Design, moral e industrialização: prefácio a uma pesquisa

workAs referências à revolução industrial são bastante comuns quando se trata de pensar as origens do design como o entendemos hoje. Para muitos, o design – ou um tipo específico de design, o design como atividade moderna – emerge a partir da ruptura, promovida pela automação da produção, entre a atividade de projetar e a de produzir. Antes, o artesão seria responsável tanto pelo projeto quanto pela produção, e não havia uma separação clara entre essas duas atividades.

Concedamos que a atividade de projetar que hoje chamamos de “design” emerge, ao menos em parte, ligada às descritas mudanças promovidas pela revolução industrial. É preciso observar, contudo, que a automação da produção é apenas a condição material para a emergência do design como atividade moderna, e de maneira alguma pode oferecer dele uma caracterização satisfatória. Se queremos compreender de maneira complexa o desenvolvimento do design a partir da revolução industrial, temos que abandonar, portanto, as perspectivas materialistas reducionistas sobre suas “origens”.

Estou iniciando uma pesquisa que visa dar um passo nesse sentido por meio de uma investigação dos valores associados à produção material (e suas ressonâncias socioculturais) no pensamento dos séculos XVIII e XIX, tendo como foco a produção intelectual britânica. Tal recorte justifica-se por ser a Grã-Bretanha não apenas o grande “berço” da revolução industrial – e, portanto, central para a emergência do design –, mas também um importante centro de desenvolvimento dos dois grandes movimentos intelectuais dos séculos XVIII e XIX: o Iluminismo e o Romantismo. Ao estudar a produção intelectual britânica dos séculos XVIII e XIX que trata da produção material e dos impactos socioculturais da industrialização, será possível compreender os caminhos de consolidação tanto do pensamento promotor quanto do detrator da industrialização, da sistematização da produção e do “progresso civilizatório”.

As categorias de Iluminismo e Romantismo, claro, estão longe de ser precisas. Ainda assim, elas ajudam a indicar os polos opostos das controvérsias a respeito dos rumos ideais da produção material e da dinâmica social que me interessam. Para tentar tornar as categorias de Iluminismo e Romantismo um pouco mais precisas, é comum fazer referência ao Iluminismo ou Romantismo de um país específico. E alguns países costumam ser encarados como mais importantes que outros para esses movimentos intelectuais.

joseph_wright_of_derbyQuando se fala, genericamente, em Iluminismo, tende-se a pensar nos Iluminismos francês, alemão e escocês. Quando se afirma (como fiz acima) que a Grã-Bretanha é um dos centros do Iluminismo, portanto, a tendência é pensar de imediato na Escócia e nas duas figuras mais notáveis do Iluminismo escocês, David Hume e Adam Smith. Historiadores como Roy Porter e Luiz Carlos Soares, porém, mostram que existiu na Inglaterra um movimento iluminista bastante fecundo e que sua característica principal seria justamente o foco na aplicação prática e industrial do saber ilustrado. “‘A união do homem de letras ao homem do mundo’ se constitui numa das principais características da Ilustração inglesa” [1]. Paul Langford, segundo Soares, “chegou a caracterizar o movimento ilustrado naquele país [Inglaterra] como uma ‘Ilustração da mentalidade prática’” [2]. Assim, para uma pesquisa preocupada em pensar sobre o design, o Iluminismo inglês é central. Será interessante estudar, por exemplo, algumas propostas da Sociedade Lunar, um grupo que conseguia unir, na mesma mesa de discussão, Erasmus Darwin (famoso médico e cientista, avô de Charles Darwin) e Josiah Wedgwood (empresário e industrialista, famoso produtor de cerâmica).

No caso do Romantismo, a Inglaterra e a Alemanha são os dois centros indisputados. O Romantismo alemão é conhecido sobretudo por sua inclinação metafísica, e, embora muito do Romantismo inglês também seja influenciado pela metafísica alemã, ele é marcado também pela intensa preocupação com a situação da vida social na civilização industrial. Obviamente, isso não é exclusividade do pensamento inglês, e o mais famoso crítico dos impactos da civilização industrial em sua forma então vigente é alemão (e seria bastante inusitado classificá-lo como romântico, apesar de sua inclinação romântica): Karl Marx. Contudo, o escocês Adam Ferguson já começara a desenvolver no final do século XVIII uma crítica que ligava certas formas de organização socioeconômica a uma condição humana dividida e isolada. E, no século XIX, enquanto Marx desenvolve seu pensamento (parte dele, inclusive, na Inglaterra), Carlyle e Ruskin produzem outro tipo de crítica da sociedade industrial, mas que se harmoniza em muitos pontos com a crítica marxista. Em seu livro Past and Present, por exemplo, Carlyle lamenta: “as coisas, com exceção dos simples produtos de algodão e ferro, tornaram-se desobedientes aos homens” [3]. Vou estudar, dentre outros, os pensamentos de Carlyle e Ruskin, suas raízes e influências. Abordarei a enorme influência de Ruskin e Carlyle no pensamento de William Morris, marco final da pesquisa.

Morris é reconhecidamente uma figura-chave na história do design. Porém, para entender sua importância e mesmo as muitas ressonâncias contemporâneas de suas propostas, é preciso compreender as correntes morais conflitantes que tinham força em sua época, e como Morris se posicionava frente a elas. Contra qual tipo de visão de mundo exatamente ele lutava e quais as fontes dos ideais que ele defendia? Por que o design é uma atividade tão importante nesse conflito? Acreditamos que, respondendo essas perguntas, será possível compreender melhor a posterior consolidação do design como campo profissional e, principalmente, notar sua tensão moral constitutiva, pois ele reúne, em suas raízes, duas perspectivas morais inconciliáveis: uma essencialmente iluminista e, outra, essencialmente romântica.

Notas
[1] SOARES, L. C. Albion revisitada: ciência, religião, ilustração e comercialização do lazer na Inglaterra do século XVIII. Rio de Janeiro: 7 Letras / Faperj, 2007, p. 20.
[2] Ibidem, p. 38
[3] CARLYLE, T. Past and present. Project Gutenberg, 2004, s.p.

Uma resposta

  1. Tiago Toledo disse:

    Que tópico interessante. Espero que dê frutos

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