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Oblomovismo enquanto potência

Uma versão reduzida desse texto pode ser encontrada aqui

É uma coincidência interessante que Oblómov tenha sido traduzido diretamente do russo em 2013 pela Cosac Naify. A excelente nova tradução de Rubens Figueiredo de uma obra de 150 anos demonstra como a literatura é capaz de recontextualizar e ser recontextualizada. Portanto, embora a análise mais superficial do romance encare a inação do protagonista uma caricatura do declínio da nobreza com o fim da servidão na Rússia, defendo que ela pode ser encarada como uma estratégia de potência estética e resistência política, colocando-o ao lado do consagrado Bartleby de Herman Melville.

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«Repensando o modernismo, revisando o funcionalismo» de Katherine McCoy

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Durante o processo de pesquisa para o artigo Alternativas epistemológicas para o design da informação: a forma enquanto conteúdo, publicado recentemente na revista Infodesign, pareceu-me que algumas discussões sobre a mera presença do designer que ainda hoje circulam no Brasil estão bem datadas. Leia mais…

A Arte do desenho em Porto Alegre

GUSTAVO SOUZA "Transfixação", 2014 | ferro e gesso sob tela (130x90cm)

GUSTAVO SOUZA “Transfixação”, 2014 | ferro e gesso sob tela (130x90cm)

A incessante aparição de novos (e bons) desenhistas e pintores no cenário artístico de Porto Alegre faz do Estado um precursor brasileiro do que já se manifesta no mundo há cerca de duas décadas. Enquanto nos demais países o número de artistas figurativos cresce vertiginosamente, no Brasil – onde chafurdamos sob a falsa crença acadêmica de que a figuração realista e a própria “representação” morreram – o aparecimento de bons desenhos e pinturas deve ser festejado. Neste artigo, apresentamos uma série de artistas da capital gaúcha que têm tido a audácia de desenhar em tempos de arte conceitual. Em posts antigos (aqui) já refletimos sobre trabalhos que nos chamaram atenção e agora apresentamos outros que em Porto Alegre interessam à análise – são eles  Gustavo Assarian, Gustavo Freitas, Claudia Hamerski, Andressa P. Lawisch, Marcelo Bordignon, Alexandre Pinto Garcia e Gustavo Souza.

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O estranhamento nos livros ilustrados de Shaun Tan

Este texto está entre um resumo expandido e um convite para a defesa da dissertação, que vai ocorrer na quinta-feira, 4 de agosto de 2016, às 10h, no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.

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A náusea nossa de cada dia

12079602_934021586651851_5157236599268697736_nFindava Janeiro, 1932. A Europa, à época, imersa em um cenário de tensão crescente, resultado de sequelas da 1º Guerra Mundial e da Grande Depressão de 1929, é incapaz de encaminhar soluções aos graves problemas políticos e socioeconômicos vigentes. Um desencanto a respeito do modo de vida, produção e consumo capitalistas, alcança uma escala global. Antoine Roquentin, homem de grande conhecimento e viajante contumaz, se encontra em Bouville, com o intuito de escrever a biografia do Marquês de Rollebon, personagem de certa notoriedade, no âmbito da corte de Luiz XVI, Rei de França. Ao iniciar seus trabalhos, rapidamente se desilude por todo aquele enredo, que não é capaz de levá-lo a um estado de imersão na tarefa, tampouco à percepção de alguma relevância em seu empreendimento. Essa constatação acomete Roquentin de uma sensação inédita para si, um mal estar generalizado no qual, de seu ponto de vista, não só o ser humano, mas tudo o que é cognoscível, passa por uma redução de importância relativa, tendendo à completa ausência de significado existencial. O espanto, horror e incerteza, oriundos da observação sobre a insensatez do mundo que se apresenta, e do desencaixe do individuo no mesmo, assumem papel destacado na vida daquele historiador, a partir de então.

Roquentin é tomado de completa inquietação. A despadronização e repulsa do protagonista , em face de suas percepções, conduzem-no por um caminho repleto de angústia, despersonalização, irrealidade. Uma crescente aversão a um universo que oscila ininterruptamente, desaguando em uma questão primordial, de ordem heideggeriana: Por que existe algo em lugar do nada? Afinal, poderia perfeitamente não haver nada. Como perceber-se aprisionado por um cárcere contingencial, sem experimentar um efeito devastador? Encontrar-se perante a gratuidade da existência, de si e do que o cerca, distorce o fundamento sobre o qual Roquentin embasou sua vida. Confrontado com certezas que se esfarelam, à medida que os dias se esgotam, incorpora a náusea, como elemento necessário e insubstituível. Leia mais…

Resumo expandido de minha tese de doutorado

* As aquarelas que ilustram o post são de minha autoria e constam na abertura dos capítulos da tese.

Iniciei minha trajetória acadêmica em 2010, ano em que inaugurei este site. Na época, eu já formulava uma primeira versão daquilo que viria a compor minha tese de doutorado, concluída este ano. Seu título: Articulações Simbólicas: uma filosofia do design sob o prisma de uma hermenêutica trágica.

Apresento neste post o “resumo expandido” deste trabalho que é, ele próprio, um resumo de minhas reflexões nos últimos cinco anos. Tais reflexões são devedoras principalmente de Rogério de Almeida (orientador da tese) e de Daniel Portugal, que acompanharam este meu percurso desde o início.

