Bolívar Escobar

Nasceu em Erechim, no Rio Grande do Sul. Mudou-se para Curitiba aos 17 anos, onde formou-se designer gráfico pela UFPR. Atualmente é mestrando no programa de pós-graduação em sistemas de informação na UFPR. Por volta de junho de 2014, morreu e foi substituído por um sósia. É possível encontrá-lo praticamente todos os dias através do twitter (@bolivarescobar).

Plot-twist: soma-se aos mistérios da natureza agora o fato das árvores estarem aparentemente conseguindo se esquivar dos abraços dos ecoativistas

1Eis que, na reunião de pauta que Deus fez para criar todas as coisas, alguém teve uma ideia. A ideia de criar uma Regra. Por algum motivo, isso foi do agrado do chefe e ele decidiu encaixar a execução do projeto pelo meio dos sete dias do escopo original. A tal Regra dizia mais ou menos o seguinte: antes de existir uma explicação para a vida & seus motivos, deverá haver uma incansável luta por ela. Os seres que já estão vivos precisam continuar vivos e aprender a fazer isso do melhor jeito possível.

Achando tudo isso muito interessante, decidiu então espalhar o pessoal por aí para ver que estratégias mirabolantes cada tipo de coisa com vida iria desenvolver para seguir a Regra. Obviamente, o descumprimento da mesma acarretaria em uma viagem rumo à incerteza, já que o estratagema divino provou-se incontestável perante a não existência de qualquer coisa como um manual de instruções ou um detonado para o jogo, daqueles que explicam passagens secretas e expõem os vários desfechos possíveis de serem alcançados antes do desenrolar dos créditos. Só existia ela: a Regra. (mais…)

Estava prestes a colocar a colher de açúcar no meu café hoje, quando a visão dos cortadores de cana trabalhando em condições desumanas invadiu minha mente. Achei melhor tomá-lo puro.

arteCorolário pós-modernista de Marcel Duchamp: quanto mais vezes alguém define com precisão as diferenças entre arte e design, mais devemos propor novas discussões sobre as diferenças entre arte e design.

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Talvez um dos erros de Flusser, pelo menos nos artigos que coloca em seu livro-compilação Uma Filosofia do Design (editora Relógio D’água, 2010) seja tentar chegar ao significado deste através de explorações etimológicas das palavras que deram origem ao termo. Tal análise pode se mostrar proveitosa em uma primeira instância, quando deseja-se, por exemplo, separar o design das demais coisas do mundo para tentarmos de fato saber do que estamos falando. Entretanto, dada a nossa localização no tempo & espaço, seria pretensão demais ignorar as batidas no martelo pós-moderno quando se fala em uma “profissão” que veio ao mundo – da forma como a conhecemos – em tempos pós-modernos.

Digo isso porque, se o significado de arte é algo tão não-palpável, nossa estratégia de salvação como designers tem sido apelar para uma suposta clareza de significado, um contraponto sólido ao nebuloso mundo da arte e suas várias ramificações. E então ensinamos nas universidades, antes de mais nada, que arte e design não são as mesmas coisas, que uma é X e a outra é Y. (mais…)

Reflexões para os 5 dias úteis da semana

raios1. Querida, inverti a mecânica

A palavra “mecânica” deriva do grego “méchos”, expressão que era usada para designar coisas que “enganavam”  a natureza: como a alavanca, por exemplo, que tornava possível ao homem erguer pesos antes impossíveis aproveitando-se do momento maior oferecido por um dos lados mais prolongados do artefato. Ou seja, tudo que era feito para enganar a mãe natureza era considerado “mecânico”, porque estávamos ampliando nosso poder sobre esse universo arrumando formas de enganar e trapacear as leis e pedregulhos dele.

É engraçado pensar que, tanto tempo depois, o papel de ilusionista e iludido tenham sido invertidos. Enganar a natureza hoje nos parece tão normal e óbvio que, quando a previsão do tempo erra, é normal dizer que “essas malditas nuvens de chuva nos enganaram.” Os principais avanços científicos hoje se dedicam a encontrar formas cada vez mais precisas de evitar que esses enganos aconteçam. Permitir que a natureza engane nossas prórpias enganações é um tanto amedrontador. (mais…)

4 passos para uma filosofia de qualquer jojoca

aeitaSão tempos estranhos, esses nossos. Não sabemos quem são os caras legais e quem são os caras malvados, porque aparentemente os caras legais estão fazendo coisas erradas e os caras malvados parecem ter boas intenções. A internet aos poucos vem se tornando nosso principal meio de comunicação, apesar dela mais atrapalhar do que ajudar. Aos poucos, tal e qual, ela vem se tornando mais um veículo de publicidade. Se perdemos nosso lado religioso, antes norteado pela poderosa Igreja, agora o que parece substitui-lo é o poderoso marketing. Não confiamos mais em nossos líderes: há uma estranha sensação pairando no ar que nos faz crer que eles realmente não merecem a nossa confiança. A ideia de ter que escolher não o melhor deles, mas sim o que parece ser o menos pior, passou de piada de churrasco a manchete de revista – e manchete de muitas outras coisas.

