Em que medida somos colonizados pela linguagem?

Esta questão foi levantada no meu post Saussure, língua, xadrez e gerou debates antes mesmo que eu tentasse respondê-la – tentativa que farei agora. Vejamos: o que disse no tal post, e que de modo algum é uma ideia original, foi o seguinte: dado que a língua tem como elementos irredutíveis os fonemas (no caso da linguagem falada) ou letras (no caso da linguagem escrita), e dado que os fonemas e as letras existem em número limitado, as combinações possíveis entre tais elementos são finitas, de tal modo que seria possível – como faz Borges em A Biblioteca de Babel – imaginar uma biblioteca na qual estivessem compiladas todas as combinações possíveis das letras do alfabeto. Ora, em tal biblioteca estariam, assim, todos os textos possíveis de serem escritos: este post, a bíblia, o texto ganhador do prêmio Jabuti do ano que vem etc.

Ora, embora tal biblioteca evidentemente não exista em nenhum canto do universo, o fato é que sua existência virtual já é suficiente para nos fazer pensar que, quando falamos ou escrevemos, não estaríamos fazendo mais do que selecionar algum texto dessa biblioteca — ou seja, não estaríamos propriamente criando nada, apenas atualizando uma das potencialidades da língua. Adiante, tentarei mostrar como a discussão a que nos leva esse exemplo só leva em conta uma dimensão da linguagem. Antes, porém, gostaria de falar sobre algumas supostas refutações à ideia exposta acima que foram feitas em comentários ao post anterior e que acredito não fazerem muito sentido.

1. Para imaginarmos tal biblioteca, temos que supor livros com certo número de páginas (300, digamos), de modo que livros gigantescos (por exemplo, o livro A secular age, do Charles Taylor, com suas 874 páginas) não estariam incluídos e precisaríamos juntar alguns volumes para ter o livro. Pensando assim, entretanto, poderíamos imaginar bibliotecas com exemplares cada vez menores até chegar a apenas uma página. E até, se fôssemos adiante, poderíamos chegar ao próprio fato da existência das letras e de sua alternância.

Tudo que se pode dizer aqui é que sem dúvida alguma a ideia da biblioteca é uma conseqüência justamente do caráter “digital” do sistema lingüístico, isto é, de que ele possui alguns caracteres básicos que permitem a existência de todo sistema. Uma letra só pode ser a, b, c, d etc. não pode estar “entre” a e b. Em um sistema analógico, por outro lado, não há caracteres básicos ou dígitos, como poderíamos pensar ser o caso de uma representação por desenho. De todo modo, não vejo no que este ponto invalidaria a ideia da biblioteca.

2. Como assim está tudo previsto? E Guimarães Rosa? E James Joyce?

Até onde eu sei, Guimarães Rosa e James Joyce também escrevem utilizando as letras do alfabeto, de tal modo que seus textos seriam tão “previstos” — isto é, fariam parte da biblioteca virtual, quanto os demais. A motivação para esta “crítica” entretanto é clara: trata-se de autores que subvertem o padrão da língua. O que ocorre aqui, como em muitos outros lugares, é uma confusão com as diversas dimensões da linguagem.

Sem dúvida, é bastante difícil lidar com tais dimensões, mas parece que é preciso separar algumas delas para uma reflexão minimamente fecunda. No que diz respeito à consideração acima, é preciso separar a dimensão da possibilidade das combinações dos elementos primários do sistema da língua da dimensão das regras do sistema da língua. Com efeito, se imaginarmos os livros que compõem a Biblioteca de Babel, veremos que para cada livro composto mais ou menos de acordo com as regras da língua (i.e., contendo majoritariamente palavras existentes combinadas de maneira sintaticamente coerente) existirão milhares de livros que não o fazem (livros que contém em sua maioria coisas como: erwbrnerbenrb nrbeebr erern breerebrebnbenbwbewe rewrnwbwebnrtmtrnmnbr tnbrntbtne). Quando certos autores inventam novas palavras e jogam com a sintaxe, eles podem estar subvertendo esta segunda dimensão da linguagem, mas não a anterior.

Seja como for, para tentar responder a pergunta-título deste post, o principal ponto é observar que mesmo estas duas dimensões não são suficientes para compreendermos a linguagem e seu uso. O fato é que a comunicação humana envolve muitas outras coisas além do sistema da língua, ou melhor dizendo, a fala, para se constituir propriamente como uma fala, depende de muitas outras coisas além de sua “estruturação” pelo sistema de regras da língua. A fala, sendo um acontecimento concreto, só existe na relação com outras falas, isto é, ela possui um lugar específico que faz com que ela ganhe um significado para nós. Esta fala, considerada em seu lugar específico é, grosso modo, o que se chama de enunciado, e a dimensão em questão no enunciado é a dimensão discursiva da linguagem.

