Gustavot Diaz

Gustavot Diaz

Desenhista e pintor, formado em Artes Visuais pela UDESC. Co-fundador do "MÍMESIS | Conexões Artísticas" em Curitiba, hoje reside em Porto Alegre e atua como professor de Anatomia Artística e Desenho do Corpo Humano. Dedica-se a estudos de técnica, crítica e teoria do Desenho nos sites https://gustavotdiaz.com/ e https://acrasias.wordpress.com/.

Esboço para uma interpretação lacaniana da arte

IGOR MORSKI

IGOR MORSKI

 

No livro genial de Gustave Flaubert A Educação Sentimental (1869), o protagonista Frédéric, após meses retido no campo, subitamente toma posse de uma herança e pode enfim voltar à Paris, à boemia, aos amigos e à bela mulher que ama, a virtuosa sra. Arnoux. Lá chegando, porém, só encontra decepções: não localiza nenhum de seus antigos amigos e a sra. Arnoux mudou de endereço. Demora alguns dias na busca até que a vê em sua nova casa. Sente então que esmoreceu um pouco seu encanto: “as paixões estiolam quando as tiram do seu meio natal (…) parecia-lhe que ela perdera alguma coisa, que houvera nela como que uma vaga degradação, em suma, que não era a mesma”[1]. A mulher amada continuava bela, continuava ela, era a mesma pessoa; no entanto, estava fora das coordenadas fantasmáticas do desejo de Frédéric. Deslocadas de seu ambiente familiar, as coisas se transformam sob nossos olhos, perdem a completude de seu referencial e involuntariamente as redimensionamos. (mais…)

O desenho da arte em Porto Alegre: Inicia-se o Hiper-realismo Contemporâneo no Brasil (III)

Carine Krummenauer | 2015 (grafite)

Carine Krummenauer | 2015 (grafite)

 

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Seria impossível aqui um resumo da trajetória da figura e do nu – isso que Kenneth Clark denominou como uma “forma de arte”, mais do que temática artística. Mas a fim de situar minimamente o contexto do “anacrônico” realismo que vem emergindo em todo o mundo, arriscamos uma possível e brevíssima leitura, com grave chance de esquematização: o apogeu clássico greco-romano perdido em meio à diáspora medieval e reconquistado no Renascimento pela síntese do desenho toscano operada por Michelangelo sofrera, desde então, graves revezes, desfigurando-se a partir de 1855 – data do Pavillon du Réalisme (o primeiro não oficial “Salão dos recusados”), quando a iniciativa pioneira e radical de Gustave Coubert instaurou a escola realista na pintura rearticulando a figura humana dentro da arte, e a própria forma de exibição. (mais…)

Fábio Magalhães e o corpo da pintura: Inicia-se o Hiper-Realismo Contemporâneo no Brasil (II)

Fábio Magalhães  Trouxas II (Alusivo ao Artur Barrio)  Óleo sobre Tela  190 x 250 cm  2013  Coleção Particular“É só olhar por aí, a pintura está mais viva do que nunca…” (Fábio Magalhães) 

O artista baiano Fábio Magalhães, aparentemente esquecido pela academia aqui no Sul, opera uma surpreendente relação entre o “discurso” da arte contemporânea e a prática tradicional da pintura.

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N Design: “Do Ato à Potência”

Esse título é uma provocação que lancei na mesa redonda “Filosofia do Design” neste N Design na última quinta feira (23) em São Paulo. Apresento aqui, de forma um pouco mais elaborada, minha intervenção. (mais…)

“Pele Agridoce”: inicia-se o Hiper-realismo Contemporâneo no Brasil

Gio/Smoke and Shadow

Gio/Smoke and Shadow

“Quem foi seu mestre?” Pergunta a dr. Marilice Corona num encontro com o artista. “O Youtube!” Responde Patrick Rigon, no mesmo tom de ironia. (mais…)

“Journey”: entre o real e o Real

9f94d9836f3f25842ea576ac1e7cf50dJogos parecem ter sido uma obsessão humana através da História. Neles convergem os princípios mesmo da imitação mimética que estrutura o nosso comportamento mais básico (como, quando crianças, aprendemos a fazer inúmeras coisas por meio de “jogos de imitação” ou “jogos de palavras”). Deles fazemos nossas inter-relações humanas, e através deles também nossa intersubjetividade.

