O estranhamento nos livros ilustrados de Shaun Tan

Este texto está entre um resumo expandido e um convite para a defesa da dissertação, que vai ocorrer na quinta-feira, 4 de agosto de 2016, às 10h, no Centro de Artes e Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco.

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Há algo fundamental no campo do Design que ainda me atrai pesquisar sob sua perspectiva: seja a pluralidade teórica, a profusão de perspectivas ou ainda na atenção à sensibilidade e aos detalhes. Penso, talvez, que o design possibilita estruturar visões de mundo a partir das sutilezas que se desenham na forma sensível, fornecendo coordenadas não-linguísticas que permitem estruturar pensamentos, atitudes, conceitos; enfim, ficções. Em sua acepção teórica, design é uma palavra potente que se desdobra e não se deixa limitar.

Durante o mestrado, foi mais ou menos isso que tentei articular. A baixíssima quantidade de textos, inclusive, que tenho postado nos últimos dois anos parecem ser reflexo da frouxidão com que consegui fazê-lo. Não sabia muito bem por onde começar a falar de Formalismo russo para alguém que se interessasse por Design, nem acredito que teria sido interessante discutir a bibliografia entre comics e livros (infantis) ilustrados para quem buscasse Filosofia. Tateei alguns pontos em comum ao longo do processo: entre literatura e design, entre ilustração e pintura, entre comics e livros ilustrados, entre palavras e imagens, entre estranhamentos, entre arte e vida.

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O processo de pesquisa levou a adotar o Formalismo russo como sua fundamentação espiritual e suas bases teóricas. A dissertação, então, busca responder quais são e como se relacionam os procedimentos artísticos, com objetivo de causar estranhamento, nos livros ilustrados de Shaun Tan. A noção de procedimento ou dispositivo é a apropriação mais fundamental para a pesquisa, pois é a partir delas que o artista opera, e é também a partir dela que compreende-se a existência da obra. Por razões óbvias, entretanto, não segui a leitura predominante do século XX de enfatizar a comparação entre o funcionamento do automóvel e de Dom Quixote.

O texto de Shklovsky é ambíguo, torto: ele identifica sua vida e seus escritos com os movimentos do cavalo em uma coletânea de textos posterior à Revolução Russa. Procurei demonstrar a indeterminação, as ambiguidades e as contradições das suas frases, mas não para indicar fragilidade de argumentação, mas antes para tirar disso possibilidades de análise, de apropriação. Eu diria que, para definir um princípio geral da arte, essas características não poderiam ser mais adequadas.

Todavia, nada disso está escrito na dissertação – ou pelo menos, não está articulado desse modo. Para responder ao problema, no primeiro capítulo, buscamos particularizar o sentido de estranhamento, apresentando uma genealogia de conceitos e autores associados ao fenômeno cognitivo de estranhar. O próprio Shklovsky aponta para a Poética de Aristóteles ao falar sobre a força das palavras estranhas (xenikos) no discurso literário – a palavra certa no lugar certo. Daí para essa estranheza tornar-se um modelo estético foram necessários o século XX e a Primeira Guerra. Separamos, então, essas referências ao estranhamento dos estranhamentos modernos, que se constituem conceitos estéticos.

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As principais correntes estéticas modernas e seus conceitos de estranhamento identificados foram a alienação proposta por Marx, o inquietante definido por Freud e o ostranenie, por Shklovsky. Delineamos as primeiras abordagens estéticas dos dois primeiros, sobretudo até a década de 30, para compará-los ao terceiro, que teve vida curta. Shklovsky fez parte de um grupo contrarrevolucionário, porque passou a desconfiar do totalitarismo que o regime soviético assumiria e foi perseguido e preso depois do sucesso da Revolução. Depois de ser julgado e perdoado, trabalhou como roteirista e teve trabalhos biográficos tímidos.

Em específico, expomos releituras mais recentes do ostranenie que enfatizam suas implicações éticas e políticas em oposição às leituras estruturalistas vigentes até fins do século XX. Até então, a chamada autonomia da forma, hiperbolizada pelo acirramento dos debates com os marxistas na Rússia pré-revolução era louvada pelos estruturalistas e criticada pelos marxistas – como a discussão de Frederic Jameson atesta. Desde então – e principalmente na última década – o ostranenie tem entrado no debate a partir de uma visão com mais nuances.

