Estética do desalento

Publicar-se — socialização de si próprio. Que ignóbil necessidade! Mas ainda assim que afastada de um ato — o editor ganha, o tipógrafo produz. O mérito da incoerência ao menos.

Uma das preocupações maiores do homem, atingida a idade lúcida, é talhar-se, agente e pensante, à imagem e semelhança do seu ideal. Posto que nenhum ideal encarna tanto como o da inércia toda a lógica da nossa aristocracia de alma ante as ruidosidades e exteriores modernas, o Inerte, o Inativo deve ser o nosso Ideal. Fútil? Talvez. Mas isso só preocupará como um mal aqueles para quem a futilidade é um atrativo.

– Bernardo Soares no Livro do Desassossego

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A partir da lógica da conveniência, qualquer permanente se torna volátil. Um sofista pós-moderno me diria que a volatilidade, então, é a permanência da contemporaneidade. Ao dizer isso, ele se declara preso à estrutura moderna: ele acha que destituir um rei de seu poder simbólico presume a passagem para o próximo, ou para a burguesia, ou para qualquer outra figura. O que está por trás dessa declaração é que, necessariamente, algo precisa ocupar o vácuo do poder que era da permanência – um tipo de visão vulgar do estruturalismo.

Mas ele é só um sofista. Caso ele levante a vista dos joguetes lógicos da linguagem,  vai se deparar com o real, brilhando em neon – quase como uma obra de arte conceitual. Lá no real, onde as crenças – em deuses, ciências, preconceitos, fatos e pessoas – se transmutam em comportamentos. Comportamentos que desencadeiam ações. Lá, afirmar que a volatilidade é permanência é pouco – ou nada – oportuno. Outros paradoxos como “não ter método é um método” ou “tudo não significa nada” também. Há de se observar a imanência do real.

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“Four colors four words”, Joseph Kosuth, 1945

 

Por exemplo, ele afirmaria que “tudo não significa nada” – já que é apenas a união arbitrária de quatro letras – e “nada não existe” – já que o mero pensar já constitui um algo que elimina o nada. Curioso de brincar. A incognoscibilidade do nada, no entanto, trata menos da ausência do existir e mais das nossas limitações. Em certa medida, tudo o que se afirma sobre o externo é um mero reflexo do que vemos em nós mesmos. É nesse ponto onde alteridade e identidade se misturam.

Essa natureza do paradoxo possível na linguagem só aparece enquanto paradoxo porque está na linguagem. Ou seja, não se sustentam no universo do real. O que não significa dizer que, uma vez lá, os nós se desatam e o ordenamento se estabelece. Ambos, ao que parece, comportam e dependem de paradoxos, mas de maneiras bastante distintas.

Quero retomar uma constatação de meu último texto: a suposta inutilidade de alguns campos revelam seu status de relevância de maneira ainda mais profunda. Se constitui, assim, uma inutilidade teleológica: a arte sustenta convenções graças a sua utilidade ser não ser usável na vida cotidiana. O mesmo acontece com a filosofia, que por não ser mais discutida nas urbes, não é uma componente cotidiana e, no entanto, fundamenta todos os comportamentos e convenções. É indispensável por não ser usável.

A inutilidade não basta. Assim como na arte e na filosofia, ela é fagocitada pela teleologia das atividades do real. Lógica semelhante se dá no ócio criativo, ou ainda – numa formulação mais pragmática – na máxima “faça o que você ama, e não vai precisar trabalhar um dia na sua vida”. 

Uma atitude resignada demanda desutilidade, a origem de uma estética do desalento. Assim, ela se constitui enquanto desexistência. Para que haja, não pode ser falada e, no entanto, para que exista, precisa ser falada. Se existe, deixa de ser ausência, mas se é ausência, também não se constitui. É plenamente realizável na linguagem, mas um paradoxo insolúvel no real.

Tal paradoxo pode também ser exemplificado com a máxima do Clube da Luta: você não fala sobre o Clube da Luta. Essa é a premissa de sua existência, aquilo que lhe é mais distintivo – a ponto de ser duplicado para que, ao falar sobre o Clube da Luta, até a inconsciência esteja ciente. No entanto, o Clube da Luta não existiria a não ser por indivíduos lutando contra si próprios – tal qual na cena em que Edward Norton se espanca no estacionamento. Ao assistir à cena, o absurdo se torna evidente.

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Me parece que o mesmo acontece com meras teorias, textos, ideias, conceitos. Desse modo, é isso que estou fazendo agora: segurando o natimorto da estética de Bernardo Soares. Publicar algo assim já é fazê-lo morrer; logo ao sair do íntimo e se concretizar. O belo, segundo essa estética, é aquilo que nasce para morrer desconhecido, sem jamais ver a luz do sol real ou achar ouvidos de gente.

Para uma estética do desalento, fazemo-nos existir ao retirar o que é próprio do íntimo. Retirarmo-nos do íntimo já é destituir de intimidade. Acredito que é isso que fazemos o tempo todo, tentando nos comunicar, nos expressar, conectarmo-nos um com o outro, meramente, talvez, em existir. A socialização de si próprio… hoje, não preciso falar sobre isso.

“Posto que nenhum ideal encarna tanto como o da inércia toda a lógica da nossa aristocracia de alma ante as ruidosidades e exteriores modernas, o Inerte, o Inativo deve ser o nosso Ideal”. Ao que parece, o Inerte é demais para o real. O que sobra? Comer chocolates.

“Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida”
Trecho de Tabacaria de Fernando Pessoa

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