Daniel B. Portugal

Daniel B. Portugal

Professor da ESDI/UERJ. Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP e Designer Gráfico pela UFRJ. Co-autor do livro Existe design? (2ab, 2013) e co-coordenador deste site. Influenciado principalmente pela filosofia de Nietzsche, dedica-se à investigação dos valores morais por meio da análise de produções teóricas, estéticas e midiáticas.

Elucubrações a partir de Frank Lloyd Wright: sobre estilos, ideais e máquinas

Frank_Lloyd_Wright_portrait-pQualquer arquiteto ou designer conhece o nome de Frank Lloyd Wright, algumas de suas obras mais famosas (como a casa da cascata), e provavelmente sabe de sua importância para o modernismo. Porém, muitas vezes, fica-se nisso. Recentemente, tive a oportunidade de visitar a casa que ele projetou para o executivo Frederick C. Robie no final da primeira década do século passado, em Chicago. Fiquei impressionado com a capacidade de Lloyd Wright de integrar desde os aspectos mais estruturais até os pequenos detalhes, como gavetas embutidas, passando pela iluminação, portas, móveis e desenhos dos vidros; e de projetar pensando claramente na experiência humana com o espaço. Isso sem falar da integração do projeto com o ambiente, a grande marca da arquitetura de Lloyd Wright — uma arquitetura orgânica, como ele a definia.

A integração com o ambiente a que me refiro — e que Lloyd Wright propõe –, porém, não é o tipo de integração que nos leva a pensar, por exemplo, naquelas casas de hobbit do Senhor dos Anéis. Ele não quer fundir seu projeto à natureza e nem utilizar a natureza como grande referência de formas (traço que associamos ao Arts and Crafts e, principalmente, ao Art Nouveau). Lloyd Wright se utiliza de formas duras, que se integram, mas também contrastam com o ambiente. No caso da casa de Robie, projeto que costuma figurar como um dos principais exemplos do que ficou conhecido como Prairie School ou Prairie Style (estilo das pradarias, em tradição literal), o design horizontal, com diversas linhas (recuos e projeções) e telhado plano, dão a sensação de que a casa é achatada, espraiada em diversos planos próximos, sem elevações verticais, integrando-se às pradarias. Leia mais…»

A publicidade entre eros e thymós: consumo e esporte

nike-witnessesHá muito, ações publicitárias de empresas esportivas reforçam valores ligados à atividade, ao esforço, ao suor, ao treino duro, à disputa, à vitória, à performance, dentre outros no mesmo campo ético, e procuram vincular tais valores a suas marcas. É claro que a tentativa de associar marcas a certos valores faz parte do cerne da publicidade e nem de longe é algo exclusivo das empresas ligadas ao esporte. Entretanto, os valores mais comumente associados a marcas diversas circulam pelo campo da felicidade, da diversão, do amor, da beleza e, principalmente, do erotismo. Com efeito, peças publicitárias com homens e mulheres de corpos sensuais e olhares libidinosos são presença constante no cotidiano de qualquer habitante urbano do século XXI. A dimensão erótica do consumo é tão marcante que o filósofo Mario Perniola chegou a defini-lo como o reino de uma sexualidade sem orgasmo. Leia mais…»

Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

Iluminismo e Romantismo como modos de pensamento: considerações éticas e epistemológicas

Iluminismo-m* Ilustram o post obras de Natalie Shau

Iluminismo e romantismo são dois termos que, embora bastante genéricos, desgastados e afeitos a interpretações equivocadas, colaboram ainda – e muito – para o desenvolvimento de algumas reflexões que gostaria de classificar como “éticas”.

Quem leu meu post anterior aqui no site, intitulado Design, moral e industrialização, já se deparou com a enorme quantidade de questões relacionadas aos termos iluminismo e romantismo. Muitos autores os utilizam para indicar movimentos de pensamento bastante restritos no tempo e no espaço (o Iluminismo, de meados ao fim do século XVIII, principalmente na França e na Alemanha; o Romantismo, do final do século XVIII a meados do XIX, principalmente na Alemanha e na Inglaterra). Outros porém – e eu sou um deles – utilizam os termos de maneira mais ampla para indicar certos modos de pensar. Leia mais…»

Design, moral e industrialização: prefácio a uma pesquisa

workAs referências à revolução industrial são bastante comuns quando se trata de pensar as origens do design como o entendemos hoje. Para muitos, o design – ou um tipo específico de design, o design como atividade moderna – emerge a partir da ruptura, promovida pela automação da produção, entre a atividade de projetar e a de produzir. Antes, o artesão seria responsável tanto pelo projeto quanto pela produção, e não havia uma separação clara entre essas duas atividades.

