Marcos Beccari

Marcos Beccari

Professor do PPG-Design da UFPR. Doutor em Educação pela USP, designer gráfico e Mestre em Design pela UFPR. Autor do livro Articulações Simbólicas (2ab, 2016), co-autor do livro Existe design? (2ab, 2013), co-coordenador deste site e colunista da revista abcDesign. Ancorado à filosofia trágica (Nietzsche, Rosset), dedica-se a estudar estética e visualidades.

O que há para ser dito e o que há para se ver

Tu não vês senão a ordem e a organização desta pequena cova onde estás alojado [...].
Montaigne, Ensaios, II, 12.

O que há para ser dito não necessita ser dito. Se dizemos alguma coisa, é para ouvir alguma “voz” em tudo o que se diz. Dizer é um meio de fazer o mundo falar, ainda que este, indiferente, permaneça em silêncio. Nenhuma palavra que já não tenha sido dita. Mas só vivemos enquanto somos capazes de dizê-lo, como se o que vemos não pudesse comportar a ousadia de não ser dito.

Tudo o que vemos não é imediatamente visível, mas também não está oculto. Enquanto os enunciados são feitos de palavras, o que vemos é antes de tudo luz e sombra. Qual é a relação entre o que vemos e o que falamos? Podemos acreditar que falamos do que vemos, que vemos aquilo de que falamos e que os dois assim se encadeiam, quando na verdade o que é visível só pode ser visto, e o que é enunciável só pode ser dito. Leia mais…»

Gosto pelo gosto: a potência da insignificância

* texto originalmente publicado na edição #54 da Revista abcDesign. Imagens de Toby Harvard.

Ao levarmos em conta as conotações mais cotidianas de “design” (como embelezamento, revestimento, verniz estético), não encontraremos nada além do design como expressão de um “gosto”. Estou de acordo: mesmo contrariando definições “oficiais” de alguns especialistas cujos bons propósitos ultrapassam a opinião do senso comum, não vejo no design qualquer relação com princípios ou funções que estariam para além dos gostos.

Não é o caso, porém, de defender algum tipo de “bom gosto”, como se a apreciação do belo fosse restrita a determinados espíritos elevados ou esclarecidos. Até porque essa noção já foi bem difundida pela Bauhaus, ao tentar democratizar a “boa forma” – coisa que, após a II Guerra, adquiriu alto valor artístico na elite norte-americana. Leia mais…»

O politicamente correto e o meritocrático: uma via de mão dupla

* Esculturas de Barry X Ball ilustram o post.

A psiquiatria e os manuais de autoajuda contemporâneos atestam-nos que diversos transtornos psíquicos, como a depressão e a fobia social, estão associados sobremaneira à baixa autoestima. Logo, “autoestima” é o nome daquilo que todos deveriam ter, o orgulho de “ser o que se é”, de modo que a falta disso torna-se alvo de intensa preocupação social. Advém daí a sensibilidade que leva muitas celebridades a vir a público dizer que, antes de se tornarem autoconfiantes e admiradas por todos, tiveram que resistir e superar as mais diversas formas de repreensão da autoestima. Tais relatos tornam-se, então, um modo de ajudar a todos que sofrem em silêncio.

Não pretendo discorrer aqui sobre a autoestima, mas sobre o campo discursivo que a torna um bem precioso. Por “campo discursivo” eu me refiro à base valorativa que, em termos foucaultianos, estabelece os limites do que é possível pensar e dizer. O pressuposto é o de que tudo o que se diz e o que se pensa conjuga-se no interior de um conjunto de coordenadas acerca da verdade, da normalidade, da civilidade e do moralmente aceito. Interessa-me, sob esse prisma, mostrar a distância relativa entre dois discursos que se posicionam, a princípio, de maneira antagônica: o meritocrático e o politicamente correto. Retomemos antes a questão da autoestima. Leia mais…»

Hermenêutica trágica: uma apresentação breve

* imagens de Allison Diaz ilustram o post. 

