Da incidência da não coincidência

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

É preciso buscar a liberdade em uma certa nuança ou qualidade da própria ação e não em uma relação desse ato com o que ele não é ou teria podido ser.
– Henry Bergson

Dois críticos podem ver o mesmo filme e escrever críticas opostas, e ambos estarem completamente coerentes em seus argumentos. Um casal pode se desfazer por causa de uma traição inexistente, o que não deixa de ser um motivo válido para ambas as partes. Tal contradição apenas atesta que aquilo que queríamos ali (o sentido do filme, a causa do fim) nunca existiu. Isso vale para o significado de um povo, de uma classe social, de um gesto, de um objeto, de uma “sensação” – qualquer significado é feito de relações de sentido que se formam e desformam ao acaso, mas que só continuam em jogo na medida em que as afirmamos ou as negamos.

É o que Woody Allen parece ilustrar na melhor cena de Match Point (2005), quando o protagonista Chris se depara, de madrugada, com o fantasma de sua amante Nola, assassinada por ele. Ao tentar se explicar, Chris cita Sófocles: “jamais ter nascido pode ser a maior dádiva de todas”. Não se trata de uma desculpa, pelo contrário, é um sinal de que qualquer acusação e qualquer defesa seriam inúteis frente ao fluxo das relações possíveis. Somos livres para atar e desatar inúmeras relações, só que o modo como lidamos com essa falta de “um” sentido na qual as relações se ancoram ou desfazem é o que determina essas próprias relações.

Este modo de lidar é sempre minimamente imaginário, pois nossa relação com o mundo não apenas produz imagens diversas, mas antes depende dessas imagens para se constituir como experiência. Entre nossa memória e nossa expectativa, por exemplo, o limite é muito tênue: enquanto uma é a imagem especulada acerca do que já aconteceu, a outra é a imagem provisória do que poderia acontecer. Ambas são necessárias para a experiência do presente – não apenas por meio de nossa relação com o passado, como também na forma pela qual interferimos em um passado que, por sua vez, pode ser reescrito em função do presente que agora se inscreve.

Quando fantasiamos sobre como será o mundo no futuro ou mesmo sobre o que aconteceria se tivéssemos feito isto e não aquilo, construímos possibilidades que complementam as lacunas de sentido daquilo que de fato aconteceu ou acontecerá. Assim, mesmo quando recorremos à fantasia para fugir de alguma situação inconveniente, aquilo que imaginamos interfere na realidade da qual queríamos fugir – na mesma medida em que, inversamente, tal realidade engendra quaisquer alternativas fictícias.

Com efeito, este movimento ficcional me parece fundamental quando pensamos em design: propomos outras realidades, não para substituir aquela que já vivemos, mas como possibilidades de compreendermos tal realidade, de nos situarmos nela, de a aceitarmos por meio de novas relações que possam ampliar nosso universo de sentido. Significa que o pensar e o imaginar não acontecem separadamente; são esforços co-implicados nessa difícil empreitada de conviver com a vacuidade existencial de um mundo sem sentido.

É uma maneira, não obstante, de afirmar a insignificância sem indiferença. É absurdo pensar o quanto uma paixão ou um rompimento pode ser “insignificante” – e apenas por isso é que tal experiência pode ser tão profunda e significativa. Pois a falta de sentido é uma força paradoxal que nos invade e nos engaja numa outra relação que somente a nós poderia se oferecer. Afinal, nenhum significado é suficiente para as relações que o circunscrevem, mas é nessa insuficiência que reside uma singularidade, é nessa incompletude que não sobra espaço para a indiferença.

Sempre é bom, enfim, não perder de vista que nunca houve um sentido a ser extraído do mundo. Há apenas uma brecha que absorve nossa intenção de conhecê-lo e através da qual podemos vivenciá-lo e reinventá-lo. Lembremos também que rótulos e convenções são necessários: é por meio deles que o acaso nos surpreende, proporcionando-nos silêncio e espanto. É com este pacto que somos convidados a confiar nas possibilidades ainda não realizadas, a articular o que parece ser inarticulável, a contornar fronteiras invisíveis por ser esta a única maneira de atravessá-las.

