Porque esses movimentos são habituais e inconscientes, eu não conseguia lembrar e achava que fosse impossível fazê-lo

ou Design e Estranhamento: Parte I

Imagine essa cena: você está andando na rua, ouvindo sua música preferida pelo seu dispositivo portátil, quando chega ao seu ouvido o refrão sendo tocado cronologicamente invertido. Isso, com certeza, não é algo que você esperava e, mais que automaticamente, você vai achar que o seu dispositivo está quebrado e tira-o do bolso para verificar. Não, normal. A música continua tocando invertida, mas as teclas não funcionam e você analisa cuidadosamente seu dispositivo para achar um diminuto botão de reset.

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Você não fica feliz – não, você fica puto, frustrado, isso custou muito dinheiro – com suas músicas tocando ao contrário, mesmo depois de resetar seu dispositivo. Você continua analisando-o minuciosa e raivosamente, como nunca tinha feito antes e até descobre uns detalhezinhos bem legais na forma, mas de que adianta essa concavidade em fibra de carbono se minha música não toca direito. Com essa experiência, você chega em casa e procura no Google “invertido musica dispositivo portátil”, para verificar se mais alguém passou por isso. Bam! Todos reclamando disso no Facebook, Worldwide trend, os fóruns explodindo de reclamações.

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Depois de algumas horas, a empresa que fez seu dispositivo divulga o site thisisnotadrill.com, que milhões de pessoas acessam simultaneamente. Experience difference numa tipografia display ocupando toda sua tela; é uma ordem. Você descobre que tocar a música ao contrário foi um sinal emitido para todos os dispositivos para que os usuários pudessem experienciá-los de forma distinta daquela automática do cotidiano. E você pensa que, realmente, agora eu descobri porque essa suave concavidade na parte superior traseira, para acomodar melhor meu polegar.

Algumas correntes de pensamento no Design acreditam que o projeto precisa ser o mais intuitivo possível, de forma a naturalizar, automatizar ao máximo a utilização do dispositivo. Uma interface de celular funciona bem se é direta, você acha as coisas facilmente, sem sequer pensar. O painel de um carro precisa passar as informações de velocidade, rotação, autonomia, e outras coisas sem desviar muito a atenção do motorista, se não o carro mataria ainda mais pessoas.

Essas correntes tendem a ser chamadas de funcionais, termo que toma como pressuposto que algo que desempenha com eficiência e eficácia sua função é bom. Palavras que podem ser associadas a esse espírito são ideal, otimizar, desempenho, produtividade.

Alguns artefatos – como o dispositivo portátil que estava tocando sua música – são resultados desse tipo de projeto e visam ser automatizados em seu processamento cognitivo, a fim de economizar ao máximo a sua atenção. São esses objetos que fazem parte do dia-a-dia e se naturalizam como signos cujo objetivo último é tornar-se invisível e permanecer apenas como função.

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De forma geral, essa é a tendência da nossa percepção: tornar tudo hábito, tudo automático. Segundo Shklovsky – um crítico literário e precursor do formalismo russo –, esse processo é realizado de forma ideal na álgebra, em que as coisas são substituídas por símbolos. Para ele, esse processo de tornar hábito – familiarização –, “devora o trabalho, roupas, móveis, o casamento e o medo da guerra” e a própria vida, percebida inconscientemente, é reconhecida como nada.

Para desviar disso, Shklovsky aponta A arte como procedimento, nome do texto em que defende a Arte como caminho para a desautomatização, com o objetivo de comunicar as coisas como são percebidas, não como são conhecidas. A esse processo, ele deu o nome de estranhamento ou desfamiliarização; através dele, poderíamos perceber aquilo que já estamos habituados de formas distintas.

Para Shklovsky, então, o objetivo da corrente do Design a que me referi seria destituir a vida de significado – ou, na hipótese mais suave, fazê-la passar despercebida.

Na história do dispositivo portátil que toca música, tocar a música ao contrário – torná-la esteticamente desagradável – foi a forma de desfamiliarizar o artefato; o que foi percebido, inicialmente, como um erro, um problema. Mas, dado o contexto do qual depois você tomou conhecimento – ser uma ação de uma campanha – o erro se transfigurou em apreciação estética do dispositivo.

O que parece pairar por entre essas perspectivas dissonantes é não perceber que essa questão é Estética, e não Ética. Ou seja, a divergência se dá na interpretação da Percepção dos eventos, o que deve levar em consideração tanto o texto – aquilo que é comunicado – quanto o contexto. Em ainda outras palavras, o que é dito ou estranho ou automático não se definem por si só – nível Ético –, mas no nível Estético – com relação ao contexto.

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Obviamente, nem todo estranhamento é agradável. O mero desfamiliarizar incomoda, demanda esforço; se o painel do carro mostrasse a velocidade em uma unidade de medida diferente cada vez que você o ligasse, seria bastante problemático. Em outras palavras, esticando às últimas consquências as definições de Shklovsky, a vida não pode ser igual à arte; teríamos, então, duas saídas: estranhar tudo a todo o tempo – o que tornaria qualquer rotina em impraticável – ou familiarizar o estranho – o que resultaria em uma contradição do próprio conceito.

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