Arquivo para categoria ‘Elucubrações diversas’ Category

O conceito de forma

“Formalismo” aparece-nos um termo carregado de significados que, em muitos aspectos, dizem coisas contrárias. Busco diferenciar um formalismo vulgar – aquele em geral empregado de maneira pejorativa – daquilo que ficou conhecido como o Formalismo russo. A partir de alguns conceitos-chave dessa teoria inacabada da arte, defendo que a acepção com que os Formalistas russos utilizavam forma é bem próxima ao que tenho encarado como um elogio à superficialidade. Isso significa desvencilhar a obra de uma ideia ou conceito transcendente e trazê-la à esfera sensível. Ou ainda, dizer que todo discurso extraído de uma obra  – o “conteúdo” – está entrelaçado, invariavelmente, em sua forma; como ela se apresenta.

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Estilhaços

 

Aconteceu de novo.13nov2015---corpo-de-vitima-permanece-coberto-diante-da-sala-de-concertos-bataclan-apos-serie-de-ataques-terroristas-em-paris-homens-armados-com-armas-de-fogo-bombas-e-granadas-atacaram-restaurantes-144746983527
É tanto #pray,
que já não sei,
para onde aponto a minha fé.
Spray de pimenta,
na cara do sensato argumento,
repressão e contingência.
Cruzados em nome de qualquer Deus legitimado,
tornam-se homens-bomba virtuais,
jogando na rede a impossibilidade,
do convívio em Estado de Sociedade.
Coadjuvantes, na guerra de todos contra todos, dando palpites corrosivos, no que não foram convocados. Leia mais…

O desenho enquanto singularidade

Nesse post, aponto para uma mudança linguística e conceitual da palavra desenho. Afirmo que a raiz latina de signum supõe a representação (e portanto repetição) e que isso não corresponde ao que o desenho e a pintura se propuseram a fazer na história da arte. Apresento, então, a raiz anglo-saxã para drawing e depiction, como aquilo que desloca do mundo, transforma e se cria através do gesto – originando singularidade, diferença.

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Todos os desenhos desse post são do meu sketchbook, e quase todos são exercícios do curso de Charles Bargue.

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Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Cicatrizes do íntimo

E para quê exprimir? O pouco que se diz melhor fora ficar não dito.

Se eu bem pudesse compenetrar-me realmente e quanto a renúncia é bela, que dolorosamente feliz para sempre que eu seria!

Todas as citações desse texto são de Bernardo Soares, no Livro do Desassossego

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Estética do desalento

Publicar-se — socialização de si próprio. Que ignóbil necessidade! Mas ainda assim que afastada de um ato — o editor ganha, o tipógrafo produz. O mérito da incoerência ao menos.

Uma das preocupações maiores do homem, atingida a idade lúcida, é talhar-se, agente e pensante, à imagem e semelhança do seu ideal. Posto que nenhum ideal encarna tanto como o da inércia toda a lógica da nossa aristocracia de alma ante as ruidosidades e exteriores modernas, o Inerte, o Inativo deve ser o nosso Ideal. Fútil? Talvez. Mas isso só preocupará como um mal aqueles para quem a futilidade é um atrativo.

– Bernardo Soares no Livro do Desassossego

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A fragmentação da permanência

Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. (…) O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. (…) Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eclesiastes, 1

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Nestas águas em que me afogo

* Este texto é uma contribuição de Douglas Cavendish – pesquisador e mestrando no PPG DTecS da Universidade Federal de Itajubá –, relatando um breve testemunho da 1ª Sessão Não Obstante, realizada dia 02/05/2015.

Em 2010, eu era um jovem cheio de expectativas, curiosidades e muitas certezas sobre aquilo que eu queria me tornar: um designer, eu diria sem medo de errar. Leia mais…»

Muito fantasma pra pouca ópera

jasmine_tridevilEm setembro do ano passado, uma notícia foi compartilhada exaustivamente pelas redes sociais da internet desse Brasilzão doido: a história de Jasmine Tridevil (?), a americana que supostamente implantou um terceiro seio para espantar homens e viver isolada sem parecer atraente para ninguém. O mais legal era o intuito dos compartilhamentos: geralmente, pessoas expressando o quanto acharam engraçada ou desagradável a atitude da moça, sem antes se perguntarem o básico, que é a primeira coisa que eu me pergunto até quando minha sogra aparece com uma sobremesa muito bonita depois do almoço no domingo: aquilo ali é verdade ou mentira?

Não demorou muito, os mythbusters de plantão surgiram com o veredicto: mentira, e das cabeludas. Jasmine inventou a história e tirou a foto usando um corpete de borracha com três seios porque, bem, hm, determinadas razões. Mas não há motivo para julgar as pessoas que acreditaram na história, ela poderia muito bem ser verídica. Não é difícil imaginar que hoje em dia, se alguém quiser realmente ter um terceiro ou talvez até um quarto mamilo, só o que precisa fazer é o seguinte: ir até o consultório de algum cirurgião plástico e largar um saco de dinheiro na mesa dele. Leia mais…

Uma hipótese para a solidão ou Como me oculto e me desconecto nas redes sociais

Annemarie_Busschers_holand_1-520x245Por uma incrível coincidência histórica, nossa liberdade individual aumentou consideravelmente quando houve um acréscimo de recursos; quer dizer, quando a sociedade de consumo surgiu. Torna-se trágico se analisarmos pelo viés contrário: justamente quando há um assomo na disponibilidade de recursos e oferta de produtos, opera-se um aumento visível na liberdade individual de cada ser humano.
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