Designotopia 2: sobre design e “melhoramento” do mundo

Brocolli-Forest* Este texto é uma versão modificada de parte da minha palestra “designotopia: projetando redenções”, proferida no N design sp 2015. As imagens que ilustram o post são de Carl Warner, e foram retiradas de www.carlwarner.com.

Uma coisa que sempre me intrigou no design foi a sua vocação messiânica. Uma das grandes obsessões dos designers é “melhorar o mundo”, uma espécie de eufemismo para “salvar o mundo”. Lembro que, após terminar a faculdade, eu participei de um curso de empreendendorismo no qual a primeira atividade proposta aos alunos era oferecer uma resposta para a pergunta: qual o seu plano para melhorar o mundo? Esse é apenas um exemplo pessoal, mas é fácil verificar que a expressão “melhorar o mundo”, ou suas variantes, aparecem frequentemente em palestras ou textos “engajados” de designers, seja exaltando o chamado “design social”, o design sustentável ou o design voltado para supostas “reais necessidades” do mundo ou da humanidade…

Quanto a mim, sempre que escuto ou leio essa expressão, lembro-me de um capítulo do Crepúsculo dos ídolos, de Nietzsche, que se intitula “Os melhoradores da humanidade”. Essa lembrança, claro, não é meramente casual. Parece-me, com efeito, que a percepção nietzschiana do que geralmente significa “melhorar” a humanidade ou o mundo é um dos pontos de partida mais interessante para refletirmos sobre o “melhoramento” do mundo que costuma ser vinculado ao design.

Ora, a ideia de “melhorar” alguma coisa pressupõe uma noção de Ideal dessa coisa, uma vez que melhorar nada mais é do que aproximar de algum ideal. Sem esse Ideal a ser utilizado como norte, não haveria “melhoria”, apenas mudança. A melhoria é a mudança que segue na direção de um ideal. Para se falar em “melhorar o mundo”, portanto, é necessário se criar um mundo ideal, do mesmo modo que, para “melhorar a humanidade” é preciso imaginar um humano ideal ou uma humanidade ideal.

Cart-BalloonsÉ claro que a noção de um mundo ideal já ganhou tal naturalidade para nós, que chega a ser um desafio lançar-lhe um olhar de estranhamento, de suspeita. Na verdade, há uma dupla naturalização do “mundo ideal”. Primeiro, a naturalização de um Ideal específico ou, para ser mais preciso, de alguns ideais específicos que na imaginação podem ser condensados livremente, deixando de lado as tensões que lhes são subjacentes. Quando falamos em mundo ideal, imaginamos logo um mundo onde reina a paz e a felicidade geral, onde todos desfrutam de bens de consumo em um cenário de natureza verdejante e clima ameno. O mundo ideal em voga na moral contemporânea mistura ideais de bem-estar proporcionado pela tecnologia, ideais de igualdade econômica, ideais de paz e ideais de harmonia com a natureza. É claro que em alguns casos uma dessas dimensões é enfatizada enquanto outras são deixadas de lado ou encaradas como uma perda necessária, mas elas estão a tal ponto arraigadas em nossa moral que é sempre seguro para uma vencedora de um prêmio de miss universo, quando perguntada o que deseja, dizer, sem hesitar: paz mundial! Ela poderia dizer, igualmente: o fim da destruição da natureza ou o fim da miséria. Obviamente, porém, é fácil imaginar épocas e lugares em que tais ideais seriam mais do que estranhos: imagine, por exemplo, um cavaleiro medieval ganhando um torneio, e quando o Rei pergunta o que ele deseja, o cavaleiro solenemente responde: paz mundial!

O que me interessa aqui, porém, é a segunda naturalização, que diz respeito à própria importância que damos a um “mundo ideal”, quaisquer que sejam os valores específicos a ele associado. Por que criar e remeter sempre a um mundo ideal? O que nos leva a olhar o tempo inteiro para este mundo comparando-o com um mundo ideal que criamos? Ou, para ecoar Nietzsche, que encara os ideiais como uma espécie de sintoma de certos estados existenciais: que estado existencial impulsiona a criação de um mundo ideal e o apego a tal mundo? Ou ainda: a que tipo de anseio existencial responde sua criação? No que diz respeito à obssessão com um “mundo ideal”, sua resposta, no Crepúsculo dos Ídolos (III, 6), é a seguinte: “não há sentido em fabular acerca de um ‘outro’ mundo, a menos que um instinto de calúnia, apequenamento e suspeição da vida seja poderoso em nós: nesse caso vingamo-nos da vida com a fantasmagoria de uma vida ‘outra’, ‘melhor’”.

Se vingar desta vida com a fantasmagoria de outra melhor; ou seja, negar esta vida inventando um mundo imaginário no qual a vida seria boa, já que esta vida, a única que existe de fato, é sentida, experimentada, como ruim. É assim que criamos muitos ideais com os quais pretendemos justificar a vida, porque não aceitamos que ela seja como é: repleta de sofrimentos, incertezas, violências. Colocamos ideais acima da vida pela necessidade de procurar qualquer tipo de redenção, até mesmo, na falta de outro melhor, a redenção de sermos “úteis” — um instrumento para a “sociedade”.

