Debate FdD: pode-se ressignificar o ato de chorar?

Após o assíduo debate sobre o capacete dos kamikazes, chegamos finalmente a uma segunda tentativa de post coletivo. A questão foi levantada por nosso mais perspicaz colaborador, Bolívar Escobar:

Imagine-se um pesquisador das emoções humanas. Você recebe uma verba suficiente para fazer o seguinte experimento: secretamente, 100 mil usuários do facebook serão pagos para, durante um mês, permanecerem com uma foto de si mesmos chorando de verdade como avatar da rede social.

Seria possível, fazendo isso, “ressignificar” o ato de chorar na nossa sociedade?

Confira a resposta do próprio Bolívar [1], seguida das de Eduardo Souza [2] e Marcos Beccari [3].

[1] Bolívar Escobar: O questionamento é um pouco vago. Para “ressignificar” algo, precisamos primeiro nos questionar sobre a existência de um significado anterior. O ato de chorar, por ele mesmo, não significa nada. Ele precisa estar ancorado em alguma experiência, que pode ser boa ou ruim. Seria o mesmo que todos postarmos fotos comendo um bife com a finalidade de ressignificar o consumo da carne. Ao meu ver, o efeito seria um tiro pela culatra: as pessoas de fora do experimento se perguntariam sobre o que diabos estamos chorando e poderiam associar a algum fenômeno contemporâneo: moradores de São Paulo associariam a torrente de avatares chorosos às bombas de gás usadas pela polícia, por exemplo.

A conclusão a qual eu chego é que, se o intuito era elevar o ato de chorar ao vazio dos milhares de sorrisos ou olhares 43 dos atuais avatares do facebook, seria necessário muito mais do que uma ação bizarra em uma rede social. Primeiro, pelo baixo impacto dela na sociedade humana como um todo e, segundo, pelo fato do choro representar o extremo das emoções humanas. O momento do choro é sagrado: podemos contar nos dedos as vezes que choramos de rir, por exemplo. Cada um encontra dentro de si os motivos para chorar – talvez eles sofram novos significados de tempos em tempos. Há algo pessoal demais por detrás das lágrimas para tentar impor novas traduções a elas.

[2] Eduardo Souza: O ato de chorar possuir um significado antigo, instintivo, cultural e fisiológico. Um bebê, alheio às nossas narrativas e memes, chora. Assumo, portanto, que há um componente natural no ato de chorar. Por outro lado, tenho fortes inclinações à construção do mundo enquanto narrativa; assim, acredito que há também um componente narrativo nesse signo comunicativo que é chorar. Portanto, não acho que estejamos defronte um constructo inteiramente narrativo nem inteiramente natural.

O Facebook, por sua vez, é capaz de alterar em alguma medida os signos de nossa sociedade — não apresento aqui nenhum julgamento moral, já que as recentes manifestações não seriam possíveis sem ele. Não que isso seja uma característica especial do Facebook por ser o Facebook, mas toda e qualquer comunicação interpessoal que envolver o choro vai ressignificar o choro — todavia, podemos aqui questionar o grau de ressignificação.

Mas a parte divertida da pergunta não é responder a isso, é brincar de ficção científica. É responder como o choro seria ressignificado. Acredito que haveria um détournement do choro; ele seria banalizado e dessignificado da mesma forma que o sorriso. As 100 mil fotos de lágrimas, a princípio, seriam subversivas e seria suposta alguma crítica, como mudar o seu nome para Guarani-alguma-coisa. Nossos participantes seriam perguntados por que? e, qualquer que fosse a resposta, faria com que a pseudomelancolia se espalhasse, tornando então o Facebook, contraditoriamente, mais engraçado e ego-inflador, já que ver outro chorar nos faz sentir superior e, em geral, o rosto do choroso se deforma de maneira curiosa.

