O rei não está nu: estilos políticos contemporâneos

* pinturas de Mark Horst ilustram o post.

O imperativo “saber é poder”, em torno do qual nasceu e se desenvolveu a modernidade, parece ter assumido uma acepção derrisória ao associar-se estreitamente à difusão do modelo corrupto-mafioso em todos os âmbitos da sociedade. Atrelado a isso, ganha força o inadequado pressuposto dualístico, maniqueísta e em última análise não filosófico, sobre a existência de dois “lados da força” que se enfrentam. O que vejo de insatisfatório e no fundo ingênuo em tais esquemas, e por extensão na própria noção de “corrupção”, consiste na pretensa revelação conspiratória de uma estrutura sistemática de dominação – Estado, cultura, instituições financeiras, sistema econômico – da qual já não se pode escapar.

Inicio contando dois casos que me parecem exemplares a esse respeito. O primeiro ocorreu em um congresso sobre cultura e sociedade. Após quatro horas de uma infindável discussão sobre políticas públicas, da qual participavam cerca de vinte professores e pesquisadores, alguém exclamou: “mas do que é mesmo que estamos falando? Aliás, quem se importa?”. Desconcertante, a pergunta gerou risos e funcionou como pretexto para encerrar o debate.

O segundo caso refere-se à declaração, por parte de um determinado deputado, que despertou escândalo e indignação entre muitas pessoas: “se eu cair, levo a turma que tem rabo preso junto”. Interessante foram suas tentativas de retratar-se parcialmente da declaração. Em um primeiro momento, defendeu-se dizendo que a frase foi proferida em tom jocoso, mas sem intenções ofensivas. Em outra ocasião, afirmou que havia na frase algum teor de verdade, mas que teria sido mal interpretado. Noutro contexto, acrescentou que estaria apenas atuando como porta-voz de uma opinião bastante difundida, mas que, apesar de tudo, não
compartilha dela. E assim ele se manteve no foco da mídia por alguns dias.

O aspecto mais inquietante e capcioso de tais situações consiste no fato de trazerem enunciados ao mesmo tempo desconcertantes e demasiado previsíveis. Tudo se dá como se estivessem explícitos os bastidores do poder, as intenções por trás dos discursos, os esquemas já revelados e desgastados. O importante não é mais o que seria melhor ou pior: noções como progresso e retrocesso, melhora e piora são relativas e suscetíveis de se subverter rapidamente uma na outra. O importante é a presunçosa sensação de saber, num misto de lamentação e esclarecimento, que “o rei está nu” – a condição vazia e arbitrária do poder.

Introdução: do poder ao político

Foucault insistia que o conceito de poder não é redutível à noção de dominação: ele deriva, antes de tudo, de uma vontade de saber que ao mesmo tempo nos sujeita e nos constitui. Essa vontade de saber está presente nos discursos que organizam a ideia de “normalidade”, de regra e de desvio – incluindo aí categorias médicas, científicas, naturais etc. A premissa é a de que convenções e discursos não derivam de nenhuma necessidade; o que veio a ser poderia ter sido de outro modo. Com efeito, a questão que percorre toda a filosofia foucaultiana é: como foi possível algum tipo de pensamento tornar-se aquilo que se tornou?

Por exemplo, em sua História da Loucura: teria sido na segunda metade do século XVIII que, frente à falta de mão de obra (e com alta oferta de emprego), não apenas a loucura se converteu em “doença mental”, mas principalmente a dimensão da exclusão social passou a ser institucionalmente vinculada à dimensão interior da culpabilidade. Do mesmo modo, vemos em Vigiar e punir como a punição institucional deixa de significar sofrimento visível para se tornar uma “certeza de ser castigado”.

Importa reter que Foucault não se vale de noções historicistas ou dualísticas para identificar as diferentes formas de pensamento que organizam nossos discursos e nossas relações com o mundo. Alinhado à genealogia nietzschiana, Foucault pensa em termos de relações de governabilidade prefiguradas umas nas outras, por meio de instâncias dispersas que determinam quem pode falar, em que circunstâncias e em quais âmbitos sociais.

Bem diferente é a noção dualística de “política” (de dois lados que se enfrentam), que é herdeira de uma tradição de pensamento, da qual fazem parte Hegel, Kierkegaard e Marx, que atribuiu ao problema do conflito um papel essencial. Ao se deparar com a arbitrariedade das oposições num contexto onde o inimigo não é identificável com precisão, essa tradição não consegue pensar noutro rótulo além do “pós-político”, que então passa a lhe servir de inimigo absoluto. A relação de oposição permanece, civilização x barbárie, ainda que cada vez mais arbitrária: civilizado é quem detém o poder-do-saber e protesta contra a injustiça social; o bárbaro idem, defendendo igualmente seu saber a todo custo.

