Elegia às marchinhas de carnaval: quem corrompe os corruptores?

ih rapaz

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Os fãs fingem que não lembram e os não-fãs não lembram de fato, mas Justin Bieber foi preso no início desse ano por ter feito alguma besteira no Canadá. Talvez por ter dirigido bêbado ou dado vários socos em alguém, não importa: praticamente como uma versão em miniatura de um Raskólnhikov, o cantor teve que bater um papo com as autoridades e encarar o pesado sistema de regras de boa-conduta, tal e qual um legítimo cidadão de bem. Na época, a maioria das reações que vi à notícia foram de escárnio ou de repreensão, como se ele merecesse a pior das punições por ser um delinquente juvenil – embora, na minha opinião, ele já tenha feito coisas muito mais execráveis do que dirigir bêbado (música, por exemplo).

É claro que uma análise mais delicada do caso revelaria o verdadeiro drama de Justin. Chega um momento na vida de todo homem em que ele precisa se acostumar com o fato de que a cada novo dia, aquele rosto que aparece no espelho do banheiro tem uma testa um cada vez maior. Poderia ser visto como uma manifestação pessoal da passagem bíblica sobre Sansão, o juiz hebraico conhecido pela força sobre-humana – capaz de rasgar um leão jovem ao meio (o que raios o leão fez pra merecer isso, fica a cargo do leitor decidir) – e que foi responsável pela derrota de vários filisteus e outros povos indesejáveis até que um dia se apaixonou por uma mulher do povo inimigo que, claro, em uma bela manhã, deve ter se perguntado “em uma época sem Whey Protein, de onde sai tanta força?”, descobrindo assim que a origem do muque do Sansão eram seus longos cachos negros. Parabéns, metaleiros, ponto pra vocês nessa.

Taca-lhe pau, Sansão véio

Taca-lhe pau, Sansão véio

Sansão dormiu no colo de Dalila, que cortou seu cabelo e assim nosso herói perdeu a força divina que outrora lhe foi concedida, sendo vendido como um escravo. Que momento seria mais belo para um homem descobrir que a disposição e energia da sua juventude estão ficando para trás se não fossem seus cabelos caindo e revelando o verdadeiro brilho de sua testa? O choque inicial, aqueles longos minutos que antecedem a racionalização do problema, acabam levando a más decisões: drogas, bebida batizada, barbaridades no trânsito, tatuagens com personagens da Disney, aquisição de carros pouco econômicos etc. Colocando-se no lugar do cantor pop Justin, fica fácil sentir vontade de fazer ultrapassagens perigosas ou de sair no tapa com algum safado: o seu cabelo está caindo. Você não é mais uma criança, seus pais não se preocupam mais tanto assim com você, seus professores não se preocupam mais tanto assim com você, logo logo a única entidade capaz de demonstrar preocupação suficiente com o que você anda fazendo será somente a Receita Federal e seus fiscais impiedosos.

Está bem, talvez a Bíblia não seja a melhor forma de explicar um caso de crime. Vamos ao próximo:

Em 2012, os habitantes da cidade de Santa Clara, nos EUA, conheceram, através do noticiário, a vida de Thomas Langenbach, um alto executivo do Vale do Silício que passaria a cumprir pena na prisão por um crime deveras inusitado: com um mandado de busca, a polícia invadiu a casa de Thomas e se deparou com o que parecia ser uma “mini Legolândia”.

Thomas Langenbach vinha, há anos, comprando brinquedos da marca Lego em uma loja de departamentos local e revendendo no eBay, obtendo margens de lucro bastante significativas. A técnica de Thomas baseava-se em um golpe: ele ia até a loja, comprava um Lego pequeno, por um preço barato, levava até em casa, escaneava o código de barras e imprimia várias cópias. Na semana seguinte, retornava à loja e, discretamente, colava os códigos falsos em outras caixas de Lego, mais caras, e as comprava pelo preço do Lego barateza. Em casa, Thomas anunciava pacotes com peças especiais no Ebay e revendia tudo, fazendo embalagens minuciosas e tendo todo o trabalho de ir até o correio para enviá-las toda semana. A brincadeira rendeu ao golpista mais de 30 mil dólares, segundo a polícia.

Thomas conduziu esse mesmo golpe por tempos até ser descoberto – muito provavelmente após vários balanços da loja acusarem algo errado. A grande questão, contudo, é: o que levaria um executivo que vivia em uma casa de 2 milhões de dólares na Califórnia (e provavelmente ganhava por ano o valor de várias dessas casas) a se meter em um negócio ilegal cujo lucro se equiparava a uma pequena fração do seu salário?

