Uma Abordagem Epistemológica acerca da Filosofia do Design

HfG-Ulm Archive

* artigo originalmente publicado no III Scientiarum Historia – 3º Congresso de História das Ciências e das Técnicas e Epistemologia, HCTE-UFRJ, 2010.

Introdução: Panorama Histórico da Pesquisa em Design

Este trabalho1 propõe uma revisão restrita aos paradigmas epistemológicos existentes na Filosofia do Design. Para tanto, julgamos oportuno levantar brevemente algumas das premissas históricas da Pesquisa em Design que são necessárias para a compreensão daqueles pretendidos paradigmas. Em um contexto onde o discurso moderno imperava na Europa, a form follows function ou funcionalismo foi a doutrina predominante por várias décadas na arquitetura e no design (FONTOURA, 1997). Segundo Cross (2007), a Pesquisa em Design foi inaugurada somente com a primeira Conference on Design Methods, realizada em Londres em 1962. Na tentativa de consolidar a metodologia de Design como disciplina científica, o movimento Design Methods procurava substituir o processo intuitivo, ainda recorrente, pela aplicação de procedimentos puramente científicos e racionais: métodos de pesquisa operacional, técnicas de gestão de tomada de decisão, técnicas de criatividade, etc.

Professores da HfG-Ulm

Se na década de 1960 o lema era estandardização e racionalização, a década de 1970 foi marcada pela rejeição dos métodos científicos de Design (op. cit.). Contudo, a segunda geração de pesquisadores, recorrendo à ética pragmatista da razoabilidade, facilitaram as pesquisas aplicadas e mantiveram o status científico do Design. Isso possibilitou, na década de 1980, um período de sólida concretização da Pesquisa em Design com o surgimento dos primeiros periódicos científicos de Pesquisa em Design2. Contra o pragmatismo do movimento Engineering Design, os italianos do Il Nuovo Design3 pregavam o retorno ao método indutivo por um processo de mudança de paradigma, no sentido dado por Thomas Kuhn, na metodologia do projeto. Tratava-se de um posicionamento crítico e reformista que seguia um caminho distinto do emergente Design Think, uma terceira vertente que buscava estudar o Design por conta própria, isto é, com base na visão de que o Design tem seus próprios objetos de estudo e suas próprias maneiras para conhecê-los.

Memphis Group

É apenas na década de 1990 que, consoante Cross (2007), o Design atingiria a maioridade com uma significativa expansão de congressos e periódicos científicos. Por outro lado, é neste contexto que surge a recorrente Filosofia do Design, um movimento que acusa uma tendência fragmentada de confusão, fusão e multiplicidade na Teoria do Design4.

Filosofia do Design

Adotando a definição de Love (2000) para Filosofia do Design, relacionaremos aqui alguns autores que também se referem a uma Filosofia do Design para compreendermos o seu verdadeiro sentido e os contornos que o Design poderá assumir em decorrência disso. Lembramos que Teoria do Design é a disciplina que investiga Metodologia de Design, Métodos de Design, História do Design, entre outros estudos que atribuem um papel, uma coerência e uma validade ao Design enquanto área de pesquisa (op. cit.). Filosofia do Design, por sua vez, seria uma disciplina à parte que procura investigar a Teoria do Design como sendo seu objeto de estudo, podendo também ser considerada uma meta-teoria (op. cit.).

Terence Love

Esta nova disciplina foi inicialmente proposta por alguns colaboradores do periódico internacional Design Studies. Terence Love (2000) elabora uma abordagem analítica e meta-teórica para a construção de um corpo teórico unificado ao Design. Greg Bamford (2002) retoma o método de Karl Popper de conjectura-análise (indutivo) contra a análise-síntese (dedutivo) predominante no Design. Cornelis J. Baljon (2002) adota a análise meta-histórica de Thomas Kuhn como único meio de produção filosófica no Design. Por fim, Per Galle (2008) propõe um método de desenvolvimento de visões de mundo a partir de bases metafísicas sólidas (intituladas questões sementes).

Aparentemente ignorados por tais pesquisadores, alguns pensadores de áreas externas ao Design (como Filosofia, História e Sociologia) também têm procurado analisar o Design enquanto objeto de estudo, dentre os quais destacamos Vilém Flusser, Jean Baudrillard e Giulio C. Argan. Por meio de um método criticista e apriorístico (kantiano), Flusser (2010) recorre frequentemente à etimologia para eleger o Design como uma ameaça e, simultaneamente, como uma grande oportunidade para o homem do futuro. Sob um viés estruturalista (Barthes), Jean Baudrillard (1973) associa o Design aos objetos de consumo, sendo estes os responsáveis por atribuir valores virtuais que configuram a simulação da realidade. Por fim, o historiador Giulio C. Argan (1994) postula que o Design está em crise por conta da decadência da lógica empírico-modernista, acompanhando a crise da arte, do objeto e da cidade.

