A náusea nossa de cada dia

12079602_934021586651851_5157236599268697736_nFindava Janeiro, 1932. A Europa, à época, imersa em um cenário de tensão crescente, resultado de sequelas da 1º Guerra Mundial e da Grande Depressão de 1929, é incapaz de encaminhar soluções aos graves problemas políticos e socioeconômicos vigentes. Um desencanto a respeito do modo de vida, produção e consumo capitalistas, alcança uma escala global. Antoine Roquentin, homem de grande conhecimento e viajante contumaz, se encontra em Bouville, com o intuito de escrever a biografia do Marquês de Rollebon, personagem de certa notoriedade, no âmbito da corte de Luiz XVI, Rei de França. Ao iniciar seus trabalhos, rapidamente se desilude por todo aquele enredo, que não é capaz de levá-lo a um estado de imersão na tarefa, tampouco à percepção de alguma relevância em seu empreendimento. Essa constatação acomete Roquentin de uma sensação inédita para si, um mal estar generalizado no qual, de seu ponto de vista, não só o ser humano, mas tudo o que é cognoscível, passa por uma redução de importância relativa, tendendo à completa ausência de significado existencial. O espanto, horror e incerteza, oriundos da observação sobre a insensatez do mundo que se apresenta, e do desencaixe do individuo no mesmo, assumem papel destacado na vida daquele historiador, a partir de então.

Roquentin é tomado de completa inquietação. A despadronização e repulsa do protagonista , em face de suas percepções, conduzem-no por um caminho repleto de angústia, despersonalização, irrealidade. Uma crescente aversão a um universo que oscila ininterruptamente, desaguando em uma questão primordial, de ordem heideggeriana: Por que existe algo em lugar do nada? Afinal, poderia perfeitamente não haver nada. Como perceber-se aprisionado por um cárcere contingencial, sem experimentar um efeito devastador? Encontrar-se perante a gratuidade da existência, de si e do que o cerca, distorce o fundamento sobre o qual Roquentin embasou sua vida. Confrontado com certezas que se esfarelam, à medida que os dias se esgotam, incorpora a náusea, como elemento necessário e insubstituível.

1653520_3780080676257_1346888596_nApreendido o contexto, no qual Sartre ambienta a personagem, em sua obra “A Náusea”, é caso de se perguntar com quantos Roquentin temos nos deparado diuturnamente e, em que momentos se pode materializar esse sentimento que, em diferentes estágios, parece ser passível de generalização. Somos todos Roquentin? Estabelecida a precariedade da condição humana, que mecanismo de busca por uma suposta essência, impulsiona o ser, já confrontado com o tédio, que decorre da inutilidade intrínseca das coisas ao redor? Parece certo que o sentido da existência somente é percebido, quando há uma cadeia de utilidade, na qual entes servem a outros entes, em uma perspectiva finalística que nos preenche de certezas, a respeito do papel a ser desempenhado no todo.

Contudo, em um certo momento, esse encadeamento utilitário acaba por esgotar-se em si mesmo, inexoravelmente. Uma loja serve para vender estantes, que se destinam à guarda de livros, que se prestam ao incremento da intelecção do individuo, que serve à disseminação do conhecimento entre outros individuos, que possibilitarão alguma forma de bem estar à coletividade. Existe seguimento adiante ou esgotou-se a cadeia de utilidade, em um exemplo prático e superficial? Toda utilidade, a partir de certo ponto, é perfeitamente inútil e então, podemos supor que o caminho inteiro também o é? Questões que provocam extremo incômodo, levando a criatura a buscar respostas em idealizações de natureza, leia-se tentativas de formatação de uma possível essência, que possam atenuar o sofrimento, perante a idéia de estar inserido em um constructo absurdo, repleto de contingência.

Na filosofia do ocidente, concepções de conduta moral oferecem caminhos de apaziguamento da angústia decorrente do impasse existencial, descrito acima. Como exemplo, o modo grego e o modo cristão, de maneira efetiva, se ocupam de introjetar no ente, conceitos que o farão assumir a condição determinística do que se convencionou chamar de essência, entendida como elemento formatador de uma conduta social. Para os gregos, a base conceitual era a iniciativa de conhecer-se a si mesmo, e a partir daí, exercer seus melhores talentos. Formulação de um enquadramento cósmico, onde o elemento cumpre uma espécie de função predeterminada. Não há margem cultural, sensível ou inteligivel para questionamentos existenciais. Excetuando-se uns poucos letrados e governantes, ao conjunto da sociedade, despossuído de algum talento, resta o regozijo da conformidade em um Estado excludente, onde tudo o que se impõe é a atividade braçal. A essência precede a existência, o perfil higienista do individuo determina sua função no todo.