Concedamos que a atividade de projetar que hoje chamamos de “design” emerge, ao menos em parte, ligada às descritas mudanças promovidas pela revolução industrial. É preciso observar, contudo, que a automação da produção é apenas a condição material para a emergência do design como atividade moderna, e de maneira alguma pode oferecer dele uma caracterização satisfatória. Se queremos compreender de maneira complexa o desenvolvimento do design a partir da revolução industrial, temos que abandonar, portanto, as perspectivas materialistas reducionistas sobre suas “origens”. Leia mais…»

Depressão: uma categoria moral

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Em seu livro A fadiga do eu, o sociólogo francês Alain Ehrenberg reflete sobre a depressão e a encara como uma das principais categorias atualmente utilizadas para pensarmos sobre nosso sofrimento. Estou pensando em termos de categorias, mas Ehrenberg está mais preocupado com a depressão enquanto tipo de sofrimento – um tipo específico de sofrimento impulsionado pelo ambiente social no qual o sujeito se insere. Para ele, tudo se passa como se o ambiente social impulsionasse diretamente certos modos de sentir que são posteriormente categorizados. Já em uma abordagem mais discursiva, como a que costumo seguir, a ênfase se coloca no modo como certas produções discursivas estruturam o ambiente social e direcionam certos modos de sentir.

A diferença, como se pode perceber, é sutil, e as duas abordagens se harmonizam em muitos pontos, especialmente na recusa à abordagem cientificista e a-histórica que pretende enxergar a depressão como um tipo universal de sofrimento, sempre igual a si mesmo e, assim, totalmente independente de construções discursivas ou organizações sociais. Nessa abordagem, a depressão aparece como uma espécie de entidade-causa do sofrimento: uma doença. Entretanto, é preciso ter clareza sobre o que a categoria “doença” significa nesse caso. Leia mais…»

Desejo sem objeto: considerações lacanianas

jean-arp-22* Ilustram o post imagens do artista surrealista Jean Arp

A leitura que Lacan propõe dos textos freudianos sugere que, ao desejo humano, falta um objeto adequado. Ao contrário dos instintos dos animais, cuja satisfação está ligada a um objeto definido, o desejo propriamente humano não possui um objeto “natural” – em vez de instintivo, ele é pulsional. E o que caracteriza a pulsão é sua plasticidade, de modo que ela pode ser investida em objetos muito diversos, de formas muito diversas.

Ao enfatizar o caráter plástico das pulsões e defender a ausência de qualquer objeto que pudesse fixar-se, finalmente, como O objeto adequado a uma pulsão, Lacan se opõe a uma vertente da psicanálise que tende a enfatizar, na teoria freudiana das fases do desenvolvimento libidinal, a caminhada rumo à estruturação de uma orientação “natural” e bem sucedida do desejo. Para estes, existiria, em última instância, uma organização da libido (pulsão sexual) que garantiria uma relação satisfatória com os objetos de desejo, uma espécie de retorno à adequação instintiva do desejo ao objeto. Este é um ponto que Lacan ataca duramente: Leia mais…»

Notas sobre o apolíneo e o dionisíaco

ApoloNo início de seu primeiro livro, O nascimento da tragédia (NT), Nietzsche nos apresenta o que ele caracteriza como dois impulsos estéticos: o apolíneo e o dionisíaco. Essas duas categorias, derivadas, evidentemente, dos deuses gregos Apolo e Dionísio, tornaram-se bastante famosas. Entretanto, o sentido delas na obra de Nietzsche não é tão simples de apreender quanto supõem aqueles que as utilizam de maneira solta.

