Thiago Dantas

Thiago Dantas

Sou mestre em Filosofia pela Universidade Federal do Paraná com dissertação sobre o Niilismo em Heidegger, com articulações com Nietzsche. Também tenho preferências acerca de filósofos contemporâneos como Deleuze, Derrida, Sloterdjik, Agamben. E penso que a filosofia não é algo abstrato que não tem conexão com o nosso cotidiano, na verdade a filosofia é Pop e sem distinção entre cultura e natureza.

A vida: uma resistência.

Essa postagem foi motivada pela leitura de um artigo do professor Peter Pál Pelbart: Biopolítica e Contraniilismo. em que ele inicia informando que a vida é o tema primordial para pensar a situação contemporânea do humano. Principalmente através da proximidade entre vida e poder, já que facilmente se  depara com tal proximidade em vários setores cotidianos como: as ciências, o capital, o Estado e as mídias. Porém, entre eles, Pelbart demonstra certa atenção para o capital, já que estamos tão integrados ao capital que a nossa vida é regulada por ele. Em consequência, a sociedade disciplinar que antes fornecia uma ilusão de livre trânsito aos indivíduos pelo domínio das instituições de poder, alimentando-a, agora nem mais a ilusão é possível de ser vivenciada “Em suma: o corpo, o psiquismo, a linguagem, a comunicação, a vida onírica, mesmo a fé, nada disso preserva já qualquer exterioridade em relação aos poderes, não podendo, portanto, servir-lhes de contrapeso, ou de âncora crítica na resistência a eles” (PELBART, 2010, p.1). (mais…)

Arte e Fascismo: o instrumento da reprodução.

OndaRecentemente assisti ao filme A Onda (Die Welle), esperava um pouco mais, pois ouvi por um certo tempo boas críticas e uma concepção bem interessante da produção do filme: é possível ainda o nazismo na Alemanha? Contudo, apesar de ter achado a construção do filme um pouco apressada para um melhor desenvolvimento da pergunta, me veio uma ideia de escrever uma postagem sobre o famoso ensaio do filósofo Walter Benjamin A Obra de Arte na era da reprodutibilidade técnica. Principalmente para destacar algumas coisas sobre a concepção de arte e sua reprodução no século XX e, por conseguinte, no século XXI. Não escreverei uma relação com o filme, mas com uma similaridade entre ambos: o uso da arte para criticar o fascismo. Antes, vale ressaltar Gilles Deleuze para quem o fascismo trata-se de uma política dominante em que o seu “sucesso” é resultado da manobra de projetar ao indivíduo uma forma de vida. Para isso, a estratégia de Deleuze é escrever o livros de maneira tão desconcertante que tenta afastar de qualquer apropriação de extrema direita, já que no fundo, o fascista sente-se incomodado com o novo. Em outro momento posso aproveitar esse ensejo a partir do Deleuze, mas agora Benjamin entre em cena. (mais…)

O niilismo histórico-ontológico em Heidegger

Por que há o ente e não antes o nada? 

Essa é uma pergunta capciosa e de utilidade quase nenhuma para os ouvidos do cotidiano. Na verdade, não somente para o cotidiano, até mesmo para os altos baluartes da ciência colocar a pergunta tanto pelo ser quanto pelo nada já demonstra o conteúdo vazio que facilmente se perde. Porém, essa questão de acordo com o filósofo Martin Heidegger é fundamental para entender o pensamento ocidental, pois ele move-se justamente na tentativa contínua de pôr uma razão para que algo tenha ocorrida dessa e não de outra forma. O que se pode fazer então, se o pensamento chegar num ponto em que só resta afirmar não há razão? Esse momento desconcertante, de acordo com o filósofo, constitui no momento em que a negatividade ganha contornos positivos e apresenta o fenômeno singular do Ocidente: o niilismo. O que é o niilismo? Bom, em uma postagem anterior tentei apresentar uma definição desse fenômeno (aqui), mas volto aqui a este tema para apresenta-los a minha dissertação. Ou seja, momento narcisista.

O meu interesse em pesquisar tal tema teve início momentos antes da graduação em filosofia que fiz em Aracaju a partir da leitura desse trecho do filósofo Nietzsche:

Descrevo o que virá: [com] a chegada do niilismo [...] o homem moderno crê experimentalmente ora num ora noutro valor, para depois esquecê-lo. Cresce sempre mais o círculo dos valores superados e esquecidos. Percebe-se sempre mais o vazio e a pobreza dos valores. É um movimento incessante, apesar de todas as grandes tentativas de detê-lo. No máximo, o homem ousa uma crítica genérica dos valores. Reconhece a sua origem, conhece demais para não crer mais em valor algum. Esse é o pathos, o novo frêmito [...]. Essa é a história dos dois próximos séculos. (NIETZSCHE, 1988, p. 125). (mais…)

A Regulação da Linguagem

é difícil conviver com os homens, pois é muito difícil calar. sobretudo para um tagarela. p.135.