O que distingue a filosofia trágica das demais inclinações filosóficas não se resume à constatação de que o mundo é privado de sentido, mas abrange o decorrente reconhecimento de que a intensidade dos sentidos imaginários engendra nossa maneira de viver no mundo. Foi tal aspecto que me levou, em minha tese de doutorado, a recorrer ao registro hermenêutico: embora as interpretações possíveis sobre o mundo não alterem o mundo interpretado – eis o dado trágico (casual, indiferente, sem sentido) da existência –, o mundo só pode ser compreendido por intermédio dos sentidos.

Trata-se de, uma vez constatado o permanente esforço humano de atribuir sentido a uma existência que prescinde de qualquer sentido, tornar visível o exercício criativo da interpretação, da expressão, dos gostos e desgostos por meio dos quais nos inserimos no mundo. Enquanto teoria da interpretação, a hermenêutica pressupõe não somente a noção de texto e a noção de apropriação efetuada pelo leitor, mas especialmente certo fluxo que vai de um para outro: “compreender é compreender-se diante do texto”, nos termos de Paul Ricoeur (Hermenêutica e ideologias. Vozes, 2008, p. 23). Leia mais…»

Design do tempo: em busca do presente no presente

* texto originalmente publicado na edição #53 da Revista abcDesignImagens de Eugene Ivánov.

Poderia nosso passado tornar-se diferente da recordação que temos dele? Não no sentido de “viagem no tempo”, pois o que aconteceu, é claro, está encerrado no passado. Mas se muito do que vivemos não é necessariamente lembrado, então muito do que recordamos pode não ter acontecido tal como acreditamos. A experiência do presente, afinal, interfere na compreensão de tudo que já nos aconteceu e que ainda pode nos acontecer.

Donde decorre a questão: o que esperamos do futuro? Ou ainda: é possível projetar um futuro? Ora, a literatura distópica esboça um futuro a ser evitado. Por sua vez, “projetar” implica pensar no futuro a partir do presente, no intuito de precaver, corrigir e melhorar o que agora se considera problemático. Em outros termos, o presente orientado ao futuro é aquele que não é totalmente aceito, como se restasse uma alternativa ao que “deu errado”. Leia mais…»

Uma ética sem valores ou um solipsismo às avessas

Ilustram o post fotografias de Soul Leiter.

[...] No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; não há nele nenhum valor [...] – Wittgenstein, Tratactus logico-philosophicus, § 6.41 [todos os trechos que constam no post foram retirados da 3ª edição da Edusp, 2008].

O Tratactus foi a primeira obra publicada por Wittgenstein e representa a primeira fase de seu pensamento, ao passo que o segundo Wittgenstein está mais representado em seus escritos a partir da década de 1930. Comentei brevemente sobre o Tratactus no fragmento filosófico #15; agora pretendo comentar sobre aquilo que me parece ser uma ponte parcial para o segundo Wittgenstein: a proposição de uma ética sem valores que encerra o Tratactus. Leia mais…»

Todo mundo sabe o que ninguém quer mais saber

* Imagens de Adolfo Bimer ilustram o post.

Crianças compreendem diferentes tipos de coisas através dos mesmos filtros. É assim que elas funcionam: uma criança encontra um coelho pela primeira vez e pensa como esse gato é esquisito. O que também funciona para atribuir um papel a cada pessoa desconhecida: o coleguinha engraçado, a bruxa má, a princesa frágil, o príncipe encantado e mais um apanhado de categorias que, sabemos, podem continuar funcionando durante muito tempo.

Só que uma mesma criança pode se comportar de muitas formas diferentes, pode mudar de opinião o tempo inteiro, pode passar do choro ao riso num instante e sem o menor constrangimento. Ou seja, não é necessário agir de maneira coerente, embora haja certa coerência nos papéis atribuídos aos outros. E esses papéis, ainda que sejam fixados como uma referência, funcionam apenas por conveniência: se o mundo se mostra por vezes inconveniente, pode-se adotar uma explicação que o faça parecer mais conveniente. Leia mais…»

Da repetição no olhar que se desprende

* aquarelas de Henrik Uldalen ilustram o post.

