Desejo sem objeto: considerações lacanianas

jean-arp-22* Ilustram o post imagens do artista surrealista Jean Arp

A leitura que Lacan propõe dos textos freudianos sugere que, ao desejo humano, falta um objeto adequado. Ao contrário dos instintos dos animais, cuja satisfação está ligada a um objeto definido, o desejo propriamente humano não possui um objeto “natural” – em vez de instintivo, ele é pulsional. E o que caracteriza a pulsão é sua plasticidade, de modo que ela pode ser investida em objetos muito diversos, de formas muito diversas.

Ao enfatizar o caráter plástico das pulsões e defender a ausência de qualquer objeto que pudesse fixar-se, finalmente, como O objeto adequado a uma pulsão, Lacan se opõe a uma vertente da psicanálise que tende a enfatizar, na teoria freudiana das fases do desenvolvimento libidinal, a caminhada rumo à estruturação de uma orientação “natural” e bem sucedida do desejo. Para estes, existiria, em última instância, uma organização da libido (pulsão sexual) que garantiria uma relação satisfatória com os objetos de desejo, uma espécie de retorno à adequação instintiva do desejo ao objeto. Este é um ponto que Lacan ataca duramente:

[...] frequentemente tomei como alvo o caráter aproximativo, vago, maculado de não sei que moralismo otimista, do qual estão marcadas as articulações originais da forma dita de genitalização do desejo. É o ideal do amor genital – amor que é suposto modelar sozinho uma relação de objeto satisfatória [...]. [1]

Na organização genital, a libido estaria direcionada ao sexo em seu sentido mais estrito, o sexo focado nas genitais. Ou seja, trata-se do sexo “não pervertido”, que se acredita ser o “natural”, como se os genitais fossem o objeto “correto” do desejo erótico. Para Lacan, entretanto, este suposto objeto natural da libido é uma lenda – ele simplesmente não existe. Ou, se considerarmos que ele existe, é de tal forma que, ao perseguir seu objeto último ao invés de substitutos, a libido se converte em pulsão de morte.

Jean-Arp-LionPara se compreender este ponto, será útil recorrer à leitura que Lacan propõe do Projeto de Freud. Nele, o psiquismo humano é pensado como uma espécie de centro de pressão que precisa extravasar tal pressão através de válvulas de escape. A redução da pressão se traduziria em prazer psíquico; o acúmulo de pressão, em sofrimento. Mas é preciso ter em mente que a redução da pressão tem um limite. A eliminação total da pressão, que coincidiria com uma espécie de prazer máximo, seria também a eliminação do psiquismo. Como nota Lacan: “A descarga não pode [...] ser completa, atingir o nível zero, ao cabo de que o aparelho psíquico chegaria a um repouso derradeiro que não é certamente a meta [...] para o funcionamento do princípio do prazer”. [2]

O princípio do prazer é o princípio que originalmente regula o psiquismo e que visa manter sempre a pressão no nível mínimo. Mas, como vimos acima, é também sua meta não ultrapassar o nível mínimo, pois tal ultrapassagem resultaria na morte subjetiva. A experiência humana, enquanto articulada pelo princípio do prazer, é, assim, sempre a de uma enganação do desejo, tornada possível pela imersão em uma estrutura simbólica. Uma vez inserido nessa estrutura, o desejo renova sempre seu objeto por deslocamento de um significante a outro. Assim, na medida em que o desejo se sustenta no simbólico, ele desliza incessantemente pela cadeia dos significantes, sempre se renovando sem nunca chegar ao centro real em torno do qual ele gira (a Coisa). Com efeito, chegar à Coisa seria o mesmo que diluir a subjetividade. Enquanto sujeitos, nós somos essa distância em relação à Coisa – nós somos desejo, falta. Como explica De Kesel:

[...] Já que nós não somos nada para além de nosso desejo, já que desejo é o nosso próprio ser, se nossa demanda de fato busca a extinção do desejo, então ela busca a nossa morte. É isso que o conceito freudiano de “pulsão de morte” já indicava. Aquilo que desejamos, quer o chamemos “bem-estar”, “bem” ou “supremo Bem”, é, em última análise, nada mais que nossa morte, conclui Lacan. [3]

jean_arp_piano_apocalyptique_couverture_pour_le_surrealisme_meme_no_5_d5384765hA noção de que o desejo humano é, em última instância, desejo de morte, é bastante radical, e cabe tentar entendê-la melhor dentro do referencial lacaniano. Para tanto, será preciso atentarmos para a famosa tríade lacaniana do Real, simbólico e imaginário.

O registro do Real diz respeito ao real psíquico, e está ligado justamente a essa dimensão radical da pulsão que sempre perturba a ordem. A definição do Real é sempre fugidia porque ao definir, encontramo-nos já imersos no registro simbólico, no registro da linguagem. Deste modo, a definição mais satisfatória do Real acaba sendo sempre negativa: o Real é aquilo de inacessível à nossa experiência, ou acessível somente em sua negatividade, em seu caráter perturbador, traumático.

O simbólico é o registro da linguagem enquanto estruturada. É este registro que nos caracteriza como sujeitos sociais, que ocupam um certo lugar social: Fulano, homem, professor, brasileiro, designer, interessado em tais e tais coisas, pertencente a tais e tais grupos etc. Trata-se de uma espécie de sistema que ordena e rege nosso mundo e nossas relaçõs com os outros e conosco.

