Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante.

Na tradição platônico-cristã, o consumo – isto é, a relação dos humanos com as coisas materiais – é marcado por sua ligação com a parte apetitiva da alma, esta que Platão assim descreve em A República (573d):

[...] a parte animal e selvagem, [que] saciada de comida e de bebida, se agita [...] e procura avançar e satisfazer os seus gostos. [...] nessas condições ela ousa fazer tudo como se estivesse livre e forra de toda vergonha e reflexão. [...]. Numa palavra, não há insensatez nem impudor que ela passe adiante.

A parte apetitiva é selvagem, problemática, insensata, perigosa – em suma, viciosa. Ela perturba a alma e a afasta do Bem, acessível somente pela Razão. No registro cristão, tal parte apetitiva da alma assume a forma da “carne”, ou “lei dos membros”, para utilizar a famosa expressão de São Paulo na Carta aos Romanos. Ela seria a parte decaída da natureza humana, resultado da queda do Paraíso. Os desejos sensuais, nessa perspectiva, são a marca do mal nos humanos, e o consumo é a atividade que atiça a “besta dentro de nós”. Não à toa, Platão diz explicitamente, em A república (580e), que a parte da alma humana ligada aos desejos apetitivos é “[...] amiga do dinheiro, porque é sobretudo com dinheiro [ou seja, no consumo] que se satisfazem os desejos dessa espécie”.

consumo-ursinhoNo marxismo, por outro lado, o consumo (dentro do capitalismo) é marcado por sua ligação com a ilusão, ou seja, com dimensões imateriais encaradas como falsas:

[no mundo religioso,] os produtos do cérebro humano parecem dotados de vida própria, entidades autônomas que mantêm relações entre si e com os homens. Assim, no mundo das mercadorias, acontece com os produtos da mão humana. Isso eu chamo o fetichismo que adere aos produtos do trabalho, tão logo são produzidos como mercadorias [...].

Para o referencial marxista, o consumo aliena o homem, afasta-o da realidade, assim como a religião. Só que tal afastamento da realidade da matéria não indica nenhuma elevação para um plano superior, e sim um afastamento do bem imanente. Como mostra Abrams [2], Marx enxerga tal bem, em um de seus escritos da juventude, como:

[...] a autorealização criativa do ‘homem como um todo’, [que consegue então] ‘toda a plenitude de seu ser’ e vive como parte integral de uma comunidade na qual o amor, substituindo o ‘egoísmo’ aquisitivo e a ligação meramente monetária entre os indivíduos, torna-se a forma natural de relacionamento [social].

Na visão marxista, portanto, o consumo promoveria uma forma “corrompida” de sociabilidade, que aliena os seres humanos de sua conexão com o Bem – este encarado, de modo um tanto romântico, como a inserção social autêntica ou verdadeira, no sentido de que realiza o pressuposto destino da humanidade.

Acredito que não é difícil ver, no fundo de muitas das críticas atuais ao consumo, as tradições platônico-cristã e marxista. Tal base, é claro, não invalida necessariamente tais críticas. Ao perceber suas bases, porém, podemos tornar explícitos alguns de seus valores orientadores e sua natureza moral, estimulando uma saudável crítica da crítica.

Notas
[1] Marx, K. O Capital: crítica da economia política. v. 1. Tomo 1. São Paulo. Nova Cultural, 1996, p. 198-199.
[2]  Abrams, M. H. Natural supernaturalism. London: W. W. Norton & Company, 1973, p. 314, tradução minha.

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