Arquivo para categoria ‘Design e cultura’ Category

Oblomovismo enquanto potência

Uma versão reduzida desse texto pode ser encontrada aqui

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A excelente nova tradução de Rubens Figueiredo de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política, colocando-o ao lado do consagrado Bartleby de Herman Melville.

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«Repensando o modernismo, revisando o funcionalismo» de Katherine McCoy

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Durante o processo de pesquisa para o artigo Alternativas epistemológicas para o design da informação: a forma enquanto conteúdo, publicado recentemente na revista Infodesign, pareceu-me que algumas discussões sobre a mera presença do designer que ainda hoje circulam no Brasil estão bem datadas. Leia mais…

O antimito de Aquarius

Há muito acontecendo em Aquarius. Seria exaustivo e incompleto listar os fios narrativos que compõem a trama cotidiana de Clara ou relatar o conforto com que Kleber Mendonça se utiliza da imagem cinematográfica para nos afundar nessa ressaca social. O filme, como obra-prima que creio que seja, resiste a todos os tipos de leituras e atitudes do espectador, desde aquele afogado pela fantástica cotidianidade da narrativa, até aquele que procura segurar-se à artificialidade da tela do cinema.

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Religião, Trabalho e a Ética dos Predestinados

predestinação dogma da fé católicaDesde o inicio do pensamento sistematizado, o Homem associou a noção de existência virtuosa ao cumprimento de deveres. Portar-se bem, realizando a vontade de Deus, ou Deuses, trazia consigo a expectativa de uma salvação transcendente e, portanto, consoladora, ao individuo. No plano terreno, servir de maneira mais comprometida e fiel possíveis, a uma liderança carismática, ainda que possivelmente tirânica, ampliaria o conjunto de condutas louváveis , autêntico passaporte para uma vida plena no mundo da eternidade. Servir ao rei, por exemplo, em plena Idade Média, significava servir à divindade, pois o mesmo era considerado o representante do Absoluto no mundo material, e mais, seu braço armado, concretizando a potência divina em termos práticos. Todavia, no transcorrer do seculo XIX, em plena Revolução Industrial, a noção de relevância também na dedicação ao trabalho, ganhou peso na percepção que a sociedade passaria a ter dos seus membros, na definição de uma vida moralmente digna de cada um, perante o grupo social considerado. Leia mais…

Elucubrações a partir de Frank Lloyd Wright: sobre estilos, ideais e máquinas

Frank_Lloyd_Wright_portrait-pQualquer arquiteto ou designer conhece o nome de Frank Lloyd Wright, algumas de suas obras mais famosas (como a casa da cascata), e provavelmente sabe de sua importância para o modernismo. Porém, muitas vezes, fica-se nisso. Recentemente, tive a oportunidade de visitar a casa que ele projetou para o executivo Frederick C. Robie no final da primeira década do século passado, em Chicago. Fiquei impressionado com a capacidade de Lloyd Wright de integrar desde os aspectos mais estruturais até os pequenos detalhes, como gavetas embutidas, passando pela iluminação, portas, móveis e desenhos dos vidros; e de projetar pensando claramente na experiência humana com o espaço. Isso sem falar da integração do projeto com o ambiente, a grande marca da arquitetura de Lloyd Wright — uma arquitetura orgânica, como ele a definia.

A integração com o ambiente a que me refiro — e que Lloyd Wright propõe –, porém, não é o tipo de integração que nos leva a pensar, por exemplo, naquelas casas de hobbit do Senhor dos Anéis. Ele não quer fundir seu projeto à natureza e nem utilizar a natureza como grande referência de formas (traço que associamos ao Arts and Crafts e, principalmente, ao Art Nouveau). Lloyd Wright se utiliza de formas duras, que se integram, mas também contrastam com o ambiente. No caso da casa de Robie, projeto que costuma figurar como um dos principais exemplos do que ficou conhecido como Prairie School ou Prairie Style (estilo das pradarias, em tradição literal), o design horizontal, com diversas linhas (recuos e projeções) e telhado plano, dão a sensação de que a casa é achatada, espraiada em diversos planos próximos, sem elevações verticais, integrando-se às pradarias. Leia mais…»

O artista, o belo e a arte : modelagem, mutabilidade e mercado

venus-de-willendorfHouve um tempo em que poderiamos considerar a beleza como produto da observação empírica dos elementos da natureza. Toda obra de arte , traduzida como manifestação sensível do Homem, seria necessariamente limitada a buscar reproduzir o que chega empiricamente ao mesmo. O artista seria então mero executor daquilo que já estaria pronto e acabado, mediante uma ordem cósmica estabelecida previamente, em um estado universal de simetria e harmonia das formas. O belo seria a materialização da perfeita adequação da habilidade do artista, ao mundo que o cerca. De outra forma, Platão restringia o alcance do conceito de arte, pois a idéia de verdadeira arte seria inatingível no plano material, posto que a mesma somente poderia ser apreciada no mundo das idéias. Segundo ele, o sentido do belo transcende o que os sentidos percebem, devido ao caráter precário e imperfectivel destes. Somente a razão superior , acessada pela alma, poderia apreciar o que é a beleza atemporal e absoluta, imutável ao longo dos tempos. Para o pensador, quanto maior a interferência do artista no que a natureza apresenta, maior a deformação, maior a distância entre a idéia perfeita do que é observado e a sua vã tentativa de dar sentido ao que deve ser atingido, como verdade, na transcendência. Leia mais…

Os artistas e a Anatomia

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Recentemente o artista italiano Nuncio Paci criou uma série de trabalhos dedicados ao Barroco, no seu estilo bem próprio onde expõe o corpo “vivisseccionado”. A Anatomia é parte essencial do repertório do artista, sendo tematizada em sua obra como um elemento estético.