[3] Marcos Beccari: Receio que o próprio ato de “ressignificar” já esteja sendo aos poucos ressignificado. É verdade que a noção de “amor”, por exemplo, foi minimamente transformada com a expansão da imprensa e o advento do romance/novela. Mas se pensarmos na publicidade e na cultura de massa contemporâneas, veremos que muitos padrões de conduta são construídos através de imagens para as quais convergem disposições aparentemente contraditórias: mulheres ao mesmo tempo lascivas e pueris, marcas ao mesmo tempo tradicionais e modernas, crianças ao mesmo tempo adultas e infantis etc. Tal lógica foi bem sintetizada no slogan de uma campanha da Calvin Klein: “Be bad, be good, just be”. A publicidade já compreendeu faz tempo esta lógica de ao mesmo tempo aceitar a “norma” e desejar sua transgressão.

Digo isso porque essa situação de 100 mil usuários colocarem uma foto de si mesmos chorando no facebook, me parece, já estaria compreendida numa lógica em que transgressão e norma se imbricam — uma vez que a “norma” no facebook é ter uma foto sorridente. A conduta do “sorriso” no facebook é de tal modo esmagadora que aparentemente ninguém mais consegue ali expressar diretamente um sorriso, em sua singularidade brutal. O choro entraria nisso como um valor acrescentado, um fazer-valer cultural detrás do qual o próprio valor desaparece. Quer dizer, se houvesse um intuito deliberado de ressignificar o ato de chorar, acho que não saberíamos mais onde está o significado atual desse ato (se é que ainda sabemos). Nos termos de Baudrillard, passaríamos da simulação encantada (mais falso que o falso) para a simulação desencantada (mais verdadeiro que o verdadeiro). Em ambas, não há aparência, não há narrativa, não há composição, há apenas objetos sem referência, excesso de realidade e uma insignificância ofensivamente irônica. O “bacon” é oficialmente consumido enquanto signo, mesmo se, individualmente, cada consumidor tentar efetuar uma operação de singularização para recuperar o “segredo gnóstico” que o bacon representa. Ou seja, por mais que o significado de uma singularidade seja construído socialmente, ela em si mesma não se propaga em termos de comunicação. “O ponto cego da singularidade só pode ser aproximado singularmente”, como dizia Baudrillard, sem querer efetivamente dizer qualquer coisa com isso.

6 respostas

  1. Ketilen Paes disse:

    O movimento interno de ressignificação demora, é um processo. Creio que as fotos causariam impactos e induziriam a algumas reflexões e julgamentos de outras pessoas, mas ressignificar vai muito além disso. É mudar um paradigma, um conceito enraizado, uma crença, etc. Poderíamos tentar o evento. Adoraria participar. Talvez pudesse ser o começo da ressignificação do sentido real das coisas, se é que elas têm sentido. A maioria das coisas, hoje em dia, perdeu o sentido no qual estavam vinculadas.
    Abraços. Adorei!

  2. Ketilen Paes disse:

    Dúvida: será que elas postariam uma foto do chorar real, que ocorre espontaneamente? Ou fariam pose para chorar? As fotos já passaram pela ressignificação faz tempo…

    • Eduardo Souza disse:

      Essa questão é muito boa, principalmente se a gente trouxer para o sorriso, né. Nós 3 tocamos nesse ponto em algum nível, mas acho que ninguém se aprofundou muito. A questão talvez fosse: “será que o sorrir-para-a-foto é sorrir?”

      o que, com implicações mais aprofundadas, cai no problema de identidade que me chama muita atenção: existir socialmente é existir? há, da algum modo possível, um eu íntegro?

