Debate FdD: por que os pilotos kamikazes usavam capacete?

Debate FdD é uma série de “posts coletivos” (em paralelo ao debates homônimos lançados em nosso facebook e tumblr) e este post é nossa primeira tentativa. A ideia é a seguinte: alguém lança uma questão e cada colaborador aqui do blog escreve brevemente o que pensa a respeito. Essa primeira pergunta eu roubei descaradamente do braincast 55, mas o ideal seria que você, leitor, nos enviasse suas próprias perguntas (deixe nos comentários). Agora vamos ao assunto do dia: segurança do trabalho!

Bolívar Escobar: Lembram daquele relato do kamikaze que sobreviveu ao seu vôo quase final porque caiu na água? Onde foi que vi isso? Seu depoimento era algo como “estou vivo, que vergonha”.

Nem todo vôo de um kamikaze é o seu último vôo. Sendo o capacete parte de uma indumentária honrosa (marcantes em toda história do japão, pelo menos até antes da invasão ianque), podemos dizer que o piloto kamikaze é 99% piloto e 1% kamikaze – o um porcento final que se revelava em forma de nuvem de detritos em porta-aviões americanos. Sabendo que vento cortante nas orelhas está próximo de ser enquadrado como crime, porque não mantê-las quentinhas durante a viagem que seria o auge de sua carreira?

Marcio Rocha PereiraTá. Questão de ordem: Os pilotos Kamikaze realmente usavam capacete? Até imagino que sim. Faria sentido. Trata-se de heróis japoneses, e na cultura japonesa o herói muito mais do que se rebelar contra uma ordem pré-estabelecida, é aquele que é capaz de sustentar essa ordem até quando a realidade se volta contra ele. O kamikaze não é um rebelde, mas um sujeito honrado que faz uma manobra de guerra muito precisa e calculada. Inclusive uma manobra que pode ter como principal preocupação salvar vidas, se um kamikaze for capaz de destruir um barco que de outra forma precisaria ser atacado por 5 ou 10 caças.

Ele não “tocou o foda-se”, ele está no extremo oposto da escala. Ele se comprometeu até a própria morte. Os laços da sociedade ainda estão com ele. Inclusive o laço da regra de que você deve usar equipamento de proteção: Capacete, cinto de segurança e tudo o mais.

Marcos Beccari: A resposta obscena seria: “para não estragar o funeral” (MAFRA, Guga). Mas creio que não se trata meramente de uma piada vulgar de mau gosto: a ideia kamikaze não era simplesmente “morrer” pelo país, mas antes persistir, continuar de pé, não se prostrar ao chão. Esse detalhe nos permite entender o capacete como emblema de um impulso disciplinar em si mesmo redentor. Não se trata apenas de uma insígnia de uma “missão messiânica”, mas de algo que atribui um caráter “sublime” ao capacete por se tratar de um objeto suspenso da ordem histórica.

Esse capacete explicita uma distância enorme entre o homem-bomba e o kamikaze: enquanto a redenção do primeiro vem após o ato heroico, a redenção do último antecede o ato. O capacete quer dizer que não há nenhuma necessidade do ato em si (suicídio), isso é apenas uma consequência possível. Embora tudo isso seja uma inferência absurda (nunca estudei os kamikazes etc.), creio que o capacete, sendo um objeto de design, nos faz rever o próprio contexto (ao invés de submeter-se a ele) e, com isso, reordena as coordenadas simbólicas de que dispomos para localizar a questão tratada.

Daniel B. Portugal: Esta pergunta deriva-se do seguinte pressuposto tácito: o de que os objetos são utilizados somente por sua função material. Assim, se a função material do capacete é proteger a cabeça e se a missão do piloto kamikaze envolve o suicídio, logo, não faria sentido ele utilizar capacete. Entretanto, a função material representa apenas uma pequena parte das relações que sujeitos estabelecem com objetos. Tendo isso em mente, o fato (supondo que seja um fato, mas, afinal, quem se importa?) de os pilotos kamikazes usarem capacete deixa de parecer paradoxal.

Dentre outras coisas, o capacete é parte da vestimenta que caracteriza o homem que pilota como um piloto do exército japonês. A roupa fortalece a ligação do indivíduo com sua persona sociosimbólica. Enquanto piloto do exército japonês, poderíamos chegar ao extremo de dizer que o homem é a roupa, como atesta Agilulfo, o cavaleiro inexistente imaginado por Ítalo Calvino. Materialmente, Agilulfo é uma armadura sem corpo e, justamente por não sofrer as interferências do corpo (fome, sede, sono, excitação sexual, medo, prazer, cansaço etc.), ele é o cavaleiro perfeito — ele é o ideal cavaleiresco incorporado em uma armadura brilhante.