A vida em tempos estranhos sugere muitas questões: precisamos do surgimento de um herói? Estariam por vir dias melhores? Ficar em casa jogando video-game em vez de sair para protestar faz de mim um “reaça”? Ou, mais importante ainda, sobre o que eu deveria estar me questionando? (mais…)

Boa notícia: descobriu-se que o único critério usado por Deus para permitir a entrada de almas no paraíso é a quantidade de barrinhas de cereal ingeridas durante a vida. Má notícia: elas estão cada vez mais caras.

"hmmm entendi"

“hmmm entendi”

Relatos acerca de um abacaxi falante remontam à era Tokugawa, no Japão quase-moderno de 1875. A infrutescência, então já dotada do pleno domínio da língua japonesa e encontrada por um feirante (também de nome Tokugawa) em meio às caixas de suas mercadorias, foi levada ao palácio do xogum da região como prova de manifestação divina. Dentro de semanas, conforme os relatos procedem, o abacaxi falante (パイナップルスピーカー no original japonês) atraiu milhares de visitantes e peregrinos de diversas áreas do Japão, pois além de falar, o abacaxi também era extremamente compreensivo e dava ótimos conselhos, dicas de nutrição, conseguia dizer se a esposa estava traindo ou não e soltava piadas ótimas de hora em hora. Uma piada é uma pequena história que tem algum detalhe que faz as pessoas rirem. Dizem que a melhor receita para criar uma piada é esperar o tempo passar. (mais…)

Tragam suas machadinhas: vamos falar sobre cultura

Foto extraída do portal R7

Foto extraída do portal R7

Poderia ser o enredo de algum conto surreal de H. P. Lovecraft: em plena tarde de domingo, Regina Casé e Preta Gil aparecem juntas em um mesmo palco comandando Caetano Veloso em um programa musical no qual celebridades da Globo dançam e fazem festa. Poderia ser, mas na verdade trata-se de uma “impressão digital” – segundo o próprio programa e sua apresentadora, da cultura brasileira em um drops semanal de um pouco mais de uma hora. Não faz muito tempo que Regina Casé foi eleita como uma espécie de porta-voz da cultura do nosso país em todos os papéis que vem desempenhando nos programas da televisão. Talvez tenhamos outros porta-vozes menos populares, mas com certeza nenhum tão entusiástico e aparentemente engajado em demonstrar essa cultura toda.

Tal fato, claro, agrada a muitos, e desagrada a outros tantos. O questionamento acaba surgindo: fazemos realmente parte dessa cultura sendo demonstrada ou estamos nos portando como um observador externo de um fenômeno que não representa – ou ao menos desejaríamos que não representasse – a nós mesmos? (mais…)

O que é um “modelo”?

3210838977_26d9efb96e_oA suposição é a seguinte: superada a consciência da morte e o pavor de colocar moedas em um bolso furado e perdê-las para sempre, provavelmente um dos maiores medos que ainda resta a ser enfrentado pelo homem é o de ser impossibilitado de comunicar seus pensamentos de alguma forma. O  caminho longo e tortuoso que separa o emaranhado dentro da cabeça de um ser humano até o papel (ou a atmosfera, ou o arquivo digital, ou um show de mímica) é um fantasma conhecido e já espremido por diversos filósofos e estudantes de mestrado mundo afora.

Um deles, chamado Ludwig Wittgenstein, parece ter ficado tão assombrado diante de tal fantasma que motivou-se a publicar seu primeiro livro, o Tractatus Logico-Philosophicus, dissertando principalmente sobre o fato da linguagem ser apenas um “disfarce” para os reais pensamentos, e que portanto ela era o verdadeiro problema que deveria ser solucionado pelos filósofos. O teor de sua obra, em síntese, era a busca por uma linguagem científica precisa o suficiente para transpor essas barreiras e então dar um fim à maioria dos problemas que ela causava para a filosofia – que poderia, então, tornar-se uma área voltada para a exploração de soluções que realmente importassem para as pessoas – saúde, educação etc. Basicamente, o que ele queria provar era que todos os circulóquios e ensaios filosóficos eram mera questão de linguagem. A partir da publicação de seu Tractatus, uma nova filosofia poderia começar. (mais…)

Simplificando: tudo que existe, existe.

