A Sociedade do Cansaço : neoliberalismo, hiperconectividade e outras urgências

AAEAAQAAAAAAAAWwAAAAJDA1OTA1ZGRhLTM5MzgtNGIzZC1hYzQ5LTk4N2RjNzk4ZDM2NASim, passou rápido. No dia seis de agosto de 1991, Tim Berners-Lee, físico e pesquisador britânico do CERN, organização européia para pesquisa nuclear, sediada na Suiça, apresentou a idéia de World Wide Web, em vários grupos de discussão científica. Era a gênese da internet como a conhecemos hoje. Contrariamente à visão radical de negócio, típica do modelo econômico largamente implantado desde meados dos anos 80, do século passado, Berners-Lee abriu mão do direito de patentear, e por conseguinte, comercializar com exclusividade, a sua criação. Dessa forma, seu intuito de capilarizar o produto, através do livre aperfeiçoamento do mesmo, por outros interessados, obteve adesão em larga escala. Hoje, somos aproximadamente 3,2 bilhões de pessoas conectadas, graças ao desprendimento daquele homem, que preferiu legar seu conhecimento ao planeta, sem auferir ganho objetivo algum, além do reconhecimento acadêmico. Nem mesmo o fato da internet ter se tornado um espaço universal de comércio, pareceu fazê-lo mudar de opinião. Contudo, o que viria a seguir é outra história….

Turbinadas pela alavancagem exponencial da revolução microeletrônica, sobretudo naqueles mesmos anos 80 do século XX, as possibilidades de realização de negócios e lucro alçaram as metas da sociedade a um outro patamar. A ciência do marketing é o elemento estruturador dessa nova condição, legitimado por uma nova idéia de financeirização do mundo e da acumulação de bens e serviços, como componentes imperativos à personalidade individual. O invento de Berners-Lee seria então uma espécie de rodovia pavimentada, pela qual seguiria parte dos anseios de um novo ser humano, perspectivado por um horizonte inédito de oportunidades, jamais imaginado. Após vinte e cinco anos, conectividade, globalização, informação e conhecimento parecem evidenciar um cenário perfeito, onde o Homem é ator de si e de seu próprio destino, satisfazendo seus objetivos e metas, conforme seus critérios de decisão. Não obstante o ganho evidente, qual tem sido o preço a pagar em troca ?

FILOSOFO HANByung Chul Han é professor na Universidade de Berlim. Sul-Coreano, doutor em Filosofia, escreveu “A Sociedade do Cansaço” – Editora Vozes, livro no qual detecta a disfuncionalidade sistêmica pela qual todos passamos, em maior ou menor intensidade, confrontados com o tempo insano e irrefreável do mundo atual. Em sua obra, o autor descreve como a sociedade do século XXI é marcada por doenças neuro-cognitivas, como depressão, stress, TDAH e hiperatividade, originadas internamente no indivíduo, que ocupam o lugar de outras doenças consideradas “antigas”, bacterianas e virais, de origem externa ao mesmo. Grosso modo, a idéia é que estamos em um estado de flagelo autoimposto, motivado por estímulos ligados ao consumo e conectividade. Para ele, perdemos a capacidade de nos isentar do todo, na mesma proporção em que nos afastamos de nossa subjetividade.

Trata-se de uma espécie de “violência positiva”, resultante de um estado de superprodução, super-rendimento e supercomunicação. O contexto laboral dos séculos precedentes , caracterizado por liberdades negativas , como controle, disciplina, enquadramento, padronização e hierarquia, torna-se agora introjetado no ser , representado por conceitos como motivação, iniciativa, proatividade, rendimento. A violência passa a vir de dentro, na necessidade de cada um ser mais criativo, produtivo, empreendedor. Evidente que nos deparamos aqui com o dilema do burrico com a cenoura . Quanto mais caminhamos, mais nos é incentivado caminhar , na busca de metas que permanecem , inexoravelmente, distantes, ou, quando alcançadas, já não valem o esforço despendido, pois é preciso elaborar outras, no intuito de manter o ego em compasso com a roda da virtude. A observação aqui se prende ao fato de que , na história da civilização, as grandes criações humanas, seja na ciência, cultura ou arte, somente terem sido possíveis através de períodos de abstração das coisas do mundo externo, um voltar-se para si, em estado de concentração, reflexão sobre acertos e fracassos, estabelecimento consciente e isento, de prioridades. Mas há tempo ?

BURRO CENOURA

 Todavia, como fazer frente a esses excessos, de informação, comunicação, objetivos e afetos, sem que o conjunto deles nos provoque uma dispersão incapacitante, causadora de desgastes fisicos e mentais graves ? Como aprender a gerenciar os intermináveis estímulos com os quais somos bombardeados diária e ininterruptamente, sem perder conteúdo relevante, que possa nos afetar nos âmbitos profissional e pessoal ? A resposta é simples : Não queremos pausa, pelo contrário, queremos a cenoura lá na frente. Somos absolutos quando de posse de nossos celulares, tablets, notebooks. Visitamos o mundo em um click, nos engajamos em causas que mal sabemos o fundamento, somos ativistas globais em constante atuação, temos opinião formada sobre tudo. Isso nos legitima perante a rede virtul de contatos sociais, embora mal percebamos o estado de submissão voluntária no qual nos inserimos