A passagem acima é um trecho da parte A Redenção do Assim Falou Zaratustra de Nietzsche. Nessa passagem, Zaratustra tenta explicar aos outros o que vem a ser o Eterno Retorno do mesmo, porém ele se frusta  porque os homens querem a qualquer custo a definição daquilo que é apresentado, só que se trata de explicar algo inexplicável, que não há definições. Essa dificuldade dos homens se deve pois, na maioria das vezes, o apresentado a nós é melhor compreendido se for conceituado e não experimentado. Assim acontece com o Eterno Retorno, Zaratustra esforça-se para que os homens entendam que a maior redenção consiste em transformar aquilo que foi num assim eu quis, contudo até mesmo para Zaratustra essa aceitação é difícil, já que o tagarela denunciado acima é ele próprio que saiu da sua caverna e foi aos homens anunciar o além-homem. Nisso principiou a própria decadência. Leia mais…»

Sobre a filosofia, a técnica e a cibernética.

A meditação de Heidegger sobre a filosofia explicitou que ela sempre se moveu por princípios, os quais procuraram fornecer o ponto inicial de toda a investigação para se alcançar uma totalidade. Totalidade que pode ser entendida como o Mundo, o homem, Deus. Contudo, o pensamento voltado para o seu ser, ou seja, para aquilo que o fundamentava, reconhecia que algo lhe faltava e  as coisas sensíveis começavam  a ser tomadas em seu além. Assim, a filosofia começou a pensar no além do sensível, para este campo mais tarde cunhou-se o nome de Metafísica. Esta, em grosso modo, procura refletir sobre a totalidade dos entes e, conseguinte, avaliar qual o princípio que rege todos eles. Isto significa que aquilo de onde o ente como tal é, ele vem a ser tratado enquanto ente cognoscível, manipulável ou transformável. De tal forma, o fundamento se desdobrou em diversas interpretações por possuir o caráter de causalidade do real, ora considerado como possibilitação transcendental da objetividade dos objetos (Kant), ora como mediação dialética do movimento do espírito absoluto (Hegel), do processo histórico de produção (Marx), ou ainda, como vontade de poder que põe valores (Nietzsche). (mais…)

A Imagem do Niilismo

A nossa contemporaneidade abre várias possibilidades para pensar a crise em vários níveis no nosso cotidiano. Contudo, normalmente, fechamos os olhos para o que pode vir a acontecer e deixamos que as coisas aconteçam no seu pormenor, só que em sentido inverso, proclamamos por um sentido que nos forneça certa justiça para o que pode nos acontecer. Há uma passagem da Gramatologia de Jacques Derrida em que ele escreve colocando Hegel como aquele pensador que deu o fim ao livro, isto quer dizer, depois da experiência hegeliana de mundo já não há mais pensadores que possam comentar algo sobre o mundo no que ele “deve ser”. Já que, pensadores conseguintes, como Nietzsche, indica que ao mundo não podemos dizer o que ele é sem cairmos numa falta de sentido àquilo que proclamamos. Precisamente, essa ausência de sentido contrariamente não concerne apenas a nossa contemporaneidade e sim, como atenta Nietzsche, está no interior do pensamento ocidental que criou seus valores a partir de um ideia suprassensível na qual nós forjamos uma imagem pela qual perseguimos para preencher a nossa vida concreta, cheia de indecisões e incertezas. Nietzsche denomina esse modo de ditar normas para esse mundo imaginando um outro além, que invariavelmente decai num fracasso, de Niilismo. (mais…)

Desconstrução e Ontologia em Ser e Tempo

A desconstrução (Destruktion) da ontologia tradicional empreendida por Martin Heidegger se inicia com a repetição da questão do Ser no horizonte do sentido a partir da qual ele formula uma nova ontologia calcada na analítica do ente primordial; o Dasein. Heidegger escreve que apesar da nossa época ter todo interesse pela “metafísica”, a questão do Ser caiu no esquecimento, mesmo considerando que a questão é tão essencial e por isso foi a motivadora das pesquisas de Platão e Aristóteles. Desse modo, repetir a questão do Ser é necessário uma vez que esta é a interrogação fundamental da filosofia.