Podemos pensar que um piloto Kamikaze que está disposto a se sacrificar por certos ideais ligados à tradição ou à pátria japonesas (não saberia descrever ao certo quais, mas não importa muito para minha argumentação) está muito mais próximo de Agilulfo do que do personagem de vários nomes que representa sua antítese: este, às vezes chamado de Gurdulu, vive de acordo com as demandas do seu corpo, atendendo ao que em psicanálise denomina-se pulsões parciais, sem ordená-las (e muito menos tentar subjugá-las) através de uma identidade coerente. Talvez nós estejamos, hoje, em alguns aspectos, mais próximos de Gurdulu, o que explicaria parcialmente nossa dificuldade em compreender os kamikazes, mas esse é um assunto complexo sobre o qual será impossível refletir aqui.

Voltemos ao piloto kamikaze e sua forte ligação com certos ideais, em parte representados pelo uniforme. É razoável imaginar, portanto, que o piloto kamikaze estabelecesse um forte vínculo com seu uniforme, sendo quase tão obcecado com este como Agilulfo era com sua armadura e sua espada. E, no momento de entrar no avião, sabendo que voaria na direção da morte certa, todos os objetos que fortalecessem, para ele, sua identificação com o ideal que o impulsionava deviam ganhar um valor inestimável. Justamente nesse momento, portanto, é muito improvável que ele pudesse satisfazer-se com um uniforme incompleto. Concluímos, assim, que não apenas é perfeitamente compreensível que os kamikazes utilizassem capacetes, como ainda poderíamos dizer mais: talvez fosse mais provável que o piloto embarcasse sem capacete em uma missão normal do que em sua única e sublime missão kamikaze.

Eduardo Camillo K. Ferreira: Gostaria de estudar mais também para saber responder com alguma certeza, mas intuo uma série de possibilidades efetivamente funcionais e não unicamente simbólicas para isso: ter que comunicar-se via rádio com a base, proteger-se em caso de possíveis acidentes e/ou batalhas no caminho, a audição de mensagens “inspiradoras” para que ele não ande para trás no último momento, alguma conexão com equipamentos, visores e mecanismos importantes para navegação, conforto psicológico de parecer um “vôo comum”, camuflagem contra possíveis espiãos que não saberiam diferenciar se trata-se de um bombardeiro ou de um Kamikaze, ou até mesmo uma trava-automática para a decolagem do avião (não esteja descartando quaisquer das possibilidades de meus amigos autores, mas é que essa lista me pareceu também interessante).

Eduardo Souza: Vou tentar me evadir da resposta pragmática, que seria puramente funcionalista-contextual: embora eles fossem morrer, eles não queriam morrer sem cumprir o objetivo de bater nos barcos que eles visavam naufragar. Ou seja, o capacete não tinha sua função usual – proteger da morte – mas sim permitir que o piloto pudesse atingir o navio. Nenhum deles pretendia sobreviver – a essa altura isso já era irrelevante – mas conseguir fazer um bem ao seu país. Adicionado a isso, do viés da cultura japonesa, era altamente relevante que o aviador cumprisse seu dever com coragem e, aí sim, poderia morrer com honra para si e para sua família.

A ideia que me parece mais interessante, no entanto, é outra. Essa pergunta, à primeira vista, é engraçada pelo aparente paradoxo de “porque se proteger, se vai morrer?”. Mas, de certo modo, somos todos kamikazes; o tempo todo buscamos os mais diferentes tipos de capacetes para evitar uma morte sem sentido. Cada capacete que buscamos colocar é na tentativa de tentar dar alguma garantia que, sim, sobrevivemos até cumprir nosso dever; sobrevivemos para dar sentido à vida.

3 respostas

  1. Cid Barreto disse:

    ….nessa aula eu faltei.
    Mas o capacete kamikaze, como elemento gráfico, só me diz sobre alguma “esperança”.
    O indivíduo alça voo sabendo, acredito que exista até um ritual anterior a esse voo fatídico, então tirando a cultura oriental do foco, e trazendo apenas o elemento, o simbolo, me leva também a intuições, complicadas, difíceis, utópicas.
    Ou seja, como elemento gráfico, justifica causas não inúteis, mas complexas se não demonstradas como “impossíveis”.

  2. Acredito que usassem capacetes para não serem facilmente identificados. Do tipo: “Está vindo um avião. O piloto não usa capacete. Esses são os kamikazes, eles não usam capacete porque vão morrer de qualquer foma. Vamos abatê-lo antes que caia sobre nós!”

    Simples assim.

  3. O capacete usados pelos pilotos japonese kamikazes, além serem parte do uniforme servia para proteger contra a baixa temperatura dentro de seu avião. Com isso ele podia se concentrar melhor em sua missão.Já pensou com um frio cortante nas orelhas.

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