6680399603_ee65161a06_bQuem assistiu Breaking Bad deve estar pensando que Thomas é provavelmente um maluco fissurado por Lego que jamais gostaria de ser interpretado como um gênio do crime, mas há uma lógica por trás de tal atitude. É necessário que, para entendê-la, passemos a encarar o dinheiro obtido com o golpe não apenas como “dinheiro”, mas sim como uma pontuação: Thomas era um jogador, e o jogo consistia em explorar ao máximo a brecha que ele descobrira no sistema da loja de departamentos. Dentro da lógica do jogo, pouco importa se ele é um executivo do Vale do Silício ou um entregador de pizza, já que as regras mudam quase que de maneira metafísica a partir do momento que ele torna-se o centro de um grande esquema do qual apenas ele conhece o funcionamento.

Essa lógica de jogo está presente em vários outros exemplos. No filme The Wolf of Wall Street (2013), Leonardo diCaprio vive a história de Jordan Belfort, um corretor de ações que construiu sua carreira em Wall Street de maneira ilegal, explorando várias falhas no sistema financeiro e enriquecendo a ponto de não saber mais onde enfiar tanto dinheiro. Jordan representa, como bem vemos diariamente, a corrupção em seu mais requintado nível, glamourizada de forma a parecer com que o corrupto seja o herói justamente por conseguir demonstrar como um sistema pode ser facilmente manipulado por aqueles que primeiro detectam suas brechas. Jordan aparece, no início do filme, como um excelente corretor, dotado de técnicas de retórica e argumentação invejáveis, mas não é isso que o leva à riqueza. Assim como em qualquer jogo de video-game, ganha fazendo a melhor pontuação não aquele que melhor joga, mas sim aquele que mais facilmente memoriza as passagens secretas, códigos especiais ou que se aproveita de algum “glitch” que torna o personagem superior a qualquer outro.

Langenbach, o golpista, tal e qual sentia-se superior dentro da sua realidade de jogo. O conceito de uma nova realidade criada por essas regras é fundamental: explorar suas falhas significa, ao mesmo tempo, expandir seus limites. Novamente em Wolf of Wall Street, isso fica evidente quando o investigador do FBI ouve Jordan tentar suborná-lo com uma comparação do tipo “enquanto você volta para casa de metrô depois do expediente, eu vou até a farmácia da esquina com meu helicóptero pra comprar aspirina”: no fim, mesmo com o agente obtendo sucesso na condução da sua investigação, a cena em que ele de fato aparece voltando para casa de metrô denuncia que em seu jogo pessoal, os limites da sua realidade permanecem inalterados – em comparação com o Lobo, ele é o verdadeiro perdedor, por mais que tenha “vencido” na investigação.

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O que leva homens como Langenbach ou Jordan Belfort a cometerem crimes está além de qualquer teoria sociológica e soa mais como “se existe alguma brecha no sistema, essa brecha MERECE ser explorada”. Isso serve de pressuposto para várias conjecturas: o homem, quando confrontado com uma determinada ordem social, tem como instinto natural colocar-se inserido nela ou acuado por ela? Seria a lógica de jogo a lógica natural do relacionamento do homem com o “outro” – e por isso video-games fazem tanto sucesso?

A pergunta eventualmente surge: como prevenir essas brechas, ou melhor, como evitar a corrupção? Antes de tudo, é preciso ter em mente que esse é um conceito difícil – tanto é que, para nós brasileiros, ele não cansa de ser explorado de forma errônea no âmbito da política. Pressupor que a corrupção depende de um partido ou de um grupo específico de pessoas é abordar o problema de forma fragmentada, e não em seu cerne mais puro – a impresão que fica é que a corrupção surgiu em um momento pontual, quando o primeiro político corrupto do mundo foi eleito, e não que ela, de fato, surgiu junto com o sistema, como uma parte fundamental dele – junto com suas brechas. Por isso, também é errôneo pressupor que um povo educado está salvo do perigo da corrupção. Se essa educação é dada pelo próprio sistema, então o contrário acontece: aqueles mais bem-educados é que serão os mais aptos a explorarem essas brechas. O melhor exemplo são os hackers de computador, indivíduos tão inseridos na cultura da internet e no meio digital que acabam por assumir uma visão privilegiada dela, na qual todos os elementos desse sistema são familiares e facilmente manipuláveis. Entender como funciona um sistema de corrupção passa, obrigatoriamente, pelo entendimento das minúcias do sistema dentro do qual ela se originou.

show de bola??