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[Tomo a liberdade de finalizar este breve post com uma tentativa despretensiosa de ficção narrativa, um pequeno conto que escrevi no começo do ano a pedido de Eduardo Souza, para o TCC dele, e que talvez possa ilustrar, assim espero, a reflexão suscitada até aqui.]

“A gestante celibatária”

Um crime já estabelecido e fixado de uma vez por todas [EU], corrompendo-se subitamente com a presença de outro tão distante e não menos absurdo [VOCÊ], num contexto onde ambos estamos totalmente sob suspeita [AQUI], irá definitivamente escapar de um rumo presumível e perder-se numa dupla-armadilha [AGORA].

Diga adeus ao teu emprego, à tua família, aos teus princípios, aos teus amigos e inimigos. Somos somente eu e você agora. Não exatamente você, mas essa cadela que não resistirá em me abrir as pernas. Não exatamente eu, mas aquele ladrão que ficará em tua memória pervertida. Não há uma terceira pessoa, exceto aquele ser repugnante a quem você dedicou tanta falsa castidade e que está morto desde ontem.

Sim, estou te contando agora. Nunca fui com a cara dele.

Garanto que não haverá provas além de uma semente que em tua garganta germinará fazendo crescer a possibilidade iminente de que não acordarás no dia seguinte. Só entenda que o “grande sentido” de sua vida desfaleceu quando você traiu o defunto ao se apaixonar por mim.

Ainda não, mas daqui a pouco. Logo após eu te dizer que é o teu medo que conserva, com desprezo, essa paz regada a drogas e nostalgias duvidosas. Você alimenta os outros, os outros te alimentam e ninguém mais precisa saber, já que os jardins do Éden estão no inferno ocioso de cada lençol recém-lavado. A fuga já foi repreendida, uma vida proibida, um cigarro proibido, um gesto proibido. Trabalhar é ainda permitido, lobotomia humana que continua entretendo a todos. Luto ao fim do expediente, medo da manhã seguinte. Quem sabe o amor, ameaça de um deslize em vão rumo ao esquecimento de quem poderíamos ter sido um dia, não tenha que sumir para que finalmente possamos nos amar?

Pronto, pode confessar. Abstenha-me dessa previsível falsidade absoluta em proveito do absoluto e irreversível fato: faremos amor aqui e agora. É o que acontece sempre que a realidade proporciona condições contraditórias e nada favoráveis: sonhos e valores apagados pela falta de atenção, pura despreocupação, tudo não passa de uma tentativa de se fazer um filho, não é mesmo?

Sua assassina. Sei que ainda não – saiba que eu também não –, mas não adianta, quando o mais provável perde força o improvável entra em cena: você deixará de ser uma cadela hipócrita para se lembrar apenas de cinco pessoas que você vai matar em um único dia: seus pais, sua irmã, sua melhor amiga e o seu futuro filho. Antes do suicídio, tentará fugir do país, mudará seu nome e transará com muitos outros criminosos, até ser descoberta e finalmente incriminada.

Sua frieza é assustadora: um olhar sem cores, uma voz sem som. Não faz essa cara, ainda lhe restam dezesseis anos para acertar as contas com Deus.

Até lá, aprenda a sorrir de graça e ninguém desconfiará de você. Comece a caminhar mais pela rua, o melhor dos esconderijos. Olhe sempre para o céu, mesmo em dias de chuva, como se ali houvesse uma saída. Não procure por ninguém, as pessoas é que vão encontrar você. Escolha uma igreja bonita e cheia de estátuas e comece a frequentar as missas de domingo. Encare os noviços como rapazes inocentes e cheios de energia, não como criaturas perdidas e imaturas que despejam esperma em qualquer canto. Dê também atenção aos idosos sem precisar engolir aquele hálito podre. Pare de pensar em sexo antes de no mínimo saber por que, como e onde. Acredite na compaixão e nas amizades, segurando a respiração por trinta segundos antes de matar alguém. Quando receber um elogio, evite pensar a respeito e agradeça, simplesmente. Nunca ria de si mesma, ninguém gosta disso. Marque uma consulta para ver o que você tem na laringe, que te faz falar tão alto. Escolha cuidadosamente um novo nome, o quanto antes melhor e, por fim, o mais importante: torna-te capaz de amar sem recordação, sem fantasma, sem querer interpretar e recapitular as coisas.

