Enviei uma carta ao Vaticano sugerindo adicionar “pressa” como oitavo pecado capital. A demora deles em responder está me matando

Com licença, é aqui neste planeta que tem os famosos "churros"?

Com licença, é aqui neste planeta que tem os famosos “churros”?

Boa notícia: os extraterrestres finalmente apareceram para uma visita. Chegaram ontem, estacionaram a espaçonave em um terreno baldio na cidade de Erechim, no Rio Grande do Sul, e desceram em cinco acenando pro pessoal.

Má notícia: eles querem que alguém explique pra eles, precisamente, o que é “design”. Quatro chances, ou irão mandar explodir tudo.

A aparentemente absurda demanda dos nossos visitantes torna-se compreensível ao pararmos para analisar a história do povo do seu planeta em comparação à nossa. Embora jamais venhamos a entender a pronúncia do nome que eles disseram ter como raça, podemos chamá-los de habitantes do planeta Ç. Os Ç, ao que tudo indica, conseguem entender qualquer língua do nosso planeta, e conseguem se comunicar tal e qual por qualquer idioma através de um aparato altamente tecnológico que usam no topo de suas cabeças, em forma de mini-antena parabólica. Por isso o contato não foi muito difícil: logo que chegaram, foram servidos de uma boa cuia de chimarrão e apresentados aos demais seres humanos.

Em poucas horas, autoridades do mundo inteiro já estavam instaladas na cidade e a entrevista corria muito bem: os Ç eram estranhamente parecidos conosco, embora sua evolução tivesse se dado de maneira muito bizarra. Segundo os relatos, o planeta Ç tinha forma de gota. Ao contrário da Terra, onde tivemos o azar de surgir como espécie, o planeta Ç era um pouco mais cuidadoso com seus habitantes e lhes oferecia as soluções para as intempéries da natureza como se fosse mágica. Vou explicar.

Na Terra, o homem teve que se virar por tentativa e erro produzindo coisas para ajudar na vida. Começou lascando pedras, para só depois de milênios ser capaz de cortar uma cenoura em cubículos precisos com uma faca ginsu. Os Ç não: eles se deparavam com a cenoura, e o planeta imediatamente formava uma protuberância que “cuspia” a melhor das facas na hora. Caso algum Ç um dia sentisse necessidade de sentar am algo mais confortável, o planeta imediatamente fazia aparecer uma poltrona reclinável. Quando os Ç perceberam que seus dejetos estavam causando problemas, o planeta detectou a preocupação de seus habitantes e fez surgir um sistema de esgoto e saneamento completos.

tumblr_mfolt22t1o1ryor3zo1_250O paralelo, por fim, parecia óbvio: o homem teve que desenvolver a habilidade de encontrar, em meio as coisas do mundo, substrato material que, aliado à uma crescente capacidade cognitiva & criativa, permitiram-no iniciar uma constante manipulação de elementos em busca de melhorias para a vida. Algumas dessas descobertas ocorreram por acaso, outras foram fruto de muita discussão, algumas surgiram inexplicavelmente e outras ainda nem sequer existem, visto os tantos problemas pertinentes ainda hoje. Já os Ç nunca precisaram desenvolver essa habilidade humana: o planeta se encarregava de ir aos poucos apresentando inovações, soluções para os problemas. O planeta respondia, não como um cenário montado para que alguém agisse sobre seus elementos, mas sim como um ser onipresente, vivo e zeloso por seus habitantes.

Em um belo dia, um habitante de Ç se perguntou se haveria um planeta no universo bizarro o suficiente para deixá-los em dúvida sobre o real sentido de suas tranquilíssimas vidas. O planeta, atingido pelo desafio, rapidamente remexeu-se em seu interior e cuspiu para fora uma espaçonave prontinha, cinco lugares, assentos reclináveis e já programada para viajar até o nosso pálido ponto azul.