I. Revendo as mesmas anotações

Desvios ocasionados pela segunda lei da termodinâmica não são verificáveis, pois os instrumentos de medida estão sujeitos aos mesmos desvios das coisas que eles buscam medir. – Paul Feyerabend, Contra o método (São Paulo: Editora UNESP, 2007, p. 350).

Mais do que mostrar o aspecto inferencial de certas leis da física, o enunciado acima é um modo de falar sobre a arbitrariedade patente de toda ordem, sentido, razão que atribuímos ao que é mera casualidade – como a repetição genérica de nossos momentos de alegria ou de tristeza. O que por vezes não nos damos conta é que esses sentidos arbitrários são fatores que intensificam a repetição indiferenciada da vida cotidiana, capazes mesmo de “fabricar” diferenças significativas nos momentos que se repetem. Leia mais…»

Arte e Design: articulações de um mesmo gesto

* texto originalmente publicado na edição #52 da Revista abcDesignImagens de Jacob van Loon.

Como se sabe, a mera menção à arte costuma suscitar polêmica no campo do design. Embora a relação entre artistas e designers tenha sido sempre estreita ao longo da história, certa distinção foi requerida desde a Bauhaus, cujo manifesto inicial convocava os artistas a construírem finalmente uma “arte aplicada à indústria”, uma arte a serviço da sociedade. Entre os designers gráficos, por sua vez, o que ainda se admite é, nos termos do designer nova-iorquino Paul Rand, o design como sendo “arte comercial”.

Em ambos os casos, pressupõe-se claramente que a arte seja algo não-comercial, algo não-industrial e cujo compromisso é alheio aos problemas cotidianos. O design, em contrapartida, estaria a serviço do “mundo concreto”, das necessidades comerciais e das convenções sociais. Leia mais…»

O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate. Leia mais…»

Há algo de inautêntico em cada original: um brevíssimo estudo sobre a ilusão a partir do filme O Melhor Lance, de Giuseppe Tornatore
Autor(es): ALMEIDA, R. de; BECCARI, M.
Publicado em: Visualidades (UFG), v.14, n.1, pp. 316-333, jan-jun 2016

Com base no filme O Melhor Lance (LA MIGLIORE OFFERTA, 2013), de Giuseppe Tornatore, este artigo propõe uma reflexão acerca da ilusão do duplo expressa pela dicotomia original-cópia. Após uma breve introdução de como essa dicotomia tornou-se paradigmática no pensamento ocidental, recorremos à filosofia de Clément Rosset para problematizar o mote central do filme: “há sempre algo de autêntico em cada cópia”. Defendemos, por fim, que a ilusão consiste não apenas em transformar uma coisa em duas, mas também na indisposição do iludido em aprovar uma realidade impossível de ser duplicada.

Hermenêutica trágica em Machado de Assis: a redescrição como dimensão de desaprendizagem
Autor(es): BECCARI, M.
Publicado em: Machado Assis Linha vol.9 no.18 Rio de Janeiro mai./ago. 2016

É objetivo deste estudo refletir sobre algumas implicações da filosofia machadiana para a educação, especificamente no que condiz ao aspecto hermenêutico-trágico da primeira em relação à dimensão de desaprendizagem da segunda. Para tanto, foram elencados três contos de Machado de Assis – “Cantiga de esponsais”, “Um homem célebre” e “Teoria do Medalhão” – a serem analisados sob o prisma de uma “hermenêutica trágica”. Em seguida, discuto sobre tal aspecto da filosofia machadiana no âmbito da educação, em especial no que condiz à dimensão de desaprendizagem.

A função contemporânea da “autoria” enquanto mediação simbólica
Autor(es): MARCOS BECCARI; ROGÉRIO DE ALMEIDA
Publicado em: Interdisciplinar: Revista de Estudos em Língua e Literatura, ano IX, vol. 21, jul.-dez. 2014, p. 145-162.