Em uma perspectiva cristã, a resposta para a maneira pela qual se pode viver uma vida boa, nos alcança pelo exercício da transcendência. A divindade idealizou, construiu, concretizou o humano, à sua imagem e semelhança, dando-lhes uma missão, após dotar a todos de talentos e consciência deliberativa. Em acréscimo, fornece o consolo metafísico da vida boa, na vida do porvir, visando compensar o desconforto material e espiritual próprio de sociedades de consumo, nas quais, via de regra, o público alvo dos pastores da fé alheia, se mantém à margem do processo. Portanto, o Homem estará na vida, cumprindo a tarefa de materializar os designios de Deus, esperando por recompensas futuras, na perspectiva dualista da eternidade da alma.

foto2Ambas as abordagens evidenciam o predomínio da essência em relação à existência. Em uma, o Homem bom é aquele que exercita o seu melhor talento, afinado com o sistema cósmico no qual está inserido. Em outra, o Homem virtuoso é o que se entrega ao destino, preestabelecido pelo Criador. Subjetividade mitigada, em margem reduzida de reflexão moral e conduta ética, visão oposta à liberdade de escolha . Tudo muito conveniente , ao levarmos em conta o desconforto que a opção por uma terceira via, distanciada das duas escolhas acima, provoca. Ao caminharmos no planeta, à maneira de Sartre, cada instante é um instante de exercer escolhas e isso parece penoso, pois não existe nenhuma idéia precedente de individuo e, portanto, o ato de construir o ser, ocorre de acordo com o que fazemos em uma sequência de condutas, autêntico processo de edificação da existência, em tempo real.

A apreensão do conceito sartreano de “má fé” é componente necessário no contexto acima. Enquadrado em um certo grupo de ineteresse, o agente social passa a negar a possibilidade do “nada”, entendido como o controle potencial que possui sobre seu destino, pois se encontra inscrito em um encadeamento funcional previamente definido. Limita-se como algo rigido, repleto de um nexo de causalidade material, onde o abrigo de uma almejada zona de conforto lhe traz a paz que necessita, para exercer a plenitude de sua mediocridade. É a outorga da respectiva autonomia deliberativa a terceiros. É a diluição da responsabilidade pessoal, haja vista só poder exteriorizar um conjunto restrito de comportamentos, pois contido está em códigos de ética, regulamentos, leis, estatutos e todo o conjunto de normas que socialmente, o delimitam.

Contrapondo os enfoques grego e cristão, Sartre ratifica a concepção de liberdade, definida como aquilo que não é atributo , qualidade ou opção do Homem, como pensava a filosofia clássica. A liberdade é ele mesmo. A subjetividade e a liberdade são idênticas, possibilitando escolhas sobre qual forma de existência se deve perseguir. Todavia, a contrapartida desse liberdade individual é a responsabilidade pelas suas ações, posto que, diferentemente de todo o conjunto da natureza, onde a realidade obedece a um certo roteiro prévio, cabe ao sujeito decidir sobre critérios de conveniência e oportunidade, de forma ininterrupta. Uma liberdade assemelhada a um fardo ético, do qual não se pode desapegar. O ônus de estar livre faz com que busque a diluição de responsabilidades, partilhando com Deus, com o Cosmos, familia, trabalho e outros, a inevitável angústia de existir, só e liberto, em um universo de escolhas a serem feitas, a todo momento.

Em agravo, como “não ser” em um estado atual de imperatividade midiático-mercadológica ? Na contemporaneidade, o Homem é mais determinado do que livre. O controle do mercado, dos meios de comunicação, do ambiente de trabalho provocam uma redução, na prática, das opções de escolha. A liberdade é sentimento destinado a ser, ciclicamente, retirado e reconquistado? O desenvolvimento parece levar, cada vez mais, a imposições, que pesam sobre nós, formando uma teia abrangente e paradoxal, pois o progresso da ciência e das comunicações, ao invés de nos ajudar no processo de libertação, nos escraviza cada vez mais. O que foi pensado a partir do Iluminismo e Revolução Industrial, para possibilitar a qualquer um que fosse o senhor de seu destino, resultou em um paradoxo? Quanto mais pavimentamos o caminho para exercer opções livremente, menos o fazemos, enquadrados em metas inatingíveis de obtenção de felicidade e plenitude.

imagesSartre estabelece que , ao mesmo tempo em que criamos todas as condições de libertação, também criamos toda a teia que nos enlaça e desumaniza. Há um conjunto de fatos que delimitam a nossa situação no mundo , sobre os quais não podemos interferir. A época e o lugar onde nascemos, a familia, a condição econômica, o ambiente politico e ideológico, a escassa permeabilidade entre os estratos sociais, determinam, em parte, a atuação do ente, de modo relevante. Como afirma Durkheim, a sociedade é lógica e cronologicamente anterior ao individuo e, dessa forma, quando aparece no mundo, o mesmo já se acha inserido em um jogo em andamento, com regras, a priori, definidas. E sob estas condições se dará a consecução de uma relativa possibilidade de deliberação. Um exercício permanente de confrontação com aquilo que se apresenta, que resultará em um certo coeficiente de adversidade, parâmetro de ação ou abstenção subjetiva de cada ator social.

