Demócrito, a Filosofia Marginal e o Mercado da Transcendência

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E se o Homem não for a dualidade corpo e alma ? E se o binômio mundo sensível e mundo inteligível for apenas a construção socrático-platônica da existência ? Res Cogitans e Res Extensa sendo tão somente a elaboração de um método de interpretação, do encaixe do indivíduo no mundo ? Imagine se tudo é como só poderia ser, sem alternativas deliberativas ou livre arbítrio. Se o imaterial só for possível na construção de uma crença. Seria o pensamento, algo originado em meio a átomos e vazio, em uma perspectiva restrita à matéria ? Questão levantada por Demócrito. Contemporâneo de Platão, relegado a um papel secundário, na história da filosofia. O que justificaria tal desprezo por uma teoria ? Em que medida, a simplificação das justificativas pelas quais o Homem busca explicar a sua estada transitória no mundo, é algo desinteressante, sobretudo do ponto de vista econômico ? 
O que se conhece a respeito da obra de Demócrito é quase nada. Todavia, alguns poucos escritos, abordando desde a música até a astronomia , já denotam a relevância da obra deste pensador, viajante contumaz,  buscando atualização constante, em meio às instâncias culturais e cientificas de seu tempo. Em seus textos, talvez surjam explicações a respeito do desprezo com o qual foi tratado, na Atenas democrática, repleta de debates sobre política e religião. De fato, dois temas praticamente ausentes nos trabalhos de Demócrito. Contudo, a falta de foco nos temas referidos se explica pela coerência do mesmo em concentrar esforços, na tentativa de levar adiante a busca pela resolução dos paradoxos derivados do estudo de Parmênides e Zenão, sobre a divisibilidade infinita do espaço. Da reflexão sobre as teorias de ambos, surge a noção do limite do divisível, proposta por Demócrito : o conceito de átomo. Parece claro que esse tipo de pauta não pudesse ter espaço na agenda pública da Ágora ateniense. Reza a lenda que o mesmo Platão, dialético por natureza e força do ofício, teria sugerido a destruição da totalidade da obra daquele cujas teorias, não se adequavam a nenhum tipo de debate possível, no âmbito da Academia.
downloadEstabelecida a idéia de existência do átomo, era preciso, em seguida, explicar o cosmos à luz da nova hipótese, completamente dissociada de qualquer discussão precedente, no contexto dualista predominante. Natural que houvesse uma tentativa do pensamento predominante, em subjugar qualquer um que se encontrasse em dissonância com os conceitos vigentes. A fundamentação de Demócrito, indo a favor da noção de mundos infinitos , da perenidade da existência sob outras formas e do vórtice cósmico, como gerador dos elementos água, ar , fogo e terra, talvez representasse um retorno a um pensamento pré-socrático, que absolutamente, não interessava à “filosofia oficial” daqueles tempos. Em agravante, o pensador defendia que alma e intelecto formavam uma unidade estrutural atômica, trazendo à problematização, portanto, a idéia de “determinismo”. Nada mais inadequado, naquele campo de discussão que se pretendia complexo, entrelaçado, do que a redução de toda a conduta humana a uma relação necessária e interdependente, de causa e efeito, que retiraria da dualidade mundo sensível- mundo inteligível, toda a sua relevância.
Exceto por alguma referência de Aristóteles e Epicuro à sua obra, somente no século XVII, em meio à Revolução Cientifica, Demócrito volta a ser lembrado, e não por acaso, evidentemente. O descolamento que se processa, entre filosofia, ciência e religião, é terreno fértil para a retomada de uma certa credibilidade, quanto ao pensamento do mesmo. Nesse novo cenário, a suposta perda de autonomia da parte pensante do Homem, o inteligível, em relação ao corpo, a parte sensível, já não parece tão absurda ou inconveniente, como antes. Nesse instante, já é possivel cogitar o individuo como um sistema corporal, onde os atos de pensar, sentir e agir partem da mesma fonte. A consequência imediata dessa abordagem é a atenuação da importância relativa das questões ligadas à dualidade transcendente. Não obstante a importância de parte do resgate da obra de Demócrito, em autores como Spinoza, Hobbes e , até mesmo, Nietzsche, e a posterior derrocada de sua teoria, em face dos conceitos de física quântica, é chegado o momento de avançar rumo ao entendimento dos porquês que levam a filosofia marginalizada de Demócrito, a aparentar pouco efeito dialógico e desagradar os mercadores da transcendência

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Não é exercício penoso tentar mensurar o alcance da indústria da transcendência e de tudo o que se relaciona à mesma. Por onde quer que se caminhe, os sinais são evidentes. No ambiente acadêmico, boa parte da estrutura de ensino se volta ao estudo da dualidade corpo e alma, seja como tema central, na teologia, por exemplo, seja acessoriamente em filosofia, sociologia, antropologia, direito e outros. Na política e no campo midiático, a pauta assume caráter central, dado o potencial de capilaridade do que é propagado, seja na internet, TV, rádio ou impressos. Na agenda pública, todo o modo de vida capitalista tem como remédio, aos que fracassam, a possibilidade de uma recompensa na vida além da vida. No Ocidente, a fé objetiva e seu exercício, constituem uma espécie de créditos a cobrar no futuro, algo como contas a receber adiante, pela fidelidade ao divino. No Oriente, uma espécie de niilismo e desapego, somados, também fornecem suporte aos mais necessitados . Em poucas linhas, evidencia-se a magnitude do alcance de uma diretriz de pensamento milenar. O poder da sistematização dualista, seja em Platão, Cristo, Agostinho, Descartes, Kant, Hegel, possui um peso quase intransponível, em face da estrutura cognitiva vigente. Esta sistematização sustenta as bases socioeconômicas do planeta há séculos. Não parece haver espaço para considerações que retiram do ser humano, toda a complexidade de sua constituição e liberdade deliberativa, todo o antagonismo que as diferentes abordagens religiosas provocam, todo o combustível que alimenta a vida na vida e, quem sabe,  depois dela. Nesse sentido, não há espaço para o atomismo de Demócrito. Ele é simples, barato, não rende juros nem correção monetária. Esgota-se rapidamente em uma certeza inconveniente.

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