A superfície e sua vertigem

Resenha de “O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade” de Vilém Flusser (São Paulo: Annablume, 2008), originalmente publicada na revista Leaf #4.

O que mais me instiga em Flusser é a geralmente enganadora simplicidade com que ele tratava das pautas mais recentes da filosofia da imagem. Um ponto de partida poderia ser: nossa experiência de “realidade” é sempre mediada por nossa própria intenção de in-formar – dar forma e significado a – aquilo que nos aparece. Nesta mediação, a imagem seria uma primeira superfície por onde se integram nossas ideias ao mundo percebido. Mas como a imagem não é suficiente para traduzir nossas ideias em “conceitos”, o homem teria criado o texto como forma de codificar as imagens (que antes codificam o mundo).

Claro que não é tão simples assim: esta foi apenas uma das maneiras que Flusser encontrou para retratar o ocidente – esta civilização que nos acompanha desde o raciocínio platonista e seu batismo cristão – e sua persistente desconfiança iconoclasta que opõe a Verdade (único conceito válido) às imagens (pluralidade de ideias). O interessante é que, além disso, Flusser não ignorou, uma vez inserido numa época de incessante renovação tecnológica, a complexa rede de produção e reprodução de imagens pelos dispositivos informatizados.

É o que ele denominou, inicialmente em sua Filosofia da caixa preta, “imagens técnicas”, isto é, imagens produzidas por aparelhos de codificação textual (baseados em fórmulas matemáticas, químicas, físicas etc.). A característica mais importante é o fato de elas materializarem determinados conceitos prévios que temos em relação ao mundo, precisamente os conceitos que nortearam a construção dos aparelhos que lhes dão forma. Uma fotografia, por exemplo, demonstra precisamente como as teorias da óptica e da fotoquímica estão estruturadas. Do mesmo modo, as imagens produzidas ou reproduzidas por um software gráfico resultam de certos princípios definidos de antemão, como algoritmos baseados em determinados procedimentos fotográficos.

Sobretudo, imagens técnicas possuem coordenadas limitadas: tanto os aparelhos quanto os programas que as produzem necessariamente simplificam os elementos e as regras dos procedimentos nos quais se baseiam, de modo a colocarem-se à disposição de um usuário genérico, preferencialmente leigo. Logo, ao mesmo tempo em que as imagens técnicas materializam conceitos que até então não poderíamos “experimentar” diretamente, elas nos privam das possibilidades não inscritas no aparelho que lhes produz.

Pois bem, até aqui seria fácil inferir que, na exaustiva discussão sobre a influência (balizadora ou limitadora) dos softwares gráficos na prática e na reflexão dos designers, estamos invariavelmente presos a um esquema um tanto traiçoeiro: se o software gráfico não for substituível para o designer, é o designer que se torna um elemento substituível para o software. O que parece escapar a tal dedução é a lógica deleuziana da diferença que somente surge pela repetição, ou seja, a potência criativa que paradoxalmente aparece na homogeneidade e previsibilidade dos resultados.

A própria imagem técnica se instaura na repetição de teorias abstratas, mas ao invés de operar um mero retorno às imagens, ela pretende ser sua substância concreta com a afirmação de que somente a imagem é o concreto. É precisamente neste enunciado que reside a diferença, isto é, na resistência simultânea à ilusão da imagem como substância pura e à ilusão de um mundo “pronto” por trás dela. A potência criativa então aparece como nova forma de se relacionar com o mundo: além de codificarmos nossa experiência, reinventamos as próprias regras de codificação numa superfície onde se repetem os mesmos códigos.

É verdade, entretanto, que persiste certo indício totalitário na ideia de uma “liberdade programada” que tende a direcionar e homogeneizar o fluxo da existência por meio de uma caixa-preta cada vez mais enigmática em suas coordenadas. Mas se fosse só isso, então a arte e a filosofia perderiam força em épocas onde velhas ideias – como liberdade, autonomia, sujeito – são rechaçadas em nome de um “progresso” tecnológico. Felizmente, muitas vezes ocorre o contrário disso; no século XX, em especial, algumas distopias literárias ou filosóficas cumprem o papel de reinventar um futuro em suspenso.

Este me parece ser o esforço de Flusser, sobretudo em seu Universo das imagens técnicas: lembrar-nos de que aquilo que nos espera após a transformação de um paradigma tecnológico nunca é o retorno ao paradigma anterior. Saber disso é condição mínima para emancipação em relação a caixas-pretas que, cedo ou tarde, fornecem respostas para os problemas que elas mesmas colocam. Nosso desafio, portanto, é o de reformular perguntas para toda e qualquer resposta que nos é “tecno-magicamente” apresentada.

Neste sentido, não devemos interpretar os enunciados de Flusser – “computar é igual a compor”, “desocultando os programas por detrás das imagens” – como um apelo para sairmos da superfície das imagens e desconstruirmos os mecanismos que as conduzem. Pelo contrário, trata-se de compreender que a superfície é sempre um “projeto inacabado” cujo significado, porquanto também inacabado, tende a redefinir as coordenadas que lhe definem.

Eis o “elogio da superficialidade” afirmado por Flusser: não uma simples oposição ao processo cego da determinação programática, mas antes a capacidade de intervir neste processo através de sua superfície. Afinal, é somente na superfície que o mundo adquire significado; tudo o que pretende superá-la reduz-se a fórmulas e equações sem sentido.

A questão crucial, por fim, não é mais identificar a parte “codificada” de uma suposta realidade escondida pela imagem técnica, mas finalmente descobrir, nas imagens técnicas, toda uma realidade que, por redefinir tudo aquilo que lhe define, permanece incodificável. A saber, trata-se da realidade inesgotável do design que, para traduzir e reconfigurar a superfície (aparência) das coisas, das ideias e das próprias pessoas, precisa partir do pressuposto de que não há e nunca houve o que quer que seja além dessa superfície.

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Vilém Flusser | 1988 interview about technical revolution

2 respostas

  1. Robert disse:

    Uma das metas de um bom design não é literalmente conceber caixas-pretas estruturalmente complexas com um funcionamento simples? O Google Glass seria talvez uma resposta a altura dessa nova linguagem, no sentido de que opera com uma estrutura e funcionamento complexo?

  2. Ticiana disse:

    Olá!

    Peço licença para entrar :)

    Entrei por ver a imagem da baleia no céu, e sonhei com uma imagem semelhante a esta, curiosamente sonhei …

    Flusser parece ser uma mente interessante.

    Sobre a linguagem, o que sei, ela é uma forma de existência exterior transparente, por não possuir a natureza multiforme e obstrusiva das imagens que se fazem ver pelo sentido, próprios da realidade exterior, mas que nos faz ver algo bem diferente, pura identidade com o si mesmo, só que posto na objetividade.

    Grata

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