Depressão: uma categoria moral

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Em seu livro A fadiga do eu, o sociólogo francês Alain Ehrenberg reflete sobre a depressão e a encara como uma das principais categorias atualmente utilizadas para pensarmos sobre nosso sofrimento. Estou pensando em termos de categorias, mas Ehrenberg está mais preocupado com a depressão enquanto tipo de sofrimento – um tipo específico de sofrimento impulsionado pelo ambiente social no qual o sujeito se insere. Para ele, tudo se passa como se o ambiente social impulsionasse diretamente certos modos de sentir que são posteriormente categorizados. Já em uma abordagem mais discursiva, como a que costumo seguir, a ênfase se coloca no modo como certas produções discursivas estruturam o ambiente social e direcionam certos modos de sentir.

A diferença, como se pode perceber, é sutil, e as duas abordagens se harmonizam em muitos pontos, especialmente na recusa à abordagem cientificista e a-histórica que pretende enxergar a depressão como um tipo universal de sofrimento, sempre igual a si mesmo e, assim, totalmente independente de construções discursivas ou organizações sociais. Nessa abordagem, a depressão aparece como uma espécie de entidade-causa do sofrimento: uma doença. Entretanto, é preciso ter clareza sobre o que a categoria “doença” significa nesse caso.

Quando pensamos em uma meningite, por exemplo, realizamos uma separação clara entre sintoma e doença. Posso ter dores de cabeça como sintoma, mas a dor de cabeça não é a doença — a meningite é a doença e a dor de cabeça é um sintoma. No caso de qualquer doença mental, essa separação não existe. Até porque, se existisse, não seria uma doença mental. Quem tem uma disfunção específica no cérebro, por exemplo, tem uma doença neuronal, e não uma doença mental. “Doença mental”, afinal, nada mais é que um nome dado para uma série de sintomas, comportamentos ou padrões mentais considerados doentios — a eterna promessa de que “no futuro” será possível traçar tais doenças a disfunções orgânicas não passa disso: uma promessa. Apenas no senso comum essas promessas aparecem como “verdades”. Um bom exemplo é a teoria de que a depressão seria causada por um desequilíbrio nos níveis de serotonina, cuja credibilidade é amplamente disputada nos campos de pesquisa científica há mais de dez anos, mas que, no senso comum, está naturalizada como a grande e verdadeira causa da depressão (e, curiosamente, mesmo os que professam fé na serotonina, continuam misturando sintoma e doença, pois seria preciso dizer que o desequilíbrio nos níveis de serotonina é a depressão propriamente dita, e os estados mentais depressivos apenas um sintoma de tal desequilíbrio).

Na depressão — e nas demais doenças mentais –, portanto, não existe separação entre sintoma e doença. E, uma vez que tal separação não existe, a própria definição de doença ou se torna circular ou precisa se basear em uma valoração moral dos sintomas — eles nos fazem sofrer, por isso são maus! Quer dizer, doentios… O DSM-IV, penúltima versão do manual diagnóstico que virtualmente determina que “doenças mentais” existem oficialmente para a psiquiatria, define “doença mental” como:

Síndrome ou padrão psicológico ou comportamental clinicamente significante e que é associado a um sofrimento presente (p.ex. um sintoma doloroso) ou disfunção (p.ex. prejuízo em uma ou mais áreas importantes do funcionamento) ou com um maior risco de sofrer morte, dor, disfunção, ou uma importante perda de liberdade.

depressao3A parte “clinicamente significante” é circular, pois não é o intuito de tal definição justamente determinar que comportamentos ou padrões psicológicos são clinicamente significantes? A definição propriamente dita, portanto, fica com a segunda parte: trata-se de qualquer conjunto de sintomas, comportamento ou padrão psicológico associado a sofrimento, disfunção ou maior risco de morte, dor, disfunção ou “perda de liberdade”, o que quer que isso signifique.

Partindo da definição “oficial” de doença mental, portanto, dizer que a depressão é uma doença não quer dizer propriamente nada que já não esteja incluído na noção genérica de depressão – que é um padrão psicológico associado ao sofrimento. Ou, como coloca Greenberg (Manufacturing depression, s.p.):

Dizer que uma pessoa que sofre de tristeza, letargia, sonolência, perda de apetite e de interesse está deprimida é simplesmente dar a seu sofrimento um novo título – pelo menos enquanto depressão não for mais nem menos do que a condição que faz uma pessoa sofrer dessa maneira.

Para o tipo de mecanismo tautológico que permite a invenção de doenças mentais a partir de formas de sofrimento psíquico, poderíamos oferecer a mesma crítica que Nietzsche (Além do bem e do mal, § 11) dirige às “faculdades” kantianas, ou melhor, à tentativa de explicar certos fenômenos através de uma suposta faculdade que os produziria:

“Em virtude de uma faculdade”, havia ele [Kant] dito, ou ao menos dado a entender. Mas então é isto é – uma resposta? Uma explicação? Não seria apenas a repetição da pergunta? Como faz dormir o ópio? “Em virtude de uma faculdade”, isto é, da virtus dormitiva – responde aquele médico de Molière: “porque há nele uma faculdade dormitiva cuja natureza é entorpecer os sentidos”. Mas respostas assim se acham em comédias [...].

