Arquivo para categoria ‘Design e sensibilidades’ Category

Elogio ao barroco: o trágico alegre

O mundo barroco, cujo nome surgiu de maneira depreciativa (pérola irregular, imperfeita), foi revalorizado em meados do século passado, bem menos por seu pensamento e mais por sua arte. As contradições interpretativas indicam as contradições que o caracterizam – não é de se espantar que Eugenio d’Ors, em sua conhecida obra Du baroque, propõe vinte e duas acepções para o termo “barroco”. De um lado, a historiografia clássica caracteriza o século XVII como sendo o “Grande Século” (expressão que Michelet atribui, porém, ao século XVIII), donde a pergunta é inevitável: “grande” por que, em relação a que e de acordo com quem?

De outro lado, o historiador alemão Heinrich Wölfflin, em sua obra Renaissance und Barock (século XIX), transforma o barroco em conceito anistórico que serve para designar o momento decadente em cada período da história da arte. Por sua vez, Benjamim (em Origem do drama barroco alemão) encontrou no período barroco a primeira manifestação de “esvaziamento” das imagens, uma vez que elas não mais irradiavam um sentido unívoco. Pretendo sintetizar aqui dois aspectos que, respectivamente às questões levantadas, considero interessantes no período seiscentista: a emergência de um “teatro filosófico” e, no que tange à visualidade, o fim do valor metafísico das imagens. Leia mais…»

“Pele Agridoce”: inicia-se o Hiper-realismo Contemporâneo no Brasil

Gio/Smoke and Shadow

Gio/Smoke and Shadow

“Quem foi seu mestre?” Pergunta a dr. Marilice Corona num encontro com o artista. “O Youtube!” Responde Patrick Rigon, no mesmo tom de ironia. Leia mais…

O “realismo-abstrato” da arte contemporânea

Parece ganhar repercussão, notadamente em discursos como os de Robert Florczak e Roger Scruton, certo revanchismo muito similar às mostras infames que os nazistas organizaram por volta de 1940, condenando uma arte “degenerada” que abrange todos os modernismos. Essa visão fatalista de uma arte em declínio, que procura sua autenticidade num passado nostálgico, é obviamente problemática, especialmente porque tal remorso em relação a uma pureza perdida também serviu de combustível aos modernismos. Meu objetivo aqui, portanto, não é provar que uma posição é correta e a outra, errada, nem afirmar que um momento é moderno e o seguinte, pós-moderno – mesmo porque não vejo aí ruptura alguma.

Tratei em outro ensaio dos pressupostos metafísicos da arte conceitual. Quero agora delinear o problema discursivo que me parece haver na insidiosa oposição entre real e abstrato, a partir da qual vejo ressurgir um ideologema romântico que perpassa parte da arte do século XX até hoje. Em outros termos, a noção de “abstração” postergada pelos modernos (a partir do constructo simbólico do primitivismo contra a cultura hegemônica) tornou-se o fetiche contemporâneo da “simulação”, e com isso um realismo renovado preservou certa nostalgia (traumática) de um sujeito estável. Embora um momento conduza ao seguinte, este seguinte prescreve o anterior, assim como um enquadramento determina o olhar que o enquadra. Leia mais…»

Um breve imaginário do design

“Imaginário” implica, no presente ensaio, uma empreitada genealógica: identificar recorrências discursivas que nos permitam elaborar hipóteses filosóficas, neste caso, sobre a noção de design. Mais importante do que a História – enquanto pressuposta “verdade dos fatos” –, portanto, é a maneira como a contamos, portanto o design das histórias. Ou ainda, nos termos do historiador Philip B. Meggs:

O caráter efêmero e imediato do design gráfico, combinado com sua ligação com a vida social, política e econômica de uma determinada cultura, permite que ele expresse mais intimamente o Zeitgeist [paradigma] de uma época do que muitas outras formas de expressão humana. Ivan Chermayeff, renomado designer, disse: o design da história é a história do design. – Philip B. Meggs, História do design gráfico (Cosac Naify, 2009, p. 10). Leia mais…»

Expresso, logo existo!

Paul Cadden, place to beA fim de criar imagens, carecemos, antes de tudo, saber ler e interpretar imagens. Falo de algo para além da Semiótica – este binóculo que muitas vezes não capta mais que uma ilhota no arquipélago imagético. O que se faz necessário é uma sonda que penetre as profundezas do oceano onde elas ancoram, algo que muitas vezes os poetas alcançam – sem se deixarem intimidar pela iconografia, tampouco estarem sujeitos ao círculo restrito das leituras acadêmicas. Quando Drummond diz:

“e tudo que define o ser terrestre / ou se prolonga até nos animais / e chega às plantas para se embeber / no sono rancoroso dos minérios, / dá volta ao mundo e torna a se engolfar, / na estranha ordem geométrica de tudo”

em seu grande poema A Máquina do Mundo, ele concebe uma “arquitetura de tudo”. Esta é a dimensão que se faz necessária para se compreender a imagem; não menos que isso. A ferramenta essencial: dois olhos encrustados no meio da face. Leia mais…

O permanente paradoxo do desenho

Rubens O desenho é, antes de tudo, experiência visual. Enquanto experiência necessita ser “simbolizado”, formulado em termos de linguagem. Embora seja ele o próprio ato e ação de simbolização, de formulação linguística (é através do desenho que simbolizo um trauma, por exemplo), o desenho é em si também uma percepção específica, com seu repertório particular de coordenadas: os elementos da linguagem visual (ponto, linha, reta, cor, etc). Heinrich Wölfflin (1864-1945) percebeu, com uma intuição notável, os resultados desta aplicação em sua caracterização dos estilos linear e pictórico. 

