe contava com o reforço dos dois Jeffersons. Após algumas semanas de cálculos e experimentos, um estrondo abala as estruturas do escritório, enquanto a equipe presencia a chegada de uma terceira cápsula do tempo. O círculo de curiosos cientistas que se formava em volta do artefato dessa vez assistiu a figura decrépita de um ancião cujas barbas denunciavam no mínimo alguns 90 anos de idade saindo pela porta. As batidas da bengala cessaram quando ele decidiu se encolher e berrar:

“MEU DEUS, minhas costas estão me matando. Parece que eu de repente tenho 90 anos?”

“Humm… senhor… você está bem? Quer uma cadeira, um copo d’água, um estetoscópio?”

“Ora, pare de me tratar como um velho! Eu me chamo Jefferson, vim do ano 2116 para avisar que a máquina do tempo funciona quase perfeitamente. Vocês estavam indo pelo caminho certo, mas um pequeno erro de cálculo causa o envelhecimento precoce do passageiro. Isso pode ser corrigido se vocês começarem a considerar algumas variáveis a partir de hoje…”

Um dos cientistas, que até então não havia se pronunciado, irrompeu para dentro do círculo, aos gritos:

“Santos gorgulhos, de novo um erro? Isso não vai acabar nunca?”

Antes que o jovem inconformado conseguisse continuar o manifesto, um novo clarão irrompe pela sala, os trovões abalando sua voz e o vento levantando novamente os jalecos: mais uma máquina do tempo acabara de chegar e, de dentro dela, o que parecia ser uma criatura metade-humano e metade-zebra abria a porta enquanto falava:

“Vai acabar sim, vamos com calma. Vocês estavam indo pelo caminho certo, só precisa incluir algumas variáveis que eu trouxe aqui escritas nesse papel…”

 

***

 

ws“Morangos Silvestres” – Smultronstället, no original sueco, é um filme de 1957 de Ingmar Bergman (famoso também pelo Sétimo Selo, aquela história do cavaleiro medieval que joga xadrez contra a morte). Na história, o professor Isak Borg viaja até a cidade vizinha para receber uma condecoração acadêmica e dá carona para sua nora, que é maravilhosamente sincera e adora falar coisas como “você é um velho azedo e não tem amigos”. Bergman, assim como em seus outros filmes, recheia a narrativa com pesada simbologia e referências a estratos da psique humana e a forma como ela interpreta suas diferentes condições: morte, amor, arrependimento, busca pelo sentido, etc.

https://www.youtube.com/watch?v=9anlOTzIrkM&feature=youtu.be

O filme começa com Isak acordando após um sonho pouco sutil: em uma rua deserta, depara-se com o seu próprio cortejo fúnebre. De uma carruagem, cai um caixão com ele mesmo dentro, e a mensagem revela-se claramente: o professor tem pouco tempo de vida. Está velho, em breve morrerá, e dessa reflexão desencadeia-se uma série de resoluções que o levam a uma pequena saga por meio de diálogos, devaneios, reminiscências e sonhos em torno dessa temática bastante cristã: o arrependimento. Sonhar com a morte pode significar várias coisas, mas o curso dos acontecimentos nos leva a acreditar que Isak sabe que está nos seus últimos dias e logo surgem suas memórias rechaçadas: um amor esquecido, uma traição relevada etc.

O que podemos entender desse sonho/alerta é que ele é um símbolo muito antigo e sempre recorrente. Tal símbolo pode ser descrito como um “invasor”, uma espécie de viajante de outro mundo que sempre sabe mais do que seu interlocutor: contém uma informação valiosa sobre a qual o herói jamais poderia saber, pois a própria natureza da tal informação é a de completa inacessibilidade – pelo menos conscientemente. A cena de abertura de Morangos Silvestres é a seguinte: Isak e seu cão em uma sala (Machado de Assis ficaria feliz em saber que provavelmente serviu de inspiração). O professor, com ar ponderado, escreve em sua agenda ou diário enquanto se apresenta para a audiência:

“Em nossas relações com outras pessoas, nós principalmente discutimos e julgamos o caráter e o comportamento delas. Justamente por isso, eu desisti de todos os relacionamentos ditos ‘próximos’. Isso fez de minha velhice bastante solitária. Minha vida foi repleta de trabalho, e por isso sou grato: começou como uma batalha diária por ter o que comer, e termina como um amor pela ciência. Eu tenho um filho, também doutor, que vive em Lund. Ele é casado há muitos anos, e não tem filhos. Minha velha mãe é ainda viva e bastante ativa, apesar da idade. Minha esposa, Karin está morta há anos. (…) Talvez eu devesse acrescentar que sou um velho pedante e que isso pode ter sido cansativo tanto para mim quanto para aqueles que conviveram comigo.”