Este tipo de catalogação binária é necessariamente filiado a um ponto de vista utópico, portanto sem mirar o real, e sim o poder (para tornar-se real). A tal acepção utópica considero pertinente contrapor uma indagação foucaultiana não sobre as estruturas de poder, mas sobre o “como” lidamos com o cenário político contemporâneo, especialmente com relação ao modelo corrupto-mafioso que aparece em voga como saber-poder.

Para tanto, apresento resumidamente a seguir três “estilos” políticos – o contestador, o protetivo e o performativo – identificados pelo filósofo nietzschiano Mário Perniola em seu Ligação direta: estética e política (SC: Editora UFSC, 2011). Cumpre esclarecer, para todos os efeitos, que tais “estilos” são figuras representativas que, assim como as do santo e do sacerdote na Genealogia de Nietzsche, não se referem diretamente a tipos de pessoas, e sim a relações ou inclinações morais a partir das quais se legitimam condutas e discursos para “regularizar” o mundo.

I. O estilo contestador

Contestar significa abrir um debate público no intuito de refutar ou impugnar o reconhecimento de um direito. Mas o estilo contestador, para além de uma instância jurídica, consiste em induzir os outros a reconhecerem sua própria culpa e arrependerem-se dos seus erros. Logo, contrariamente ao princípio jurídico segundo o qual todos são inocentes até que se prove o contrário, para o contestador todos são culpados por definição, de modo que toda tentativa de autodefesa apenas agrava a posição do réu.

Ocorre que o contestador não visa necessariamente condenação, mas antes um processo de desalienação que deveria envolver toda a humanidade. Desse modo, o estilo contestador não é violento, e sim pedagógico: o acusado não é essencialmente mal, mas alguém que errou e pode ser reeducado, sendo a acusação indispensável para que se tome consciência e se liberte. Só que diferentemente da doutrinação tradicional (religiosa ou partidária), os grupos da contestação não se formam somente na base de fiéis convertidos, mas
antes pela concordância inclusiva das críticas em torno dos culpados.

Donde decorre que também é preciso haver autocrítica, claro, uma vez que ninguém está fora de suspeita. Se a qualquer momento o próprio contestador pode tornar-se alvo de julgamento, sua melhor estratégia é a de colocar-se desde o início como vítima em potencial, a ser protegida de quaisquer acusações injustas e mal-intencionadas das quais obviamente já foi alvo. Sendo assim, o estilo contestador é marcado, em última instância, pela prontidão de acusar o companheiro mais próximo para evitar o risco de ser antes contestado por ele. É desse tipo de receio, por sua vez, que procede outro estilo político, o protetivo.

II. O estilo protetivo

A partir do momento em que não mais restam alvos em comum, alianças e discórdias tornam-se explicitamente (o que nunca deixaram de ser) arbitrárias: se você me proteger eu te protejo. O grupo tende a assumir, assim, os contornos de uma agência de proteção, uma máfia, uma associação cujo fim não é outro senão o de ajudar os seus membros. Por conseguinte, ao invés de induzir a conscientização do outro, busca-se maior adesão de “sócios”, que então se sentem livres da má consciência que os acompanhava.

O desaparecimento da relação inimigo-amigo e a sua substituição pela relação criminoso-sócio representam o máximo afastamento da relação entre saber e poder, da qual nasceu e se desenvolveu a civilização ocidental. A partir do momento em que do antagonista se tira tanto a qualificação de inimigo, de alter ego, quanto a possibilidade de ser o companheiro de amanhã (como na contestação), apenas lhe é dada uma única possibilidade: aquela de arrependimento e de dissociado. Mas arrependidos e dissociados não são inimigos, nem amigos: são, segundo os pontos de vista, somente ex-criminosos que se tornam sócios, ou ex-sócios que se tornam criminosos.

Já no ser sócio está implícito um recíproco desprezo que é também um autodesprezo: uma aliança que se mantém apenas e exclusivamente na proteção, numa balança de trocas recíprocas, e, às vezes, realmente na cumplicidade em ações ilegais ou delituosas, nada tendo mais a ver com a amizade política. Os sócios, como os últimos homens dos quais fala Nietzsche, não estabelecem entre eles uma relação de comunicação, mas piscam o olho. – Mario Perniola, Ligação direta: estética e política (SC: Editora UFSC, 2011, p. 110).

