Anatomia: o desenho como “desinvenção”

FÁBIO MAGALHÃES, "Encontro" | óleo sobre tela, 2014

FÁBIO MAGALHÃES, “Encontro” | óleo sobre tela, 2014

A visão de quem pensa a forma – seja o desenhista, o designer, o arquiteto – é aquela que está apta a ver a profundidade presente na superfície. Para o designer, pode ser a resistência dos materiais, a solidez e peso da face dos objetos que projeta; a tridimensão oculta no desenho projetivo – mas é principalmente o uso social e a “articulação simbólica” operada por meio dos objetos. Já para o artista que trabalha o infindável campo de possibilidades da representação – especialmente aqueles que tematizam a figura humana – a Anatomia é o elemento que possibilita a compreensão de uma profundidade “oculta na pele”, presente na própria tessitura do corpo.

Esta visão é carregada de sentido e interesse humanos: por isso é inquiridora, investigativa, crítica. Quando o estudo anatômico entrou em contato com a arte (século XV) fundindo irremissivelmente estes campos – ao analisar, dissecar e devassar as entranhas do ser, revelou o que se encontrava na superfície tangente da forma, alterando a concepção científica e artística daquele período.

A significação de grandes obras artísticas perpassa essa capacidade da visão de tocar outros campos, tornando-se instauradora ao revolucionar o léxico e a gramática da visualidade. Já falei da “síntese” como um poder capaz de combinar soluções formais e conceituais, especialmente na arte do desenho. Apresento agora sua dimensão de “desinvenção”.

Para iniciar este assunto, inicialmente transcrevo o prefácio escrito para a exposição Anatomya, inaugurada hoje (29) pelo Instituto carioca ArtBio, que organiza cerca de 50 artistas de vários países do mundo trabalhando nesta interface entre “Arte” e “Anatomia”. Como dissemos, esta última foi capaz de desinventar as normas convencionadas na representação medieval instituindo um novo regime de operação plástica. Ao reorganizar o espaço compositivo do desenho e alterar a abordagem tradicional da figura, a união à anatomia explorativa redimensionou o campo da figuração.

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Prefácio da mostra virtual inaugurada em 29 de Agosto de 2016 pelo Instituto ArtBio (www.artbiobrasil.org)

Artistas: Ada Dobrzelecka, Alvaro Tapia Hidalgo, Ángeles Agrela, Laurent Millet, Michael Reedy, Nunzio Paci, Pedro Cefas, Bryan Christie, Bonni Reid, Victor Rodriguez, Trent Norman, Andy van Dinh, Santiago Caruso, Walmor Correa, Benedetta Bonichi, Alvaro Sanchez, Angelica Paez, Viktor Safonkin, Annita Rivera, Caitlin Bates, Carine Peynaud, Eduardo Martinez, Eliash Strongowski, Estera Lazowska, FFO, Jana Heidersdorf, Ian Crawley, Julia Geiser, Laura Makabresku, Katy Wiedemann, Kate Lacour, Luis Toledo, Lynn Skordal, Marcel Lisboa, María García Ibañez, Michele Parliament, Miranda Meeks, Paula Braconnot, Paula Morales, Ramon Maiden, Remy Nurse, Richard Russell, Travis Bedel, Yossi Lemel, Fábio Magalhães

A anatomia como recurso tecnológico

Desde o início de sua sistematização científica, a Anatomia apareceu como substância temática na arte, figurando já com Michelangelo (e logo depois com maneiristas e barrocos) como fulcro da representação – ou seja, para além de suporte ou mera ferramenta artística. Na contemporaneidade, a Anatomia apresenta ainda a novidade de funcionar como um objeto de estudo que, impondo seus dispositivos metodológicos, transforma a imagem em um vasto campo de investigação.

Consideremos que uma aproximação deste gênero foi o que estabeleceu as condições da criação artística “realista” no Renascimento – momento em que Medicina e História da Arte se confundiram. A interação entre essas áreas do conhecimento, inclusive condicionou a atuação artística do período na medida em que pautou o aprendizado técnico do artista. Do mesmo modo que, na Grécia clássica, a Ilíada organizava o ensino dos jovens gregos – servindo como tratado de náutica, teologia, política, retórica, etc. – desde as primeiras reuniões de artistas em meados do século XV (até começo do XX), a figura humana vista sob a perspectiva anatômica foi a disciplina que vertebrou o ensino da arte.