A primeira aproximação proposta por Nietzsche é a do apolíneo com o sonho e a do dionisíaco com a embriaguez: “para nos aproximarmos mais desses dois impulsos, pensemo-los primeiro como os universos artísticos, separados entre si, do sonho e da embriaguez” (NT, 1). O apolíneo aproxima-se do universo onírico porque leva à figuração, à delimitação formal. Revelando-se mais intensamente nas formas mais belas, mais delineadas, o apolíneo nos leva a deter-nos na representação e na ilusão. O dionisíaco, por outro lado, aproxima-se da embriaguez porque transborda os limites da representação, misturando e arrastando tudo para o caos. Se, ao terror da dissolução do mundo das aparências, “[...] acrescentarmos o delicioso êxtase que, à ruptura do principium individuationis, ascende do fundo mais íntimo do homem, sim, da natureza, ser-nos-á dado lançar um olhar à essência do dionisíaco [...]” (NT, 1). Leia mais…»

Moral e livre-arbítrio em Nietzsche

fuseli-4874408* Ilustram o post telas e desenhos do pintor Henry Fuseli

Nesta verdadeira mina de ouro que é a obra de Nietzsche, a investigação da moral ocupa um lugar de destaque. O olhar de suspeita que Nietzsche lança sobre a moral — essa forma de olhar que ele inaugura — é, parece-me, o grande legado que ele nos deixa. Nietzsche busca, em suas próprias palavras, “questionar impiedosamente e conduzir ao tribunal os sentimentos de abnegação, de sacrifício em favor do próximo, toda a moral da renúncia de si [...]” (Além do bem e do mal, § 33). O que não significa, é claro, que os sentimentos de prazer, bem-estar, felicidade, abundância, conexão com a natureza, saúde, paz de espírito, sucesso etc., valorizados por outras morais, não devam ser igualmente conduzidos ao tribunal.

O objetivo de tal questionamento não é chegar a uma única explicação que revele a (suposta) Verdade dos sentimentos e dos valores morais, mas sim compreender o trabalho de criação dos ideais que promovem tais sentimentos, e as dinâmicas de sua preservação e proliferação. Essa é a proposta genealógica de Nietzsche: procurar não uma grande origem, mas os conflitos de forças a partir dos quais os ideais emergem. Leia mais…»

Designotopia 2: sobre design e “melhoramento” do mundo

Brocolli-Forest* Este texto é uma versão modificada de parte da minha palestra “designotopia: projetando redenções”, proferida no N design sp 2015. As imagens que ilustram o post são de Carl Warner, e foram retiradas de www.carlwarner.com.

Uma coisa que sempre me intrigou no design foi a sua vocação messiânica. Uma das grandes obsessões dos designers é “melhorar o mundo”, uma espécie de eufemismo para “salvar o mundo”. Lembro que, após terminar a faculdade, eu participei de um curso de empreendendorismo no qual a primeira atividade proposta aos alunos era oferecer uma resposta para a pergunta: qual o seu plano para melhorar o mundo? Esse é apenas um exemplo pessoal, mas é fácil verificar que a expressão “melhorar o mundo”, ou suas variantes, aparecem frequentemente em palestras ou textos “engajados” de designers, seja exaltando o chamado “design social”, o design sustentável ou o design voltado para supostas “reais necessidades” do mundo ou da humanidade…

Quanto a mim, sempre que escuto ou leio essa expressão, lembro-me de um capítulo do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, que se intitula “Os melhoradores da humanidade”. Essa lembrança, claro, não é meramente casual. Parece-me, com efeito, que a percepção nietzschiana do que geralmente significa “melhorar” a humanidade ou o mundo é um dos pontos de partida mais interessante para refletirmos sobre o “melhoramento” do mundo que costuma ser vinculado ao design. Leia mais…»

As bestas dentro de nós: um estudo filosófico-comunicacional sobre a representação de alteridades más no espaço subjetivo [Tese de Doutorado]
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: UFRJ. Rio de Janeiro, 2015.

Este trabalho estuda alguns constructos psicológico-morais que, ao longo da história da cultura ocidental, ganharam o estatuto de “mal em nós”. Esses constructos, aos quais empresto a alcunha de “bestas dentro de nós”, costumam desempenhar a função de pedra angular de certas morais, na medida em que pretensamente explicam porque nossa existência imperfeita não corresponde à existência plena para a qual supostamente estaríamos destinados. Se nós sofremos, angustiamo-nos etc., isso ocorre, segundo as visões bestializadoras, porque uma instância má em nós corrompe nossa existência.