Agora só mais uma coisa antes de você se vestir e nunca mais olhar para trás. Compreenda, nesse meio tempo, que o energúmeno do seu marido morreu por tua causa, tentando negociar aquilo que você ainda me deve. Não fui eu quem o matou, não sou assassino, mas bons conselhos custam caro e é você quem deveria estar esticada no chão. Tudo bem, já me contenta o fato de que você jamais conseguirá esquecer por completo o que se lembrará de ter esquecido. Afinal, estamos todos condenados a viver para recordar aquilo que não lembramos que já vivemos. Apenas te peço para não pensar duas vezes antes de matar nosso futuro filho. Ame-o com todo o coração que uma mulher entrega a um homem quando ele nasce, porque o que todo mundo realmente quer é se sentir verdadeiramente amado por um instante e morrer logo em seguida para não se dar conta do mal entendido.


Winter Family – Abraham (2008)

3 respostas

  1. Robert disse:

    Sempre enxerguei o design como ferramenta transformadora. Para assim, como você descreveu, propor outras realidades.
    Mas faz tempo que me pergunto por que nos propomos essas diferentes realidades se ao final, elas parecem apenas mais do mesmo?
    Quero dizer, acho que as pessoas hoje utilizam do design exatamente para conviver com essa vacuidade existencial. E acredito que aí está um grande problema do pós-modernismo. Mas não sei se devo chamar de problema.
    Então pergunto por que devemos primeiramente extender nossos sentidos, se internamente consideramos
    a vida como uma “difícil empreitada de conviver com a vacuidade existencial de um mundo sem sentido”? Estamos propondo realidades externas para se esquivar do que se passa internamente? Ou eu estou sendo um existencialista barato?

    • Oi Robert, obrigado pelo comentário. Acho que o grande problema do “pós-modernismo” (na verdade de um tipo de pensamento muitas vezes assim rotulado) é justamente efetuar essa oposição: de um lado, a vacuidade existencial associada a uma visão “individualista” de mundo; do outro lado, uma miríade de realidades externas à nossa disposição, como que para nos distrair. O que eu procuro dizer no texto é que essa oposição não faz o menor sentido. Não há um lado interno e outro externo, de modo que as muitas (possibilidades de) realidades somente são possíveis por ocasião daquele vazio ao redor do qual existimos. Claro que podemos negar essa lacuna sob formas bastante sofisticadas (a religião é um exemplo), mas também podemos propor outras realidades sem deixar de afirmar essa lacuna, o que significa não privilegiar nenhum tipo de visão de mundo; ao contrário, afirmar todos os possíveis. Portanto, quando eu reforço a ideia de uma afirmação da insignificância como potência ficcional, é justamente para mostrar que não há oposição ou ruptura entre o real e a ficção, entre a falta de sentido e a auto-criação de sentidos, entre a vacuidade existencial e a vontade de viver.

      • Robert disse:

        Entendi seu ponto Marcos, e obrigado pela comentário.
        Questiono esse assunto com certa frequência pois vejo essa cisão do real e ficcional muito arraigada e de certa maneira sedimentada em alguns designers. Talvez questione de forma recorrente por serem eles responsáveis por, até certo ponto, tangibilizar (semioticamente falando) para a sociedade em geral um correlação desse dipolo humano. Penso, talvez com um certo pessimismo, que apenas um pólo está sendo realmente considerado. Talvez algo como: os designers estão se esquecendo de Dionísio.

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