Arquivo para categoria ‘Design e valores’ Category

Religião, Trabalho e a Ética dos Predestinados

predestinação dogma da fé católicaDesde o inicio do pensamento sistematizado, o Homem associou a noção de existência virtuosa ao cumprimento de deveres. Portar-se bem, realizando a vontade de Deus, ou Deuses, trazia consigo a expectativa de uma salvação transcendente e, portanto, consoladora, ao individuo. No plano terreno, servir de maneira mais comprometida e fiel possíveis, a uma liderança carismática, ainda que possivelmente tirânica, ampliaria o conjunto de condutas louváveis , autêntico passaporte para uma vida plena no mundo da eternidade. Servir ao rei, por exemplo, em plena Idade Média, significava servir à divindade, pois o mesmo era considerado o representante do Absoluto no mundo material, e mais, seu braço armado, concretizando a potência divina em termos práticos. Todavia, no transcorrer do seculo XIX, em plena Revolução Industrial, a noção de relevância também na dedicação ao trabalho, ganhou peso na percepção que a sociedade passaria a ter dos seus membros, na definição de uma vida moralmente digna de cada um, perante o grupo social considerado. Leia mais…

A Sociedade do Cansaço : neoliberalismo, hiperconectividade e outras urgências

AAEAAQAAAAAAAAWwAAAAJDA1OTA1ZGRhLTM5MzgtNGIzZC1hYzQ5LTk4N2RjNzk4ZDM2NASim, passou rápido. No dia seis de agosto de 1991, Tim Berners-Lee, físico e pesquisador britânico do CERN, organização européia para pesquisa nuclear, sediada na Suiça, apresentou a idéia de World Wide Web, em vários grupos de discussão científica. Era a gênese da internet como a conhecemos hoje. Contrariamente à visão radical de negócio, típica do modelo econômico largamente implantado desde meados dos anos 80, do século passado, Berners-Lee abriu mão do direito de patentear, e por conseguinte, comercializar com exclusividade, a sua criação. Dessa forma, seu intuito de capilarizar o produto, através do livre aperfeiçoamento do mesmo, por outros interessados, obteve adesão em larga escala. Hoje, somos aproximadamente 3,2 bilhões de pessoas conectadas, graças ao desprendimento daquele homem, que preferiu legar seu conhecimento ao planeta, sem auferir ganho objetivo algum, além do reconhecimento acadêmico. Nem mesmo o fato da internet ter se tornado um espaço universal de comércio, pareceu fazê-lo mudar de opinião. Contudo, o que viria a seguir é outra história…. Leia mais…

O politicamente correto e o meritocrático: uma via de mão dupla

* Esculturas de Barry X Ball ilustram o post.

A psiquiatria e os manuais de autoajuda contemporâneos atestam-nos que diversos transtornos psíquicos, como a depressão e a fobia social, estão associados sobremaneira à baixa autoestima. Logo, “autoestima” é o nome daquilo que todos deveriam ter, o orgulho de “ser o que se é”, de modo que a falta disso torna-se alvo de intensa preocupação social. Advém daí a sensibilidade que leva muitas celebridades a vir a público dizer que, antes de se tornarem autoconfiantes e admiradas por todos, tiveram que resistir e superar as mais diversas formas de repreensão da autoestima. Tais relatos tornam-se, então, um modo de ajudar a todos que sofrem em silêncio.

Não pretendo discorrer aqui sobre a autoestima, mas sobre o campo discursivo que a torna um bem precioso. Por “campo discursivo” eu me refiro à base valorativa que, em termos foucaultianos, estabelece os limites do que é possível pensar e dizer. O pressuposto é o de que tudo o que se diz e o que se pensa conjuga-se no interior de um conjunto de coordenadas acerca da verdade, da normalidade, da civilidade e do moralmente aceito. Interessa-me, sob esse prisma, mostrar a distância relativa entre dois discursos que se posicionam, a princípio, de maneira antagônica: o meritocrático e o politicamente correto. Retomemos antes a questão da autoestima. Leia mais…»