Conectados e disponíveis , já não existe mais diferença entre trabalho e lazer. Tudo se torna massa disforme, algo que Bauman poderia definir como uma “vida pastosa”, na qual a jornada ininterrupta de 24 horas por 7 dias da semana, transcorre conforme as demandas externas ao feliz proprietário de um dispositivo móvel.john-holcroft2 Há sempre um fazer, um brigar, um assinar, um remeter, um compartilhar, um opinar. A vida está do lado de fora. E não é na contemplação aristotélica do mundo nem nos encontros afetuosos de Espinoza com o real. A condição humana atual é de autossubmissão. Sobre esse cenário. o professor Han afirma em seu livro : “A sociedade do trabalho e a sociedade do desempenho não são sociedades livres. Elas geram novas coerções. A dialética do senhor e escravo não está, em última instância, para aquela sociedade na qual cada um é livre e que seria capaz de também ter tempo livre para o lazer. Leva, ao contrário, a uma sociedade do trabalho, na qual o próprio senhor se transformou num escravo do trabalho. Nessa sociedade coercitiva , cada um carrega consigo seu campo de trabalho. A especificidade desse campo de trabalho é que somos ao mesmo tempo prisioneiro e vigia, vítima e agressor. Assim, acabamos explorando a nós mesmos. Com isso, a exploração é possível mesmo sem senhorio”. Nem Adam Smith imaginaria tamanho comprometimento funcional espontâneo.

Em uma correria para fora de nós mesmos, o presente é um “deixar de ser” como nem o devir de Heráclito, cinco séculos antes de Cristo, poderia imaginar. O problema é que não existe um eu fora de si. O corpo não é uma barreira pela qual se possa atravessar e sim, a própria condição definitiva do humano. Ao nos darmos conta disso, iniciamos uma perseguição visando reencontrar um mundo interno , que já não habita em nós. E da pior maneira possível. Sem a noção de alteridade, a grande rede assume um carater utilitarista de propagação narcísica, de um discurso autorreferente. Sem ouvir o interlocutor, este passa a ser objeto alvo de uma vontade de imposição pela destruição, ao menor sintoma de discordância propositiva. Há tanta informação disponível e tão pouco tempo e espaço para conter o ímpeto reativo, contido em cada um de nós. Cegos de certezas, pontuamos exclamações e textos em caixa alta, para marcar nossas posições , em debates com aspecto de monólogos. Os discordantes podem ser submetidos a um rito sumário de exclusão ou bloqueio, sem maiores remorsos, posto que são descartáveis, como todo o resto. Em seguida, vitoriosos, permanecemos no mesmo lugar sem nos darmos conta da “Vitória de Pirro” conquistada, prontos para um possível novo embate.

Objetos-úteis-Feitos-com-Garfos-VelhosEnquanto isso, seguimos conectados , em prontidão multitarefa, como se a urgência fosse o norte da conduta. Ocorre que se tudo é urgência, não há urgência, mas o corpo perdeu a capacidade de intuir a respeito. Em consequência, depressão, esgotamento, overdose latente de fazer e poder, exigindo mais potência para existir. Segundo o autor, “a autoexploração é mais eficiente do que a exploração do outro, pois caminha de mãos dadas com o sentimento de liberdade” e esta apreensão distorcida da realidade, nos remete a um estado de animalidade atávico, onde um sujeito só pode se reconhecer em meio a um emaranhado de atividades. Dessa forma, infere-se que a capacidade multitarefa é um ganho evolutivo do ser humano, tornando-o melhor adaptado ao mundo que o cerca. Nada mais enganoso. Ser multitarefa é voltar no tempo, diretamente ao Estado de Natureza, definido por Hobbes, onde o cenário de insegurança e incerteza, decorrente da “guerra de todos contra todos”, impõe aos animais a realização de várias atividades simultâneas, visando garantir a sua sobrevivência e a do seu grupo social. Ao alimentar-se, obriga-se também a vigiar a prole, sua propriedade, seu estoque de alimentos. Ao dormir, impõe a si mesmo um sono superficial, para que não seja destruído por predadores enquanto descansa. A analogia com os tempos atuais parece evidente, causando-nos certa surpresa quando nos deparamos com alguém almoçando sem utilizar o celular como garfo.

Nos falta contemplação. Não é possível evoluir se, ao olharmos o mundo diante de nós, também exercermos uma simultaneidade prospectiva em direção ao passado, ao futuro e ao que é imposto pela superoferta mercadológica e profissional. Temos Twitter, Facebook, Instagram, Messenger, Emails, Google+, Telegram, Viber, Pinterest, Whatsapp, Spotify. E agora, temos Pokemon Go. Só não temos paz. Aderimos a todo e qualquer estímulo, autoimpondo-nos novas coerções, visando nos dar a impressão de relevância relativa , em um mundo que nos atropela a cada instante. Cada movimento é, na verdade, uma paralisia na busca de alternâncias, uma acomodação ao que se apresenta como legítimo, trazendo a sensação de que estamos funcionando no “tranco” , de espasmo em espasmo, em busca de causas e verdades provisórias. Quem tem carro velho entende o que é isso.

SMATPHONE

 Byung Chul Han nos deixa , ao final , com a idéia de que não há potência total, não há um permanente e absoluto “yes, we can”, nem tampouco um “poder fazer” ininterrupto e ilimitado. Há um modo de existir baseado em um processo de interrogação permanente, onde o mal estar é tido como uma bifurcação fundamental entre a simples aceitação inercial da vida e a opção por desligar-se de um sistema autoescravizante. Há potência em “não fazer”. Há potência em retroceder, visando a reconexão com o que justifica a existência. Hesitar é preciso. Silenciar é imperativo. Voltemos ao início, para olhar à frente com serenidade. Voltemos ao início, para agradecer.  Obrigado Tim Berners-Lee. Se existe alguma culpa, ela não é sua.

TIM BERNERS LEE

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