O registro imaginário – imaginário, aqui, aparecendo como relativo à imagem –, por sua vez, é o registro de nossa experiência subjetiva (perceptiva, afectiva etc.) unificada em um “eu” individual, separado dos demais sujeitos e dos objetos, que podem aparecer então como objetos de desejo.

Mas, como é fácil observar, a experiência imaginária do humano, este ser mergulhado no simbólico, é muito diversa da experiência imaginária do animal, no qual se pressupõe simplesmente que certas imagens os impelem (instintivamente) para ações específicas, como no caso das imagens que atraem sexualmente. É isso que poderia explicar, por exemplo, a facilidade com que se engana – ou “engoda”, como preferiria Lacan – certas espécies de animais com símiles de indivíduos da espécie que contêm características adequadas – a barriga vermelha, por exemplo, no caso dos esgana-gatos – para despertar o instinto. Existiriam nestes caso, portanto, certos gatilhos imagéticos para o desejo sustentados pelo Real. Na experiência humana — ou pelo menos no que podemos chamar de a parte propriamente humana da experiência humana –, porém, não existiram tais gatilhos naturais, de modo que toda atração tem que ser mediada pelo simbólico.

jean-arp4Um exemplo interessante para se compreender a distinção entre imaginário e simbólico aparece no filme A viagem. Um rico advogado está retornando de navio para casa após visitar uma fazenda na qual trabalhavam escravos. Nesta visita, ele havia presenciado a surra de um escravo. Enquanto olhava a cena, incomodado, seu olhar se cruza com o da vítima e se estabelece uma empatia entre os olhares. Em um dado momento da viagem de volta, o escravo surrado aparece nos aposentos do advogado – ele havia se infiltrado clandestinamente no navio e seria jogado ao mar, caso descoberto. Ele pede ajuda ao advogado. O advogado, surpreso, diz inicialmente que não pode ajudá-lo — algo como: “eu sou um advogado, que jurou defender a lei, você é um escravo fugitivo, o que fez você imaginar que eu poderia te ajudar?”. O escravo aponta então para o seu olho e depois para o do advogado, dando a entender que a empatia (identificação imaginária) que ele sentiu no olhar deste durante seu espancamento era mais importante do que os lugares simbólicos conflitantes que eles ocupavam.

Vale frisar que, no filme, a empatia do advogado e do escravo está ligada a uma conexão metafísica que nada tem a ver com a visão de Lacan. A visão de Lacan e aquela que o filme parece sustentar se opõem: o mote do filme, afinal, é que há um tipo de identificação imaginária não mediada pelo simbólico – e sim pelo que seria então o Real – que estaria relacionada aos caminhos das almas em um plano metafísico. A visão lacaniana é a de que uma relação não mediada pelo simbólico é impossível para o humano, uma vez que ele está imerso na linguagem:

[...] a regulação do imaginário depende de algo que está situado de modo transcendente [...]  – o transcendente, no caso, não sendo aqui nada mais que a ligação simbólica entre os seres humanos. [...] É [através] da troca dos símbolos que nós situamos uns em relação aos outros nossos diferentes eus [...]. [4]

Ou seja, nossa experiência imaginária é sempre já estruturada pelo simbólico. O máximo que poderíamos fazer é imaginar uma espécie de cena original mítica pré-simbólica, na qual as relações humanas não seriam articuladas por outro plano que não o imaginário. É isso que Lacan procura fazer, recorrendo à dialética hegeliana do senhor e do escravo e ao mito freudiano da horda primitiva em Totem e Tabu.

Não quero entrar, aqui, em um estudo mais detalhado das propostas de Hegel e Freud. Espero, porém, que essas pequenas considerações acerca dos registros do Real, simbólico e imaginário tenha ajudado na compreensão da noção apresentada anteriormente, de que ao desejo propriamente humano falta um objeto adequado. É a abertura das pulsões, a inexistência de um objeto a elas adequado, que impulsiona nossa imersão no simbólico – e é o simbólico, afinal, que estrutura nossos desejos, orientando-os para objetos que, embora sempre em última instância inadequados, fazem-nos percorrer esse caminho que chamamos de “nossa vida”. A noção da falta de objeto, longe de levar a um niilismo, pode balizar, justamente, uma perspectiva afirmadora do fluxo dos desejos, libertando-nos da ideia de um objeto adequado, seja ele imanente, seja ele transcendente (como o Bem, ou Deus, esses supostos Objetos para além dos desejos terrenos). A ideia de que, se pudessemos pensar em um paradoxal Objeto final do desejo, este seria a morte, parece-me interessante justamente porque ela nos revela o caráter niilista ou sádico dessa busca por um grande Objeto adequado.

Notas
[1] LACAN, J. O seminário VII: a ética da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008, p. 19.
[2] ibidem, p. 54
[3] DE KESEL, M. Eros and ethics: reading Jacques Lacan’s seminar VII. Albany: State University of New York press. Kindle edition, 2009, loc. 80-82, tradução minha.
[4] LACAN, J. O seminário I: os escritos técnicos de Freud. 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009, p. 187.

Uma resposta

  1. Matheus disse:

    Deleuze? Cadê você, meu filho?

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