Carta ao designer enforcado

* Este texto é de Marco Naccarato — artista gráfico há 20 anos, empresário na Questa, e jogador e escritor de pôquer. Encontrou no design e nos jogos, espaço para suas reflexões. E-mail: nacca@questa.com.br.

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Certa vez, numa reunião para definir os andamentos de um job, me deparei com a situação contraditória e recorrente de perceber a falta de ligação entre o que se deseja e a realidade do que se está tentando alcançar. Não, não falo sobre a insistente mania que a comunicação tem em nos não comunicar, em ficar na tentativa, mas falo sobre a falta de propósito que parece ganhar cada vez mais espaço em nosso quotidiano. Nesse job, um material de apoio a um programa de incentivo, a energia empregada na discussão só servia para classificar a paleta de cores utilizada no lay out em boa ou ruim, enquanto eu gastava o latim e a saliva para tentar identificar se o programa em si se bastava e não colocava os indivíduos apenas como mercadoria.

Aliás, a mercadorização das pessoas nunca foi tão evidente, e não é à toa que chamamos o nosso departamento de criação, de departamento de produção (embora as denominações nesse caso sejam reflexo direto da era industrial e consequentemente reflitam absolutamente nada, pois a departamentalização em si já possui ressalvas), visto que valor se torna preço, e consequentemente sua equivalência em mercadoria. Afinal, cem quilos de soja, terão sua medida em madeira, ouro, lay outs ou designers.

Bem, esse papo de bom um ruim, ou, gostei ou não, já estava dando no saco, pelo motivo simples de perceber que ninguém estava atento em identificar e discutir a estrutura, seja do programa ou do job (embora não vejo sentido em separá-los). Logo experimentei certa ira, embora contida, ao notar que de certo modo, ou plenamente, eu mesmo era instrumento dessa miscelânea de argumentos usados para reduzir e definir aquilo que vai funcionar. Nunca foi tão evidente, e nunca eu tinha tido uma visão tão clara do por que eu me sentia tão desconfortável ao longo da última década tentando fazer design.

Por tal razão, ultimamente, quando um novo estagiário ou assistente começa no departamento de arte, sinto que estou apenas lhe dando uma bela, pesada e grossa corda, que ele vai carregar com custo por toda vida profissional, e usá-la em determinado momento para enforcar sua vontade de realizar algo. É comum que os que estão começando nessa seara busquem saber mais sobre ferramentas, suas aplicações, métodos, manhas e tudo mais relacionado ao dia-a-dia da profissão. Este conjunto de perguntas e demandas, curiosamente transforma os iniciantes, ávidos em saber, e esponjas para receber o que se tem a dizer, em meros reprodutores desses métodos, e em pouco tempo, e por força da repetição, esses processos ganham um tom incontestável, ao invés de serem bases para aguçar o olhar.

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De alguma forma, é assim que as metodologias e suas regras geram uma percepção ilegítima e ingênua do design, retirando sua característica primordial, a reflexão. Gradativamente, os questionamentos são substituídos por respostas, e quando estas são as únicas remanescentes, o enforcamento eminente tende a ganhar significado, pois o ofício do design, embora pareça uma atividade pautada pela intenção em organizar e dar sentido, começa a carecer de algo fundamental que se opõe ao seu caráter supostamente técnico. É neste ponto, que a ânsia pela investigação, que além de elevar a concepção do design e se mostrar como saída para essa redução, se perde em meio às demandas, e nossa corda cumpre seu papel fatalista de enforcar-nos, para que nossa realização se resuma ao ato de contemplar uma peça ou outra de design. O designer enforcado somente se redime e regozija vendo a própria criação, decifrando e se alimentando de sua suposta beleza, e isto é a única coisa que o restou, e a única morada para seu inconformismo.

Contudo, há aqueles que escapam do enforcamento, inertemente, e quase que sem perceber sua escolha, pois encontram sua saída através da prática ordinária e tecnicista de procurar uma forma mais adequada de transmitir informação, fazendo-se entender, validando o senso comum em contraponto ao senso crítico, onde o erro menor é o esforço em procurar um culpado, e consequentemente em transferir a tal culpa ao mercado, pessoas ou afins, ao invés de procurá-la em si mesmo, ainda que buscar identificar a culpa, mesmo sendo um começo, só sirva para repetir um juízo duvidoso de valores.

À deriva, os designers que não se enforcaram vivenciam a falha prevista e inerente à comunicação, onde sempre estão presos e limitados ao próprio olhar, mas insistem em parametrizar cada assunto em busca de uma neutralidade (o que é pelo menos curioso e contraditório). E, quando geram signos, transformam cada folha de papel numa informação útil e didática, sinalizam e conferem status às coisas, estão apenas dando manutenção a epidemia do funcional, do que é aceito, do que é vendável.

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Enfim, sem notar o que foi perdido, transformam-se em Sísifos, empurrando morro acima, uma enorme pedra. Sim, o Sísifo da mitologia grega, capturado e punido pelos deuses, mas que antes disso era o mais audaz, esperto e inteligente dos homens e chegou a enganar a morte, confrontando os deuses, e desviando do fatalismo de seu destino. Tal qual o estereótipo inspiracional que esta atividade carrega, afinal, um designer é alguém de ideias, alguém criativo.

A pecha do designer é comum a todos, aos marqueteiros que discutiam as cores do layout, aos executivos que criam os programas de (não) incentivo, ao pessoal descolado do atendimento e da criação, a qualquer um de nós. Portanto, tardiamente, opto pelo espaço entre a explicação e a pergunta, para evitar caminhar entorpecido ao abatedouro diário do não reflexivo senso comum, e com isso, buscar capturar a sensibilidade do outro e a minha, como forma de resgatar o questionamento perdido. Afinal, não tenho a eternidade de Sísifo, e meu próprio enforcamento já não mais me convém.

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