A maior ou menor intensidade com que percebo este coeficiente de adversidade , dependerá da maneira pela qual eu atribuo peso aos fatos e pessoas, com as quais me defronto, em um mundo que existe imperativamente diante do individuo. Contra isso não há o que fazer, exceto decidir livremente como interpretar, absorver ou rejeitar, o que vem dele, o que nos alcança. O exercicio libertário se dá no espaço entre o fato objetivo e o sentimento correspondente, considerada a relevância que atribuimos ao mesmo. A história se faz nesse contexto. Um sujeito livre é sempre um sujeito histórico, pois a existência não é noção abstrata ou indeterminada. Cada pessoa é a sua história, e o que o mundo diz dela. Sua existência consiste em expressar o seu interior, a sua subjetividade, de maneira que a resultante de subjetividades, quando confrontada com a resposta que o sistema lhe dá em troca, produza o resultado do que ele é, efetivamente.

12088323_1175628785784583_6720998563191372224_nPortanto, a história nos determina ao mesmo tempo em que a concretizamos, de acordo com Sartre. Há uma tensão entre o sujeito e as condições históricas nas quais ele está inserido. Pensar dialeticamente é aceitar essa condição, aceitar essa oposição como elemento necessariamente constitutivo da história e do individuo. Nesse estado intransponivel de alteridade, o sujeito existe para si e para os outros, sempre simultaneamente. Estar no mundo portanto, é viver nesse regime de intersubjetividade, onde aquele que impacta é simultaneamente impactado, enquanto existir, embora esse contexto não anule a subjetividade, pois é do sujeito a intepretação definitiva do que ocorre com ele.

Obrigatório constatar que não existe uma harmonia necessária, entre a intenção do individuo e a história na qual ela deveria se concretizar. Pelo contrário, o cenário onde a vida se apresenta, na maioria das vezes, deforma nossos propósitos, distorcendo e invertendo a percepção do que nossas intenções produziram. Isso se deve ao fato de jamais agirmos sozinhos, tendo a intersecção de liberdades, nossas e dos demais entes, como elemento impositivo do campo, pois existem diversos projetos existenciais em concorrência e, na maioria das vezes, em conflito. A verdadeira liberdade está na opção de correr os riscos decorrentes das situações, em cenários de incerteza? Assumir esta liberdade na forma do compromisso consciente, ajuda a atenuar os possíveis efeitos negativos da decisão de correr o risco?

A lucidez que decorre da compreensão dos nossos limites é elemento a ser considerado, como resultado de um processo permanente de reavaliação de si e do que se apreende. Ao ignorar essa necessidade, o ser humano se põe em marcha, perseguindo, irrefreável, a sua própria identidade. Precisa ser essência, realização completa. Considera que toda a sua realidade  está na existência mas ainda assim, há algo que o impede de obter um contentamento com isso. Anseia por algo definitivo, que lhe traga algum conforto. Todos as suas aspirações reportam a um indeterminado desejo fundamental, o desejo de “ser” para além da existência, contingência e gratuidade. Ser em si e por si, eternizando-se, por um legado, pela arte. Pretensão de vir a ser a divindade, noção do atemporal e permanente, do absoluto.

A opção é existir, pela busca da “philia”, um arrebatamento perante o mundo, que ainda não foi enquadrado na cadeia de utilidade. Epifania. Para superar o temor de Roquentin, em deparar-se algum dia, quem sabe, com homens de feições animalizadas, produtos de existências idênticas, pasteurizadas. Para não se fundir com todos aqueles que são, confortavelmente, peças de uma engrenagem irrenunciável. Ainda mesmo que a ausência também nos constitua, irrevogavelmente, tanto quanto o que está presente, pois somos realidade e idealidade. Ainda que o Homem seja o vácuo entre a falta e a presença, espaço entre realidade e possibilidade, convergência do que é e do que não é. Contingência, perspectiva, balanceamento. Roquentin está prestes a deixar Bouville. Antes de embarcar no trem, senta-se em um banco e observa, em perspectiva, tudo o que o cerca. Um lago, uma árvore, alguém próximo, idênticas aparências. Na solidão do ente, permanece a busca pela manifestação do ser. Não há diferença, entre a abstenção conveniente de quem se abandona e a natureza que segue seu caminho determinado. A quem foi dada a prerrogativa de optar, o silêncio perante a discricionariedade também é uma escolha. A náusea em mim, a náusea em ti, a náusea em Roquentin. Na ausência, a náusea somos nós….

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