A Regulação da Linguagem

é difícil conviver com os homens, pois é muito difícil calar. sobretudo para um tagarela. p.135.

A passagem acima é um trecho da parte A Redenção do Assim Falou Zaratustra de Nietzsche. Nessa passagem, Zaratustra tenta explicar aos outros o que vem a ser o Eterno Retorno do mesmo, porém ele se frusta  porque os homens querem a qualquer custo a definição daquilo que é apresentado, só que se trata de explicar algo inexplicável, que não há definições. Essa dificuldade dos homens se deve pois, na maioria das vezes, o apresentado a nós é melhor compreendido se for conceituado e não experimentado. Assim acontece com o Eterno Retorno, Zaratustra esforça-se para que os homens entendam que a maior redenção consiste em transformar aquilo que foi num assim eu quis, contudo até mesmo para Zaratustra essa aceitação é difícil, já que o tagarela denunciado acima é ele próprio que saiu da sua caverna e foi aos homens anunciar o além-homem. Nisso principiou a própria decadência.

No fundo, Zaratustra é uma metáfora nietzschiana para o princípio da dicotomia valorativa entre o bem e o mal. E como ele foi o primeiro a estabelecer essa diferença, ele terá de ser o primeiro a superar tal distinção. Só que para realizar tal tarefa o sacrifício do homem tem de acontecer. Nisso aparece o mais difícil, porque já faz anos que o homem começou a acreditar na sua existência e a sua volta formou-se uma camada espessa onde o morrer não é mais permitido e com isso o mundo se tornou fatigável. Em consequência, o homem, ambíguo como ele é, queria viver, porém não nesse mundo, já que diante desse só há sofreguidão, restando a pegunta: o que fazer? Ora, inventaremos um outro mundo que será perfeito, ideal! Aí iniciou nos homens o sofrer com aviltamento, já que tudo que passamos nesse período de vida teria uma razão, um fundamento, e não somente isso, nós como seres de passagem o mundo teria o privilégio de nos mantermos por aqui. Assim, nos afastamos de todos os demais viventes, e o homem pode revogar para si como aquele que subjaz a tudo que possa parecer, pois temos um eu! A crença de um eu é um dos maiores erros humanos, perante a ela formou-se uma cultura que procurou edificar a nossa potencialidade distanciando de toda alteridade, pois se penso é porque há um eu anterior a toda ação do pensamento, o qual quem só conseguem alcançar trata-se de eu mesmo, porque tenho o método em que posso alcançar o meu cogito tácito, e quanto aqueles sem o método, não pode afirmar de maneira peremptória: eu penso!

Quanto às superstições dos lógicos, nunca me cansarei de sublinhar um pequeno fato que esses supersticiosos não admitem de bom grado – a saber, que um pensamento vem quando “ele” quer e não quando “eu” quero; de modo que é um “falseamento” da realidade efetiva de dizer: o sujeito “eu” é a condição do predicado “penso”. Isso pensa: mas que este “isso” seja precisamente o velho e decantado “eu” é, dito de maneira suave, apenas uma suposição, uma afirmação, e certamente não uma “certeza imediata”. E mesmo com “isso pensa” já se foi longe demais; já o “isso” contém uma interpretação do processo, não é a parte do processo mesmo.

Essa passagem de um outro livro de Nietzsche, Além do Bem e do Mal, procura ressaltar justamente essa superstição que nós, modernos, vivemos predizendo a todo bom grado: uma construção lógica só pode ser verificada como verdadeira se o nexo entre o sujeito e o predicado tiver uma referência com aquilo que anuncia. Entretanto, mesmo diante de um eu não podemos sustentar que ele está sugerindo algo no seu enunciado, pois falta a nós uma “certeza” de que aquilo manifestado possa ter alguma prevalência sobre o que já foi ou ainda vai ser, o instante é vazio, não podemos afirmar diante dele nada além do que já foi. Mas, para onde seguiremos se a própria linguagem é a nós cortada? Ao “isso”! Essa pura indeterminação, diante da qual nossas crenças não são fixas, pois qualquer fixidez hoje se tornará amanhã uma ignorância pelo que podemos ser. E dessa forma, se imaginamos uma prevalência da alma perante o corpo, é porque este é a nós desconhecido, não podemos responder o que pode um corpo, visto que responder a isso, é diminuir tudo o que somos: um eterno isso que se conforma à efemeridade.

Ademais, criamos uma imagem para acalmar essa efemeridade: Deus. Entretanto, ele é uma conjectura vazia porque não tem corpo, se tivesse não cairia no sacrifício para imolar o homem, porque todo sacrifício diz respeito à perda de potência. Assim só resta a Deus a pura performatividade emaranhada no falatório dos crentes que vãos imaginam algo além do que eles mesmos. Nesse caminho, podemos utilizar da escrita de Agamben em O Sacramento da Linguagem:

o argumento ontológico diz simplesmente que existe a língua, Deus existe, e o nome Deus é a expressão dessa performance metafísica. Nela, sentido e denotação, essência e existência coincidem, e a existência de Deus e sua essência são uma coisa única e existência. p.66.

Portanto, a concretude de Deus só é possível pelo homem que fala, porém se o homem encontra-se no seu fim, Deus já não é possível como aquele que efetiva, fundamenta, nossa ações, ou seja, o homem, só ele mesmo, no exercício da sua cotidianidade pode ratificar como algo sendo verdade ou não. Contudo, o homem estando preso ao tempo, se revela como finito e qualquer tentativa de escapar disso decai num escapismo fugaz daquilo que ele a cada vez se mostra: um tagarela!

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