No segundo capítulo, iniciamos pela discussão do conceito de medium e adotamos a acepção teórica do Formalismo Russo, a fim de defender que os livros ilustrados e os comics são categorias que operam segundo parâmetros das narrativas gráficas. Dedico uma seção a definir o medium em oposição a noções mais recentes como as de Greenberg, que critiquei também em outros momentos. O medium aqui é a própria obra, a própria forma enquanto realização de um “conteúdo” metafísico. Quando falamos em obras de arte, é sobre o medium que falamos – uma acepção Formalista com F, não formalista com f. Assim, estabelecemos as propriedades do medium das narrativas gráficas com o objetivo de explicitar seus dispositivos na análise das obras, entendendo-os como um campo indeterminado de possibilidades com que o artista pode jogar com o leitor.

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No terceiro capítulo, apresentamos Shaun Tan a fim de investigar os modos como sua produção articula significados entre o mundo e a arte. Através de sua trajetória artística, compreendemos as contingências e motivações pessoais, e ao explorar seus estilos pictóricos e seu imaginário, visualizamos suas motivações estéticas que resultam em imagens que compreendem visões de mundo. Buscamos aqui contextualizar a sua produção enquanto fine art, demonstrando que Tan está discutindo pictoricamente as mesmas questões, por exemplo, de Cézanne e Francis Bacon – embora, se comparado ao último, de forma muito mais positiva com a sua existência. Evidenciamos suas outras produções para apontar como elas, nas palavras de Tan, energizam seu trabalho nos livros ilustrados.

Por fim, analisamos três obras a partir de diferentes relações entre texto e imagem: A Árvore Vermelha (2001), A Chegada (2006) e Contos de Lugares Distantes (2008). Dada as diferenças entre as obras e os princípios quase-empiristas dos Formalistas, escolhemos não usar modelos de análise, dando preferência à discussão das propriedades do medium para apontar os principais procedimentos e dispositivos. Em cada uma das obras, também, encontramos relações permeáveis com outras produções.

Em A Árvore Vermelha (2001), encontramos fortes traços do sensacionismo de Fernando Pessoa. Argumentamos que, de maneira muito semelhante à poesia de Álvaro de Campos, Tan busca, nesse livro ilustrado, organizar o mundo através das sensações, ignorando parâmetros mais ou menos estáveis como o tempo. A disparidade e incoerência cronológica colabora com imagens enormes de contemplação.

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Já em A Chegada (2006), acompanhamos a narrativa do outsider que é capaz de se adaptar ao novo mundo em que é colocado. Somos feitos voyeurs-participantes da experiência de desconhecer a linguagem, os costumes e as pessoas, mas também passamos pelo processo de conhece-las e às suas histórias. Por outro lado, o fato de a narrativa apresentar fortes características metatextuais indica uma ampliação da noção de imigrante para a própria vivência. Poderíamos, portanto, interpretar a narrativa em sentido mítico por se tratar de uma jornada de tornar-se si em si próprio.

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Por fim, em Contos de Lugares Distantes (2008), uma coletânea de contos ilustrados e/ou ilustrações contadas, levamos adiante a suspeita de Neil Gaiman na quarta capa da edição brasileira de que as histórias de Tan são histórias que Kafka poderia ter escrito, se gostasse mais da vida. De fato, demonstramos que o procedimento pictórico da paisagem suburbana em Tan é análogo à metáfora morta-viva na literatura kafkiana. Apresentamos, assim, o conceito de paisagem morta para explicar o olhar que Tan lança sobre a banalidade do cotidiano para hiperssensibilizá-la e causar estranhamento. Analisamos, de maneira específica, quatro contos definidos pelo mesmo critério que definimos os livros ilustrados: a partir das relações entre texto e imagem.

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Subjacente às suas especificidades narrativas, pictóricas e literárias, os livros ilustrados de Shaun Tan apresentam procedimentos de estranhamento, porque têm como objetivo possibilitar que o leitor “trans-viva” a experiência através da percepção poética desencadeada pela obra – que é a leitura que apresentamos do estranhamento. Suas narrativas são capazes de realizar o fantástico e estranhar o banal, alterando o olhar do leitor para o mundo – mas isso só pode ser sentido em contato com a obra.

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Projeto gráfico: Eduardo Souza e Gabriela Araujo
Revisão: José Maurício Yoshitake
Encadernação: Madá – Ateliê Criativo

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