Não é exatamente o mesmo que se faz quando se inventa uma doença definida apenas por seus sintomas para explicar os próprios sintomas? Por que sofro desta maneira? Por causa de uma doença cuja natureza é fazer sofrer desta maneira…

Uma vez que se evidencia tal circularidade, e, assim, a nulidade epistêmica da categoria de doença mental, fica fácil perceber o que está em jogo no debate sobre se a depressão é ou não uma doença: não a compreensão de sua causa e natureza, mas sim o valor ou a legitimidade de um certo tipo sofrimento, bem como o valor ou a legitimidade de certos discursos e práticas de cura. Trata-se, portanto, do início ao fim, de uma questão moral.

depressao1O sofrimento entendido como doença, por algum motivo, é visto como mais legítimo do que o sofrimento entendido de outras formas. Se alguém afirma que a depressão não é uma doença, logo aparecerão milhares de indignados dizendo que não se está reconhecendo seu sofrimento. Seria o caso de se questionar, porém, por que um sofrimento encarado como doença é visto como mais ou menos legítimo que qualquer outro tipo de sofrimento.

Parte da resposta, parece-me, está ligada à questão da responsabilidade pelo sofrimento. A categoria de doença conota uma ausência de responsabilidade e de agência sobre o sofrimento – seria um agente externo incontrolável, a doença, que nos faz sofrer, e nada podemos fazer para não sofrer. No senso comum, a depressão como doença aparece em oposição ou ao sofrimento causado por uma ação do próprio agente, ou, principalmente, ao sofrimento que pode, em maior ou menor grau, ser controlado pela força da vontade. O cartoon ao lado, que circula pela internet há pelo menos um ano, ilustra esse ponto de maneira bastante clara.

O cartoon é composto por seis quadros que ilustram o que aconteceria se as doenças “normais” fossem tratadas como a depressão. A noção de doença “normal” é utilizada de maneira bastante curiosa, uma vez que inclui a perda de membros e ferimentos — danos que eu nunca ouvi ninguém chamar de “doença”, e muito menos doença “normal” –, o que nos dá outra pista para encontrarmos o foco do problema: o foco não é a pertinência científica ou filosófica da categoria de doença, mas sim a possibilidade ou impossibilidade de se agir subjetivamente sobre o sofrimento assim classificado. O quarto quadro (um pouco diferente dos demais), que ridiculariza a crítica ao uso de medicamentos, também segue a mesma direção na medida em que indica a pertinência da agência biológica e a impertinência da agência psíquica sobre o sofrimento categorizado como depressão.

Como observei em minha tese de doutorado, intitulada As bestas dentro de nós (que espero lançar em na forma de livro em um futuro próximo, com algumas alterações e revisões), a categoria de depressão possui, então, o mesmo estatuto de categorias como pecado e repressão. Todas elas são categorias que visam explicar nosso sofrimento recorrendo a uma instância má ou corrompida em nós (quer pensemos tal corrupção como gerada pela carne, pela interiorização das regras sociais ou por disfunções biológicas) e legitimar certos discursos e práticas que prometem erradicar tal instância e nos conectar com nosso bom e verdadeiro eu. No caso da depressão, é o discurso e a práticas médicas – mais especificamente psiquiátricas – que são legitimadas.

Mas aqui já me afastei das propostas de Ehrenberg, que me propûs a apresentar no início do texto, e que serão relevantes para pensar a questão da agência sobre o sofrimento, levantada acima. Argumentei, ao refletir sobre o cartoon, que, no senso comum, o sofrimento encarado como depressão se opõe ao sofrimento pelo qual se é responsável. Percebemos, então, que ser responsável pelo próprio sofrimento é moralmente inaceitável – é a essa possibilidade que muitas pessoas reagem violentamente quando se nega o estatuto de doença do sofrimento categorizado como depressão. Curiosamente, porém, tal possibilidade não era encarada da mesma forma há algumas décadas, quando o moralmente inaceitável não era a responsabilidade pela própria infelicidade, mas a responsabilidade pela transgressão das normas sociais.

depressao4Leio assim – a partir de um ponto de vista discursivo – a tese de Ehrenberg segundo a qual a depressão é um tipo de sofrimento característico do sujeito que se constitui frente ao imperativo da performance e da iniciativa, e que pensa sobre suas ações a partir das categorias do possível e do impossível. Já o pecado e a neurose (engendrada pela repressão) seriam tipos de sofrimento característicos do sujeito que se constitui frente ao imperativo da submissão a regras sociais estabelecidas, e que pensa (de diferentes formas nos dois casos) sobre suas ações a partir das categorias do permitido e do proibido. Como escreve Ehrenberg (A fadiga do eu, s.p.):

Do mesmo modo que a neurose ameaçava o indivíduo dividido por seus conflitos, dilacerado entre o permitido e o proibido, a depressão ameaça o indivíduo aparentemente livre dos tabus, mas certamente dilacerado entre o possível e o impossível.