Hoje, duas “realidades” de proporções notáveis chamam a atenção: o mundo da fantasia e o mundo dos games. Ambos estão associados; em grande medida, intrinsecamente ligados. A fantasia se expressa através dos games, mas também particularmente na literatura (sem excluir o cinema, destino de inúmeros livros). Os games, no entanto têm assumido um novo estatuto: não são mais “coisa de criança”. Por que?

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Fábrica contemporânea: designer, jornalista, operário

Sob-a-PeleJornalista é aquele que forma consciência. Jornais, revistas, abstracts, periódicos, jornalismo buzzfeed, newsletters apresentam-nos diariamente ficções a que atribuímos caráter de verdade, ou seja, criam uma realidade paralela que consultamos permanentemente julgando estarmos atentos ao mundo real e ao que acontece nele. Em uma formulação mais específica, a mídia informa. A etimologia muito nos ensina: informar, como verbo transitivo direto, é sinônimo de “instruir, ensinar” e também “tornar existente ou real”. Quer dizer, oculta a notícia para que ela possa aparecer em algum formato, através de uma forma visível. Também o termo informação é sinônimo de “conhecimento, direção”. Um bom jornalista está ciente de que trabalha com processamento e edição de notícias – ou seja, articula sentido aos fatos; ethos, comportamentos, posturas em relação às notícias que divulga por meio da própria forma como as divulga. Ele não pode simplesmente informar a verdade que ouve e que vê porque a informação não é apta a ser comunicada sem mediação – ou seja, imediatamente. Entretanto, quando é colocada “na forma”, perde a sua realidade.
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Uma hipótese para a solidão ou Como me oculto e me desconecto nas redes sociais

Annemarie_Busschers_holand_1-520x245Por uma incrível coincidência histórica, nossa liberdade individual aumentou consideravelmente quando houve um acréscimo de recursos; quer dizer, quando a sociedade de consumo surgiu. Torna-se trágico se analisarmos pelo viés contrário: justamente quando há um assomo na disponibilidade de recursos e oferta de produtos, opera-se um aumento visível na liberdade individual de cada ser humano.
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Expresso, logo existo!

Paul Cadden, place to beA fim de criar imagens, carecemos, antes de tudo, saber ler e interpretar imagens. Falo de algo para além da Semiótica – este binóculo que muitas vezes não capta mais que uma ilhota no arquipélago imagético. O que se faz necessário é uma sonda que penetre as profundezas do oceano onde elas ancoram, algo que muitas vezes os poetas alcançam – sem se deixarem intimidar pela iconografia, tampouco estarem sujeitos ao círculo restrito das leituras acadêmicas. Quando Drummond diz:

“e tudo que define o ser terrestre / ou se prolonga até nos animais / e chega às plantas para se embeber / no sono rancoroso dos minérios, / dá volta ao mundo e torna a se engolfar, / na estranha ordem geométrica de tudo”

em seu grande poema A Máquina do Mundo, ele concebe uma “arquitetura de tudo”. Esta é a dimensão que se faz necessária para se compreender a imagem; não menos que isso. A ferramenta essencial: dois olhos encrustados no meio da face. (mais…)

O permanente paradoxo do desenho

Rubens O desenho é, antes de tudo, experiência visual. Enquanto experiência necessita ser “simbolizado”, formulado em termos de linguagem. Embora seja ele o próprio ato e ação de simbolização, de formulação linguística (é através do desenho que simbolizo um trauma, por exemplo), o desenho é em si também uma percepção específica, com seu repertório particular de coordenadas: os elementos da linguagem visual (ponto, linha, reta, cor, etc). Heinrich Wölfflin (1864-1945) percebeu, com uma intuição notável, os resultados desta aplicação em sua caracterização dos estilos linear e pictórico. 

Em síntese, ele conjuga numa esquematização de princípios toda arte ocidental como subordinada a uma dessas categorias estilísticas. A “arte linear” baseia-se no desenho, na proporcionalidade, na linha e na dimensão harmônica; a “pictórica” baseia-se na cor, na gravidade, na ambientação, no arrebatamento emocional. Citaremos exemplos práticos mais adiante. Em outra obra*, Wölfflin analisa a origem dos estilos, com um estudo do surgimento do Barroco a partir da desagregação da Renascença que ajuda a compreender bastante essa oposição. Como nossa contribuição, escrevemos algumas linhas sobre o assunto. (mais…)