Em síntese, ele conjuga numa esquematização de princípios toda arte ocidental como subordinada a uma dessas categorias estilísticas. A “arte linear” baseia-se no desenho, na proporcionalidade, na linha e na dimensão harmônica; a “pictórica” baseia-se na cor, na gravidade, na ambientação, no arrebatamento emocional. Citaremos exemplos práticos mais adiante. Em outra obra*, Wölfflin analisa a origem dos estilos, com um estudo do surgimento do Barroco a partir da desagregação da Renascença que ajuda a compreender bastante essa oposição. Como nossa contribuição, escrevemos algumas linhas sobre o assunto. Leia mais…

Sobre acaso e criação estética

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O belo não é nem artifício nem natureza, sendo primeiramente acaso. Daí resulta que o ato humano que culmina na criação de belas formas não é irracional, como diz Platão no Ion, mas casual, como o são todos os atos; e além do mais ele não é exatamente criador, se se entende por criação uma modificação trazida ao estatuto do que existe: nesse sentido – que é aquele habitualmente reconhecido à expressão “criação estética” – toda criação é impossível. – Clément Rosset, Lógica do Pior (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 183).

O decreto de que “toda criação é impossível” é somente polêmico e insidioso do ponto de vista por ele denunciado: aquele da criação como excepcional ação de transformar o mundo, pressupondo agentes criadores como únicos aptos a fazê-lo. Com efeito, esta faculdade “criadora” é entendida, nestes termos, como aptidão em transcender o acaso, isto é, como capacidade de ultrapassar a sorte oportuna para conceber deliberadamente coisas belas. É neste sentido que a severidade de Platão em relação aos artistas (no livro X da República) não se referia tanto ao ato mimético, mas à intenção de imitar um modelo que seria propriamente inimitável. Qual seja, algum que torne coerente o sentimento agradável que nasce em todas as ocasiões belas, como uma necessidade sem a qual não perceberíamos o belo. Leia mais…»

Entre arte e design, um ritual do mesmo para o mesmo

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É inútil escapar ao “jogo de Mamúrio”: o essencial é continuar, apesar das pauladas. O ensinamento do ferreiro Mamúrio é oposto ao dos outros “senhores do fogo” da área indo-europeia: não o Wut, o furor religioso, a cólera que aterroriza os inimigos, mas a calma, a indifereça, o mimetismo; em uma palavra, a caerimonia. – Mario Perniola, Pensando o ritual: sexualidade, morte, mundo (São Paulo: Studio Nobel, 2000, p. 261-262).

Parte da investigação estética iniciada analogamente aos meus estudos em aquarela tem enveredado para o período helenístico, onde se cultivava uma relação intrínseca entre erotismo e arte. Em especial, o véu que esconde/revela o corpo sintetiza a cena romana: a evocação e a manifestação de uma presença que não pode ser afirmada e significada diretamente. Tal dinâmica da máscara, pela qual uma coisa é ao mesmo tempo outra, diz respeito a uma espécie de intuição que sempre alimentei em relação à ideia de design. Algo que, sob um viés filosófico (que antes de tudo é o que me anima), poderia ser dito da seguinte forma: tudo se reduz a pó, mas o pó é também um tipo de véu que a tudo envolve. Leia mais…»

Música e afirmação da Vontade: um comentário sobre as estéticas de Schopenhauer e Nietzsche

musica1No mês passado, fui convidado para falar sobre Schopenhauer e Nietzsche em um evento cultural focado na música. De início, fiquei reticente, devido ao meu conhecimento musical bastante parco. Por outro lado, tratava-se de expor as ideias de dois dos filósofos que mais influenciaram meu pensamento. E é um fato que eles dão, em suas filosofias, mais destaque à música do que às artes plásticas. Assim, aceitei o convite, e, como acredito que minha fala ficou interessante, apresento-a agora aqui, na forma de post.

Pelo menos em parte, o interesse de Schopenhauer e Nietzsche na música está ligado ao fato de ela não lidar com representações, com objetos, como acontece nas artes plásticas ou na poesia. Hoje, é claro, podemos pensar que a pintura abstrata ou outras formas de artes abstratas também não lidam com representações. Entretanto, o abstracionismo é um movimento relativamente recente nas artes plásticas, que ganha força somente no início do século XX — e vale lembrar que alguns dos artistas que impulsionaram o abstracionismo, como Kandinsky, na verdade propunham uma pintura em larga medida baseada justamente na música. Leia mais…»

O guarda-chuva invisível de Duchamp

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

De fato, nada até agora teve uma mais ingênua força persuasiva do que o erro do ser, tal como foi, por exemplo, formulado pelos eleatas: pois esse erro tem a seu favor cada palavra, cada proposição que nós falamos! – Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos ou como filosofar com o martelo (Obras Incompletas, Editora Nova Cultural, 1999, § 5, p. 375).

I. Da ilusão metafísica e sua contenda dialética

Em O nascimento da tragédia, Nietzsche refere-se a Sócrates como pioneiro na instalação de uma representação ilusória que assinalou o paradigma da filosofia ocidental: a metafísica, esta crença de que o pensamento pode nos revelar uma ordem inteligível, portanto destacável e nomeável, presente em relações aparentemente desordenadas. Com Platão e Aristóteles, passando por todos os pensadores posteriores tidos como sérios e reputáveis, estaria inaugurada uma grande busca por uma realidade ordenada, gratificante, em detrimento das imperfeições que poderiam então, e só então, ser percebidas e devidamente corrigidas. Leia mais…»