Daniel B. Portugal

Daniel B. Portugal

Professor da ESDI/UERJ. Doutor em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Mestre em Comunicação e Práticas de Consumo pela ESPM-SP e Designer Gráfico pela UFRJ. Co-autor do livro Existe design? (2ab, 2013) e co-coordenador deste site. Influenciado principalmente pela filosofia de Nietzsche, dedica-se à investigação dos valores morais por meio da análise de produções teóricas, estéticas e midiáticas.

Eterno verão: considerações éticas sobre a nova era do amor em Frozen

frozen-7Em meu post anterior, Elsa vai para as montanhas, analisei o filme Frozen, da Disney, procurando entender de que formas ele ecoa algumas propostas éticas de Nietzsche e de Freud. A jornada de Elsa no filme, afinal, diz respeito principalmente a uma luta interior na qual seus “poderes de gelo” — que podemos interpretar como representando seus impulsos — se opõem a seu ideal do eu (o da boa menina: comportada, controlada e mansa). No que considerei o ápice da jornada, Elsa vai para as montanhas e lá libera seus “poderes” e os utiliza criativamente, construindo um sublime castelo de gelo e transformando-se. Os ecos da superação de si proposta pelo Zaratustra de Nietzsche são, aí, bastante evidentes. Sua jornada não se encerra nesse ponto, porém: a percepção de que a liberação de seus poderes agride os outros — agressão representada pelo eterno inverno ao qual Arendelle ficou submetida após a liberação dos poderes gelados de Elsa — faz a protagonista dilacerar-se novamente em conflito interior. A resolução desse segundo conflito, com base no amor, associa uma nova “liberação” de Elsa ao bem comum. Estabelece-se, assim, o eterno verão. Leia mais…»

Elsa vai para as montanhas: considerações éticas com base em Frozen, Freud e Nietzsche

frozen-5Neste post, vou analisar o filme Frozen, da Disney, com o intuito de  refletir sobre algumas orientações morais derivadas, direta ou indiretamente, das propostas éticas de Nietzsche e Freud. Como a maioria deve saber, Frozen conta a história de Elsa, uma princesa que nasceu com poderes mágicos ligados ao gelo, e Anna, sua irmã. Quando crianças, as duas eram muito próximas e passavam o dia brincando no amplo espaço do castelo em que nasceram (Arendelle). Os poderes de Elsa tornavam as brincadeiras mais interessantes, permitindo, por exemplo, que as irmãs construíssem um boneco de neve no meio de um salão de festas vazio. Não sabendo controlar seus poderes, porém, Elsa acaba machucando sua irmã em uma dessas brincadeiras. Depois desse episódio, os poderes de Elsa passam a ser vistos como perigosos, e seus pais se empenham em reprimi-los. A parte inicial da principal música do filme, Let it go, descreve bem o que os pais (e, com base neles, a própria Elsa) acreditam que precisa ser feito com os poderes: “esconda, não sinta, não deixe ninguém saber, seja a boa garota que você sempre foi”. Leia mais…»

Alô, alô, tia Léia: notas sobre a cultura da convergência

telephoneRecentemente, reli com calma o livro Cultura da convergência, de Henry Jenkins, para utilizá-lo em uma disciplina de Mídias Digitais. É uma obra interessante para refletirmos sobre a circulação de representações em novas mídias. Ou melhor, em novas e velhas mídias, pois  um dos pontos centrais da proposta de Jenkins é justamente o de que as novas mídias não substituem as antigas. Novas e velhas mídias convergem — ou seja, ganham papeis complementares na cultura.

Todos devem se lembrar dos profetas do “fim do livro” que fizeram bastante sucesso na década passada, a ponto de Umberto Eco e Jean Claude Carrière lançarem, em 2012, um livro-diálogo intitulado Não é o fim dos livros. Antes deles também, é claro, muitos outros questionaram tal “profecia”, típica tanto de apocalípticos quanto de integrados. Henry Jenkins foi um deles. Ele observa, com base em fenômenos da cultura midiática como Harry Potter, que os livros continuam muito bem, obrigado. A diferença é que, agora, os livros de sucesso costumam atuar em conjunto com filmes, jogos, sites interativos etc. Há, portanto, uma convergência midiática. Leia mais…»

Design thinking sob perspectiva humanística 2: objetividade e problemas arredios

pattern-design-PB2Pensar o design thinking com base em uma perspectiva humanística significa, em parte, perceber que os processos de pensamento relacionados ao design e os problemas que eles buscam resolver não podem ser objetificados. Ou, para ser mais preciso: perceber que, quando eles são objetificados, desfiguram-se de tal maneira que o essencial fica de fora. É preciso considerar, então, o que significa “objetificar” um problema ou encarar um modo de pensamento como “objetivo”. Grosso modo, podemos dizer que um problema objetivo é aquele que é encarado juntamente com um sistema de coordenadas implícitas ou explícitas que permitem julgar a validade das soluções de maneira mais ou menos precisa.