A publicidade entre eros e thymós: consumo e esporte

nike-witnessesHá muito, ações publicitárias de empresas esportivas reforçam valores ligados à atividade, ao esforço, ao suor, ao treino duro, à disputa, à vitória, à performance, dentre outros no mesmo campo ético, e procuram vincular tais valores a suas marcas. É claro que a tentativa de associar marcas a certos valores faz parte do cerne da publicidade e nem de longe é algo exclusivo das empresas ligadas ao esporte. Entretanto, os valores mais comumente associados a marcas diversas circulam pelo campo da felicidade, da diversão, do amor, da beleza e, principalmente, do erotismo. Com efeito, peças publicitárias com homens e mulheres de corpos sensuais e olhares libidinosos são presença constante no cotidiano de qualquer habitante urbano do século XXI. A dimensão erótica do consumo é tão marcante que o filósofo Mario Perniola chegou a defini-lo como o reino de uma sexualidade sem orgasmo. Leia mais…»

Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

Todo mundo sabe o que ninguém quer mais saber

* Imagens de Adolfo Bimer ilustram o post.

Crianças compreendem diferentes tipos de coisas através dos mesmos filtros. É assim que elas funcionam: uma criança encontra um coelho pela primeira vez e pensa como esse gato é esquisito. O que também funciona para atribuir um papel a cada pessoa desconhecida: o coleguinha engraçado, a bruxa má, a princesa frágil, o príncipe encantado e mais um apanhado de categorias que, sabemos, podem continuar funcionando durante muito tempo.

Só que uma mesma criança pode se comportar de muitas formas diferentes, pode mudar de opinião o tempo inteiro, pode passar do choro ao riso num instante e sem o menor constrangimento. Ou seja, não é necessário agir de maneira coerente, embora haja certa coerência nos papéis atribuídos aos outros. E esses papéis, ainda que sejam fixados como uma referência, funcionam apenas por conveniência: se o mundo se mostra por vezes inconveniente, pode-se adotar uma explicação que o faça parecer mais conveniente. Leia mais…»

Design, moral e industrialização: prefácio a uma pesquisa

workAs referências à revolução industrial são bastante comuns quando se trata de pensar as origens do design como o entendemos hoje. Para muitos, o design – ou um tipo específico de design, o design como atividade moderna – emerge a partir da ruptura, promovida pela automação da produção, entre a atividade de projetar e a de produzir. Antes, o artesão seria responsável tanto pelo projeto quanto pela produção, e não havia uma separação clara entre essas duas atividades.

Concedamos que a atividade de projetar que hoje chamamos de “design” emerge, ao menos em parte, ligada às descritas mudanças promovidas pela revolução industrial. É preciso observar, contudo, que a automação da produção é apenas a condição material para a emergência do design como atividade moderna, e de maneira alguma pode oferecer dele uma caracterização satisfatória. Se queremos compreender de maneira complexa o desenvolvimento do design a partir da revolução industrial, temos que abandonar, portanto, as perspectivas materialistas reducionistas sobre suas “origens”. Leia mais…»

A Divina Burguesia do Proletariado

neoliberalismoPartindo-se da Revolução Industrial , em meados do século XVIII, a utilização de tecnologias vem, progressivamente, acelerando e aprimorando os modos de produção de bens e serviços, mobilidade e comunicações, em todo o planeta. No decorrer desse tempo, iniciado por volta de 1760, a população mundial saltou de um bilhão para aproximadamente sete bilhões de habitantes, interligados mundialmente. Esse cenário provocou uma busca incessante por alimentos, fontes de energia e matérias primas diversas, e posteriormente, por mercados que pudessem absorver a escala industrial de produção, decorrente dessa nova realidade. Corporações locais ampliaram seu escopo de atuação, transnacionalizando-se, modificando substancialmente a cultura e o meio ambiente, através de um poder estrutural jamais conhecido e nunca antes tão concentrado, no decorrer da história do Homem sobre a face da Terra. Dessa forma, a dinâmica de ações correlatas a este poder estrutural, passou a causar, simultaneamente, benefícios, para um grupo cada vez menor de pessoas, e um ônus desproporcional, a um número cada vez maior de individuos. Leia mais…»

O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate. Leia mais…»

Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

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E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ?  Leia mais…