A questão da autoria é abordada neste artigo como recurso, próprio dos itinerários de formação contemporâneos, de des-representação e desidentificação, recurso este que valoriza a dimensão simbólica das interpretações e propicia a busca de sentido. A autoria é compreendida, portanto, a partir de uma perspectiva ampliada de cultura e educação. Para tanto, a reflexão foi construída por meio da analogia entre design e literatura, compreendendo ambos como processos de mediação e (re)criação de narrativas que se abrem a novas interpretações numa existência socialmente partilhada – e, no contexto atual, cada vez mais espetacularizada. O referencial teórico abrange Paul Ricoeur, Deleuze, Foucault, entre outros.

Seja estúpido: o imperativo trágico da diesel e o ethos contemporâneo
Autor(es): MARCOS BECCARI; DANIEL B. PORTUGAL; JULIA SALGADO
Publicado em: Revista Esferas, v. 1, n. 2, jan.-jun 2013.

Discutimos a campanha Be Stupid, da Diesel, sob o prisma da ética, levantando a hipótese de que seu discurso, aparentemente imbuído da postura trágica nietzschiana, pode, devido à forma como se insere no ethos contemporâneo, dar suporte a uma postura ética diversa daquela aparentemente sustentada. Após contextualizar a marca, construímos uma contraposição entre o pensamento de alguns autores e concluímos que o declínio dos deveres morais tradicionais institui uma nova forma de moralidade que não pode ser considerada trágica.

Da imagem do real para o real da imagem: por um elogio das aparências
Autor(es): MARCOS BECCARI; DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: Anais do III Congresso Internacional em Comunicação e Consumo, ESPM-SP, 10 e 11 out. 2013.

Este artigo se debruça sobre teorias que criticam a – já abalada, mas ainda comum – concepção das aparências como algo traiçoeiro e que deveria ser sempre julgado em função de qualquer coisa para além dele. Recorremos a pensadores como Nietzsche, Bergson, Rosset, Lacan e Žižek, dentre outros, para mostrar que a relação entre o real e as imagens pode ser concebida não apenas como mútua, mas também como integrada à afirmação da vida, mais do que as concepções “essenciais” que tentam buscar um real inexistente para além dessa relação. Para ilustrar nossos argumentos, recorremos a filmes como Um corpo que cai e Sinédoque, Nova Iorque, dentre outros.

A ficção do real: uma reflexão preliminar, a partir da Educação, sobre o Design no processo de inter-subjetivação
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Revista Tríades, v. 2, n. 1, 2012.

Este artigo propõe uma reflexão sobre o potencial subjetivante do Design no meio social. Partindo de uma perspectiva fenomenológica segundo a qual estruturas simbólicas configuram mediações significadoras entre o homem e o mundo, inicio uma discussão introdutória acerca do modo pelo qual o Design é capaz de manejar uma rede de significações no ambiente social que o circunscreve e, inversamente, sobre a forma que se dá o processo de reinscrição do sujeito no mundo através do Design. Para tanto, recorro a concepções distintas sobre “real” e “ficção”, elegendo esse aparente dualismo como possível aporte reflexivo capaz de oferecer ferramentas conceituais pertinentes a uma abordagem filosófica do design. Sob o pressuposto de que o Design afirma-se como potencial agenciador das relações entre-sujeitos no cenário contemporâneo, meu esforço é o de compreender de que forma esse agenciamento acontece e assim esboçar uma dimensão “educadora” do Design, sobretudo no sentido de articular “modos de olhar” que nos ofereçam a possibilidade de reinterpretar o mundo e de remanejar, concreta e simbolicamente, nossa localização nele.

Filosofia do design instrucional: uma análise meta-teórica sobre método de comparação entre modalidade de mídias
Autor(es): MARCOS BECCARI; ANTÔNIO M. FONTOURA; TIAGO L. OLIVEIRA
Publicado em: Revista Infodesign, v. 8, p. 12/3-19, 2012

O propósito deste artigo é discutir um dos métodos comparativos mais utilizados em pesquisa de Design Instrucional (Mayer, 2005) sob os pressupostos da intitulada Filosofia do Design (Love, 2000). Iniciando com um breve panorama histórico da pesquisa em design, realizamos uma revisão bibliográfica básica acerca da Filosofia do Design e do Design Instrucional e, por fim, levantamos alguns questionamentos pontuais sobre o método vigente. Partimos da hipótese de que os testes de comparação entre modalidades de mídias (estática e dinâmica) no Design Instrucional podem se tornar meros instrumentos de comprovação inferencial, sendo frequentemente replicados em pesquisas diversas. Este trabalho, contudo, não apresenta uma conclusão definitiva, mas apenas procura sinalizar algumas lacunas e possíveis desdobramentos do método em questão.