Isak se descreve como um autêntico cínico. Chega ao fim da vida como um ermitão, tendo perdido a fé na humanidade e chorando as pitangas porque ninguém aguenta ele e o pedantismo dele. Bergman diz que a ideia para o filme surgiu de uma viagem sua, na qual se imaginou entrando por portas que o levam para momentos específicos da sua infância, que o marcaram. Decidiu, portanto, projetar Isak como um alter-ego e dedicar o filme como uma alegoria para seus próprios arrependimentos e torturas que se auto-infligia no seu envelhecimento.

PORTAO arquétipo do visitante do outro mundo (no caso do filme, o sonho do funeral) é deveras útil. A noção de que iremos morrer não se apaga em nenhum momento, mas, mesmo assim, sonhar com isso desperta  a busca pela redenção. Isak descobre que irá morrer como um ser humano frio e distante e isso começa a mudar o seu cinismo. O afastamento que antes era ostentado com orgulho, como uma conquista merecida, passava a ser temido.

Aqui, a pergunta é: por que Isak precisa ser visitado pelo arquétipo para mudar sua posição como ser social? Dentro da narrativa – da ficção a qual ele mesmo se impôs, a visita do arquétipo passou a ser uma necessidade. Encobrindo-se pelo cinismo, o professor passou, ao mesmo tempo, a implorar pela tal visita. Esse é um gambito junguiano frequente: a carapaça da persona solitária e pedante é invadida pelo ponto fraco, pelas coisas que ele mais jogou para a sombra durante a vida e que agora são os ingredientes para o arrependimento – o ingrediente cristão para estar um passo mais próximo de deus.

O dualismo cinismo versus idealismo evoca muitas parábolas. Se Isak fosse um velho bonachão, cheio de netos e vivesse próximo de seus entes queridos, como seria a visita do arquétipo? Ela certamente aconteceria, porém a persona a ser atingida é outra e, portanto, talvez o confronto com a morte não seja aquilo que a sombra guarda como ponto fraco. No filme, Isak tem um terceiro sonho, no qual aparece perante uma bancada e um avaliador para receber a condecoração acadêmica, mas é humilhado após não conseguir fazer alguns diagnósticos médicos simples. Desta vez, o arquétipo em questão é uma espécie de trickster, que joga contra ele aquilo que ele guardava como mais valioso, a única certeza que tinha de que sua vida não fora em vão. O resultado disso é poderoso. Ter a imagem daquilo que dá significado para a sua vida sendo destruído é um recado ainda mais mortal, e uma das coisas que chama atenção nesse filme de Bergman é a sinceridade com a qual os recados são dados, seja pelos arquétipos, seja pelos personagens.

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Não importa a persona que desenvolvamos, ela está sujeita à visita desses estrangeiros cujo símbolo é justamente aquilo que ela carece. O cínico terá o lado escuro do cinismo jogado contra ele, o idealista terá o peso do próprio idealismo para carregar como punição. Morangos Silvestres é sobre isso, sobre como jamais estaremos imunes à essa visita. A única diferença é que, enquanto o cínico jamais esperaria por ela, muitas vezes é nessa espera que se fundamenta toda a ideologia da sua contraparte. Essa espera se reflete impecavelmente na história do homem, que sempre inclui em seus capítulos a chegada de um messias – Jesus Cristo, Maomé, Buda etc. Sem eles o homem se perde, cai no abismo da perdição e precisa esperar novamente pela invasão desses visitantes, para encaminhar seus passos de acordo com as novas leis e regras, frutos do contato com esse arquétipo.
E é justamente por isso que, muito mais importante do que acreditar ou não acreditar em deuses ou demônios, é estar sempre usando um chapéu bonito para cumprimentá-los quando eles aparecerem virando a próxima esquina.

2 respostas

  1. Maria disse:

    Adorei o texto Boli!

  2. Marcos disse:

    Ótimo texto! Bora aqui conjecturar qual que é o arquétipo visitante do subconsciente coletivo, hm?

    Moloch!

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