Os Ç ficaram bastante confusos com nosso vasto inventário de objetos estranhos, peças de arte, mercadorias iguais apenas com marcas diferentes e, principalmente, houve uma estupefação perante nossa criatividade. Os Ç admiravam a quantidade de coisas que um ser humano era capaz de produzir do nada, sem aparente necessidade, apenas por causa de uma vontade inexplicável de produzir. As autoridades presentes, tendo em vista a impaciência dos Ç, descobriram que se alguém fosse precisamente capaz de explicar para eles o que era “design”, talvez essas dúvidas seriam saciadas. O planeta bonachão dos Ç pode ter sido a benção da raça, mas o efeito colateral foi que sua prole era impaciente, desacostumada com o desconforto e bastante exigente. Trocando em miúdos, uns chatões de galocha.

O Alto-Conselho da Terra – órgão mundial emergencial formado após a chegada dos extraterrestres, decidiu enviar os quatro melhores designers do mundo para Erechim, cada um tendo sua chance de explicar do que se tratava sua profissão para os visitantes do espaço.

UFO_2354520aO primeiro a chegar, um rapaz norueguês de 30 anos, foi logo se apresentando e colocando em cima da mesa uma pesada maleta. Aberta, revelou em seu interior alguns gadgets tecnológicos, um computador de uma marca famosa por ser usada por muitos designers, um ferro de passar roupa ergonômico, um tênis de marca com mola embaixo e um espremedor de laranjas.

“Isso aqui”, disse ele, “é tudo design. Nosso mundo é cercado por produtos de diversos formatos e materiais – mesmo uma simples banqueta é um produto de design. Se fosse para explicar, eu iria demorar muito. Basta olhar em sua volta! Tudo é design!”

Os extraterrestres ficaram confusos. Pegaram os objetos nas mãos, olharam-se. Para eles, a explicação não havia sido suficiente, eles não entenderam exatamente onde estava o tal do design.

“Olha.” respondeu o rapaz. “Vejam isso:” tirou de outra maleta um espremedor de laranjas normal, feito em uma fábrica padrão e parecendo muito mais simplório do que o anterior. “Meus amigos, comparem esses dois produtos. Não está claro como há uma ausência de design nesse segundo? Vejam, não é tão bonito, tem peças demais, difícil de limpar…”

Não satisfeitos, os extraterrestres pediram para desmontar os dois espremedores para tentar encontrar o design pelo meio das peças. Mas isso claramente não funcionou. Tentaram fazer o mesmo com os outros objetos, desmontando um por um para tentar encontrar o design em seus interiores. Sem sucesso, decidiram que a explicação do mancebo norueguês havia sido uma perda de tempo e dispararam um raio desintegrador contra a cabeça dele, explodindo-a. Alguns de seus miolos grudaram no teto.

O segundo candidato, uma doutora coreana, autora de inúmeros conceitos de design, ficou assombrada com a violência dos visitantes. Percebeu que tentar explicar o design através de objetos materiais não funcionaria, visto que os visitantes jamais tiveram qualquer discernimento acerca da composição de tais objetos. Teve uma ideia: levou os Ç para uma sala especial, colocou-os sentados em confortáveis poltronas e entregou para cada um um saco de pipocas. Em uma grande tela em suas frentes, passou a trilogia d’O Senhor dos Anéis – os três filmes, um atrás do outro. Ao término da sessão, iniciou seu discurso:

“Bem, colegas. O que vocês viram foi uma história que talvez explique bem a minha intenção como designer. Por favor, me acompanhem.” Levou o quinteto até uma nova sala, na qual obrigou cada um a sentar em cima de rochas pontiagudas. “Diferente a sensação de estar sentado em cadeiras boas, não é! Pois bem, o design serve para isso: imaginem que vocês tenham um problema, como os personagens do filme, e que a solução dele seja difícil. No caso, eles precisaram fazer um plano, montar uma sociedade e gastar recursos para destruir o anel – e assim solucionar o problema. Que bela metáfora, não é! Já aqui o problema está nessa rocha horrível na qual nos sentamos. Se fizermos os esforços corretos, podemos ter acesso à belas poltronas. É assim que o design funciona: um esforço que resolve os problemas do mundo!”