Um cisne, duas forças: sobre apolíneo e dionisíaco na ética do consumo
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL; JULIA SALGADO; MARCOS BECCARI
Publicado em: Revista Psicologia Clínica. v. 26, n. 1, 2014.

Neste artigo, procuramos analisar uma possível cisão na ética contemporânea servindo-nos do modelo das forças conflituosas do apolíneo e do dionisíaco conforme propostas por Nietzsche. Analisamos e destacamos as orientações éticas relacionadas ao consumo e aos conflitos subjetivos a elas relacionados. Para realizar tal estudo, usamos como ponto de partida uma análise do filme Cisne Negro (2010), de Darren Aronofsky, que traz à tona questões centrais para a análise que nos propomos realizar, complementando-o, ainda, com outras referências literárias e publicitárias.

A felicidade é química e pode ser vendida?: as dimensões éticas e mercadológicas da razão farmacêutica
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL; PAULO VAZ
Publicado em: Anais da XXI Compós, 2012.

Este artigo estuda os valores morais e os interesses econômicos que sustentam o que Lakoff denomina “razão farmacêutica”. Trata-se de uma forma de pensamento que medicaliza estados mentais e comportamentos antes vistos como normais e propõe alterá-los com base na administração de medicamentos ou outras intervenções de caráter materialista/comportamental. Mais especificamente, o trabalho analisa certas transformações éticas na cultura contemporânea, especialmente na forma de encarar a felicidade, e suas relações com os impactos subjetivos da publicidade de medicamentos e de outras ações de marketing dos laboratórios farmacêuticos.

A vinculação entre humanos e imagens nas dinâmicas contemporâneas do consumo: totemismo, fetichismo e idolatria
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: Revista Estudos em Design, v. 19, n. 01, 2011.

Este artigo estuda algumas formas de vinculação entre humanos e imagens. O termo “vinculação” é usado para fazer referência às dimensões não-racionais de uma relação: algo mais próximo, portanto, das ligações afetivas do que dessas posturas interpretativas e pragmáticas que muitos teóricos pressupõem seriam as dominantes e mais importante quando sujeitos “modernos” interagem com imagens. Três formas de vinculação bastante famosas – fetichismo, totemismo e idolatria – servem como ponto de partida. O artigo defende que, longe de serem formas de vinculação “superadas”, elas continuam fortemente presentes nos cenários contemporâneos marcados por um consumo estetizado – no qual o design e a publicidade ganham cada vez mais centralidade.

O realismo entre as tecnologias da imagem e os regimes de visualidade: fotografia, cinema e a “virada imagética” do Século XIX
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: Revista Discursos fotográficos, v. 7, n. 11, 2011.

O artigo começa com uma discussão de cunho teórico-metodológico acerca da relação entre regimes de visualidade e tecnologias da imagem. Em seguida, questiona a objetividade da noção de “realismo” e, rechaçando o determinismo tecnológico, procura analisar algumas transformações históricas que afetaram profundamente os regimes de visualidade do século XIX e que podem ajudar a explicar porque, neste momento, tornou-se viável, pensável e desejável o desenvolvimento da fotografia e, posteriormente, do cinema.

Como caçar (e ser caçado por) imagens: entrevista com W. J. T. Mitchell
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL; ROSE DE MELO ROCHA
Publicado em: Revista E-Compós, v. 12, n. 1, 2009.

W. J. T. Mitchell, professor de História da Arte e de Inglês na Universidade de Chicago, é editor do periódico Critical Inquiry e autor de diversos livros e artigos. Focando seus estudos na problematização da interface entre visão e linguagem nas artes plásticas, na literatura e na mídia, Mitchell propõe métodos bastante originais de se abordar as imagens, construindo novas perspectivas para o que ele denomina, seguindo Panofsky, uma Iconologia. Em suas reflexões, cunhou a difundida expressão “virada imagética” (pictorial turn). Ao longo desta entrevista, Mitchell fala mais detalhadamente sobre os fundamentos e métodos de sua iconologia crítica e comenta, à sua luz, temas bastante relevantes para as cenas intelectual e midiática contemporâneas.

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