Um resumo não é uma síntese (até porque não existe síntese), mas uma seleção arbitrária de ideias que aparecem despojadas da continuidade argumentativa que as contextualiza. Portanto, peço que não se faça citação/referência a este post, e sim ao texto de minha tese (que em breve estará disponível no banco virtual da USP). Todo resumo, afinal, corre o risco de esvaziar em larga medida a amplitude conjuntural à qual se refere. Se eu corro este risco, é no intuito de instigar a leitura da tese, pois minha motivação intelectual nunca foi outra senão a de ter minhas ideias lidas, discutidas e partilhadas. Leia mais…»

Crítica ao livro “A cidade & a cidade” de China Miéville

[A cidade & a cidade foi publicado pela Boitempo, 2014. Imagens de Jeremy Mann utilizadas neste post]

Em sua crítica à obra de Tolkien, o escritor Michael Moorcock reduz o universo tolkieniano a uma “confirmação perniciosa dos valores de uma classe média moralmente falida”, e se justifica dizendo que prefere ser um escritor ruim com grandes ideias do que o contrário. Trata-se de um discurso muito similar ao de Saramago em seu “O ano da morte de Ricardo Reis”, onde a postura filosófica do heterônimo de Fernando Pessoa é reduzida a uma covardia política. Com isso quero esclarecer logo de início que minha crítica ao livro de China Miéville passa longe deste tipo de argumento, notadamente moralista.

Mas é justamente este aspecto moralista que pretendo apontar em A cidade & a cidade: não sua moral em si, mas a interdição pela qual esta moral é apresentada. Logo, não se trata de uma discussão sobre o posicionamento do autor (sobre isso, conferir meu ensaio sobre autoria), tampouco sobre o meu posicionamento, que obviamente não deixa de influenciar minha leitura – a saber, penso que antes de dividir o mundo em luta de classes, numa lógica antagônica de exploradores e explorados, diante da qual o engajamento se torna obrigatório para escapar à alienação, convém refletir se nossa realização existencial depende mais de uma postura crítica ou de um jogo puramente estético (conforme defendo aqui, aqui e aqui). Leia mais…»

Da câmara escura ao olhar sem precedentes

* Resenha do livro Técnicas do observador: visão e modernidade no século XIX, de Jonathan Crary (Rio de Janeiro: Contraponto, 2012; coleção ArteFíssil). Texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Ao retomar a prática do desenho, que deixei totalmente de lado na última década, tenho refletido sobre uma série de aspectos práticos e filosóficos da visualidade. Além do fato de que a expressão do desenho se conjuga no olhar que o antecede, conforme já comentei por aqui, percebi que desenhar, assim como ler, falar, dirigir ou tocar um instrumento musical, é uma habilidade que com o tempo se “automatiza”. Em geral, quase nos esquecemos de termos passado pelo processo de aprender a dirigir – um belo dia você se viu dirigindo ou tocando violão sem ter de pensar em cada movimento parar fazer isso.

Não significa que este processo seja fácil, muito menos que o aprendizado tenha fim. Sabe-se que, para muitas pessoas, desenhar é tido como uma tarefa árdua e dificilmente assimilável. Geralmente isso acontece porque tendemos a ver o que esperamos (e por vezes até o que intencionalmente queremos) enxergar, descartando alguns aspectos da coisa vista, acrescentando outros e, enfim, retocando-a subjetivamente. Em certo sentido, pois, aprender a desenhar implica trocar um hábito automático por outro, como um “treino” para enxergar não tanto o mundo visto, mas antes as coordenadas que nos permitem vê-lo. Leia mais…»

Um corpo que cai e o teatro do real

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O mais nobre dos dramas e o mais trivial dos acontecimentos estariam assim tão próximos? Tão vertiginosamente próximos? Pode a proximidade causar vertigem? É claro que sim. – Milan Kundera, A insustentável leveza do ser (Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985, p. 246).

Às vezes a realidade parece funcionar como um teatro: surpreendemo-nos não tanto quando nada do que esperávamos acontece, e sim quando nossas expectativas coincidem exatamente com os acontecimentos. Ora, se o fato correspondeu à previsão – esta sina edipiana tão aludida na história do teatro –, espantamo-nos não com o fato, mas com a coincidência que elimina qualquer outro modo de realização. A sensação imediata, neste caso, não é a de finalmente confirmar alguma desconfiança, porém justamente a de ter sido enganado, iludido e trapaceado como numa variação da velha piada dos irmãos Marx: o fato pode até se parecer com o que prevíamos, mas não se engane, realmente é aquilo que prevíamos. Leia mais…»

Corpos que restam n’alma

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Eu, que estou no mundo, de quem aprenderia o que é estar no mundo se não de mim mesmo, e como poderia dizer que estou no mundo se não o soubesse? – Merleau-Ponty, O visível e o invisível (Perspectiva, 2007, p. 41).

A partir de duas peças cinematográficas atuais, Transcendence (Wally Pfister, 2014) e Amour (Michael Haneke, 2012), pretendo discutir sobre a emergência do corpo e do aparelho como temas emblemáticos no que se refere a certo desconforto contemporâneo. Desconforto este que não é propriamente atual, mas que permanece “contemporaneamente anacrônico”, como que em cima de um muro ancestral entre, de um lado, uma salvação vinda “de fora” (deus e outras promessas metafísicas ou científicas) e, de outro, um mundo que nunca solicitou salvação alguma. Embora a questão de por que e quem precisa ser “salvo” já possa suscitar tal desconforto, minha impressão é a de que, nos filmes ora elencados, todo desconforto coincide com sua própria aprovação, espelhando assim um real que só pode ser narrado ao confrontar-nos, pela aprovação ou pela recusa, com nossos desconfortos em relação a ele. Leia mais…»