Quando lidamos com o problema de escolher o material mais adequado para construir uma coluna de sustentação de um prédio, por exemplo, podemos imaginar formas objetivas fecundas de lidar com o problema: trata-se de considerar experimentalmente quais materiais aguentam mais peso, se deterioram menos com o tempo ou condições adversas, são mais resistentes a certos tipos de abalo etc. Mesmo nesse caso, é importante perceber que “material mais adequado” tem que ser compreendido aqui como “material mais eficaz” e de acordo com uma visão de mundo experimental. Se alguém argumentar que certo tipo de material é mais caro aos deuses e por isso imunizará o prédio contra possíveis acidentes, por exemplo, estará retirando o problema do sistema de coordenadas implícito que o tornava objetivo. Fará o mesmo quem argumentar que certo material não é adequado porque, quando extraído, causa impactos ambientais inaceitáveis. No primeiro caso, nega-se a visão científica, no segundo, a eficácia como único fator determinante. Leia mais…»

Design thinking sob perspectiva humanística

pattern-design-5A definição de design – bem sabem todos os que atuam na área ou pesquisam sobre ela – é objeto de constantes disputas. Antigamente, as disputas costumavam girar sempre em torno do objeto do design: o designer pensa mais na forma ou na função? Em objetos e imagens produzidos em série ou únicos? Atua só na concepção ou também na produção?  Etc etc. Faz algum tempo, porém, que tem ganhado destaque uma definição do design baseada mais nas especificidades do processo de pensamento a ele relacionado do que nas especificidades de seu objeto de atuação. Nessa perspectiva, a pedra fundamental do design é o design thinking, ou seja, a forma de pensar que caracteriza e define o design. É a partir da consolidação dessa definição que campos inteiros do design – como o design de serviços – podem ganhar corpo.

Embora eu acredite que uma multiplicidade de definições pode enriquecer o pensamento sobre o design, é verdade que algumas definições são claramente mais interessantes, adequadas e relevantes que outras. A definição baseada no design thinking parece-me uma das mais frutíferas (juntamente com outras que podem ser vistas como complementares a esta, tais como as definições relacionadas aos cinco eixos propostos em nossas Considerações preliminares para uma filosofia do design). Quando se parte da definição baseada no design thinking, os debates teóricos passam a centrar-se no modo de caracterizar essa forma de pensar que define o design.

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Três comentários sobre publicidade de medicamentos

Nos últimos anos, dediquei-me a alguns projetos de pesquisa que me levaram a atentar para a esfera da publicidade de medicamentos. Começando com as peças publicitárias dos medicamentos de patente do século XIX e início do XX, e terminando com aquelas dos medicamentos psiquiátricos pós-prozac, tal esfera revela-se uma verdadeira mina de ouro para uma reflexão crítica sobre o papel simbólico do medicamento na nossa cultura. Aproveitando a “coleção” que ficou montada depois de tal pesquisa, reproduzo e comento abaixo algumas peças publicitárias que nos fazem pensar.

1. Coca-cola, um medicamento

cola 1886A Coca-Cola iniciou sua carreira um medicamento de patente, ou seja, como um composto supostamente medicinal cujos componentes não eram revelados e que eram conhecidos por nomes como Triplex liver pills e Ginger, lemon and orange elixir, para citar duas invenções de Pemberton, o criador da Coca-cola. Um dos muitos medicamentos de patente contendo cocaína, a Coca-cola, segundo a propaganda ao lado, era um “valioso tônico cerebral, e uma cura para todas as afecções nervosas – dor de cabeça, neuralgia, histeria, melancolia etc.”. Leia mais…»

Música e afirmação da Vontade: um comentário sobre as estéticas de Schopenhauer e Nietzsche

musica1No mês passado, fui convidado para falar sobre Schopenhauer e Nietzsche em um evento cultural focado na música. De início, fiquei reticente, devido ao meu conhecimento musical bastante parco. Por outro lado, tratava-se de expor as ideias de dois dos filósofos que mais influenciaram meu pensamento. E é um fato que eles dão, em suas filosofias, mais destaque à música do que às artes plásticas. Assim, aceitei o convite, e, como acredito que minha fala ficou interessante, apresento-a agora aqui, na forma de post.