A tradição, porém, atribuiu um uso instrumental à Anatomia – que por isso tem sido estudada sistematicamente desde o Renascimento, figurando já na antiguidade clássica como um saber necessário ao métier artístico, um padrão de maestria e a bitola da boa arte. Essa distinção durou até a segunda década do século XX – com pausa de um século para o começo e fim das vanguardas modernistas – e agora retorna, nas últimas duas décadas, depois de um século de experimentações e implosões do campo artístico. Mas reaparece de modo bem diverso.

Há cerca de dez anos, o médico e anatomista alemão Gunther von Hagens espantou a comunidade científica ao expor para o grande público cadáveres plastinados como se possuíssem valor artístico – legítimas obras de arte, em exposições que itineram por todos os continentes ate hoje. Tratava-se de uma técnica de dissecação e preservação dos corpos, patenteada por ele na década de 70, com a qual banhava-se em ácidos e se enxertava um polímero nas veias e artéreas, tornando os cadáveres perenes, sem odor, e facilmente manipuláveis. Além da inovação técnica, o estardalhaço se devia ao fato de Hagens atuar como artista e tratar seus corpos com ampla liberdade, expondo-os em poses e situações como se estivessem vivos. Leia mais…

Publicidade e Infância : A Precoce Ruptura Ético-Moral

1_manifesta____o___foto_walax_louren__o-1471218O modo de vida contemporâneo , pautado em forte viés neoliberal, contém relevantes aspectos do discurso pragmático, originado em Maquiavel. Para o senso comum vigente, se existe alguma razão para se refletir sobre a condição do individuo nos dias atuais, esta passa necessariamente pela melhor maneira de viver, que possa resultar no alcance de um estado de felicidade e plenitude. Nesse sentido, o caminho preferencial busca estabelecer uma relação direta, na qual o acúmulo de um dado número de satisfações produza a efetivação de uma condição ideal de bem estar. Coerente com esse raciocínio, a conduta coletiva passa a ser sintetizada dentro de um modelo lógico fabricado dentro do capitalismo, no qual a noção de desejo despertado levará, impositivamente, à busca pela satisfação do mesmo e, em cumprida esta etapa, à felicidade. Fazer brotar o desejo, majoritariamente através da publicidade, viabilizando a sua consecução através da oferta abundante de crédito, coloca em marcha a equação que a todos envolve na contemporaneidade. Inovação, design e obsolescência programada, em adendo,  turbinam o motor do consumo.

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Design, moral e industrialização: prefácio a uma pesquisa

workAs referências à revolução industrial são bastante comuns quando se trata de pensar as origens do design como o entendemos hoje. Para muitos, o design – ou um tipo específico de design, o design como atividade moderna – emerge a partir da ruptura, promovida pela automação da produção, entre a atividade de projetar e a de produzir. Antes, o artesão seria responsável tanto pelo projeto quanto pela produção, e não havia uma separação clara entre essas duas atividades.

Concedamos que a atividade de projetar que hoje chamamos de “design” emerge, ao menos em parte, ligada às descritas mudanças promovidas pela revolução industrial. É preciso observar, contudo, que a automação da produção é apenas a condição material para a emergência do design como atividade moderna, e de maneira alguma pode oferecer dele uma caracterização satisfatória. Se queremos compreender de maneira complexa o desenvolvimento do design a partir da revolução industrial, temos que abandonar, portanto, as perspectivas materialistas reducionistas sobre suas “origens”. Leia mais…»

A Divina Burguesia do Proletariado

neoliberalismoPartindo-se da Revolução Industrial , em meados do século XVIII, a utilização de tecnologias vem, progressivamente, acelerando e aprimorando os modos de produção de bens e serviços, mobilidade e comunicações, em todo o planeta. No decorrer desse tempo, iniciado por volta de 1760, a população mundial saltou de um bilhão para aproximadamente sete bilhões de habitantes, interligados mundialmente. Esse cenário provocou uma busca incessante por alimentos, fontes de energia e matérias primas diversas, e posteriormente, por mercados que pudessem absorver a escala industrial de produção, decorrente dessa nova realidade. Corporações locais ampliaram seu escopo de atuação, transnacionalizando-se, modificando substancialmente a cultura e o meio ambiente, através de um poder estrutural jamais conhecido e nunca antes tão concentrado, no decorrer da história do Homem sobre a face da Terra. Dessa forma, a dinâmica de ações correlatas a este poder estrutural, passou a causar, simultaneamente, benefícios, para um grupo cada vez menor de pessoas, e um ônus desproporcional, a um número cada vez maior de individuos. Leia mais…»