Desconstrução e Ontologia em Ser e Tempo

A desconstrução (Destruktion) da ontologia tradicional empreendida por Martin Heidegger se inicia com a repetição da questão do Ser no horizonte do sentido a partir da qual ele formula uma nova ontologia calcada na analítica do ente primordial; o Dasein. Heidegger escreve que apesar da nossa época ter todo interesse pela “metafísica”, a questão do Ser caiu no esquecimento, mesmo considerando que a questão é tão essencial e por isso foi a motivadora das pesquisas de Platão e Aristóteles. Desse modo, repetir a questão do Ser é necessário uma vez que esta é a interrogação fundamental da filosofia.

ImagemPara tanto, Heidegger, primeiro, esclarece alguns dos pré-conceitos atribuídos ao Ser, dados como definitivos, mas que apenas desfavorecem a retomada da questão. Por exemplo, aceitar a universalidade do Ser não indica qualquer clareza, uma vez que o Ser transcende qualquer universalidade genérica. Como podemos apreender na ontologia medieval o Ser era considerado um “transcendens”, consideração já presente nos estudos aristotélicos pela unidade da analogia que entendia a universalidade em geral frente à variedade multiforme de conceitos. Todavia, a unidade de analogia instalou uma nova base para os problemas do Ser, devido ao obscurantismo dos nexos categoriais. Com isso, uma explicitação ficou ausente até, inclusive, na Lógica do Hegel a qual indicava o Ser como “imediato indeterminado”. Por isso, “quando se diz, portanto: ‘ser’ é o conceito mais universal, isso não pode significar que o conceito de ser seja o mais claro e que não necessite de qualquer discussão ulterior. Ao contrário, o conceito de ser é o mais obscuro” (Heidegger, 2005, pg.29).

Ainda devido à máxima da universalidade, o Ser foi encoberto mais um pré-conceito: a indefinibilidade, já que não se pode atribuir ao Ser conceitos a partir de avaliações superiores ou inferiores. Contudo essa impossibilidade não indica, de acordo com Heidegger, um problema apenas quer dizer que o Ser não é um ente, nem pode ser tratado como tal, nem tão pouco indicá-lo como evidente. Visto que ao denominar um ente, p.ex., o céu é azul, este é apenas apresenta uma modalidade do ser do ente e não o seu Ser. Assim seguindo a via dos exames dos pré-conceitos ficou clara a necessidade de uma repetição da questão, uma vez que, de acordo com Heidegger, ela mesma se tornou obscura e sem sentido. Porém, essa repetição tem o intuito de colocar a questão de uma maneira suficiente para que o horizonte do sentido do Ser se apresente.

Ao repetir a questão do Ser Heidegger visa o exame da origem desses pré-conceitos, como primeiro desafio no passo da desconstrução. Contudo, o exame dos pré-conceitos conduz a outra questão: a estrutura formal da questão do Ser (§2). Nessa direção, o Dasein é o ente interrogado primeiramente. Ora, o Dasein possui a característica de um ente privilegiado e este “privilégio” se justifica porque além de perguntar sobre o seu ser, este também faz a cerca do Ser em geral. Já que possui uma constituição ôntico-ontológica. Heidegger ainda aponta para o fato de que todo o questionamento é uma procura, e essa procura tem a direção de maneira prévia acessível.  Ademais, o intuito desse questionamento é procurar o ente naquilo que ele é e como é. Assim, a procura ciente desdobra-se numa “investigação” se o que se questiona for determinado de maneira libertadora. Ainda mais, no questionado, o Ser, reside o perguntado e o seu sentido, proporcionando a investigação o alcance de sua meta. Por isso, a repetição da questão do sentido do Ser exige a explicação dos momentos estruturais prévios ao questionamento. Contudo, Heidegger salienta que já temos uma compreensão prévia do que quer dizer Ser, isto porque essa compreensão do Ser vaga e mediana é um fato.

ImagemO Dasein tem o seu sentido na temporalidade que é, por sua vez, condição da historicidade. Assim a historicidade não indica a conjugação dos fatos da história, mas o que permite a história constituir-se da maneira que é. Heidegger aponta para o fato de o Dasein ser constituído pelo seu passado, não como algo simplesmente dado, podendo ou não influenciar a história. Mas, pelo Dasein ter a existência como em fato esta determina continuidade para como e o que ele já foi. Heidegger ainda escreve, “o Dasein ‘é’ o seu passado no modo de seu ser, o que significa, a grosso modo, que ele sempre ‘acontece’ a partir do seu futuro” (Heidegger, 2005, pg.48).