Tais ideais provém de uma impotência, de um sentimento de insatisfação e de empobrecimento da vida. E é interessante notar que, muitas vezes, eles também promovem a impotência. Afinal, é justamente em uma cultura obcecada por um “mundo ideal” que se desenvolvem compulsões por se enxergar como mau, culpado etc.

Quando Nietzsche observa esse fenômeno, ele tem em mente principalmente os ideais cristãos que são acompanhados da noção de que somos pecadores, ímpios, culpados etc. Hoje, está claro que tais formas de valoração já não são tão difundidas, mas existem outras que a substituem: dentre elas, vou destacar aqui, a título de exemplo, a noção de que somos destruidores da natureza.

O vídeo acima, que encontrei quando escrevia meu post a respeito dos ideais de retorno à natureza, ilustra bem a questão. Ele mostra um personagem que representa “o homem” destruindo a natureza brutalmente. Para nós, que de um modo ou de outro estamos imersos na moral contemporânea, é difícil ver tal vídeo e não sentir ao menos um ligeiro mal-estar. De um lado, o filme pode nos ajudar  a realizar uma interessante crítica prática de certas formas de vida. De outro, porém, ele nos convida a aceitar, pelo menos por um momento, que nós somos o mal encarnado, e devemos nos regozijar, ao fim, com nossa destruição por alienígenas. Os comentários na página do vídeo em questão no Youtube são igualmente ilustrativos: um deles afirma que tem “vergonha de ser humano”, outro que somos tão “egoístas, narcisistas e destruidores” que sequer nos darmos conta do que fazemos, outro acredita que “a cruel realidade do ser humano está contaminando o mundo”, outro ainda que “o ser humano foi a pior coisa que já aconteceu no mundo”.

Essa necessidade de se desprezar, culpar-se, agredir-se, é típica daqueles que se encontram em um estado existencial impotente. E são eles que abrem os ouvidos para diversos tipos de pregadores que lhes oferecem remédio, consolação ou salvação. Está claro, porém, que junto com o remédio, consolação ou a salvação, tais pregadores precisam vender, antes, a doença, o pecado ou a culpa. É por isso que, como percebeu Nietzsche: “Todos os pregadores de moral [...] têm uma incivilidade em comum: todos eles procuram convencer os homens de que estão muito mal e precisam de um tratamento duro, radical, definitivo” (A gaia ciência, 326).

Cheese-VolcanoSejam impulsionados por pregadores ou inventados pelos próprios sofredores, o que cabe perguntar aqui a respeito dos ideias é: seriam todos eles formas de escape de uma vida que é sentida como ruim? Aquele que não precisa de ideais, que sente em si o poder da vida, é indiferente, então, a tudo e a todos? Deveríamos nos fazer de cegos aos impactos ambientais e sociais de nossas ações, por exemplo, e desconsiderar o ambiente no qual iremos viver amanhã? Claramente, não é isso o que estou propondo. Primeiro, porque esse “deveríamos” já indica a necessidade de se criar novas regras universais, justamente o que estou criticando. Ao criticar um tipo de pregação, é preciso tomar cuidado para que outra não venha emergir da própria crítica. Em segundo lugar, e mais importante, porque nem todos os ideais devem ser encarados como sintoma de um estado existencial impotente. Ao contrário, alguns ideais são efeito justamente de um transbordamento da vontade, de um excesso de vida. O problema não é querer atuar no mundo, mas querer aproximá-lo de um ideal que sempre aparece como anterior, mais importante, verdadeiro, bom, etc. que a própria vida. Para citar um trecho da tese de livre-docência de Rogério de Almeida, professor de educação da USP: “[...] o problema não está em apontar o que vai mal no mundo, mas em fazê-lo em nome de um valor maior que está ausente do mundo. A questão, então, é se o pensamento é capaz de pensar o aqui sem medi-lo com a régua do que está além [...]” (O mundo, os homens e suas obras, p. 152).

Em resumo: Não se trata de criar uma nova moral: “não mude ou melhore o mundo”. Apenas é o caso de se perceber de onde provém essa vontade de melhorar o mundo. Vimos que os ideais podem ser produto de um empobrecimento da vida. Mas eles podem ser também, ao contrário, efeito de uma abundância de vida, que quer afirmar a si mesma através do espelhamento da própria vida em novas criações. Nietzsche propõe que nos perguntemos sempre, em cada caso: “foi a fome ou a abundância que aí se fez criadora?” (A gaia ciência, 370).

Nos casos explorados acima, parece que foi principalmente a fome, a falta, que se fez criadora: trata-se, aqui, do impotente que busca, de um lado, um outro mundo diferente deste no qual a vida possa parecer boa e, de outro, algo que explique seu sofrimento neste mundo e ao qual ele possa direcionar o rancor que guarda. Assim, almeja-se o outro mundo da vida eterna, do comunismo, da natureza restaurada (ou qualquer outro mundo ideal) porque se odeia este mundo (o mundo que então se descreve como do pecado, do capitalismo, da ambição…).