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Eu tentando conversar com as meninas na balada

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Da mesma forma, se um hacker precisa ser descoberto ou “derrotado”, a única maneira de fazê-lo seria com a ajuda de outro hacker ou de alguém cujo conhecimento do sistema seja tão abrangente quanto – afinal, qualquer brecha que possa ser explorada será explorada. Na obra prima de John Carpenter, Big Trouble in Little China (de 1986, um dos melhores filmes do mundo), essa relação igual versus igual é descrita sagazmente pelo feiticeiro Egg Shen quando menciona seu princípio fundamental para derrotar o terrível vilão Lo Pan: “somente um sonho é capaz de matar outro sonho. E o sonho ruim irá morrer hoje”. Aqui, Shen faz clara alusão ao fato de que Lo Pan é um ser que pertence a outro mundo e, portanto, pode ser eliminado apenas através de armas oriundas do outro mundo. Não seria a forma como o hacker parece entender dos códigos que manipula uma habilidade fora da compreensão de pessoas normais também?

Em True Detective (2014), o mesmo dualismo do igual versus igual é sintetizado no discurso niilista de Rustin Cohle. Quando perguntado por seu parceiro se ele se achava um homem mau, a resposta é, simplesmente: “O mundo precisa de homens maus. Nós mantemos os outros homens maus afastados da porta”. O que aparece aqui, de fato, é o belo nuance desdobrado pela outrora terrível corrupção que assola os corações dos cidadãos corretos. Se a corrupção é o extremo mal a ser evitado, sua aniquilação está em si mesma muito antes de ser encontrada em uma suposta bondade à la Madre Teresa de Calcutá.

rustcohle-306-1393963166Ao meu ver, a expressão máxima desse paradoxo está no desejo dos partidários das campanhas pró-armamento de poderem confrontar, cara a cara, os bandidos com seus próprios revólveres que aguardariam ansiosamente embaixo dos travesseiros pela chegada dos meliantes na madrugada. A campanha pró-armamento é baseada inteiramente no medo, onde a pessoa coloca-se em um cenário na qual sua própria segurança depende dela mesma, já que o Estado mostra-se incapaz de tal. O que parece ser uma tática de fogo contra fogo – o meu contra o do bandido, sobrepõe-se a um dualismo que resgata o medo original e adiciona a ele um novo: além do medo do assalto, o cidadão agora vive também com medo de um dia precisar apontar uma arma para a cara de outra pessoa. O crime não se elimina, pelo contrário: seu entendimento desvela-se como um “ciclo do medo” – agora completo.

E é por isso que o impulso inicial de qualquer candidato, hoje, é prometer lutar contra a corrupção – uma grande falácia, já que o igual da corrupção não se encontra em um nível visível contra o qual se pode “lutar”, mas sim em camadas cujo entendimento requer que seu desafiante seja plenamente capaz de compreender: o candidato que mais deseja acabar com a corrupção, antes de incorporar o arquétipo do novato heróico, precisa ser aquele que mais mergulhou nela – e, se for mesmo, tem muito menos chances de ser eleito – eis o catch. Uma situação trágica que, como The Wolf of Wall Street mostra, não tem fim, já que novas brechas surgem e elas são tapadas apenas superficialmente. Jordan Belfort virou um palestrante motivacional, que ensina técnicas para outros vendedores que desejam obter tanto sucesso quanto ele. Uma mensagem irônica: a palestra motivacional só é útil para os que não possuem capacidade de enxergar as brechas do sistema – os demais jamais sentiriam a mínima necessidade dela.

Aposto que o cartaz foi feito antes do jogo contra a Alemaha

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Chega-se a um estágio no qual a utopia libertária é plenamente confrontada com os eternos esforços em criar cada vez mais e mais leis para que, um dia, acabem-se as brechas do sistema e a corrupção passe a aparecer em casos isolados, e não como a máquina que o impulsiona. A solução fácil, sem muito o que pensar, é aplicar a máxima: sem sistema, sem corrupção. Uma brecha na lei só existe porque existe lei e, portanto, que sejam eliminadas todas. Obviamente, o resultado disso jamais seria a eliminação da corrupção, mas sim uma simplória inversão de lógica, na qual a brecha a ser perseguida não é aquela que dá margem ao ilícito e sim aquela cujo intuito é estabelecer alguma ordem – o que é mais perigoso ainda, já que pelo menos na ordem distingue-se o bom do mau.

Em um mundo onde esse tipo de lógica permanece um dilema filosófico eterno, a alegoria encontrada em milhares de histórias e contos é sempre válida: como em qualquer maniqueísmo, é sempre muito fácil ser seduzido pelo outro lado, enquanto permanecer neste requer algo de ordem metafísica para continuar lutando, mantendo os outros homens maus afastados da porta: a metafísica do “bem” contra a metafísica do “centro” do sistema. Como disse Platão, para quê servem as leis? Pessoas boas não precisam delas, e pessoas más sempre encontram um jeito de passar por cima.

Não fomos nós que decidimos que a pontuação do jogo seria assim, fomos?

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+ cinco = catorze