Sugestão para monografia de graduação em filosofia: provar que o personagem Capitão Caverna, do Hanna Barbera, foi baseado no Mito da Caverna de Platão.

A ideia de que existe algo chamado trabalho aconteceu de repente porque o homem (isso a muito tempo atrás, antes da implementação do ato de “bater o ponto”) percebeu que seu tempo era dividido em, basicamente, duas coisas: realizar tarefas cujo objetivo eram garantir a sua sobrevivência, e realizar tarefas sem nenhum objetivo aparente, apenas para relaxar, se divertir ou extravasar seus instintos sexuais. Foi dado portanto o nome de “trabalho” para as coisas que o homem faz que o ajudam a sobreviver. As coisas que não o ajudam a sobreviver recebem vários outros nomes.

A concepção de que existe um tempo para trabalhar e um tempo para fazer coisas que não necessariamente auxiliam na sobrevivência durante a semana é bastante atual, se pensarmos bem. Retrocedendo a fita cassete da história do homem antropológico, podemos acabar deparando nossas pessoas com o simpático Gronk, o homem-das cavernas, que trabalhava em uma jornada desumana mais de vinte horas por dia sem descanso todos os dias. Ele inclusive acordava no meio da noite para trabalhar um pouquinho. Esse trabalho noturno consistia em ficar dando umas voltinhas ao redor da cama carregando uma lança ou algum outro objeto pontiagudo para atravessar o pescoço de algum animal selvagem que se atrevesse a tentar utilizar a cabeça de Gronk ou de algum de seus amigos como fonte de nutrientes. (mais…)

Pensamentos acerca do “mal” e seu endereço para correio eletrônico.

A história de O Senhor dos Anéis ensina-nos algo engraçado. É mais ou menos assim: Frodo e os outros jovens encarregados de sumirem com o anel moram em um lugar chamado Terra Média. A Terra Média não existe de verdade, ela existe só na cabeça do autor dos livros, o inglês John Ronald Reuel Tolkien. O que prova que a Terra Média não pode existir nesse nosso mundo é que nela você pode encontrar seres fantásticos como elfos, hobbits, trolls, ents e humanos que usam cajado e falam palvrões mágicos. Alguns dizem que esses últimos podem ser vistos nas ruas da cidade grande depois de um certo horário da madrugada.

O que chama a atenção no Senhor dos Anéis e também em muitas outras histórias é a presença de seres naturalmente malvados. Em Senhor dos Anéis, o “mal” existe fisicamente e inclusive tem endereço: chama-se Mordor. Mordor é um lugar horrível, barulhento, com céu acinzentado, criaturas mal-humoradas e vamos parando por aqui antes que eu seja acusado de ironia. A tese é que um universo com o mal residindo em um endereço físico localizável por um mapa abre brechas para algumas inferências filosóficas interessantes. A primeira é que, dependendo da sua operadora, talvez você não cosiga sinal por lá. (mais…)

Neoliberalismo econômico e outros problemas na Espaçonave Terra – Parte 3

Bucky

Primeiro ato: alguém faça o teste, peça para um professor entrar na sala vestido de palhaço e depois entreviste os alunos para ver quantos acham que ele é um militante esquerdista.

Depois que sua primeira filha morreu, aos 2 anos de idade, Richard Buckminster Fuller, no ápice de sua depressão, declarou: “ou eu páro de viver, ou eu começo a viver pensando. E eu quero pensar”. Por trás dessa convicta frase estava a motivação que o levou a iniciar o projeto “Guinea Pig B”, cujo andamento descreve em seu livro Critical Path. A ideia por trás do projeto era simples: qual é o máximo que uma pessoa comum pode fazer em prol do desenvolvimento da raça humana como um todo? É muito fácil se identificar com tal premissa já que todos nós, incluindo o Eike Batista, os senadores, os descendentes de japoneses, árabes, africanos, os pescadores, os operadores de telemarketing, os assaltantes, todos todos, somos pessoas comuns.

Buckminster Fuller também. Ele era uma pessoa tão comum que fracassou diversas vezes tentando fazer funcionar suas invenções, foi rejeitado, sofreu críticas, tinha astigmatismo muito forte também e ainda por cima acabou morrendo da mesma forma que muitas pessoas morrem quando ficam muito velhas. Ele sabia que as pessoas morrem depois que ficam muito muito velhas, então decidiu publicar 30 livros. (mais…)