Corn-CandleAo contrário, o ideal que provém da abundância é um ideal antes de tudo afirmativo. Seu referencial primeiro não é negativo, como no anterior — o ódio por este mundo em contraposição ao qual o ideal é criado, mas sim o amor por este mundo, pelo modo de vida que se vive, pela força da vida. A diferença nem sempre é óbvia em um primeiro momento, especialmente considerando que criações muito parecidas podem advir de um ou de outro. Vejamos, por exemplo, como Nietzsche concebe duas fontes para a noção de deus, uma afirmativa, outra reativa.

A contraposição é feita entre os deuses gregos e o Deus cristão. Os primeiros, para Nietzsche, são uma criação potencializadora da vida humana, pois os deuses vivem essa nossa vida de maneira esplendorosa, afirmando tudo o que há nela — eles brigam, fazem sexo, inclusive com mortais, sentem ciúme, tramam, riem etc. Enfim, podemos lembrar de histórias como a de Zeus se transformando em um touro para raptar Europa, ou transformando sua amante em vaca para escondê-la de Hera, sua mulher. Podemos lembrar do concurso de beleza entre Atenas, Hera e Afrodite, que acabou desencadeando a guerra de Troia… os exemplos aqui seriam infinitos. Já o Deus cristão aparece como uma negação desta vida e ponte para uma vida melhor — um outro mundo que, longe de ser um espelho esplendoroso deste mundo é seu oposto, sua negação.

Os deuses gregos não são um Bem em oposição ao mal que habita este mundo, eles são uma potencialização de tudo que existe neste mundo, incluindo até mesmo o que há nele de terrível e horrível. Seria absurdo, afinal, imaginar uma vida na qual tudo agrade. Viver é sofrer, já dizia Schopenhauer, um dos filósofos que mais influenciou o pensamento de NIetzsche. Mas o fato de a vida incluir sofrimento não é necessariamente um motivo para negá-la: é possível afirmá-la mesmo mesmo assim — é este estado afirmador, no qual o sofrimento é sentido como um percalço em um caminho que vale a pena percorrer, no qual mesmo o sofrimento pode aparecer como  parte constitutiva daquilo que se ama, que Nietzsche caracteriza como potente. Em oposição, o impotente é aquele que remoi e multiplica todos os sofrimentos, que só procura evitar o sofrimento ao mesmo tempo em que se lamenta de que haja tanto sofrimento no mundo.

Podemos, por fim, aproveitar esse exemplo para voltar à questão da vontade dos designers de “melhorar” o mundo. Observamos, ao longo deste post, a dimensão negativa, reativa, impotente, do “melhoramento” de mundo. Ao final, porém, constatamos que tal vontade pode ser também, em alguns casos, efeito de uma afirmação deste mundo. Trata-se, neste último caso, de  um projeto que não pretende se justificar com base em um Bem de pretensão universalizante. Ele potencializa e promove a expansão de certo modo de de vida, sem tentar se esquivar do fato de que tal potencialização inevitavelmente se chocará com outros valores, outros modos de vida. Pode haver, é claro, compromissos, negociações entre modos de vida diversos, mas nunca uma harmonização total. Os conflitos, ele reconhece, são parte do mundo, e de nada adianta taxar aqueles que se opõem a nós (e menos ainda nós mesmos) de maus, culpados e pecadores…

3 respostas

  1. Leonardo Amando disse:

    Excelente texto Daniel, parabéns !

    Acessoriamente a ele, há de se notar o padrão “antropomórfico” atribuído ao protagonista do video. 500 mil anos antes, o mesmo já possui características que o identificam, sem margem de erro, ao caucasiano dominante. Quem sabe até mesmo, um yankee classe média (sempre a classe média), a caminhar de maneira desmedida pelo planeta.
    Óbvio que alguma caracterização deve haver, até mesmo caricaturização, mas ainda assim, me questiono se não seria uma estética apriorística do criador da animação e, em que medida, essa constatação nos ajuda a potencializar um julgamento negativo das evidências.

    Abraços

    • Oi, Leonardo, obrigado. Muito interessante sua observação sobre a representação de “o homem”. Realmente, o padrão curiosamente se pretende, ao mesmo tempo, universal — “o” homem — e particular, na medida em que seu “outro” é o bom selvagem integrado à natureza (que não seria, então, propriamente homem nessa representação?). Abraço!

      • Leonardo Amando disse:

        Daniel,

        Seu questionamento me remeteu à idéia de Durkheim de que a sociedade seria anterior, lógica e cronologicamente, ao individuo que a compõe. Não saberia dizer quando “o homem” se tornou o que está ali representado no video, portanto.

        Destaco ainda, a percepção de que os deuses gregos não possuem um caráter funcionalista/antagonista, na defesa do “bem” em face do “mal”, mas sobretudo, existindo como potencializadores de tudo o que há e, eventualmente, nos é tão familiar, mesmo nos dias atuais.

        Abraços

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