Hoje essa interação, que nunca cessou de todo, volta a ressignificar ambos os campos. Se a poiesis pode revelar caminhos ao pensamento científico desaparelhando o tecnicismo, a imagem anatômica, por sua vez é capaz de desencadear uma articulação processual “tecnológica” no interior da prática artística. Um exemplo já aventado desse processo é o telescópio. Quando Galileu Galilei alterou seu uso comum destinado à observação marítima e o apontou para o céu (gesto que iria revolucionar a Ciência), o telescópio passou a demandar novos estudos em Ótica, Física e Astronomia, tornando-se um aglutinado técnico gerador de novas possibilidades científicas. Essa mesma operação de retroalimentação é induzida pelas imagens anatômicas no campo da arte, a qual ressitua a Anatomia, potencializando assim a ambas.

Da ciência, da arte ou do Real?  

A Anatomia equacionou a questão da pertinência, e consiste hoje num repertório híbrido e compartilhado do qual ciência e arte usufruem. Pertence tanto à primeira, que fez dela objeto de estudo possibilitando seu surgimento, quanto à segunda, cuja apropriação tornou possível esse conteúdo que, afinal é indissociável da visualidade. Essa relação de mutualismo abre espaço a todo tipo de questões. Aqui levantamos uma: sua relação com o registro do “Real”.

Certamente não é apenas a dimensão morfológica da Anatomia o que interessa a esses artistas. O domínio orgânico-funcional do corpo está longe de representar sua totalidade. Que corpo está em jogo nestas imagens? Não indicariam a busca por um corpo além do objeto cientifico, um corpo Real, que vai sendo figuralmente tecido através das imagens? A procura cada vez mais constante por esse Real (categoria central de estudos psicanalíticos que se refere a uma dimensão traumática, impermeável à formulação) é sintoma imprescindível para compreensão da produção artística recente[1].

Parte da vertente artística que efetua esta busca – em parte representada na mostra Anatomya – lança sua sonda investigativa cada vez mais longe: às entranhas do que resta do “sujeito contemporâneo”, multifacetado – que ora submerge desmembrado e diluído, ora emerge sob novas coordenadas na produção artística recente. A anatomia é campo privilegiado deste tipo de questões, compreendida como sinônimo do Real, de vida ou morte, religiosidade, ou alegoria da própria relação de domínio científico sobre o corpo.

Para uma outra Anatomia   

O rigor indispensável às Ciências da Saúde na compreensão de seus objetos de estudo é sempre redimensionado no território artístico. Aproximam-se ciência e arte enquanto campos de experimentação, mas divergem em seus métodos: a repetição sistêmica do laboratório é substituída pelo acidente; o pragmatismo torna-se contemplação desinteressada; a especialização cede lugar à perspectiva da totalidade estética… Há uma dimensão, entretanto, em que arte e ciência se encontram de modo indissociável: a da “representação”.

Os trabalhos desta mostra engajam-se numa tendência mundial de retorno à mimesis – que vem sendo renovada nos últimos quinze ou vinte anos por uma geração singular de jovens artistas atentos às questões da tradição e da técnica. A representação realista volta a figurar, revelando mais uma vez, de forma definitiva, a intersecção com o grande campo de “representação da Ciência. E é justo na imagem que esta aproximação se revela (uma vez que a abstração representacional é um procedimento transversal): ao cirurgião, o preferível realismo fotográfico pode, para fins didáticos, abstrair-se em esquemas ilustrativos – assim também no desenho de estruturas químicas, por exemplo. Igual procedimento se dará na Astronomia e na Física, onde a caracterização de corpos celestes muito distantes, bem como a de estruturas celulares muito ínfimas, baseia-se em conceitos abstratos e aferições por cálculo (quer dizer, em representações).

Já desde o esquematismo típico das ilustrações anatômicas somos informados acerca da familiaridade entre arte e ciência – o que lhes atribui mesmo grau de importância e notabilidade. Vale lembrar que o registro anatômico surge quando nem a ciência, nem a arte estavam de todo circunscritas, tendo servido mutuamente à constituição desses campos. Vivemos novamente um período de aproximações em que a arte, assumindo a diligência epistemológica da ciência, e esta se deixando inspirar no desaparelhamento da racionalidade – podem refundar de modo profundo seus saberes e práticas.

 


[1] Vide extensa bibliografia de Jacques Lacan (1901|1981) e o importante trabalho de Hal Foster “O Retorno do Real” (São Paulo: Cosac Naify, 2014).

 

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