Estética: “ilha reflexiva” ou viés filosófico? E o design com isso?

* Este texto é uma contribuição de Tiago de Lima Castro – músico e graduando em Filosofia. Professor de violão, viola caipiria, harmonia e análise musical no Conservatório de São Caetano do Sul. Pesquisa temas como música, estética, ética, cinema, técnica e tecnologia. É membro do podcast RandomCast e é colunista do mesmo site.

Introdução

Todos são expostos a objetos que não tem uma origem meramente útil. Um carro não é somente um objeto de locomoção e transporte, mas também um objeto que reflete desejos e anseios de quem o almeja, de modo que, parafraseando Slavoj Žižek, talvez até ensine quem o deseja a propriamente desejá-lo. Esta possibilidade do design como aparência do pensamento e do desejo, torna o design um alvo de reflexão interessante tanto a quem trabalha com design como a quem somente o consome.

Uma das chaves para se refletir o design é a estética. Porém, a reflexão estética pode realizar-se como uma “ilha reflexiva”, ou seja, uma reflexão centrada nos próprios domínios da estética; ou como um campo filosófico em debate com ética, política, ontologia, entre outros.

Estética enquanto “ilha reflexiva”

A reflexão filosófica sobre a arte e o belo é tão antiga quanto a filosofia, porém, no século XVIII, estética surge como disciplina filosófica com Baumgarten, que cunhou o termo para discutir “[...] a ciência do conhecimento sensitivo” (1995, p. 95) como forma de compreender o belo através da experiência sensitiva que se tem através da arte ou a natureza. O termo advém do grego aísthesis, que abrange os conceitos atuais de sensação e percepção (GOBRY, 2007).

A estética passará a lidar com a experiência estética enquanto uma chave para apreensão de conceitos como belo, sublime, agradável, entre outros. A experiência estética é vivenciada por um sujeito ao se deparar com um objeto, porém, não é uma relação que visa conhecimento, mas uma relação “intuitiva” e particular que, segundo Kant (1995), tem a peculiaridade de não depender de alguma utilidade advinda deste objeto. Por exemplo, quando uma pessoa vê uma obra de arte, pode vivenciar uma experiência estética ao perceber a beleza da obra, como pode vivenciá-la ao se deparar com a natureza, ou mesmo com algo projetado por um designer, sem haver alguma utilidade intrínseca a esse objeto.

Além disso, questões referentes aos artífices e artistas, apreciadores e do gosto emergem da reflexão estética sem, necessariamente, “sair da ilha”.

A estética após Kant continua a ser um desafio ao pensamento, mesmo com as diversas propostas filosóficas abalarem conceitos presentes no pensamento kantiano e no pensamento moderno em geral, ainda a experiência estética tem sido um eixo de reflexão da estética através de outras categorias posteriores ao kantismo. De maneira que se pode pensar a estética através de diversas correntes filosóficas sem sair do âmbito próprio à estética.

Porém, ao mergulhar na estética podem surgir questões como: Esse objeto existe? Existe um “eu” que se relaciona com o objeto? Qual a influência da memória nessa experiência? Existe alguma consequência da experiência estética? Essa experiência tem bases psicológicas, cognitivas ou sociais?

A estética enquanto viés filosófico

Pensar sobre a experiência estética leva a pensar sobre tudo aquilo que a envolve daí ela suscitar questões ontológicas, linguísticas, éticas, políticas, entre outros.

Na tradição filosófica, existem vários exemplos de como a reflexão estética é um viés para refletir outros campos filosóficos. Em Platão, na República, a reflexão estética está em pleno debate com a ética, política e educação; em Kant, a reflexão estética é uma consequência de seu projeto crítico; em Schopenhauer, há uma relação intrínseca entre o metafísico, o estético e o próprio viver; para Theodor Adorno, a estética não é mero campo de reflexão, mas parte intrínseca de um projeto de superação e ruptura da reificação; para Martin Heidegger, o próprio filosofar é em si mesmo um ato estético; e como em muitos outros exemplos que poderiam ser elencados. Ousaria dizer que é a experiência estética de Nietzsche, enquanto filólogo, com a tragédia grega, que deflagrou sua reflexão filosófica.

Mesmo em filósofos contemporâneos como Slavoj Žižek e Peter Sloterdijk, pode-se ver o potencial da estética enquanto fomentadora de múltiplos questionamentos filosóficos que extrapolam a estética.

E o design com isso?

A estética é uma chave para se refletir sobre o design. Como toda chave, abre portas, porém estas podem necessitar da ousadia de “sair da ilha” para realizar as inquietações que emergem ao se debruçar sobre o design através da estética.

Pode parecer um exagero, porém, há uma pergunta interessante: Quando não há design na experiência cotidiana com o mundo?

Antes de pensar no design em si, pensemos nos objetos que vemos cotidianamente, muitos projetados por designers. Pode ocorrer uma experiência estética nesse contato com os objetos o que permite o início de um processo de reflexão sobre esta experiência estética que vai levar a questões amplas, como questões ônticas, ontológicas, éticas, políticas, metafísicas, entra outras. O design, talvez, seja aquilo que está presente e não seja tão perceptível, podendo a experiência estética ser uma abertura de des-velamento, porém ao se estagnar nos domínios próprios da estética corre-se um risco de re-velamento daquilo se apresentava.

Referências

BAUMGARTEN, A. G. Estética. Tradução de Mirian Sutter Medeiros. Petrópolis: Vozes, 1993. 191 p.
GOBRY, I. Vocabulário grego da filosofia.  Tradução de Ivone C. Benedetti. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2007. 164 p.
KANT, I. Crítica da faculdade do juízo. Tradução de Valério Rohden e Antonio Marques. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitário, 1995. 384 p.

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