      • Então, tem uma miríade infinita de vias teóricas para investigar essa questão (de fato muito profícua), mas geralmente trazendo uma resposta parecida com “sorrir e chorar acabam funcionando como proto-linguagem na constituição de identidade e alteridade, universal e particular, aceitação e rejeição etc.” e JESUS como isso me dá PREGUIÇA. O que me parece mais interessante nessa questão é que fingir chorar, diferentemente de fingir sorrir, nunca é totalmente fingimento: a lágrima (não-colírio) não consegue fazer-se arbitrariamente, há sempre um mínimo de esforço. Assim, tenho a impressão de que não apenas o ato de chorar tem muito mais “precisão” do que o ato de sorrir, mas especialmente de que o ato de fingir-chorar talvez envolva, se levado a sério, um exercício muito profundo de reflexão filosófica (ao contrário do fingir-sorrir), talvez algo mais ou menos assim: tentar ser quem você pensa que você não é; ignorar o que pode ser “pior” ou “melhor” e, ao invés disso, reconhecer a alegria que há em todo desapontamento (e o inverso); enxergar a singularidade do fato de que você não é insubstituível para ninguém; suportar a impossibilidade de recuperar o que éramos e o que tínhamos quando não queríamos ser/ter e o vazio de nunca sermos o que achamos que somos, mas somente o que já deixamos de ser e o que ainda não somos. Pelo menos, é um tipo de fingir-chorar que eu gostaria de saber fazer.

  3. Eduardo Souza disse:

    As respostas foram muito interessantes, hahahah!

    Beccari, você fala que:

    “É verdade que a noção de “amor”, por exemplo, foi minimamente transformada com a expansão da imprensa e o advento do romance/novela.”

    Foi como provovação?

    • Haha pode acabar soando provocativo, mas na verdade é só preguiça minha de explicar tudo o que eu falo. Mas vamos lá: qualquer gênero literário pode ser historicamente determinado e, no caso do romance, trata-se de uma invenção burguesa centrada na “experiência individual” que ironicamente ganhou força com a massificação literária (imprensa + alfabetização). Há quem diga, por essa via histórica, que a própria noção de “amor” (tal como atualmente é entendida e disseminada) faz parte dessa mesma invenção pseudo-literária burguesa. Mas acho interessante a capacidade que os artistas/escritores possuem de incorporar em suas obras essas fissuras e contradições históricas, reinventando assim os gêneros e categorias em sua própria anacronia aparente. Muitos estudiosos (como Adorno, Umberto Eco, Milan Kundera etc.) concordam que a “crise do realismo” foi um princípio fundante no romance, o qual apresentaria a possibilidade ou impossibilidade de narrativa para aquilo que já perdeu sentido em uma representação realista. Em Proust, por exemplo, temos uma espécie de “investigação” sobre a possibilidade subjetiva (experiência do eu, sentido existencial etc.) em meio a uma sociedade aristocrática e burguesa das “aparências” e no decorrer do tempo. Em Faulkner, trata-se da possibilidade de retratar um mesmo “fato” (duvidoso) sob diferentes olhares (especialmente o olhar “doentio”) que nunca revelam diretamente esse fato. Joyce se questionava sobre a recuperação dos mitos em um mundo não mais guiado por mitos. Finalmente, Kafka opera partindo da desintegração da possibilidade de narrativa atrelada a uma experiência subjetiva igualmente desintegrada – não é simplesmente que não há mais ação, é que não há mais sentido nas ações narradas, de modo que Kafka mantém a “forma” de um romance, mas subverte todo seu “teor” narrativo.

      Acho que não há como salvar o realismo, somente reconfigurá-lo. O romance é essa tentativa constante, e o amor é uma das coisas que ele tenta reconfigurar. Inclusive, creio que há uma forma especial que o gênero romanesco possui para fazer isso, o que me arrisco a resumir nas seguintes questões (as quais todo romance acaba tentando responder ou, pelo menos, retomar e reinterpretar): como perder aquilo que ainda não se tem? Como ter de volta aquilo que ainda não se perdeu? Como algo que já aconteceu pode ainda estar por vir? O amor nada mais é do que uma forma de responder a essas questões, mas não a única.

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