A depressão seria um colapso resultante do constante esforço necessário para se constituir como sujeito em uma cultura que não oferece regras bem definidas para a constituição de si. Uma vez que não existem parâmetros universais, o sucesso só diz respeito à relação do desejo com o efetivamente conseguido – e, uma vez que o desejo tende a escalar infinitamente, seria preciso conquistar cada vez mais e mais para que a relação consigo continue harmônica. O que dilacera o eu, enfim, não é mais a trangressão mas o fracassso.

Já nessa pequena exposição é possível observar como as noções de culto da performance, de indivíduo incerto e de fadiga do eu dialogam de maneira íntima na obra de Ehrenberg. Uma vez que o culto da performance substitui o culto do correto (o moralismo), as bases para que o indivíduo se encare como uma construção estável deixam de existir – é difícil para o indivíduo ter certeza sobre seu caminho e sua constituição. Ele se esforça, assim, para se pensar como uma “pessoa de sucesso” em caminhos que variam constantemente. Uma vez que é a performance que lhe dá um senso de indentidade, porém, um momento de fraqueza pode acabar resultando em uma crise de identidade — as duas se alimentando continuamente resultam na depressão, este sofrimento no qual a própria capacidade de querer é afetada.

Espero ter conseguido mostrar, com essas considerações, de que maneira abordagens como a de Ehrenberg e aquela que chamei anteriormente de discursiva  nos ajudam a pensar a depressão fugindo da dicotomia tosca que vigora no senso comum entre doença (sofrimento visto como legítimo e sobre o qual o sujeito não pode atuar subjetivamente) e frescura (sofrimento visto como ilegítimo e sobre o qual o sujeito poderia atuar subjetivamente se fizesse esforço). Nas duas abordagens aqui consideradas, a própria instituição de tal dicotomia no senso comum se torna um problema e, assim, um trabalho frutífero de investigação dos aspectos morais da categoria de depressão pode ter início.

 

4 respostas

  1. Robert Radunz disse:

    Parabéns pelo texto Daniel! Devo dizer que ele me trouxe algumas fagulhas de clareza sobre um assunto que me é conhecido a décadas: essa famigerada depressão.
    Tenho em meu histórico uma lista generosa de psiquiatras, psicólogos, terapeutas, enfim, os quais me consultei justamente para clarear esse estado, patológico ou não. Por fim, já cansado confesso, a depressão sempre me pareceu exatamente essa incapacidade do sujeito de se afirmar em seu meio. E no meu caso, essa falta de regras da cultura em que se está, que você coloca, parece-me muito razoável: explica a minha confusão, cisão ontológica que vivo. Pois como defini e solidifiquei certos valores que julguei corretos (e isso demanda o aval externo) constantemente busco revalidá-los para que possa estabilizar minha identidade. Mas o meio muitas vezes parece rechaçá-los aos mesmo tempo que os afirma. Ou talvez a minha percepção não consiga filtrá-los de forma que tenha uma visão sem tendências. Enfim, a caminhada continua. Aguardo seu livro :)

    • Oi, Robert, fico feliz em saber que o texto te ajudou a aprofundar suas reflexões. Também para mim, as reflexões que mais interessam são aquelas que afetam nosso modo de viver ou de pensarmos sobre nós mesmos. Obrigado pelo comentário!

  2. Rubia Lodi disse:

    Senti falta de referências bibliográficas que validem algumas afirmaçöes do início do texto. Quando penso ou leio sobre o tema, procuro ter em mente a diferenciaçäo entre sofrimento e doença. Se a reflexäo é apenas sobre sentimentos e emoçöes entäo depressäo näo passa de um termo inventado?

    • Oi, Rubia, tudo bem?

      Sobre as referência, imagino que você se refira à questão de não haver separação entre sintoma e doença quando se trata de uma doença mental. Existem, claro, textos sobre o tema, mas, no post, para não entrar em polemicas desnecessárias e nem me basear no pensamento de alguém que poderia ser desqualificado por alguns leitores, preferi partir da própria definição de “doença mental” do DSM (o manual diagnóstico “oficial” da psiquiatria) para mostrar que não há tal separação. Então cito apenas o DSM.

      Sobre se a depressão é um termo “inventado”. Em certa medida, sem dúvida sim, a depressão e todos os termos são inventados. Imagino que sua questão diga respeito, porém, aos motivos e justificativas para a invenção e sustentação de certo termo. Neste caso: o que justifica e o que implica usar o termo depressão (em seu sentido psiquiátrico) para se referir a certos “padrões psicológicos ou comportamentais”? Usamos o termo sofrimento, tristeza ou mesmo depressão em sentido genérico (como sinônimo de um sofrimento ou tristeza duradouros) para nos referirmos a certos padrões psicológicos e comportamentais. O que caracterizar esses mesmos “padrões psicológicos ou comportamentais” como depressão (doença) traz de novo? Eu argumento no texto que a novidade consiste principalmente em conotações “morais” que se ligam ao termo quando o compreendemos como uma doença mental. Enfim, essa questão é basicamente a questão central do texto.

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