Pelo menos em parte, o interesse de Schopenhauer e Nietzsche na música está ligado ao fato de ela não lidar com representações, com objetos, como acontece nas artes plásticas ou na poesia. Hoje, é claro, podemos pensar que a pintura abstrata ou outras formas de artes abstratas também não lidam com representações. Entretanto, o abstracionismo é um movimento relativamente recente nas artes plásticas, que ganha força somente no início do século XX — e vale lembrar que alguns dos artistas que impulsionaram o abstracionismo, como Kandinsky, na verdade propunham uma pintura em larga medida baseada justamente na música. Leia mais…»

O Prometeu cauteloso de Bruno Latour

prometeu1Como sabemos, não é fácil achar textos que tratem explicitamente de filosofia do design. Assim, quando um dos mais famosos filósofos vivos produz um paper cujo subtítulo é “alguns passos rumo a uma filosofia do design”, trata-se de um evento digno de atenção. Estou falando de Bruno Latour e de um paper que ele produziu em 2008 por ocasião de sua palestra em um congresso de História do Design. O título completo é Um Prometeu cauteloso? alguns passos rumo a uma filosofia do design (com especial atenção a Peter Slotedijk).

No ano passado, ao indicar esse texto para alguns alunos, comecei a lamentar a falta de uma tradução em português. Por fim, com a ajuda de minha namorada, que está acostumada a trabalhar com revisão de tradução, resolvi enfrentar o desafio de traduzi-lo. O resultado foi publicado há algumas semanas na revista Agitprop. É possível acessá-lo aqui, em um pdf com layout caprichado, ou diretamente no site da revista, em texto corrido. Leia mais…»

Vínculos breves

Robert e Shana ParkHarrison. Flying lesson. Fonte:

Robert e Shana ParkHarrison. Flying lesson.
Fonte:http://parkeharrison.com

* Este é um texto que escrevi em 2012 e ficou engavetado. Agora o encontrei em meio aos arquivos do site e resolvi publicá-lo. 

Vivemos nossas vidas nos apegando a milhares de coisas — de maneiras diferentes, com intensidades diferentes. Os vínculos que estabelecemos com pessoas, animais, imagens, ideais, coisas, lugares, ações, sensações etc. são parte crucial de nossa curta estadia neste estranho mundo. Por mais curta que sejam nossas vidas, entretanto, a gigantesca maioria dos vínculos que estabelecemos são ainda muito mais curtos. Assim, ao longo de nossa vida rompemos vários vínculos.

Isso não é algo necessariamente ruim, pois o rompimento de vínculos é essencial para que possamos construir outros. A psicanálise sugere que nós temos um quantum limitado de libido para investirmos em objetos diversos. A vinculação ou investimento libidinal seria uma espécie de canal aberto pelo qual nossa libido flui na direção de objetos específicos. Assim, para que a libido flua em novas direções, é necessário fechar antigos canais. Na vida, como na arte, a destruição seria parte da criação. Leia mais…»

Designotopia: William Morris e os revivalismos celta e viking na Europa do século XIX

Upplands_RuninskriftAs curvas normalmente associadas às antigas artes celta e viking sempre tiveram para mim forte apelo estético. Recentemente, minha estadia no Reino Unido, possibilitada por uma bolsa de doutorado sanduíche do CNPq, me fez pensar mais detidamente sobre a influência de tais curvas em designs dos últimos séculos, e no movimento mais geral de resgate da lingua, mitos e cultura desses povos.

Esses resgates ou revivalismos são eventos importantes na Europa do século XIX e servem a diversos fins: politicamente, aparecem como narrativas congregadoras, e ajudam a consolidar os Estados nacionais em formação; psicologicamente, oferecem formas de espiritualidades alternativas em um momento no qual o cristianismo perde força; artisticamente, oferecem um mais do que fértil acervo-base para novas propostas estéticas. Algumas vezes, todos esses fins podem aparecer interligados em uma espécie de grandiosidade político-estético-espiritual, que tendemos a associar, no caso alemão, ao wagnerianismo. Leia mais…»

As bestas dentro de nós: um estudo filosófico-comunicacional sobre a representação de alteridades más no espaço subjetivo [Tese de Doutorado]
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: UFRJ. Rio de Janeiro, 2015.