Articulação Simbólica: uma abordagem junguiana aplicada à Filosofia do Design [dissertação de mestrado]
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: UFPR, SCHLA, PPG-Design, 2012.

Inserido no tema “Filosofia do Design”, a proposta desta pesquisa, de cunho puramente teórico, consiste na construção de uma estrutura meta-teórica que, entre outras coisas, apresente ao campo do Design uma abordagem proveniente dos denominados Estudos do Imaginário, especialmente da psicologia de Carl Gustav Jung. Na tentativa de explorar um caminho diferente da visão modernista-pragmatista, busca-se investigar os preceitos existentes em dois eixos centrais: Filosofia do Design e a Experiência Simbólica. A partir do modelo meta-teórico de Terence Love (2000), o projeto desenvolve uma ponte com a perspectiva simbólica de Jung e outros autores, apresentando assim diferentes níveis para uma possível aplicação da abordagem proposta. O fio condutor está na relação do Design com as experiências intersubjetivas, especificamente no que se refere à “articulação simbólica”. A postura adotada, não habitual no campo do Design, enfatiza a dimensão do Imaginário na medida em que encara as experiências simbólicas como sendo mediações entre o homem e o mundo, isto é, aquilo que atribui significado e sentido às coisas. Partindo do pressuposto de que a perspectiva epistemológica das mediações simbólicas possibilita múltiplas abordagens, podendo ser inserida em diversas problemáticas e sob diferentes ângulos disciplinares, sua inserção no campo do Design configura o principal interesse deste trabalho. O intuito fundamental, portanto, é delinear um caminho provisório a um novo ponto de vista teórico e filosófico no Design: a Articulação Simbólica. Sobretudo, este trabalho se propõe a encarar os problemas conceituais do Design sob um viés mais subjetivo e menos pragmatista.

O Design a partir do Sistema dos Objetos de Baudrillard
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Anais do IV Simpósio Nacional de Tecnologia e Sociedade, 2011

A proposta deste trabalho é apresentar, aos designers e pesquisadores da área, um (meta)acesso inicial à obra “O Sistema dos Objetos”, tese de doutorado de Jean Baudrillard (1968) sob a orientação de Roland Barthes (1915-1980). Por meio de uma revisão bibliográfica básica, procuramos encontrar o Design naquela irremediável região, trilhada por Baudrillard, onde as trocas simbólicas confundem-se com o andamento de todas as relações humanas. Para tanto, o autor e a obra selecionada são brevemente apresentados,  aprofundando-nos em seguida nos conceitos de objeto funcional, objeto antigo, automatismo e consumo. Neste sentido, o Sistema dos Objetos é encarado mais como uma análise sobre o valor dos signos nas trocas humanas do que como uma análise dos objetos em si. Por fim, recorremos a algumas das pesquisas sobre Baudrillard já desenvolvidas no campo do Design, encerrando pontualmente com nossa contribuição à temática vigente. Não se trata, pois, de uma simples resenha ou tampouco de uma análise crítica aprofundada  – nosso  intuito é apenas contemplar o Design sob a perspectiva de Baudrillard, especificamente em seu Sistema dos Objetos.