De fato, não é recente a difusão do estilo protetivo no comportamento de diversos círculos pertencentes a todas as classes sociais, a todos os ofícios e profissões. Afinal, o entendimento “secreto” de que não há nada além de interesses em jogo, e de que todo o resto é historinha para os tolos, sempre foi atrativo o suficiente para transformar inimigos em sócios. No entanto, resulta evidente a neurose correlata a toda ostentação protetiva: “A pressa em devolver o favor, o apoio, a ajuda, o medo de ser o perdedor na partida do dar e do ter, a suspeita nas relações com todas as pessoas ofuscam a correta avaliação dos tempos e dos processos, provoca erros, gera a não efetividade num jogo em que tudo depende do resultado prático” (ibidem, p. 111-112).

III. O estilo performativo

Do ponto de vista contestador, o estilo performativo coincide com o protetivo. Pois o olhar contestador não consegue diferenciar um sócio de um colega, este ligado a uma network (e não a uma agência de proteção). Mas ao passo que a efetividade do estilo protetivo se firma pelo mero piscar de olhos, e a aliança contestadora se pauta no consentimento crítico, o estilo performativo encontra efetividade nos comportamentos considerados tradicionalmente não efetivos, como as fórmulas de cortesia, os rituais, as cerimônias.

A dimensão estético-operativa do simulacro prevalece no estilo performativo: não interessa tanto como as coisas deveriam ser, nem como já foram um dia ou como devem ser julgadas, mas como podem funcionar em determinada ocasião. Em várias de suas obras, Perniola salienta que a noção de simulacro não deve ser entendida como mentira ou engano – como afirma o ponto de vista metafísico que opõe o verdadeiro ao falso –, mas, ao contrário, como aquilo que aparece, aquilo que se dá a ver. Nesse aspecto, o estilo performativo implica uma extrema atenção à singularidade e à sua relação com a multiplicidade.

Esse tipo de valorização se dá pela ligação entre colegas, em especial na semântica do verbo latino lego: reunir o que está disperso, não no sentido de reduzir o múltiplo a uma unidade única, mas, pelo contrário, de ver multiplicar o que se mantém singular. Lego também significa ler: ao invés de ostentação, lamento ou protesto moral, colocam-se perguntas, analogias e contradições que não desembocam em nenhuma perspectiva, porque não há nada que se queira atacar ou proteger. Nenhuma tensão utopista anima o estilo performativo, porque ele torna transitáveis os sentidos de que se ocupa. Daí decorre sua potência de produzir a experiência, isto é, possibilidades de sentido num mundo que é refratário a qualquer sentido.

IV. O ator que gagueja em sua única fala

O estilo performativo expressa justamente o descompasso que sempre houve entre o pensamento sobre o mundo e o mundo mesmo, que não se deixa legitimar nem regular por aquele. Tal impossibilidade de conciliação pode ser tanto fruto de desespero quanto de alegria; depende de como se lida com o aspecto vazio e arbitrário das relações de poder.

Claro que a difusão de um modelo corrupto-mafioso (estilo protetivo) que é flagrado diariamente em todos os setores da sociedade não permite relativizar o que é grave. Trata-se de observar, porém, que toda estrutura de poder se constitui como convenção (conjunto arbitrário de disposições e estilos), e não como uma realidade incontornável e fatal.

Penso que um conjunto de disposições, conformações e protocolos não é capaz, por si mesmo, de dividir as pessoas em “corrompidas” e “sem sorte”. São nossas interdições valorativas que, por meio de conivências, críticas, alianças, alardes etc., transformam o poder de algo banal, o que ele de fato é, em algo tão desconcertante, grandiloquente e ao mesmo tempo previsível como ocorre no paradigma político brasileiro.

Em contrapartida, é verdade que resta algo de concreto, uma força desestabilizadora que emana do próprio poder dominante e que o descredencia como tal, tornando-o cada vez menos convincente quanto à sua legitimidade. Só que o problema nunca foi este ou aquele poder instituído, e sim a regulação protetiva ou contestadora de seus valores.

Uma resposta

  1. Will disse:

    Não entendi a maior parte do texto porque sou burro, então vou deixar uma curiosidade sobre o título que foi a única coisa que consegui entender.

    Você sabia que o psicanalista contardo calligaris tem um livro chamado “Todos os Reis estão Nus”?

    Abraços!

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