Alguns dos autores que mais famosamente refletiram sobre essa dimensão da linguagem são Bakhtin e Foucault. Embora as perspectivas dos dois autores sejam um tanto diversas, podemos dizer que os dois querem estudar aspectos relacionados à linguagem fugindo tanto, por um lado, da visão ingênua de que a fala é simplesmente a materialização de uma intenção individual (Bakhtin chama tal postura de subjetivismo idealista) e, por outro, da visão de que a fala é totalmente subordinada a um sistema que paira sobre ela, intacto, e lhe dá sua forma (Bakhtin chama tal postura de objetivismo abstrato). Desnecessário dizer que a proposta de Saussure não é tão dura e reducionista quanto essa descrição do objetivismo abstrato faz parecer, mas o ponto aqui é que ela deixa fora das considerações a dimensão discursiva da linguagem.

Mas o que seria, afinal, tal dimensão discursiva? é difícil definir essa dimensão. Prova disso é que Foucault passa boa parte de sua Arqueologia do saber tentando definir termos como enunciado e discurso. Um ponto esclarecedor é a comparação que o filósofo faz entre enunciado, frase e proposição. Enquanto a frase é um conjunto de signos considerado por sua adequação às regras da língua e a proposição um conjunto de signos considerado por seu valor de verdade, o enunciado é um conjunto de signos considerado em seu aparecimento singular e na relação com outros enunciados que lhe deram seu lugar. Daí que, como escreve Foucault, “um enunciado tem sempre margens povoadas por outros enunciados” (Arqueologia do saber. Rio de Janeiro: Forense universitária, 2012, p. 118).

Já que comecei o post falando de um texto de Borges, vou aproveitar outro – parte também de sua obra Ficções – que ajuda a compreender melhor a dimensão discursiva da linguagem. Falo do conto intitulado Pierre Menard, autor do Quixote. Neste conto, o narrador fala sobre Pierre Menard e sua empreitada de escrever um texto igual ao Dom Quixote, embora obviamente não se tratasse de realizar uma cópia mecânica, mas, de alguma forma, de chegar ao mesmo texto, sendo ele Pierre Menard, no século XX, e não Cervantes, no século XVII. No fim da vida, após anos de esforço, havia conseguido escrever dois capítulos de seu Dom Quixote. Em um dado momento, o narrador compara sua obra com a de Cervantes:

[...] o fragmentário Quixote de Menard é mais sutil que o de Cervantes. Este, de uma forma tosca, opõe as ficções cavalheirescas à pobre realidade provinciana de seu país; Menard escolhe como “realidade” a terra de Carmen durante o século de Lepanto e Lope. Que espanholadas essa escolha não teria sugerido a Maurice Barrès ou ao doutor Rodríguez Laretta! Menard, com toda a naturalidade, evita-as. Em sua obra não há ciganices nem conquistadores, nem místicos, nem Filipe II, nem autos-de-fé. Proscreve a cor local ou não lhe dá atenção (BORGES, J. L. Ficções. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 41).

Ou seja, a mesma série de signos (a combinação de letras que compõem o Dom Quixote) pode formar enunciados bastante diferentes em contextos discursivos diferentes. Embora o próprio espanhol tenha sem dúvida mudado do século XVII para o XX, é bastante óbvio que as diferenças apontadas pelo narrador no trecho acima dizem respeito a outra ordem – justamente à ordem discursiva.

Com base nesta perspectiva, poderíamos dizer que a existência da Bilioteca de Babel nada diz de tão relevante assim sobre a colonização do sujeito pela linguagem: uma vez que os significados deslizam incessantemente sob os significantes. O Dom Quixote pode estar lá, mas trata-se do Dom Quixote de Cervantes ou do Dom Quixote de Pierre Menard, ou de todos os possíveis outros? Ou seja, mesmo que tenhamos que escolher uma sequencia de signos dentre combinações finitas, os significados possíveis dessas combinações poderiam ser consideradas infinitas – ou ao menos pertencente a outro tipo de finitude.

Concluímos então que a perspectiva discursiva nos leva de volta a uma autonomia do sujeito frente a sua fala? De maneira alguma! Na verdade, o contexto discursivo – ou formação discursiva, como prefere Foucault – pode ser visto também como uma espécie de estrutura, mesmo que muito diferente da língua. Seja como for, o fato é que o sujeito, nesta perspectiva, será encarado como emergindo nos interstícios das malhas discursivas e, assim, de certo modo, como “colonizado” pela linguagem (agora considerada nessa nova dimensão).

Vale ressaltar que colonizado não significa aqui “escravizado”, apenas que o campo discursivo oferece os horizontes possíveis para os sujeitos; é ele que, como escreve Foucault “[prescreve] uma posição definida a qualquer sujeito possível”. O sujeito, entretanto (e talvez esta seja uma leitura por demais lacaniana de foucault, mas enfim…), constitui-se frente a essa prescrição, ou seja, frente àquilo que Lacan chamará de Lei, mas possui certa autonomia frente a ela, não é mero efeito dela, como propõem leituras reducionistas dos dois autores.

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