Contribuições de Vilém Flusser para o lado de fora da Filosofia do Design
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Anais do IV Simpósio Nacional de Tecnologia e Sociedade, 2011

Por meio de uma revisão bibliográfica básica, o objetivo deste artigo é apenas demarcar aquilo que, no pensamento de Flusser, pode contribuir com o lado de fora da Filosofia do Design (de fora em relação à disciplina homônima desenvolvida por Love, 2000). Apresentamos, pois, uma sucinta descrição de alguns conceitos-chave na tentativa de esboçar os temas e problemas levantados por Flusser e, assim, sintetizar a mensagem de obras selecionadas. Necessário esclarecermos, desde já, que não se trata de uma análise filosófica rigorosa, mas, antes, de trazermos Flusser para responder a questões cuja iniciativa não é dele. Pois o lado de fora que aqui contemplamos ainda é visto de dentro, como se tivéssemos à nossa disposição espelhos posicionados nas margens de uma fronteira filosófica, podendo facilitar ou mesmo iluminar nosso acesso a ela.

Articulações entre comunicação e consumo a partir da imagem e do imaginário
Autor(es): MARCOS BECCARI; DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: Anais do 1º Comunicon, 2011

Este artigo esboça uma proposta teórico-metodológica de abordagem do consumo a partir das imagens e do imaginário. Para tanto, adentra dois campos de estudos – o da iconologia e o dos estudos do imaginário –, selecionando alguns autores que serão especialmente importantes para nossos objetivos. Em seguida, enfoca o campo de estudos do consumo, apresentando uma abordagem teórico-metodológica profícua para o estudo de certos aspectos das dinâmicas contemporâneas do consumo.

Seja estúpido: o imperativo trágico da (não) afirmação à vida
Autor(es): MARCOS BECCARI; DANIEL B. PORTUGAL; JULIA SALGADO
Publicado em: Anais do III Jornada Red Cobinco, Curitiba/PR, 2011

Recorrendo principalmente a dois teóricos com propostas bastante distintas – Michel Maffesoli e Gilles Lipovetsky –, este artigo propõe uma discussão sobre a campanha “Be Stupid” (Diesel, 2010/11) sob o prisma da ética contemporânea. Partimos da hipótese de que a ideia do “prazer estúpido”, aparentemente imbuída da postura trágica nietzschiana, pode, devido à inclinação imperativa com que se insere no ethos contemporâneo, contradizer-se e negar a si mesma. Após breve contextualização da marca Diesel, construímos uma contraposição entre o pensamento de Maffesoli e Lipovetsky para, por fim, concluirmos que o atual declínio dos deveres morais tradicionais institui uma nova forma de moralidade não estritamente trágica. O foco desta discussão, portanto, pauta-se na atualidade da noção de estupidez a partir do modo como ela tem sido estampada nos anúncios Diesel.

A escola do imaginário e seus representantes: uma tradição do tertium datum
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Anais do IV Coloquio Internacional Imaginário, Cultura e Educação, 2011

Este trabalho apresenta alguns dos autores através dos quais se exprime o pensamento teórico e filosófico da intitulada escola do imaginário. Sob aforma de revisão bibliográfica básica, iniciamos com os primeiros representantes a transitarem, partindo de um pressuposto em comum, entre a fenomenologia, a hermenêutica e o estruturalismo: Bachelard, Jung e Durand. Na sequência, incluímos o pensamento de autores relacionados aos primeiros três, tais como Eliade, Cassirer, Corbin, Hillman, Maffesoli, etc. Por fim, destacamos o princípio do tertium datum (terceiro incluído) como sendo um dos possíveis pontos de convergência entre os autores do imaginário – a necessidade de contradições e, ao mesmo tempo, de coincidência dos contrários. Neste sentido, a perspectiva do Imaginário localiza-se, nas palavras de Hillman (1995, p. 25), “entre outros e de onde outros podem ser vistos”, podendo também ser entendida por Jung como esse in anima ou por Corbin como mundus imaginalis. Trata-se, pois, mais de um corpus de ideias do que de um panorama histórico-conceitual, isto é, um movimento não sistemático de retomada e reviravolta movido pela pretensão de tornar compreensível a reflexão filosófica do imaginário.

