A tragédia não existiria sem a comédia, a comédia não existiria sem o riso, o riso não existiria sem o choro e o choro não existiria sem o holerite

watchmenart-rorschachUm exercício filosófico que gosto muito consiste em brincar de inverter a lógica implícita em manchetes de notícias, sejam elas quais forem, buscando manter o sentido original do que é noticiado. Por exemplo, essa publicação de 2010 intitulada “Autoridades nos EUA revelam aumento no número de vigilantes mascarados no país”: por que a notícia não poderia ser “Autoridades nos EUA revelam diminuição no número de não-vigilantes mascarados no país”? Nesse caso, subentende-se que a vigilância mascarada é um fenômeno normal e que, num universo paralelo “X”, todas as pessoas possuem uma identidade secreta acima da lei e praticante da ideia de sair pela rua promovendo o Código de Hamurábi.

Da mesma forma, notícias que trazem informações como “número de prostitutas aumenta” ou “prostituição sobe em tal lugar” poderiam ser reescritas como “demanda por sexo descompromissado aumenta” ou algo tão estóico quanto isso. Obviamente, as notícias não são escritas assim. Elas são elaboradas de forma a zelar, mesmo que por entrelinhas, por um padrão de normalidade. Tal padrão vê-se, portanto, como abalado ou alterado por essas pequenas perturbações que merecem ser chamadas de “notícias”.

O exercício em questão assemelha-se, não por coincidência, à tarefa de um comediante. A questão aqui está em não entender a piada somente como uma leve subversão da realidade: a piada acontece de fato quando a realidade é simplesmente exposta por si mesma, revelando a estranheza ou a esfera trágica daquilo que existe não fora, em algures, mas sim dentro: o assustador vem do interno, conforme Rosset comenta citando Freud em A Lógica do Pior.

Da mesma forma, a proximidade desse exercício filosófico de reconhecer o trágico é comparada também ao ato da comédia por John Morreall no Comic Relief, seu livro de 2012, cujo conteúdo trata-se de um compêndio de teorias psicológicas sobre o humor e o riso humano. Para o acadêmico norte-americano, nada é mais filosófico do que o riso resultante de alguma inversão lógica ou de alguma exposição da realidade absurda. Aqui, em paralelo ao trágico, é necessário ter em mente que o riso e o humor podem ser consideradas atividades filosóficas quando a barreira platônica do sério versus não-sério é desconstruída.

a-republica-plato-editora-atena-812601-MLB20349025347_072015-OEssa barreira, conforme bem explica Morreall, surgiu das ideias que desde A República assombram o pensamento ocidental. O filósofo grego diria, em semelhantes palavras, que na sociedade perfeita, aquela governada por reis-filósofos, a comédia e as piadas seriam banidas, pois tratam-se de expressões de superioridade: o ser humano ri quando se sente acima de outro ser. O riso é, portanto, uma afronta à paz.

Nietzsche parece ter identificado essa presunção grega quando ataca Sócrates, acusando-o como “assassino” da tragédia em prol da moral. Ora, aqui Nietzsche não se refere à tragédia do teatro grego, mas sim a uma primeira concepção da ideia de acaso tão bem apresentada n’A Lógica do Pior: a única palavra genuinamente afirmadora do mundo é rechaçada para que a filosofia possível consiga existir, a filosofia séria, o mundo normal, ordenado. Vem a calhar que, para existir ordem, o desvio humorístico precisa obrigatoriamente ocupar o lugar da desordem e, portanto, ser deixado de lado na concepção civilizada do homem e seus valores.

Por essas e outras que a comédia ficou para trás na civilização ocidental: menosprezada, entendida através da vaga noção da suposta “superioridade” provocadora do riso. Conforme o próprio Morreall comenta:

Infelizmente, no passado, ela [a comédia] sempre foi o proverbial elefante na sala de estar da experiência humana, ignorado pelas ciências sociais, cuja atenção estava focada nos gorilas gêmeos de 400 quilos cada chamados “agressividade” e “depressão”. Ultimamente isso tem mudado, graças ao crescente entendimento ao fato de que deve-se prestar atenção a sentimentos positivos como o humor, que não apenas tornam a vida mais agradável, mas também suportável e compreensível (tradução livre).

"Elephant in the Room", Banksy (2006).

“Elephant in the Room”, Banksy (2006).