ImagemPara tanto, Heidegger, primeiro, esclarece alguns dos pré-conceitos atribuídos ao Ser, dados como definitivos, mas que apenas desfavorecem a retomada da questão. Por exemplo, aceitar a universalidade do Ser não indica qualquer clareza, uma vez que o Ser transcende qualquer universalidade genérica. Como podemos apreender na ontologia medieval o Ser era considerado um “transcendens”, consideração já presente nos estudos aristotélicos pela unidade da analogia que entendia a universalidade em geral frente à variedade multiforme de conceitos. Todavia, a unidade de analogia instalou uma nova base para os problemas do Ser, devido ao obscurantismo dos nexos categoriais. Com isso, uma explicitação ficou ausente até, inclusive, na Lógica do Hegel a qual indicava o Ser como “imediato indeterminado”. Por isso, “quando se diz, portanto: ‘ser’ é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro e que não necessite de qualquer discussão ulterior. Ao contrário, o conceito de ser é o mais obscuro” (Heidegger, 2005, pg.29). Leia mais…»

O mais profundo é a pele.

Este texto foi originalmente publicado no blog Robô Alcoólatra

Ontem assisti à A Pele que Habito de Almodôvar. Surpreendente. Esse é o adjetivo que mais se encaixa nesse filme, pois apesar de estar algumas das características principais da filmografia almodovariana, ainda tem um passo mais além, entrando no assunto contemporâneo da bioética. O espanhol jogou todo o seu clima burlesco num filme que se aproxima de um thriller dos anos 30 e um de terror científico que encontramos nos dias de hoje (Centopeia Humana). A começar pelo título mesmo, em qual pele nós habitamos hoje em dia? Ficamos emergidos num anacronismo, onde vemos diante de nós um avanço científico e no outro, grande asseguramento de valores tradicionais para dar justificação a certos caminhos que na verdade já são altamente sem-sentido. Porém, perduramos naquele sentimento de permanecermos presos e acomodados a uma lei que enfraquece, já que tenta calcular o incalculável: a natureza humana. (mais…)

Nietzsche: o filosofar com o martelo

Como tô cheio de coisas do mestrado pra resolver, sem vir idéias para escrever um tema que ligue a filosofia ao design. Decidi por hora escrever sobre um filósofo, deste modo, os leitores podem retirar algo que contribua de alguma forma do texto abaixo. Resolvi escrever sobre Nietzsche se tiver uma boa aceitação, posso quem sabe escrever mais sobre alguns dos filósofos que tenho mais afinidade.

Sobre o filósofo alemão Nietzsche posso afirmar que é um dos pensadores mais conhecidos tanto para especialistas quanto para leigos, principalmente se restringirmos ao âmbito da filosofia. Pois ao perguntamos a um leigo a cerca da filosofia muito possível que ele reportará seja aos gregos, aqui refiro a Platão e Aristóteles, ou a Nietzsche, talvez um ou outro que possa indicar Marx devido a grande influência política no século XX ou citar Freud por confundi-lo como inserido na classe dos filósofos. Porém, raramente você verá alguém reportar, por exemplo, a Kant; que como se sabe foi o grande divisor de  águas da filosofia depois de Aristóteles. Podemos colocar talvez Sartre, mas sinceramente hoje em dia, Sartre não carrega tanta publicidade como tempos atrás e hoje quem ouviu falar de Sartre, também ouviu falar de Kant; diferente de Nietzsche. Mas com toda essa comoção ao pensamento de Nietzsche será que as pessoas conhecem Nietzsche? Refletem sobre seus pensamentos? Claro que não. Tanto mais porque, muitos utilizam da filosofia de Nietzsche como espécie de auto-ajuda, recorrendo a aforismo soltos sem qualquer identificação com a obra em si.

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Pensar o design, que tarefa é essa?

Esta minha postagem deveria ser a primeira que deveria ter escrito aqui, porém as idéias não surgem quando o pensamento quer, mas quando elas se sentem a vontade para se manifestar.  Restando a nós  saber relacioná-las com o nosso pensamento… Quando o Beccari me convidou para escrever no blog, uma das coisas que fiquei receoso se aceitava ou não era porque até então o título filosofia do design me parecia bem estranho (na verdade, ainda continua). Uma vez que concerne a pensar o design fora de um enquadramento disciplinar, aproximando de uma forma pela qual uma pessoa podia se manifestar no mundo, já que a nossa sociedade cada vez mais privilegia o jogo da imagem, o design aparece como uma maneira de atribuir conteúdo à performance que está presente nos dias atuais: o esteticismo. Esse modo de procedimento tem seu privilégio porque imiscui no fato de que a aparência condiz a uma condição hierárquica elevada no que concerne ao modo de formular juízos acerca de um ação. Com isso, se tomarmos o pensamento não como uma atitude contemplativa, teórica, e sim que todo o pensar sobre algo já é um ação, que tem a sua diferença por instituir a dúvida acerca dos fatos já aceitos como evidentes. Então, pensar o design seria justamente colocar em xeque o valor da aparência puramente formal, por mais que no primeiro momento ocorra uma semelhança entre aparência e design.   (mais…)