Dessa vez, os Ç refletiram um pouco. Um deles, tomado por um lampejo de lucidez, perguntou: “o mundo de vocês é ruim?” A coreana, não percebendo a profundidade dessa questão, deu de ombros: “sim, talvez sim. Só ficou bom porque a gente soube fazer ele bom.” “Então quer dizer que as coisas boas que vocês usam pra fazer design vieram de outro planeta?” – retrucou outro Ç. “Não, estava tudo aqui, a gente só precisou aprender a achar essas coisas”.

Os Ç estavam começando a ficar nervosos: “ora, não tem nenhuma diferença com o nosso planeta então. Lá as coisas boas também aparecem as vezes, não precisamos ficar nos preocupando com esse “problema maligno” que é o que o design resolve.” A coreana refletiu, e logo a conclusão veio: “Sim, é exatamente isso: vocês não precisam fazer nada, mas nós temos que transformar as coisas ruins em coisas boas com a ajuda do design.”

“E onde diabos está o design então??” berrou um Ç. “Na minha cabeça!!” respondeu a designer. “Ele é um plano que está dentro da cabeça das pessoas, não existe no mundo real, pois o mundo é ruim.” Irritados, os Ç dispararam novamente o raio e explodiram a coreana. Se o design era um delírio dentro da cabeça das pessoas então não fazia sentido um objeto ser diferente do outro por causa dele.

tumblr_l03jfhgnCz1qa1e2io1_r1_500O terceiro voluntário foi chamado. Desviando dos restos dos dois designers anteriores, o rapaz se apresentou: um americano, autor de alguns livros sobre teoria do design e CEO de uma famosa agência de criação. Tendo observado as duas tentativas anteriores, ele rapidamente chegou a uma conclusão: a ideia que os Ç tinham de “bem” ou “mal” estava diretamente relacionada às reações de seu planeta. Se existia algo ruim, o planeta imediatamente o aniquilava com algo bom, era tudo uma questão de esperar e desejar as coisas certas. O americano identificou, portanto, um padrão de pensamento extremamente semelhante ao de um cristão no habitante do planeta Ç. O planeta era um Deus – só que um Deus que funcionava via SEDEX.

E como derrotar um cristão em um debate? A pergunta acometeu o americano imediatamente. Conhecendo bem seu país, sabia que na hora de discutir os cristãos fervorosos eram implacáveis – era mais fácil um camelo passar pelo buraco de uma agulha do que convencer um cristão de que ele está errado. No caso, os Ç não seriam convencidos pela lógica convencional ou por dualismos como bem versus mal, belo versus feio e etc. Temendo pela própria vida, o americano teve uma ideia: iria tomar o partido dos Ç e concordar com eles, pregando a não-existência do design. Assim, ficaria vivo, quem sabe ganharia um trocado massa escrevendo sobre isso depois e quem sabe até receberia um presente por afagar o ego dos visitantes.

“Senhores!” começou ele. “Eu não quero mais fazê-los perder tempo. Acho que podemos ir direto ao ponto: não há design. Não existe tal coisa, é tudo um grande gimmick que nós inventamos para faturar um money, lucrar mais, enfim, é uma grande mentira. Big fat lie. Vocês tem razão ao não encontrá-lo dentro dos objetos e ao achar maluco quem pensa que ele só existe na mente. Afinal, o que é mente, não é mesmo? Ha ha ha vamos tomar uma cerveja e esquecer disso, que tal?”