O filósofo disserta sobre as várias teorias que surgiram com a finalidade de acrescentar ao propósito do riso objetivos mais nobres e não tão cruéis do que a mera afirmação da superioridade temida por Platão. Morreall resgata os escritos de Aristóteles, que via o riso não como um problema social, mas sim como uma virtude – Eutrapelia é o adjetivo que ele usava para se referir ao bem-aventurado homem que conseguia fazer uma piada de vez em quando. Como afirmaria Schopenhauer, a comédia é a capacidade de detectar discrepâncias. O riso teria um papel libertador, como uma verdadeira explosão perante a constatação do absurdo perante o real. Não necessariamente um sentimento de superioridade se manifestando, mas puramente o baque cognitivo perante o ilógico.

Quanto mais teorias novas surgem para propor uma explicação para o riso, mais a comédia parece ganhar importância na vida do ser humano – como se, caso inexplicável fosse, tal importância desapareceria. Pois justamente o que Rosset propõe no capítulo final d’A Lógica do Pior, embora dito como complexo por seus leitores, é o oposto do que tenta fazer Morreall: o verdadeiro riso, o riso trágico, “engolidor”, é aquele que se basta sem qualquer explicação ou moral envolvida. Sendo a antítese do riso proposto por Morreall – necessário, salvador, o riso “exterminador” de Rosset basta-se por surgir justamente quando não há nada mais para ser salvo:

O riso exterminador significa pois, em última análise, a vitória do caos sobre a aparência da ordem: o reconhecimento do acaso como “verdade” “do que existe”.

Para entender esse dualismo do riso proposto por Rosset, é necessário compreender que o ato de rir, quando acompanhado de uma moral implícita, deixa de ser um ato filosófico, já que carrega um direcionamento, desemboca em uma perspectiva que sugere que aquilo que é alvo do riso pressupõe a existência de uma ordem superior da qual não se deve rir por levar consigo o mesmo paradigma platônico do sério versus o engraçado. A esse ato, Rosset dá o nome de riso largo, ou riso irônico:

Assim o irônico, por exemplo, pode destruir tudo o que lhe compraz destruir, mas com a condição de deixar entender as idéias em nome das quais ele age, os princípios sobre os quais se apóia para proceder a suas execuções: ele poderá fazer aparecer o grotesco, mas em nome do razoável; o escândalo, em nome do tolerável; o não-sentido, em nome de um certo sentido.

O ato destruidor, capaz de superar o paradigma platônico sugerido pelo riso largo, seria o riso curto:

Riso curto, por conseguinte, que não desemboca em nenhuma perspectiva, que rouba sem nada oferecer em troca, e que parecerá freqüentemente ·frívolo e sem alcance: por atacar indiferentemente tudo, sem se dar ao trabalho de organizar seus ataques em sistemas que permitiriam assinalar um certo número de temas atacados e, consequentemente, um certo número de temas defendidos, ele parecerá freqüentemente, a seus contemporâneos mais particularmente centrados em tal ou qual alvo, nada atacar.

CVwCtM8WUAA6armO que é difícil de compreender, talvez se perguntaria o leitor, é: se estamos rindo de algo sem nada atacar, então do que deveríamos não rir? Ou pior, por que estamos sequer rindo? Pois justamente o significado do riso curto, ou do riso não-irônico, é a descrença em territórios seguros nos quais qualquer certeza poderia estar alojada – eis, portanto, a verdadeira evocação do acaso trágico afirmador, acima do platonismo ilusório.

O exemplo que Rosset emprega para explicar melhor o momento do riso trágico é o naufrágio do Titanic. Em uma explicação breve, o acontecimento assinala a distância no tempo para se compreender o efeito engolidor de tal riso: o navio mais resistente do mundo, inafundável, construido pelo maior estaleiro do mundo na época e blindado por dezesseis tanques de estanque de cada lado, compondo um sistema infalível anti-rombos no casco em caso de choque com iceberg, de repente afunda. Cerca de duas horas e trinta minutos foi o tempo que levou para o Titanic deixar de ser o Titanic e virar uma pilha de destroços no fundo do oceano.

Obviamente, da forma como é descrito o fato – e adicionando-se detalhes como o número de mortes ou o sofrimento individual de cada passageiro preso nos níveis inferiores – seria de se horrorizar perante qualquer um que ousasse rir do ocorrido. Entretanto, como poderíamos expressar exatamente o que aconteceu, se não por meio do riso? O riso que dispensa considerações: não é engraçado pelo acidente, mas é engraçado por ter sido um acidente idiota, um acidente que afundou o navio inafundável. Se o exercício filosófico no início do texto pudesse ser usado aqui, imaginemos que muitos jornais da época lamentaram o ocorrido com manchetes como “Afunda, no mar ártico, o navio Titanic”. Ora, de que maneiras poderíamos reescrever, mantendo a notícia? Talvez “Dentre os milhões de navios ao redor do mundo que não afundaram essa noite, não está o Titanic”? “Navio Titanic continua indestrutível, porém agora embaixo d’água”.

