Considerações preliminares para uma filosofia do design

Por Marcos Beccari & Daniel B. Portugal

Parece-nos provável que o único caminho para definir a filosofia do design seja a dúvida, o estado de incerteza, o caminho em si. O papel da filosofia do design, pois, revela-se na tentativa constante de duvidar. Entretanto, como levar a sério algo ou alguém que não tem certeza do que é, do que faz e do que busca?

Para responder a essa pergunta, podemos recorrer à proposta de Flusser (em A dúvida, Annablume, 2011) segundo a qual as certezas são reflexos das dúvidas e vice-versa. Assim, poderíamos encarar a dúvida em relação ao design como um espelho do design tal como ele é praticado – na velocidade do corre-corre, ele é, quase sempre, simplesmente dado como certo, pronto e já definido. Para que essa prática possa se ver refletida, ela precisa do espelho da dúvida que, aos pragmáticos de plantão, aparecerá sempre como um estorvo – todos devem conhecer a velha ladainha: isso é coisa de intelectual que não tem o que fazer, perda de tempo, quem tem tempo para isso nos dias de hoje? Para que ficar estudando coisas que não preparam para o mercado? Por que duvidar do óbvio? Etc.

A filosofia do design pode ser encarada, assim, como o espaço entre dois espelhos pendurados em paredes opostas – de um lado, o espelho da dúvida, do questionamento incessante; do outro o espelho da prática, o reino do “é assim que as coisas são” e do “assim as coisas acontecem”. Nenhum dos lados se submete ao outro, e os reflexos, as reflexões, aparecem na distância entre os espelhos – só ocorrem por conta da existência simultânea dos dois. Se a dúvida acabar, acaba a filosofia do design, mas se o design enquanto prática acabar, ela também desmorona, pois perde sua fonte de perguntas. A filosofia do design, portanto, localiza-se nesse meio do caminho, nesse lugar nenhum, mesmo que possa pender mais para um lado ou para o outro: ora os reflexos aparecem do lado da dúvida, pela incerteza e pela desconfiança, ora do lado das certezas, quando estas dúvidas impulsionam a criação de respostas consistentes ou, indiretamente, novos métodos e novas práticas.

Em suma, acreditamos que os filósofos do design devem encarar o design sempre como um enigma, sem tentar resolvê-lo por completo. As respostas a esse enigma serão sempre parciais e servirão para transformá-lo em novas perguntas – ou seja: as respostas de uma “boa” filosofia do design são
sempre prenhes de novas perguntas.

Embora a filosofia do design sobreviva nesses fluxos constantes de perguntas e respostas, acreditamos ser possível delinear algumas orientações gerais e alguns eixos de questionamento que orientam tais fluxos. No que diz respeito às orientações gerais de toda a reflexão, a mais importante delas é a seguinte: encaramos o design como uma potência em si mesmo, como uma dúvida que diz respeito mais à experiência humana do que a uma prática ou profissão histórica e culturalmente determinada. Ou seja, embora acreditemos que o design pode ser útil, e mesmo bastante eficaz, interessamo-nos mais por sua inutilidade, por seus ecos e por sua capacidade de aparecer como um reflexo da cena contemporânea.

Olhando para o design a partir de tal perspectiva, identificamos cinco eixos de questionamento que consideramos centrais para a reflexão de caráter filosófico a respeito do design:

1. Design, percepção visual e linguagem
Existe uma sintaxe visual? Como as imagens significam? Como a linguagem humana funciona? Como interpretamos trabalhos de design? Como entender o design como discurso? Como o design articula significados? Em que medida a percepção depende da linguagem? Como nossa percepção relaciona-se com aquilo que seria o real (fora da linguagem)? Como os modos de perceber impactam a relação do usuário/consumidor com as coisas?

