Consumo estúpido

Imagino que sejam poucos os leitores que não guardaram na memória a campanha da Diesel que circulou aqui pelo Brasil no ano passado ou retrasado e cujo slogan nos oferecia o seguinte conselho: seja estúpido! Em cada uma das peças publicitárias, essa exortação era acompanhada de diferentes fotos e frases ilustrativas.


Contrariando os sábios que nos aconselham a pensar duas vezes antes de agir, a campanha da Diesel aconselha a não pensar nem mesmo uma — faça primeiro e pense depois, ou, melhor ainda, não pense nem antes e nem depois! Ela nos indica que pensar é para aqueles que não têm a coragem de escutar o coração, de criar, de agir sem ficar se preocupando com o “certo” e o “errado”. O estúpido é aquele do qual Nietzsche diria que afirma a vida. Ele é, enfim, a personificação contemporânea do dionisíaco (dionisíaco vem de Dionísio, deus grego do vinho, da festa, da embriaguez, também conhecido como Baco).

Por mais interessante, impactante e criativa que seja a campanha (e ela é bastante!), se pararmos para pensar, veremos que ela simplesmente exagera e estiliza um discurso já amplamente incorporado em nosso cotidiano, em frases como: “você precisa relaxar”, “você precisa se soltar”, “você se preocupa demais”, “só se vive uma vez”, “a vida é curta”, “o que vale é ser feliz, aproveitar a vida” etc.; ou ainda — e esse é o melhor exemplo — quando se narra com orgulho as “merdas” que se fez quando bêbado (ou sóbrio), destacando como grande valor exatamente a estupidez do ato praticado.

Devido a isso, há quem seja da opinião de que essa dimensão dionisíaca, desregrada, irrefletida domina inteiramente o consumo contemporâneo. Um grande erro. As pessoas, atualmente, continuam pensando, criticando, importando-se com o acerto e, mais do que nunca, preocupando-se com a sua imagem. Basta observar que a própria campanha em questão é assinada por uma marca e tem, sem dúvida, o objetivo de trabalhar a imagem dessa marca associando-a a uma inclinação dionisíaca. Atitude um tanto paradoxal, pois tentar parecer dionisíaco comprando uma peça de roupa é uma das coisas menos dionisíacas que se pode imaginar.

Que atualmente estejamos em um período mais dionisíaco do que num passado recente, pode ser o caso, mas é importante não exagerar sua influência. O que importa observar é que o discurso dionisíaco tornou-se dominante, ou, ao menos, amplamente legitimado. Entretanto, acreditar que, por isso, as pessoas efetivamente desenvolvem sensibilidades inteiramente dionisíacas é o mesmo que acreditar que, em uma época na qual se pregava um ideal de pureza sexual, as mulheres não tinham vontade de fazer sexo. Freud já mostrou que, nesse último caso, o desejo era amplamente reprimido e fator condicionante de neuroses diversas. Ora, o que se começa a perceber atualmente é uma espécie de repressão invertida. Em uma entrevista intitulada O desejo, ou a traição da felicidade, o filósofo Slavoj Zizek observa o seguinte: “meus amigos psicanalistas me contam que hoje em dia o sentido de culpabilidade de seus pacientes não é mais fundado sobre o interdito, mas sobre esta injunção de gozar, ‘de aproveitar’. Agora, as pessoas não se sentem mais culpadas quando têm prazeres ilícitos, como antes, mas quando não são capazes de aproveitá-los, quando não chegam a gozar”.

Assim, vale ter um bom pé atrás com esse blá blá blá dionisíaco que aparece no discurso do senso-comum atual, pois, quando ele começa a instituir o prazer como norma, regra, obrigação, ele nega a si mesmo. Ele acaba dizendo “Não” como o smart da campanha, só que de maneira estúpida.

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