Considerações sobre autoria em Design

Há algum tempo, postei as traduções dos ensaios de Michael Rock The designer as author, de 1996 e outra posterior em Fuck Content de 2005, sobre a forma de reavaliar o papel do designer na mediação entre forma e conteúdo. Faço, portanto, algumas considerações acerca do tema, presente em meu finado projeto de conclusão.

coyotes-1941

1Historicamente, a profissão de designer não se relaciona com a origem e o conteúdo da mensagem; apenas se importa em transmití-la da maneira mais clara. Esse é, inclusive, o objetivo principal do design moderno: utilizar a precisão matemática para comunicar de forma objetiva. Essa é uma concepção cientificista: a solução do projeto era vista quase como uma descoberta científica; algo que outra pessoa, sob as mesmas condições, teria desvendado. Mas, anacronicamente, todos esses designers se estabeleceram através da personalidade de seus trabalhos; basta pensar em Vignelli, Wollner ou Müller-Brockmann. Não estariam comunicando suas visões de mundo – um conteúdo subjetivo – através de formas geométricas – supostas concisas e objetivas?

Há algumas teorias de autoria que poderiam ser adaptadas para a área, apresentadas em The designer as author. Uma delas é a teoria do auteur, empregada no cinema, na qual os diretores precisariam seguir alguns critérios para se tornarem auteurs. Por diversas razões, essa lista de requisitos, entretanto, já caiu por terra, mesmo no cinema – embora tenha conseguido criar para o diretor um lugar de prestígio nas decisões cinematográficas.

Outro modelo de autoria possível é aquele em que o autor gráfico é aquele que consegue escrever e publicar material sobre design, tendo em seu controle as três etapas: de editor, escritor e form-giver (no sentido de ser aquele-que-dá-forma ao conteúdo). Embora existam alguns exemplos relevantes, ao defendermos isso, estaremos talvez criando uma esquizofrenia do design: o único público do designer autoral são outros designers que lêem sobre design?

Ao final de seu primeiro ensaio, Rock discute quais seriam as reais consequências do designer-autor: reconhecer autoria nem sempre traz consequências libertadoras. Em muitos casos, a autoridade fica contra o livre-arbítrio do leitor. O reconhecimento da autoria poderia importar para o design um modelo de crítica intencionalista – que leva em consideração a intenção do autor – há muito extinto da crítica literária. A principal argumentação é que a crítica literária passou a se tornar um trabalho de biografia, tentando justificar elementos da obra até através de análises psicológicas dos autores, distanciando-se da obra.

tumblr_mpdlbnG7Vg1qzbimco1_1280Já em seu ensaio mais recente, Fuck Content, Rock toma outra perspectiva. Seu texto anterior estimulou não que nós tornássemos designers-enquanto-autores, mas designers-e-autores. Ele discute que o pragmatismo apenas se transferiu: forma-segue-conteúdo é o novo forma-segue-função, e isso não representa nenhum ganho para a discussão.

O que está em xeque não é apenas a noção de autoria, mas a perspectiva do que trata o design e como os designers o praticam. Ao aceitar o discurso de que precisamos criar conteúdo para “nos elevar”, estamos já consumindo uma narrativa vinda de outros campos, de outras épocas. Dizer que bom design é bom conteúdo, é assumir que o conteúdo é superior à forma. Essa é uma verdade?

“Um diretor pode ser um auteur apreciado de um filme que ele não escreveu, do qual não compôs a trilha sonora ou filmou. O que faz de um Hitchock um Hitchcock não é a história, mas a consistência de estilo, que se mantém intacta através de diferentes tecnologias, enredos, atores e períodos de tempo como uma substância em si. Todo filme é sobre cinema. Seu grande gênio é o que é capaz de moldar seu estilo de um modo genuinamente único e diveritdo. O sentido do seu trabalho não está na história, mas no storytelling.

Designers também lidam com storytelling. Os elementos que precisamos dominor não são o conteúdo das narrativas, mas os dispositivos narrativos: tipografia, linha, cor, contraste, escala e peso. Nós argumentamos através de nosso papel, literalmente nas entrelinhas.”

Paul Rand disse “não há conteúdo ruim, há design ruim”. O que isso significa não é que o design pode embelezar um conteúdo ruim; o design tem o papel contar uma história que cria relação com o conteúdo. Quando essa relação é fraca, não se estabelece; a mensagem não é comunicada. Lidar com a forma, sob essa perspectiva, é lidar com a narrativa. Mas lidar com a forma seria uma atividade menor?

http://butdoesitfloat.com/“(…) Forma em si é indicativa. Nós estamos intimamente, fisicamente conectados ao trabalho que produzimos, e é inevitável que nosso trabalho carregue nossa identidade. A escolha de projetos na história de cada designer traça um mapa de interesses e inclinações. (…) O modo como esses projetos são encarados, desmontados, reorganizados e realizados revelam uma filosofia, uma posição estética, um argumento e uma crítica.

Essa conexão profunda ao fazer também posiciona o design em um papel configurador entre o usuário e o mundo. Ao manipular a forma, o design reconfigura essa relação essencial. Forma é substituída por troca. As coisas que fazemos negociam a relação através da qual temos um profundo controle.”

O que entendemos é que, desse modo, o design se encontra sempre entre. O designer tem o papel de configurar interfaces, de estimular a comunicação através de um espaço em que o leitor é capaz de doar sentido ao passo que também o absorve, em uma relação ambígua de troca de significações.

Deixe uma resposta


quatro + cinco =