Este trabalho estuda alguns constructos psicológico-morais que, ao longo da história da cultura ocidental, ganharam o estatuto de “mal em nós”. Esses constructos, aos quais empresto a alcunha de “bestas dentro de nós”, costumam desempenhar a função de pedra angular de certas morais, na medida em que pretensamente explicam porque nossa existência imperfeita não corresponde à existência plena para a qual supostamente estaríamos destinados. Se nós sofremos, angustiamo-nos etc., isso ocorre, segundo as visões bestializadoras, porque uma instância má em nós corrompe nossa existência.

Um cisne, duas forças: sobre apolíneo e dionisíaco na ética do consumo
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL; JULIA SALGADO; MARCOS BECCARI
Publicado em: Revista Psicologia Clínica. v. 26, n. 1, 2014.

Neste artigo, procuramos analisar uma possível cisão na ética contemporânea servindo-nos do modelo das forças conflituosas do apolíneo e do dionisíaco conforme propostas por Nietzsche. Analisamos e destacamos as orientações éticas relacionadas ao consumo e aos conflitos subjetivos a elas relacionados. Para realizar tal estudo, usamos como ponto de partida uma análise do filme Cisne Negro (2010), de Darren Aronofsky, que traz à tona questões centrais para a análise que nos propomos realizar, complementando-o, ainda, com outras referências literárias e publicitárias.

A felicidade é química e pode ser vendida?: as dimensões éticas e mercadológicas da razão farmacêutica
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL; PAULO VAZ
Publicado em: Anais da XXI Compós, 2012.

Este artigo estuda os valores morais e os interesses econômicos que sustentam o que Lakoff denomina “razão farmacêutica”. Trata-se de uma forma de pensamento que medicaliza estados mentais e comportamentos antes vistos como normais e propõe alterá-los com base na administração de medicamentos ou outras intervenções de caráter materialista/comportamental. Mais especificamente, o trabalho analisa certas transformações éticas na cultura contemporânea, especialmente na forma de encarar a felicidade, e suas relações com os impactos subjetivos da publicidade de medicamentos e de outras ações de marketing dos laboratórios farmacêuticos.

A vinculação entre humanos e imagens nas dinâmicas contemporâneas do consumo: totemismo, fetichismo e idolatria
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: Revista Estudos em Design, v. 19, n. 01, 2011.

Este artigo estuda algumas formas de vinculação entre humanos e imagens. O termo “vinculação” é usado para fazer referência às dimensões não-racionais de uma relação: algo mais próximo, portanto, das ligações afetivas do que dessas posturas interpretativas e pragmáticas que muitos teóricos pressupõem seriam as dominantes e mais importante quando sujeitos “modernos” interagem com imagens. Três formas de vinculação bastante famosas – fetichismo, totemismo e idolatria – servem como ponto de partida. O artigo defende que, longe de serem formas de vinculação “superadas”, elas continuam fortemente presentes nos cenários contemporâneos marcados por um consumo estetizado – no qual o design e a publicidade ganham cada vez mais centralidade.

O realismo entre as tecnologias da imagem e os regimes de visualidade: fotografia, cinema e a “virada imagética” do Século XIX
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL
Publicado em: Revista Discursos fotográficos, v. 7, n. 11, 2011.

O artigo começa com uma discussão de cunho teórico-metodológico acerca da relação entre regimes de visualidade e tecnologias da imagem. Em seguida, questiona a objetividade da noção de “realismo” e, rechaçando o determinismo tecnológico, procura analisar algumas transformações históricas que afetaram profundamente os regimes de visualidade do século XIX e que podem ajudar a explicar porque, neste momento, tornou-se viável, pensável e desejável o desenvolvimento da fotografia e, posteriormente, do cinema.

Como caçar (e ser caçado por) imagens: entrevista com W. J. T. Mitchell
Autor(es): DANIEL B. PORTUGAL; ROSE DE MELO ROCHA
Publicado em: Revista E-Compós, v. 12, n. 1, 2009.

W. J. T. Mitchell, professor de História da Arte e de Inglês na Universidade de Chicago, é editor do periódico Critical Inquiry e autor de diversos livros e artigos. Focando seus estudos na problematização da interface entre visão e linguagem nas artes plásticas, na literatura e na mídia, Mitchell propõe métodos bastante originais de se abordar as imagens, construindo novas perspectivas para o que ele denomina, seguindo Panofsky, uma Iconologia. Em suas reflexões, cunhou a difundida expressão “virada imagética” (pictorial turn). Ao longo desta entrevista, Mitchell fala mais detalhadamente sobre os fundamentos e métodos de sua iconologia crítica e comenta, à sua luz, temas bastante relevantes para as cenas intelectual e midiática contemporâneas.

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