Por uma função mítica no Design de Entretenimento
Autor(es): MARCOS BECCARI; ANDRÉ L. BATTAIOLA
Publicado em: Anais do IV Coloquio Internacional Imaginário, Cultura e Educação, 2011

Proveniente de um estudo realizado na disciplina de Design de Entretenimento Digital (Mestrado em Design, UFPR), este trabalho objetiva demonstrar, através de exemplos de histórias em quadrinhos e jogos digitais, como o Design de Entretenimento pode estar relacionado à noção de “mito” adotada por Campbell, Jung e autores relacionados. Com ênfase no tema de mito e narrativa cinematográfica – considerando neste caso outras mídias além do cinema –, nossa reflexão parte das noções de monomito e axis mundi cunhadas por Campbell (1997), especialmente nos quadrinhos Sandman, Hellblazer e Spawn e nos jogos Resident Evil e Mortal Kombat. Em seguida, apresentamos o conceito de Linguagens Míticas de modo introdutório e direcionado ao campo do Design. Por fim, retomamos algumas pesquisas correlatas ao artigo vigente e encerramos com a possibilidade de se encarar o designer de entretenimento como sendo um articulador no campo do simbólico. A proposta é, portando, discutir sobre um tema específico dentro do eixo proposto, encarando o Design de Entretenimento como parte de um sistema politeísta que deva articular, deforma eclética e transdisciplinar, as representações simbólicas em seu meio de atuação e propagação sociocultural.

Introdução aos estudos do Imaginário: uma revisão histórica e epistemológica
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Anais do IV Coloquio Internacional Imaginário, Cultura e Educação, 2011

Por meio de uma revisão bibliográfica básica, o objetivo deste artigo é apenas demarcar o modo pelo qual a noção de “imaginário” suplantou progressivamente a questão clássica da imaginação em meados do século XX. Inicialmente, pautando-nos em Wunemburger (2007), distinguimos o termo imaginário do termo imagética, explicitando uma dimensão distinta da tradição linguística-semiótica. Em seguida, comparando algumas das concepções sobre “símbolo”, demonstramos a predominância da denominada hermenêutica simbólica ou amplificante entre os autores da Escola do Imaginário. Por fim, reconstruímos um breve panorama histórico, desde a tradição neoplatônica até o dualismo entre iconoclasmo e idolatria descrito por Durand (2010). O presente trabalho, portanto, pretende oferecer uma via de acesso introdutória à leitura e à compreensão dos estudos do Imaginário. Acreditamos que compreender a história e as posturas epistemológicas de uma tradição filosófica é particularmente importante para uma reflexão – esboçada no final do artigo – sobre a atualidade de seus respectivos pressupostos teóricos.

Design e Imaginário: aproximações filosóficas no campo do simbólico
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Anais do IV Coloquio Internacional Imaginário, Cultura e Educação, 2011

Este trabalho provém de nossa pesquisa iniciada no contexto de Mestrado (PPG-Design UFPR, 2010) e pretende apresentar um recorte específico de um panorama acerca das possíveis aproximações entre Design e Imaginário – não necessariamente enquanto disciplinas ou campos de estudo, mas especialmente enquanto temáticas abertas a diferentes posturas e perspectivas. Como forma de contraposição e contribuição à intitulada Filosofia do Design, consideramos necessário não apenas identificar algumas das poucas “pontes” já construídas, mas também sinalizar a singularidade de nossa abordagem – a saber, do Design enquanto articulação simbólica. De início, revisamos o modo pelo qual Flusser, Baudrillard e Argan relacionam Design ao estudo filosófico da imagem, imaginação e imaginário. Em seguida, relatamos algumas das pesquisas que já exploram o Design a partir do viés do Imaginário. Por fim, demarcamos a influência junguiana-arquetípica em nossa abordagem ao considerarmos o designer enquanto um articulador simbólico, isto é, aquele que promove experiências simbólicas. Portanto, adotando uma postura transdisciplinar que tangencie o eixo temático no qual estamos inseridos, pretendemos esboçar uma possível perspectiva do Design sobre a relação mediada por símbolos entre o homem e seu entorno.

O videogame enquanto mídia de convergência sociocultural
Autor(es): ANDRÉ BATTAIOLA, DEISE ALBERTAZZI, MARCOS BECCARI, TIAGO OLIVEIRA
Publicado em: Anais do 5º CIDI, Florianópolis/SC, 2011.

