A morte do design – parte II

No meu último post, eu anunciei a morte do design, mas não sei se a relação do que falei com esse velório ficou clara. E, de fato, não deveria ter ficado, porque aquilo foi só a sucessão caótica de eventos que nos trouxe até aqui, à trágica morte do design.

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O velório

tumblr_ml4z9aWNIg1rpb7goo1_500Mencionei que era difícil, em minha atuação no dia-a-dia, me denominar um narrador, um articulador simbólico. Isso me levou, então, a pensar que, na verdade, isso que eu faço não é design. Pelo menos, não inteiramente. E não sob essa perspectiva menos pragmática e mais filosófica.

“Para Wittgenstein, a filosofia sempre foi um problema, no Tractatus ele a qualificou como nonsense, pois não haveria lugar algum para as suas proposições (…) na representação última do mundo (…) a filosofia começa quando “a linguagem sai de férias”; no Tractatus, começa quando, depois de chegarmos aos limites derradeiros da ciência natural, caímos no vazio do sem-sentido.”
Arthur Danto, n’A Transfiguração do Lugar-comum

Se Wittgenstein estava (pelo menos um pouquinho) certo, a Filosofia do Design carrega essas mesmas características da filosofia. Poderíamos dizer que, segundo Wittgenstein, estaríamos aqui fazendo conjecturas e proposições que não têm lugar na representação última do mundo. Mas se não nos ligamos à questões factuais, podemos brincar de nonsense e ir ao outro extremo: as questões ontológicas.

As questões ontológicas, no entanto, são muito mais abrangentes, abstratas e genéricas, já que se opõem às questões factuais específicas, que é a preocupação principal: minha atuação enquanto designer no “mercado”. Embora estejamos nos afastando, vamos ver onde isso vai dar.

De maneira até romântica, poderíamos dizer que o design-enquanto-ontologia ou o design-essência não está – citando frouxamente Beccari – apenas no design, mas na condição humana e no olhar subjetivo. Ou seja, 1) não só os designers fazem design e 2) confirmando minhas suspeitas, design não é somente aquilo que eu faço.

Curiosamente, uma questão dessa natureza que me ocorreu enquanto eu lia Existe design?: cheguei à conclusão wittgensteiniana de que a linguagem é fundamentalmente problemática. Para entender onde se localiza aquilo-que-eu-faço no meio desse vasto continuum de Design, algumas convenções linguísticas deveriam ser postas como ground rules. Ainda mais no Design, em que a precisão conceitual e terminológica levou um gaussian blur de 1000 px.

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O luto

tumblr_mhrnkjx64H1r4xd5go1_1280Em uma visão paradoxalmente modernista, eu me convenci de que já exorcizamos o fantasma do Moderno. Apesar de ainda não sabermos como chamar nosso período, – se pós, neo, pan, meta, hiper – o consenso é que já não estamos mais no contexto moderno. Isso, claro, traz consigo uma mudança de paradigma, que é, em linhas gerais, a proposta do Anticast e do Filosofia do Design, ao meu ver.

Se ultrapassamos o modernismo, se ultrapassamos o design por excelência – aquele modernista, funcionalista, invisível, etc – deveríamos nos referir, então, a um pós-design. Criar um manifesto de outra coisa; aí sim eu acho que entendi a existência do Manifesto Antidesign.

Seria, portanto, o momento de estar em luto pelo design. Não é mais possível levar adiante um design apenas como aquele que tivemos há mais de meio século. É necessário criar um ÜberDesign¹. Um ÜberDesign do qual design, o funcionalista, é apenas uma expressão, uma ferramenta. Um ÜberDesign no qual projetar artefatos tenha um sentido mais amplo: como projetar Madonna, projetar nações, dobrar a realidade.

Voltando à crítica de Wittgenstein, estamos, entretanto, em âmbito muito genérico, amplo, ontológico; filosófico. Mas não esqueçam do ouroboros.

A cremação

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Atuar na metafísica vai criar as bases sobre as quais a física e a moral, por exemplo, vão se apoiar. Descartes sabia bem disso, e por isso ele criou e se utilizou da metafísica para criar as bases intelectuais e filosóficas sobre a qual todas as demais áreas de conhecimento iriam atuar; todos recorriam ao cogito ergo sum, mesmo que “inconscientemente”. Até hoje, o fazemos, pois é muito difícil conseguirmos imaginar uma visão de mundo em que o eu não é o centro; é difícil imaginar um tempo em que sequer a palavra eu existia.

tumblr_m07ha1fYKj1qies3ko1_1280Por isso, quando eu vejo alguém falando que metafísica, ontologia, epistemologia – enfim, esses níveis mais amplos e abstratos – são inúteis, eu nem começo uma discussão. A cegueira de olhar o mundo sob um viés exclusivamente pragmático me parece uma atitude parecida com tentar analisar uma pintura a um nariz de distância: você pode ver muitos detalhes, mas não vai entender a pintura.

Além disso, devemos desde já sublinhar que, em nosso entendimento, o último nível da estrutura meta-teórica (“Ontologia do Design”) e o primeiro nível (“Percepção direta de realidades”) parecem se encontrar, se tocar, como se fechassem um círculo. (…) o que nos interessa por ora é ressaltar que o raciocínio descrito nesses dois níveis é praticamente o mesmo, com a diferença de que a preocupação na ontologia é mais geral e, na percepção, mais específica.
Marcos Beccari, em Articulação Simbólica

Ou seja, ao mesmo tempo que Wittgenstein estava certo – a filosofia não tem nenhuma aplicação na representação última do mundo – ela é o que fundamenta toda e qualquer representação última do mundo. E é justamente esse aspecto ourobórico que eu acredito que ÜberDesign possui: sair de preocupações ontológicas e conseguir artefatizar (porque nem todo artefato é material) para fins e percepções específicas.

Para isso, é necessário, cremar o design enquanto o entendemos: o design funcionalisa, invisível, eficiente e eficaz. Ele já está em xeque, estéril, perdido. Ele não atende mais as expectativas do mundo em que vivemos, apesar de reconhecer seu valor e a importância que teve para criar as bases do ÜberDesign.

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¹ Eu só achei que seria divertido fazer um paralelo com Nietzsche, mas pode substituir esse termo como qualquer outra coisa equivalente: design-enquanto-articulação-simbólica, design amplo, design ontológico, design thinking, (…) Mas que fique claro que foi em fins didáticos que apliquei esse termo.

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Pensei em acabar aqui na segunda parte, mas ainda há algo a ser dito.

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