Arquivo para categoria ‘Fragmentos Filosóficos’ Category

Fragmentos filosóficos #8 – Nietzsche sobre os últimos homens

Crumpled adhesive notes with smiling facesEste é o oitavo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Assim falou Zaratustra, prólogo, 5 (edição consultada: Trad Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

“Nós inventamos a felicidade” – dizem os últimos homens, e piscam o olho.

Eles deixaram as regiões onde era duro viver: pois necessita-se de calor. Cada qual ainda ama o vizinho e nele se esfrega: pois necessita-se de calor.

Adoecer e desconfiar é visto como pecado por eles: anda-se com toda a atenção. Um tolo, quem ainda tropeça em pedras ou homens! Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #7 – Hume sobre a crença

Este é o sétimo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Investigação sobre o Entendimento Humano (1748), Seção II, § 9 (edição consultada: Trad. José Oscar de Almeida Marques. São Paulo: Editora UNESP, 1999, p. 28-29). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Todas as idéias, especialmente as abstratas, são naturalmente fracas e obscuras: o intelecto as apreende apenas precariamente, elas tendem a se confundir com outras idéias assemelhadas, e mesmo quando algum termo está desprovido de um significado preciso, somos levados a imaginar, quando o empregamos com frequência, que a ele corresponde uma idéia determinada. Ao contrário, todas as impressões, isto é, todas as sensações, tanto as provenientes do exterior como as do interior, são fortes e vívidas; os limites entre elas estão mais precisamente definidos, e não é fácil, além disso, incorrer em qualquer erro ou engano relativamente a elas. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #6 – Schopenhauer sobre a condição humana

schopenhauer3Este é o sexto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O mundo como vontade e como representação, § 57 (edição consultada: Trad. Jair Barbosa. São Paulo: Editora UNESP, 2005). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Querer e esforçar-se são [a] única essência [do homem e do animal], comparável a uma sede insaciável. A base de todo querer, entretanto, é necessidade, carência, logo, sofrimento, ao qual consequentemente o homem está destinado originariamente pelo seu ser. Quando lhe falta o objeto do querer, retirado pela rápida e fácil satisfação, assaltam-lhe vazio e tédio aterradores, isto é, seu ser e sua existência mesma se lhe tornam um fato insuportável. Sua vida, portanto, oscila como um pêndulo, para aqui e para acolá, entre a dor e o tédio, os quais em realidade são seus componentes básicos. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #5 – Montaigne e o reino da exceção

Este é o quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas “próprias palavras”. O trecho abaixo foi retirado do livro II de  Ensaios, de Michel de Montaigne (São Paulo: Martins Fontes, 2006, p. 371). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Pois o que a natureza nos tivesse realmente ordenado, nós indiscutivelmente seguiríamos de comum acordo. E não apenas toda nação, mas todo homem em particular sentiria a coação e a violência que lhe estaria fazendo quem o quisesse impelir para o contrário dessa lei. Que me mostrem, para eu ver, uma nessa condição. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #4 – Foucault sobre a prédica sexual

Foucault5Este é o quarto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro História da sexualidade I: a vontade de saber, de Michel Foucault (Rio de Janeiro: Graal, 1988, p. 13-14). Seleção e comentários de Daniel B. Portugal.

Alguma coisa da ordem da revolta, da liberdade prometida, da proximidade da época de uma nova lei, passa facilmente nesse discurso sobre a opressão do sexo. Certas velhas funções tradicionais da profecia nele se encontram reativadas. Para amanhã o bom sexo. [...] o que me parece essencial é a existência, em nossa época, de um discurso onde o sexo, a revelação da verdade, a inversão da lei do mundo, o anúncio de um novo dia e a promessa de uma certa felicidade estão ligados entre si. É o sexo, atualmente, que serve de suporte dessa velha forma, tão familiar e importante no Ocidente, a forma da pregação. Uma grande prédica sexual [...] tem percorrido nossas sociedades há algumas dezenas de anos; fustigando a antiga ordem, denunciando as hipocrisias, enaltecendo o direito do imediato e do real; fazendo sonhar com uma outra Cidade. Leia mais…

Fragmentos filosóficos #3 – Rosset e o nada

Este é o terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Lógica do Pior, de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 103, grifos no original). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Nomear é definir; definir é determinar uma natureza; ora, nenhuma natureza é. Nem o homem, nem a planta, nem a pedra, nem o branco, nem o odor são. Mas o que resta, além disso, para ornar o ser, uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe “alguma coisa”, mas essa alguma coisa não é nada, sem nenhuma exceção, do que figura em todos os dicionários presentes, passados e por vir. “O que existe” é, pois, muito precisamente, nada. Nada, isto é: nenhum dos seres concebidos e concebíveis; nenhum dos seres recenseados até esse dia figura no registro do que o pensamento do acaso admite a título de existência. É forçoso, pois, excluir da existência a própria noção de ser. Exclusão que não releva de uma interdição de princípio, mas de uma constatação empírica: o que é excluído da existência não é, propriamente falando, a noção de ser, mas antes a coleção completa (e necessariamente provisória) de todos os seres pensados até o presente. Leia mais…

Fragmentos filosóficos #2 – Nietzsche sobre a moral como produto do ressentimento

eagle lambEste é o segundo de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do parágrafo 13 da primeira dissertação da Genealogia da moral, de Friedrich Nietzsche (tradução de Paulo César de Souza). Seleção e comentários de Daniel Portugal.

– Que as ovelhas tenham rancor às grandes aves de rapina não surpreende: mas não é motivo para censurar às aves de rapina o fato de pegarem as ovelhinhas. E se as ovelhas dizem entre si: “essas aves de rapina são más; e quem for o menos possível ave de rapina, e sim seu oposto, ovelha — este não deveria ser bom?”, não há o que objetar a esse modo de erigir um ideal, exceto talvez que as aves de rapina assistirão a isso com ar zombeteiro, e dirão para si mesmas: “nós nada temos contra essas boas ovelhas, pelo contrário, nós as amamos: nada mais delicioso do que uma tenra ovelhinha”. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #1 – António Mora/Fernando Pessoa

Olá designófilos! Este é o primeiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. Para começar, o autor escolhido é Fernando Pessoa, comentado por Marcos Beccari.

Não é sonho a vida: é-o, porém, toda interpretação da vida. [...] Ficção da inteligência: criamos ficções puras, “força”, “matéria”, [espaço em branco] – cousas que nada são, nada representam, a nada correspondem: o materialismo e o idealismo, irmãos-gêmeos, diferentes apenas por não serem o mesmo. Força, matéria, átomos, tudo é ficção, e da ficção mais fictícia que pode haver, a ficção do abstracto que se julga correcto. [...] Vivemos pelos sentidos, convivemos pela inteligência. Assim, pois, desligada dos sentidos, sendo que existe apenas para servi-los, a inteligência opera no vácuo, é no vácuo de conhecer que convivemos e que nos entendemos uns aos outros. A vida social é uma ficção. – Fernando Pessoa, O Regresso dos Deuses e outros escritos de António Mora. Porto: Assírio & Alvim, 2013, p. 135-136, § 110. Leia mais…»