Vilém Flusser

No Brasil, Turkienicz et. al. (2009) nos mostra uma crescente produção em Teoria, História e Crítica de Design. Um dos pioneiros da atitude filosófica no contexto nacional da Pesquisa em Design foi o professor Gustavo Amarante Bomfim (1994) ao analisar as disciplinas que fundamentam o Design, estabelecer uma analogia entre Design e as Ciências Clássicas e propor diretrizes para uma genuína Teoria do Design. Atualmente, é possível contemplarmos a produção de Ferrara (2004) sobre epistemologia e semiótica, de Monat et. al. (2008) sobre Design como metaconhecimento, de Calvera (2006) sobre a autonomia da pesquisa em Design, de Gruszynski (2000) que encara o Design como mediação retórica, de Fry (2005) e sua teoria essencialista da necessidade, de Raposo (2006) e suas discussões sobre Design e Ética, a concepção de Mizanzuk (2009) sobre design como função ontológica, a dicotomia sapiens-demens proposta por Pombo et. al. (2005), o conceito de práxis da teoria proposto por Silva (2002), a relação que Arrivabene (2009) estabelece entre Física Quântica e Filosofia Oriental no Design, etc.

Consideração Finais: O Paradigma de uma Filosofia do Design

Foi possível constatar, no que se refere a uma Filosofia do Design, três movimentos distintos: filósofos do design, filósofos de design e filósofos do design no Brasil. O primeiro grupo, referente aos autores da Design Studies, propõe uma abordagem claramente pós-positivista, calcada no pensamento de Karl Popper e Thomas Kuhn, sob uma postura ao mesmo tempo criticista e progressista. Por outro lado, os filósofos de design, aqui representados por Flusser, Baudrillard e Argan, partem de um contexto de caráter estruturalista, criticista e apriorístico, enxergando o Design como um indício para uma suposta crise pós-moderna que, por sua vez, estaria associada a teorias pessimistas contra o utilitarismo e o pragmatismo (vistos como discursos modernos falidos). Por fim, não foi possível identificar uma unidade clara de pensamento no contexto nacional – trata-se de propostas emergentes e não sistematizadas que retomam as mais diversas linhas filosóficas como alternativas à predominância cientificista e pragmatista da Teoria do Design.

Podemos, portanto, concluir que o campo do Design, até então norteado por critérios objetivos e concisos, passou a ser fortemente questionado. Se por um lado isso sublinha um terreno fértil para novas pesquisas, por outro lado corremos o risco de não evoluirmos significativamente caso nossa produção aconteça de maneira unilateral, sem levarmos em consideração pontos de vista distintos. A pretensão universal dos modelos cientificistas e pragmatistas – que de fato são muito eficazes em pesquisas aplicadas – manifesta-se por enunciados que se pretendem autossuficientes. Ora, se encararmos o Design de maneira demasiado regrada e racionalizada, poderemos desprezar o nosso eterno usuário e objeto de estudo: o ser humano. Acreditamos que este seja o verdadeiro papel de uma Filosofia do Design, independente da postura epistemológica que seja adotada: examinar e problematizar o Design sob uma dignidade filosófica, deixando de lado, mesmo que provisoriamente, as tão almejadas soluções projetuais.

Agradecimentos: Ao HCTE-UFRJ por permitir e favorecer este diálogo interdisciplinar, à professora Dra. Stephania Padovani pelas valiosas orientações e ao professor Ricardo Cunha Lima pela inspiração e apoio em minhas pesquisas.

Referências e Notas

1. Recorte procedente de minha pesquisa iniciada no contexto de Mestrado (“Uma abordagem dos Estudos do Imaginário aplicados à Filosofia do Design”, PPG-Design UFPR, 2010).

2. Design Studies (1979), Design Issues (1984) e Research in Engineering Design (1989).

3. Manifestações contemporâneas no campo do design que de alguma forma questionam os métodos tradicionais de concepção de objetos e seus resultados (FONTOURA, 1997). Entre os grupos que iniciaram este movimento e que são genericamente categorizados como pós-modernos estão: o grupo Archizoom (1966-1974), Studio Alchimia (1979) e o grupo Memphis (1981).

4. “Existe uma quantia considerável de confusão com relação à base fundamentadora de diversas teorias, conceitos e métodos. (…) vários autores estão injustificadamente fundindo conceitos elaborados a partir de uma diversidade de fontes (…) [gerando] uma multiplicidade desnecessária de teorias e conceitos de design. (…) [Com isso,] as terminologias de pesquisas de design tornaram-se desnecessárias e inutilmente confusas e imprecisas” (LOVE, 2000, p. 295, tradução nossa).

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