A historicidade é o modo constitutivo para descrever os modos de ser do Dasein. Uma vez que ele nasce e cresce dentro de uma interpretação, proveniente de uma tradição, fornecendo ao ente as possibilidades que pode vir a escolher, a historicidade pode permanecer escondida ou manifestar-se, neste caso, ela condiz ao modo de ser de questionamento dos fatos historiográficos, pois essa constituição da fatualidade histórica só é possível como modo de ser que questiona; porque como fundamento o Dasein se determina pela historicidade. Se a historicidade fica escondida para o ente e enquanto deste modo permanecer, a possibilidade de questionamento fatual da história é negada. Contudo, não significa com isso uma prova contra a historicidade, mas a favor desta como modo ontologicamente deficiente. Assim, se o Dasein compreende-se como possibilidade de não apenas tornar-se transparente, mas também de questionar a história da ontologia, a questão do ser deve orientar-se pelo questionamento ontológico para poder indagar a respeito de sua história motivada por fatos históricos. Porque, para o Dasein ter a possibilidade integral de seu questionamento, o passado deve ter sido apreendido de maneira positiva. “Segundo seu modo próprio de realização, a saber, a explicação prévia do Dasein em sua temporalidade e historicidade, a questão sobre o sentido do ser é levada, a partir de si mesma, a se compreender como questão referente a fatos históricos” (Heidegger, 2005, pg. 49).

Com isso a tarefa da desconstrução apresentada por Heidegger tem a meta de desconstruir os conceitos apresentados tradicionalmente pela história da ontologia, legado pela tradição, para chegar às experiências originárias em que foram obtidas as primeiras determinações do Ser que se tornaram decisivas. Essa desconstrução segue o fio condutor da questão do Ser e visa, desse modo, esclarecer a transparência de sua própria questão. Contudo, Heidegger ressalta que com isso não se indica uma relativação dos conceitos ontológicos nem tem o “sentido negativo de arrasar a tradição ontológica”, mas demonstrar os limites nos quais o questionamento foi colocado numa certa época, dentro do campo possível da investigação. Por isso, Heidegger acentua o fato de que Ser e Tempo “visa, em principio, elaborar a questão do ser. Dentro deste quadro, a desconstrução da historia da ontologia, essencialmente ligada à colocação da questão possível e apenas possível dentro dessa história, só poderá ser conduzida no que diz respeito às estações decisivas e fundamentais da história” (Heidegger, 2005, pg. 52).

ImagemSeguindo o fio condutor da questão, a temporalidade, Heidegger retorna aos momentos crucias na tradição ontológica para a colocação adequada da questão do ser e seu sentido. De acordo com Heidegger o primeiro a dar um passo na investigação através do tempo foi Kant por força dos próprios fenômenos. Porém, Heidegger explica que Kant, apesar da diferença, ainda estaria preso à concepção de tempo aristotélica, o que impossibilitou uma investigação do Dasein, ou em termos kantianos, “a falta de uma analítica prévia das estruturas que integram a subjetividade do sujeito”. Ficando, assim, a conexão entre o eu penso e o tempo ainda obscura e nem sequer sendo problematizada. Inclusive, o segundo ponto da desconstrução relaciona-se com a construção cartesiana do sujeito, pois mesmo com Descartes pretendendo dar a filosofia uma base sólida através do “cogito sum”, este deixara ainda indeterminado o sentido do sum. Já que, para Heidegger a descoberta do sum é tão fundamental quanto a do cogito.

Mas, o fato de Descartes compreender ter encontrado no cogito a “certeza” absoluta, ele somente omite um desenvolvimento da questão, como também, aplica às suas investigações o sentido ontológico medieval ao ente dado com fundamentum inconcusssum. Assim a res cogitans é determinada como ens criatum, em relação a Deus o ens increatum. Com isso, o que parecia como um novo início da filosofia ainda se move dentro de um pré-conceito fatal. Mas a fundamentação cartesiana pela ontologia da Idade Média não tem relevância filosófica caso não se estabeleça, à questão do Ser, os limites da antiga ontologia. Ficando de tal modo patente porque a necessidade da desconstrução enquanto tarefa de interpretar as bases da ontologia à luz da problemática da temporariedade. É tanto que, para Heidegger, é evidente que “a interpretação antiga do ser dos entes se orienta pelo ‘mundo’ e pela ‘natureza’ em seu sentido mais amplo, retirando de fato a compreensão do ser a partir do ‘tempo’” (Heidegger, 2005, pg.54).

Todavia, os primeiros estudos, sobretudo o tratado do tempo elaborado por Aristóteles, considerava o ente como presente no tempo em sua vigência. Com isso, o tempo fora tratado como mais um mero ente. A partir desta consideração Heidegger adverte que a elaboração da questão do Ser não indicará detalhadamente o símbolo da temporariedade na ontologia antiga, mas uma interpretação do tratado aristotélico em suas estruturas determinantes, tendo em vista que este tratado transmitiu a compreensão posterior de tempo; inclusive a de Bergson. Isso reafirma o motivo de Kant ainda ter todo o seu trabalho seguindo a linha de concepção do tempo concebida por Aristóteles.

Portanto, a questão do Ser terá sua concretização quando se fizer uma desconstrução nos arquivos da ontologia tradicional. Por que, como Heidegger escreve, é nela que se verifica a importância de buscar o sentido do Ser, para em seguida compreendermos a “repetição” da questão, não como um circulo vicioso onde se investiga o Ser pelo ente para voltar a encontrar o Ser, mas um círculo produtivo, onde retomamos a pergunta em cada momento histórico determinante para a ontologia tradicional e com isto fundar uma ontologia fundamental ausente dos pré-conceitos presentes em toda história da ontologia.

Referência Bibliográfica:

HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. vol. I. trad. Márcia de Sá Cavalcanti. Ed. Vozes. 2005.

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