Aqui poderia ser erroneamente apontada uma relação do riso exterminador com o propósito cruel do riso como afirmação de superioridade. Entretanto, o riso trágico de Rosset encontra-se muito mais próximo do riso puramente estético defendido por Morreall: este não se baseia em princípios ou em lições a serem aprendidas. Trata-se, pois, de um riso proporcionado por alguma experiência humorística desprovida de racionalidade, desinteressada. O riso trágico se aproxima disso, porém vai além: o observador não ri ao desconstruir sentidos – ri da constatação do sentido.

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Com um extenso histórico de charges antirreligiosas publicadas, o jornal já havia recebido ameaças e inclusive havia também sido processado algumas vezes por organizações muçulmanas. Em 2011, a redação foi vítima de um atentado a bomba.

Um exemplo do mesmo naipe catastrófico do Titanic e mais recente poderia ser o atentado terrorista ao tablóide francês Charlie Hebdo. Muito foi dito e analisado sobre o ocorrido. O objetivo sempre foi reduzir o sentimento de desamparo absurdo que o atentado deixa para quem assiste de longe e precisa explicar a sequência dos fatos pelo viés sugerido pela ideologia X ou pelas estatísticas Y. Dá-se aí a mais variada colorização ao quadro, cujos tons incluem a pesada atmosfera francesa para com as etnias árabes dos suburbios de suas cidades, ou talvez a crescente prática expansionista do Daesh, implacável e sanguinária mesmo para com outros árabes religiosamente próximos. O que muitas explicações fazem, entretanto, é encobrir o fato com essa camada ordenadora ao invés de simplesmente enxergá-lo pelo potencial cômico que ele evoca: um jornal que periodicamente publicava charges e textos de conteúdo humorístico extremamente ofensivo para religiosos e extremistas é atingido em cheio pelo extremismo do qual tanto tirou sarro.

Mais de um ano depois da tragédia, o riso curto demonstra mais uma vez seu potencial distante no tempo de se manifestar quando o vazio do caos ainda permanece. O que aconteceu no Charlie Hebdo não foi somente um ataque terrorista a um jornal francês – foi um ataque terrorista que deixou de acontecer em qualquer outro lugar de Paris naquele dia. Na semana seguinte, o jornal bateu o recorde de exemplares vendidos – tiragens que não ultrapassavam os dez mil exemplares tornaram-se ridículas perto da edição pós-atentado que vendeu quase 3 milhões de cópias. As charges blasfêmias que antes eram vistas por um nicho de retardados de classe média na França agora são famosas no mundo inteiro. O que é cômico não são as mortes ou a violência: o cômico é a constatação de que o extremismo faz de tudo para destruir a si mesmo em seus ardentes eflúvios morais. Não é necessário ensinar uma lição – rir é a maior invocação do silêncio, e o silêncio é a grande lição trágica.

O que ainda devo mencionar para finalizar essa série de exercícios filosóficos é, pasmem, uma citação do comediante brasileiro Danilo Gentilli. Confrontado pelo apresentador Roberto Justus durante uma entrevista, o humorista precisou esclarecer ao público o porquê dele não se sentir ressentido pelas suas piadas, mesmo quando elas eram tão ofensivas ou preconceituosas. “O humorista não deve ser levado a sério”, disse ele. “É o cara que só fala bosta”.

Se há algo que demonstrei aqui, é que a resposta de Gentilli está equivocada antes de sequer conseguir demonstrar seu intuito, já que se vale do mesmíssimo paradigma platônico não-trágico incapaz de produzir o riso curto. Levar ou não levar algo a sério não é a questão, porque a barreira que separa o sério do engraçado é uma ilusão. Se o comediante se esconde atrás da barreira platônica e invoca um mundo ordenado do qual não precisa fazer parte, o que acontece é a total nulificação de incidentes como o de Charlie Hebdo. Mas ele aconteceu, e aconteceu porque o bobo da corte é o único personagem capaz de apontar para o rei e avisar que ele está nu. E o rei sempre está nu – é o que faz dele rei.

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