Este artigo apresenta um recorte proveniente do projeto “Rock Composer”, um game concept desenvolvido na disciplina de Design de Entretenimento (Mestrado em Design UFPR) destinado à criação e ao compartilhamento de músicas de rock’n roll. A ênfase deste trabalho concentra-se nas dimensõeshistórica e sociocultural do videogame enquanto mídia de convergência, conforme descrito por Jenkins (2008), em um determinado contexto histórico e cultural denominado “Geração X” (Strauss; Howe, 1991). Por meio de uma pesquisa bibliográfica básica, destacamos a mudança de comportamento que tangenciaa história dos videogames e da própria indústria cultural. Por fim, apresentamos a proposta do “RockComposer” como uma forma de explorarmos a noção de convergência no design de jogos. O propósitodeste breve estudo, portanto, se resume à apresentação de um modelo de convergência direcionado aodesign de jogos no cenário midiático contemporâneo.

Contribuições da função mítica no design de entretenimento
Autor(es): MARCOS BECCARI
Publicado em: Revista Visualidades (UFG), v. 9, p. 178-197, 2011

Pretendendo uma abordagem transdisciplinar, este trabalho objetiva demonstrar, através de exemplos de histórias em quadrinhos, filmes e jogos digitais, como o Design de Entretenimento pode estar relacionado à noção de “mito” tal como postulada por Carl G. Jung, Campbell e autores relacionados. A proposta é, portando, encarar o Design de Entretenimento como parte de um sistema politeísta que deva articular, de forma eclética e pluridimensional, as representações simbólicas em seu meio de atuação e propagação sociocultural.

A Philosophical Approach about User Experience Methodology
Autor(es): MARCOS BECCARI; TIAGO L. OLIVEIRA
Publicado em: Revista Lecture Notes in Computer Science, v. 6769, p. 13-22, 2011.

The purpose of this paper is to identify some of the possible contributions of the entitled Philosophy of Design to the processes involved in the User Experience methods. After a brief introduction on User Experience principles and methods, we will make a brief overview of the history of research in Design. Moving on we shall review some of the main precepts of Philosophy of Design and, finally, make evident the scientistic and pragmatic predominance of the User Experience methods.

Métodos em User Experience: uma abordagem filosófica
Autor(es): MARCOS BECCARI; TIAGO L. OLIVEIRA
Publicado em: Anais do 11º ErgoDesign & USIHC

O propósito deste artigo é identificar algumas contribuições da Filosofia do Design aos métodos em User  Experience. Após introduzirmos brevemente os princípios e métodos da User Experience, revisamos alguns dos principais preceitos da Filosofia do Design para, por fim, evidenciarmos a predominância cientificista e pragmatista nos métodos de User Experience.

As Dimensões Sintáticas, Semânticas e a Poética da Metáfora Cartográfica
Autor(es): MARCOS BECCARI; KELLI C. A. S. SMYTHE
Publicado em: Anais do 9º P&D Design, 2010

O propósito deste artigo reside em uma análise preliminar acerca dos elementos sintáticos e semânticos contidos nos mapas da publicação impressa “The Atlas of Experience”, dos cartógrafos holandeses Jean Klare e Louise van Swaaij (2001). O objetivo é explorar, por meio do estudo de caso vigente, o uso da linguagem convencional da cartografia como representação de conceitos abstratos e subjetivos, especificamente os sentimentos e as experiências humanas trazendo à tona a poética metafórica.

Introdução a Bakhtin para uma possível Criação Coletiva-Individual em Design
Autor(es): MARCOS BECCARI; KELLI C. A. S. SMYTHE
Publicado em: Anais do 9º P&D Design, 2010

O propósito deste artigo é identificar uma das possíveis contribuições do pensamento de Mikhail Bakhtin ao processo criativo de Design. Por meio de analogias, sempre que possível, com a área de Design, os princípios bakhtinianos de exotopia, arquitetônica, polifonia e autor-autoria (com ênfase nesses dois últimos) são explorados como possíveis recurso teóricos para o acervo do Design enquanto área do conhecimento.

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