Os Ç entreolharam-se. Os membros do Alto-Conselho, que assistiam tudo de camarote, também ficaram espantados. “O que esse homem está fazendo?” Logo ficou óbvio que o americano, além de designer, devia também ser um grande jogador de poker, já que optara por uma estratégia de blefe. “Foda-se se vou perder clientes por causa disso” pensava ele. “Vou mandar esses pentelhos embora do meu planeta como fizeram os meus antepassados no filme Independence Day”. O silêncio instaurou-se na sala. Os Ç não estavam satisfeitos com a complacência do voluntário. “Deixe de ser bundão”, exclamaram em uníssono. “Explique o que é design ou então terá o mesmo destino que os outros dois”.

“Mas vocês não entendem”, justificou-se o americano. “Explicar o que é design seria o mesmo que enganar vocês. O design só existe porque alguém quis enganar uma pessoa um dia. Ele não é real! É uma mentira, não existe isso”. Embora seu esforço retórico fosse bastante memorável, os Ç sabiam que algo não cheirava bem. Mesmo se o design fosse uma mentira, a manifestação física dessa mentira era visível por seus olhos – havia um resultado pragmático para ela – uma mentira que resultava em uma verdade. Mesmo que o design não existisse, as coisas do design exisitam, a intenção do design existia, e o americano sabia disso.

“Você está querendo nos enganar” disse um deles. O americano caiu em contradição: se dissesse que não, então o que faz um designer, senão enganar os outros? Resolveu entrar no jogo dos Ç: “Sim, estou! Pois sou um designer!” Foi desintegrado. Os Ç detestaram essa nova ideia de poderem ser enganados. Nunca haviam sido enganados por seu planeta: ele havia prometido um sentido novo para suas vidas, e saber que esse sentido era resultado de uma trapaça não os deixou felizes. Queriam que o quarto e último candidato fosse capaz de dar uma explicação melhor que o americano – por mais que ela tivesse sido recusada, a semente da dúvida estava plantada na cabeça dos Ç.

E ela surgiu: a quarta candidata era uma tímida jovem sul-africana. Amedrontada pelas mortes de seus três antecessores, ela avançou pela sala até o encontro dos cinco Ç, cujas expressões eram de mais profundo descontentamento. “Por favor, não vacile” disse um deles, antes que ela começasse a falar. Deixando a mochila de lado, a moça pigarreou, olhou em volta e, por fim, perguntou:

“Senhores visitantes, por acaso vocês já sabem como irão retornar ao seu planeta?” Silêncio. Um Ç prontamente respondeu: “A nave está programada para voltar, não precisamos nos preocupar com isso.” Não convencida pelos extraterrestres e ainda apostando no “verde” que lançara, a garota caminhou até o transporte e olhou para seu interior: não havia uma luz acesa nem nada que sinalizasse que aquilo ainda funcionava. “Por favor, peço que verifiquem novamente”.

Surpreendidos pela insistência dela, os Ç adentraram a espaçonave e fizeram a infeliz constatação: agora ela tratava-se apenas de sucata velha, não ligava mais e não poderia voar novamente. O planeta havia concebido-a como uma passagem só de ida.

Ah bom

Ah bom

“E agora, o que faremos?” perguntaram um para o outro. A desolação dos Ç era visível: pela primeira vez, seu planetinha não poderia socorrê-los e restava em sua frente apenas a incerteza. Definitivamente, naquele momento os Ç eram mais humanos do que qualquer outro ser humano. “Isso depende”, respondeu a designer. “Vocês realmente desejam voltar?” A resposta foi unânime: apesar da Terra ser aconchegante e muito provavelmente o único lugar no universo no qual é possível comer um frango recheado com outros animais, os Ç definitivamente queriam ser apenas uma visita passageira.

