Arte e Design: articulações de um mesmo gesto

* texto originalmente publicado na edição #52 da Revista abcDesignImagens de Jacob van Loon.

Como se sabe, a mera menção à arte costuma suscitar polêmica no campo do design. Embora a relação entre artistas e designers tenha sido sempre estreita ao longo da história, certa distinção foi requerida desde a Bauhaus, cujo manifesto inicial convocava os artistas a construírem finalmente uma “arte aplicada à indústria”, uma arte a serviço da sociedade. Entre os designers gráficos, por sua vez, o que ainda se admite é, nos termos do designer nova-iorquino Paul Rand, o design como sendo “arte comercial”.

Em ambos os casos, pressupõe-se claramente que a arte seja algo não-comercial, algo não-industrial e cujo compromisso é alheio aos problemas cotidianos. O design, em contrapartida, estaria a serviço do “mundo concreto”, das necessidades comerciais e das convenções sociais.

Ou seja, é como se os artistas não estivessem, desde sempre, a serviço de uma convenção social: a dos xamãs pré-históricos, das forças políticas públicas (o faraó egípcio, o imperador romano, o rei persa, os papas da igreja) e, claro, a dos proprietários privados (os mecenas flamengos, os mercadores venezianos, os burgueses da Revolução Industrial e hoje as fortunas geridas por multinacionais). Ao que tudo indica, pois, a ideia que os designers fazem sobre a arte é aquela que alude a um Belo transcendente (platônico) ou a uma “estética desinteressada” (kantiana); enfim, como algo à parte do mundo concreto.

Pois bem, se adotarmos a etimologia latina do termo “arte” – não a téchne grega (conhecimento de um ofício) e sim a ars latina –, podemos compreender a arte não tanto como operação artificiosa ou transcendente, mas como pequena intervenção sobre a forma de olhar para as coisas. A palavra ars deriva do grego árthra (articulação) e da raiz indo-europeia ar (juntar, aproximar coisas, encaixar), da qual também provêm artus (junto) e articulus (área onde dois segmentos distintos se juntam, se encaixam).

Ars tende a conotar, portanto, artifício, desvio, estratégia e, em especial, articulação. Articular significa ordenar, estruturar, organizar experiências por meio de uma proposição expressiva: uma composição musical ou uma pintura não são apenas combinações de tons e cores, mas proposições estéticas para experiências acústicas e visuais.

Do mesmo modo, há uma série de articulações sendo operadas pelos designers: por que mulheres usam salto-alto? Por que ainda lemos revistas impressas? Grande parte da esfera cotidiana não é tão “justificável” pelo viés da funcionalidade e dos propósitos, nem tanto pela retórica publicitária. Por meio de utensílios domésticos, móveis, roupas etc., nossas experiências cotidianas são articuladas de modo estético-convencional, em um misto de adequação, assimilação, enunciação, fruição, expressão.

Conforme atestam filósofos como Nietzsche e Bruno Latour, estamos cada vez mais inseridos “esteticamente” no mundo, uma vez que o design faz comparecer ao palco contemporâneo novas formas de estar no mundo. E se a arte contemporânea, ao que me parece, tem se tornado cada vez mais hermética, é porque, na atual conjuntura, somos todos artistas por meio do design: em nossos gostos, aparências e estilos de vida, todos nós estamos propondo articulações estéticas para cada ocasião do cotidiano.

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