2. Design, estética e sensibilidades
Por que será que algumas coisas são consideradas belas e outras feias? O que é a beleza? Que outros tipos de experiências sensíveis além daquela da beleza o design pode nos proporcionar? Como o design agencia e impulsiona vinculações sensíveis por meio de objetos e imagens? Como podemos relacionar o design com pulsões estéticas tais como as do apolíneo e do dionisíaco identificadas por Nietzsche? Podemos pensar em uma erótica do design ou em uma pathos-logia do design?

3. Design, ética e tecnologia
Design é bom? Como o design se relaciona com nossos valores? Qual a relação do design com a tecnologia? Em que medida a tecnologia influencia nossos modos de viver e pensar? Como o design pode se posicionar frente à atual moral da eficácia e da autossuperação performática? Em que medida
o design está ligado a um racionalismo instrumental ou a um tipo qualquer de expressivismo (termos de Charles Taylor)? O que consideramos ser autêntico? Qual o estatuto ético da moda? Qual a relação entre design e liberdade? E entre design e morte, relações socias, gozo, sofrimento? Design serve mais para impulsionar desejos ou para domesticá-los?

4. Design, consumo e cultura midiática
Qual o papel do design na apropriação e reapropriação de indivíduos sobre peças culturais? Qual a relação entre design e publicidade, design e cinema, design e quadrinhos etc.? Qual o lugar do design na cultura midiática? Como o design se insere no consumo contemporâneo? Qual o lugar de alguns trabalhos específicos de design na constelação simbólica da cultura contemporânea? A que outros trabalhos de design ou outros produtos culturais estes trabalhos se relacionam? De que maneira o design pode ser visto como articulação simbólica mediante os discursos e narrativas que sugerem condutas, “estilos de vida”, valores e significados?

5. Design, epistemologia e ontologia
Existe um conhecimento próprio do design? Se sim, como ele se define? Qual o objeto do saber prático do design? Qual o objeto de estudo da filosofia do design? O que é design? Como o design é aprendido e ensinado? De que modo o design interfere nos processos formativos: de modo concorrente, antagônico ou complementar? Como a ideia de “projeto” delineia um mundo partilhado, nossa interação com objetos/pessoas ou sua recusa, implicando ou impedindo a instauração de subjetividades em meio a dispositivos históricos e sociais? Que tipo de relação existencial o “pensar design” intima, provoca ou induz por meio de dispositivos que, por sua vez, também não deixam de articular, simbólica e concretamente, a relação do homem com o entorno e consigo mesmo?

Evidentemente, os eixos acima delineados não pretendem englobar nem de longe todas as reflexões no âmbito de uma filosofia do design. Não é difícil, inclusive, imaginar outros eixos, mas elegemos estes cinco como sendo os principais. Também é claro que muitas reflexões percorrem dois ou mais eixos ao mesmo tempo, mas isso não é nenhum problema, muito pelo contrário! O objetivo de identificar eixos não é enfiar as reflexões em gavetinhas estultificantes, mas simplesmente ajudar a trazer à tona o que está em jogo em uma filosofia do design.

No âmbito deste site, os eixos acima nos ajudam também na segmentação por tema do conteúdo, que, além da organização por palavras-chave, estão classificados a partir desses cinco eixos e das seguintes categorias adicionais: Conexões intelectuais, para textos que abordam mais especificamente teorias de pensadores ou correntes de pensamento que podem ajudar a pensar o design; Elucubrações diversas, para textos reflexivos que não se enquadram nas categorias anteriores; Notícias, comunicados, divulgações etc., para conteúdo não reflexivo.

Veja o conteúdo do site segmentado pelas categorias:
1. Design, percepção visual e linguagem
2. Design, estética e sensibilidades
3. Design, ética e tecnologia
4. Design, consumo e cultura midiática
5. Design, epistemologia e ontologia
6. Conexões intelectuais
7. Elucubrações diversas
 8. Notícias, comunicados, divulgações etc.

Manifesto “Por uma filosofia do design” | Marcos Beccari | janeiro de 2011

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