“Então percebam como agora o significado do design pode ser explorado” começou a comentar com eles. “Ele não pode ser encontrado dentro dos objetos, pois isso seria tirá-los de seu contexto e de sua forma e reduzi-los a partes que, individualmente, não apresentariam jamais as características do todo. Se ele não é visível no objeto observado, tampouco pode ser encontrado no observador. O design não é meramente um ideal dentro de uma cabeça, ou uma forma intangível e inalcançável – ele não é uma religião, ou uma doutrina. Ele tem uma presença real que não depende apenas de imaginação ou intenção. Por isso ele também não é uma mentira – ele não está aqui dentro e nem aí fora, mas ele existe, vocês mesmos se convenceram de que seus consequências podem ser captadas.

“Nesse sentido, diria eu, portanto, que o design pode ser encontrado em um espaço entre vocês, eu, e o que está entre nós: ele é um fenômeno. Depende do tempo em que foi criado, do espaço de que dispõe e do uso do qual é feito. É uma manifestação relativa de algo que não tem um fim por si só: ele precisa de uma intenção clara e, acima de tudo, de uma abertura.”

Os Ç permaneceram quietos. A ideia de que uma nova espaçonave poderia ser construida para levá-los embora foi aos poucos fazendo-se visível, mas eles não sabiam como isso seria construído, nem quem o faria e nem como ela iria funcionar, já que isso jamais havia sido preocupação para eles antes. Percebendo a expressão de medo no rosto extraterrestre dos visitantes, a designer tentou explicar o seu intento: reunindo uma equipe, iriam desmontar a nave dos Ç, descobrir como funcionava, iniciar uma série de experimentos e, por fim, elaborar um protótipo que os levaria de volta para casa.

“Jamais iremos esquecer esse favor” comentou Boquinha de Chupa-Minhoca, um dos cinco Ç, que agora subia para a recém finalizada espaçonave. Cada um deles recebera um apelido durante os 2 anos que ficaram na Terra, aguardando o término do projeto. De alguma forma, eles entenderam que esses 2 anos foram parte de sua experiência como usuários, e que agora eles deveriam partir para a etapa final dela. Levando sacolas com lembranças e trajando roupas de todos os cantos do mundo, os visitantes se despediam da multidão e das câmeras que filmavam seu retorno.Foi uma experiência transcendental tanto para os Ç quanto para os seres humanos, que agora empenhavam-se em organizar uma visita ao planeta de seus novos amigos intergaláticos.

A viagem seria longa. Apesar dos engenheiros terem compreendido o funcionamento do veículo original, a técnica que tínhamos à disposição estava anos-luz aquém da empregada pelo planeta Ç. O protótipo terráqueo, apelidado de “Tiro de Meta”, era o resultado de inúmeras tentativas de fazer uma cápsula de alta velocidade alcançar o destino onde supostamente estava o planeta deles. Coincidentemente, o protótipo tinha uma aparência muito parecida com o espremedor de laranjas do norueguês.

Julie-Adams-02A designer sul-africana, gestora do projeto e porta-voz dos Ç, estava aguardando os cinco terminarem de subir na nave para selar as portas. O último deles, apelidado de Sexta-feira, virou-se para ela antes de dar o último passo. Seus olhos se encontraram enquanto ele exclamava suas últimas colocações:

“Eu sei que fomos um pouco rudes, mas há dois anos aquele americano falou uma coisa que deixou-me uma dúvida que eu ainda não pude saciar.

“Pois não”, respondeu ela. “Diga o que lhe incomoda!”

“Ele falou que era tudo uma mentira e que vocês enganam as pessoas… com isso tudo. Design, sabe. Ele não estava falando sério, né? Digo, vocês não realmente enganam as pessoas, enganam?”

“Não! De maneira alguma, absolutamente não. Aquilo foi apenas uma jogada escrota do americano. Esqueçam, sério.”

“…”

“Sério, nada a ver aquilo.”

“Sério?”

“Seríssimo.”

“…”

“…”

“Ok. Até!” Subiu, a porta fechou-se e a contagem regressiva iniciou. Enquanto a multidão assistia a nave subir, a designer repetia o último diálogo em sua cabeça. Por fim, comentou para si mesma:

“Se bem que, dependendo do orçamento…”

2 respostas

  1. Bea disse:

    Gostei bastante do texto, mas não consigo parar de me perguntar como é que os Ç sabem exatamente o que devem fazer com os objetos que aparecem magicamente em suas frentes…

    Me lembrei de um exercício que fiz no primeiro período da faculdade (estudo Design, na UFRJ… e o 1º período foi há muito tempo atrás): deveríamos encontrar o maior número de funções para um clips de prender papel em 2 minutos. Meu grupo encontrou 44 (e devem existir muitas mais)! O negócio é que nós atribuímos uma função a determinado objeto, mas ele não se subordina a ela, vive meio que independente dessa nossa vontade (necessidade, ação-quase-involuntária-inerente-ao-ser-humano, que seja) de categorização e pode servir para muitas outras coisas. Então se me colocam um objeto que nunca vi em minha vida na minha frente, posso me utilizar dele como bem entender, sem compreender muito bem sua função “original”. O que quero dizer é que esse ato de escolher para o que serve uma coisa qualquer, ou o ato primeiro de utilizar uma pedra para quebrar um coco, por exemplo, atribuindo-lhe utilidade, já é o embrião do design, pois envolve o mínimo de desenvolvimento de projeto e solução de problemas. Nesse caso, os Ç poderiam descobrir sozinhos o que é design, uma vez que precisam entender os objetos e projetar para eles um uso (um dos usos possíveis). A verdade é que encontrar uma pedra e encontrar uma cadeira confortável não é muito diferente.

    Além disso, me pergunto se os Ç poderiam sentir “necessidade de sentar em algo mais confortável” sem antes conhecer a cadeira, por exemplo (supondo que eles conhecessem a pedra e a terra fofa, sentir “necessidade de sentar em algo mais confortável” seria sentar na terra fofa). Será que temos necessidade de coisas que nem mesmo existem? Realmente não tenho uma boa resposta para essa pergunta.

    • Excelentes questionamentos, Bea. Talvez seja oportuno que eu revele de onde eu tirei a ideia para esse texto.

      Basicamente, um cara chamado Robert Pirsig escreveu um livro chamado “Zen e a Arte da Manuntenção de Motocicletas”. Ao longo da história, ele narra sobre seus esforços como filósofo para tentar encontrar o real significado de “qualidade” – não a toa, até hoje existe uma escola filosófica criada por ele chamada de metafísica da qualidade. Em um determinado momento, ele tenta descobrir onde está a “qualidade” das coisas: no observador ou no objeto observado. A conclusão dele é que o que chamamos de qualidade é, na verdade, um terceiro elemento anterior à existência do observador e do objeto, e que por meio dela a vontade de ambos se manifesta.

      Comecei a me fazer a mesma pergunta em relação ao design. Talvez a raça dos Ç, em sua forma diferente de ter evoluído e percebido o mundo, dê outros nomes para o que chamamos de conforto ou necessidade. A tese é que a existência desses elementos na experiência de vida deles seja tanto dada quanto suprida por uma identidade independente – no caso, o planeta, e que portanto não necessariamente dependa de impulsos internos de seus habitantes, como teria sido o nosso caso aqui na Terra.

      Se há a possibilidade de criar coisas em torno dessa história dos Ç, eu iria que você está se fazendo as perguntas certas e que isso ainda pode dar muito pano pra manga. Quem sabe na volta para o planeta eles enfim tenham descoberto o que realmente é sentir a necessidade de algo: como explicar isso para seus conterrâneos? Seriam bem-vindos, tratados como os filósofos que saem da caverna de Platão, ignorados – seria Ç ainda o mesmo planeta de quando saíram?

      Boa diversão escrevendo :)

Deixe uma resposta


+ quatro = seis